A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – VIII

Quando escrevi A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – II (leiam aqui), fiz o convite público e convoquei, uma vez mais (já o havia feito antes), minha queridíssima cunhada, a Lina, para conhecer o FIORINO, restaurante italiano na Heitor Beltrão, na Tijuca – meu preferido dentre todos os restaurantes italianos. Como eu costumo dizer, não me venham com GERO, com CIPRIANI, com LOCANDA DELLA MIMOSA, com QUADRIFOGLIO, não dá nem pra saída. Como a Lina nunca conseguiu conter as gargalhadas de hiena ao me ouvir exaltar as qualidades do humílimo tijucano às margens do rio Trapicheiros, decidi convidá-la a fim de que ela mesmo pudesse tirar suas conclusões. Depois de muitas tentativas frustradas, fomos ontem, quinta-feira, eu e Fefê, acompanhados de nossas mais-amadas, jantar no magnífico FIORINO. E o relato do jantar entra para a série TIJUCA EM ESTADO BRUTO por razões óbvias que ficarão claras ao longo do texto. Vamos ao início.

Marcamos o encontro para às nove da noite. Oito e meia eu convoquei minha menina:

– Vamos indo?! Não é de bom tom chegarmos depois deles, né? Afinal, convidamos e vamos pagar tudo!

– Vamos… Mas você vai assim, de terno? Não vai trocar de roupa?

– Não! Não! Vou de terno! A noite é de gala e a Lina, você sabe, né?, elegante, formalíssima, melhor assim!

– É mesmo, é mesmo! Melhor assim!

Partimos. Nosso automóvel, garboso, deslizou pela Haddock Lobo, dobrou à esquerda na São Vicente, novamente à esquerda na Doutor Satamini, à direita na Campos Sales, à esquerda na Mariz e Barros, à esquerda na São Francisco Xavier e quando estávamos quase chegando, faltando dez pras nove, estrilou o telefone. O nome de meu irmão e sua fotografia piscavam na telinha do celular. Dani atendeu no viva-voz:

– Oi, quelido!

– Oi, quelida!

(pequena pausa: eles falam entre si, sabe-se lá por qual razão, como o Cebolinha, do Maurício de Souza, trocando os “érres” pelos “éles”)

Continuou, o Fefê – tinha voz de enfado, meu irmão:

– A Lina quer saber se está de pé o jantar.

Minha menina me olhou, estranhando:

– Está, Fefê! Por quê? Vocês não vão?

– Já chegamos. Ela só queria confirmar se vai ser aqui mesmo.

Ouvíamos a Lina falando algo, ao fundo, que nos escapava.

– Estamos chegando! – e desligou.

Eu, fino, disse:

– Já era. A Lina detestou.

Minha menina, categórica e implacável:

– Não disse?

Paramos diante do FIORINO. Entreguei as chaves a um dos guardadores – o FIORINO tem vários guardadores que não cobram rigorosamente nada, ao contrário de todos os restaurantes da zona sul da cidade que obrigam o cidadão a pagar uma fortuna pelos insuportáveis serviços de valet park! -, ajeitei o paletó – “Tá direito, Dani?” -, dei o braço para minha garota e entrei triunfante.

Não encontrei Fefê e Lina, numa primeira passada de olhos. O maître:

– O senhor procura pelo Sr. e Sra. Goldenberg?

– Arrã.

– Estão ali! – apontou – Naquela mesa, senhor, atrás daquela planta!

Fomos à mesa. Cumprimentamo-nos, houve uma festa de “obas”, “olás” e tapinhas nas costas, e eu disse:

– Por que essa mesa, Fê?

Ele, de soslaio para a Lina:

– Ela prefere não ser vista.

Dani, ao meu ouvido:

– Relaxa, amor. Ela já detestou, vamos aproveitar a noite.

Vamos à brevíssima descrição.

Fefê e Lina, no que diz respeito à roupa, nos humilhavam de maneira acintosa. Meu terno – e eu crente que estava abafando – era ofuscado pela elegância opulenta de meu irmão (um ex-adepto do jeans e da camiseta de malha) e minha menina parecia uma bonequinha de trapo perto da sobriedade do vestido preto da Lina, que causou “ohs” e “ahs” ditos à larga pela Dani, quando a viu:

– Lindo, o vestido! É da Renner? C&A? Cantão?

Lina tossiu e disse:

– Dior.

Vem o garçom à mesa:

– Vão aceitar o serviço?

– Claro! – eu disse, sóbrio.

– Alguma bebida, um drink?

Meus olhos brilharam e eu disse:

– Vamos abrir com um Red Label, Fê?

Ele, já contaminado:

– Red? Não tem um 18 anos?

Lina o cutucou, e ele:

– Vai o Red mesmo, então. – e não disfarçou quando muxoxou.

– E duas águas com gás, por favor! – disse a Dani.

– Perrier? – perguntou a Lina.

Agora foi o Fefê quem a cutucou.

– São Lourenço, senhora.

– Vai, vai… – e sorriu, a Lina.

Quando chegaram à mesa as cestas de pães, a manteiga, os patês, a coisa começou a mudar de figura. Como uma víbora ensandecida, a Tijuca começou a percorrer as entranhas de meu irmão e comecei a reconhecê-lo. Propondo um brinde com o copo de uísque numa das mãos, Fefê disse, de boca cheia:

– Adoro esse pão-palito! Adoro esse pão-palito!

Foi quando a Lina, que até então não havia tocado em nada, disse:

– Deixe-me provar…

Ah, meus poucos mas fiéis leitores, a Lina, depois da primeira mordida, transfigurou-se. Provou de todos os pães, lambeu sem cerimônia os beiços, seus olhos brilhavam, ora os fechava e suspirava fundo, e eu tomei coragem:

– Gostou?

– Claro! Lógico!

Fui arrojado:

– Comparável ao couvert do Cipriani?

– Pobre Francesco Carli! – disse a internacional Lina.

Como se demorasse, o garçom, perguntou-me o Fefê, à moda de papai:

– Cadê o garçom? Chama o gerente! Chama o gerente!

Veio à mesa, o garçom. Ofereceu-nos a carta de vinhos e a Dani, que nunca erra, gentilíssima com nossa convidada, escolheu um portentoso vinho argentino. Veio à mesa o vinho e o garçom serviu-nos mais cestinhas de pães com manteiga e patês:

– Trata-se de um complemento, senhores…

Eu, espetado na cadeira:

– Complemento?

Fefê, isaquiano até a medula:

– Chama o gerente, chefe! O que significa complemento?

– Uma cortesia, senhores…

– Ahhhhhhhhhh, bom! – foi o que dissemos eu e o Fefê, em uníssono.

Estávamos na varanda do FIORINO. Chamei a atenção dos três para o que acontecia do lado de dentro, no salão principal, que estava lotadíssimo. Disse, ainda:

– Se eu escrevo isso, dizem que é mentira.

Mal conseguíamos ver o que se passava lá dentro, tal era a quantidade de flashes sendo espocados por casais, famílias, garçons fotografando as pessoas, pessoas fotografando os pratos, um troço. A Tijuca estava ali, baixada, cravada, fincada naqueles tacos daquele salão suntuoso.

Escolhemos os pratos, derrubamos a primeira garrafa de vinho. A Dani, que havia cheirado a rolha da primeira e aprovado diante de um atônito Fefê (“Deixa eu cheirar também, deixa!”), pediu a segunda garrafa (caríssima!). E quando os pratos chegaram, meus poucos mas fiéis leitores, o que foi a reação da Lina????? Êxtase. Encantamento. E incredulidade.

Cada um de nós pediu um prato diferente. O meu, uma massa recheada com coração de alcachofra e presunto di Parma. Minha menina foi também de massa, também recheada, mas com figos e queijo. Fefê pediu massa também, e ela vinha aberta, recheadíssima, parecia um roseiral, na insuspeitada opinião do Romário, o garçom que nos atendia. A Lina, mais elegante que todos nós, pediu um paglia e feno com abobrinha. Comeu de olhos fechados, notei uma lágrima escorrendo à certa altura, perguntei:

– Tudo bem, Lina?

– Tudo… Fui remetida à Emilia-Romagna, na Itália, onde comi um prato como esse, não tão bom, é verdade, mas bem parecido…

Fechamos a noite com a melhor sobremesa do planeta Terra – vá lá e peça! -, café, e uma certeza que jamais me abandonou… Pois se até a Lina, elegante, requintada, viajada, sabida, concordou que o FIORINO é o melhor restaurante italiano que existe, não resta espectro de dúvida.

É, mesmo.

Fazia um frio polar na Tijuca. Partimos não sem antes nos despedirmos na calçada da Heitor Beltrão, o Fefê elogiando as centenárias casuarinas que margeiam o rio Trapicheiros, de cristalinas águas que dão um som mágico à rua àquela altura da noite, e a própria Lina me disse, quando abraçada a mim, antes de partir:

– Obrigada, Edu. Eu amo a Tijuca.

Até.

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23 Comentários

Arquivado em gente, Tijuca

23 Respostas para “A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – VIII

  1. >Linda noite, lindo texto, linda família !!!!

  2. >Edu, você não mencionou a sobremesa. Seria a torta de mascarpone com calda de amora, framboesa e morango?

  3. >Obrigado, Monica: mas você fala “linda família” porque não me conhece. Meu irmão é lindo, minha cunhada é linda, minha menina não existe. Eu destôo. Aquele abraço!Anônimo: NUNCA!!!!! Eu jamais, nem a fórceps, comeria um troço desses. Bola fora! Um abraço.

  4. >”notei uma lágrima escorrendo à certa altura” Não fosse esta frase, e eu acharia que você estava exagerando. (rs)E a sobremesa seria a torta de chocolate com licor de laranja? Ai, Jesus, bola fora ou bola dentro.

  5. >Olga: pena que minha cunhada – que me lê diariamente – não comente no BUTECO. Ela seria a pessoa certa para lhe convencer de que, mais uma vez, fui preciso do começo ao fim. Quando vi a lágrima correndo em direção à sua boca, rosto abaixo, pensei:- É um cisco, só pode.Mas, não. Era choro, mesmo, de emoção.E foi bola fora, Olga.Meu Deus… será que ninguém descobre o óbvio?!Um beijo.

  6. >Água, Luiz Antonio, água.

  7. >Edu, o óbvio seria a torta de nozes com sorvete de baunilha? Facilita, Edu, porque dessa vez não dá pra ligar, não tenho intimidade com os donos.

  8. >Não gosto de torta de nozes.E, facilitar? Eu?Ora, Olga: quem facilita é o seu Amim, dono da Casa Elizabeth, quase em frente ao seu prédio, pô!Mas é tão fácil…Meu Deus.Chega a ser assombroso.Um beijo.

  9. >porra, é goiabada com queijo minas tá na cara

  10. >Edu, poxa, quer dizer que acabou o mistério? (rsrs)

  11. >Não, Zé Sergio, não é goiabada com queijo, animal. Bola fora.Olga: na Tijuca tudo se sabe. Em todos os níveis, do térreo ao nono andar, digamos assim – para ser mais claro. Um beijo.

  12. >Ai, Jesus, deram as coordenadas todas. Que medo!E a sobremesa, nada, né?PS: Tinha mandado o mesmo comentário, mas deu um troço aqui, na dúvida, tô reenviando.

  13. >Olga: ninguém acertou, até agora, a sobremesa…Nem você, Betinha… nada de profiteroles. Profiteroles… essa sobremesa não chega aos pés da sobremesa a que me refiro. Aliás… só no FIORINO!Beijo.

  14. >Du , certamente foi pão com banana !!

  15. >Finalmente!É evidente que a melhor sobremesa do mundo – até os críticos especializados de gastronomia de NY, Paris, Londres, Roma, reconhecem isso! – é a GELATO FIORINO ou GELATTO FIORINO (não sei se com um ou dois “T”): biscoito champagne, rum, chocolate, doce de leite, castanhas, nozes, amêndoas… era barbada!

  16. >Minha assessora da Afonso Pena para assuntos Tijucanos atuais, é danada !!!!Confesso que os meus estão uns vinte anos desatualizados.

  17. >Pô, Edu: dá uma chance pra torta de mascarpone. Sei que a descrição dela pode parecer uma coisa meiga(y), mas é de comer de joelhos, bicho! A primeira vez que comi fiquei com as pernas bambas.

  18. >Chicabon só se for na sua testa, né, Zé Sergio, querido?Alexandre: ficou com “as pernas bambas”?Sei.Eu como SEMPRE a mesma sobremesa no FIORINO.Sentado e com as pernas no lugar.Aquele abraço!

  19. >As pernas já estavam bambas desde as duas garrafas de merlot. Rs..

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