A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – VII

Como já lhes disse dia desses, a série A TIJUCA EM ESTADO BRUTO nasceu e ganhou corpo por absoluto acaso, sem que nada tenha sido planejado. Leiam aqui o primeiro da série, texto no qual conto o que vi e vivi numa pizzaria tijucana numa noite de domingo (domingo é o dia mais tijucano da semana!), aqui o segundo, que traz o relato de um jantar no melhor restaurante de comida italiana do país, tijucano, é claro, aqui o terceiro, pequena descrição do encontro de minha mãe com uma amiga de há séculos de vovó, aqui o quarto, narrativa saudosa fruto de um encontro meu com meu concunhado, aqui o quinto, no qual faço uma comparação entre a mãe judia e a mãe tijucana e aqui o sexto, sobre o simpaticíssimo assalto que sofreu vovó, há umas semanas.

Pausa brevíssima: este texto, que pode ser lido aqui, gerou um comentário que, em CNTP, eu não publicaria nem a fórceps. Feito por um homem que assinou PAULO (comentários têm disso, cada um põe o nome que quer…), o comentário me agride de maneira gratuita e agride – o que é pior, é pior! – ao Brasil e à Tijuca, de forma repulsiva. Já disse o que eu tinha a dizer ao sujeito. Se vocês quiserem fazê-lo também, fiquem à vontade. Pigarreio e sigo em frente.

Quero lhes contar, hoje, mais sobre vovó. Dona Mathilde, 84 anos, programadíssima (não pára quieta em casa, e isso de segunda à segunda!), ativíssima, formosa, cheirosa e vaidosa como canta o samba, espírita praticante, tem um único vício. Vou ser mais preciso: vovó mantém vivo um único vício. O vício do jogo. Vou lhes explicar.

Quando eu nasci, vovó morava – quem me lê, sabe – numa vila na rua Professor Gabizo, da qual tenho pouquíssima memória. Lembro-me mesmo, e bem, da vila para a qual ela se mudou (com vovô Milton, minha bisavó, Mathilde, e minha tia Idinha), pouco depois, e que fica (ainda fica) na rua São Francisco Xavier 84.

Nesta casa, cujo acesso se dava por uma escada de mármore branco, em “L”, vovô e vovó usufruíam, e bem, de seus vícios pagãos. Lembro-me com nitidez agudíssima do bar que havia na casa, na sala. Garrafas de cristal guardavam licores de menta, havia diversas garrafas de Teacher´s, o uísque de todos os dias de meu avô, Campari, Martini. Havia sempre maços e maços de cigarro pela casa, vovô fumava Continental e vovó mandava brasa no Hollywood. E isso – a bebida e o cigarro – fazia parte do cenário que vi, incontáveis vezes, armado na casa de meus avós: a mesa de jogo.

Havia sempre jogatina na casa de meus avós. A parentalha, ou os amigos, ou os vizinhos, o que não faltava era parceria. E aquela sala era um tilintar de pedras de gelo, uma cortina de espessa fumaça e um farfalhar das cartas dos baralhos. Eu, criança, admirava aquele mundo de adultos pelo corredor ou através da porta da cozinha, e ficava admirado de ver minha avó, louríssima, fumando desbragadamente, bebendo cerveja, fazendo bigode de espuma e estalando a língua, mandando servir amendoim, azeitona, tilintando o sino de prata que mantinha sobre a mesa pra chamar a Penha (que levava, coitada, os maiores sabões de minha avó!). Uma avó moderníssima – eis a fantasia que eu mantinha em mim.

Passou o tempo.

Vovó, espírita praticante – como já lhes disse – , foi deixando, ao longo da vida, os vícios de lado. Também foram deixando minha avó, a sua mãe, minha bisavó Mathilde, a sua tia, minha tia-avó Idinha, e seu marido, o meu avô Milton. Vovó deixou de fumar – hoje tem ojeriza a cigarro. Nunca mais a vi fazendo bigode de espuma de cerveja, embora – verdade seja dita! – vovó peça, de vez em quando, principalmente em dia de festa, uma dose de uísque, uma taça de vinho, um licor, essas bossas alcoólicas.

Um vício, um único vício – voltando, então -, ela não largou: o do jogo.

Hoje mesmo, pela manhã, bati-lhe o telefone:

– Alô?!

– Oi, vozinha!

– Ô, meu querido!

– Sua benção, minha vó!

E ela, espírita de fazer o Kardec parecer ateu:

– Deus te abençoe, meu filho!

Convidei vovó pra almoçar um cozido no domingo. Mamãe e eu estamos organizando um cozido no Alto da Boa Vista para recebermos em festa um parente de fora que vem passar o final de semana no Rio de Janeiro (não digo quem é, nem a fórceps). E disse-me a vovó:

– Cozido?! De novo?

Eu, sem entender:

– Como de novo, vó?!

E ela, rindo:

– É que no sábado tem biriba na Noêmia, sabe?

– Arrã.

– E ela vai oferecer um cozido para as meninas do carteado…

Noêmia tem 94 anos – era a dona da casa-cenário do conto DEBUTE NO ENGENHO NOVO, leiam aqui – e vovó é a caçula do cassino!

De onde são essas senhoras, meus poucos mas fiéis leitores… de onde?

Salve a Tijuca! Salve a Tijuca!

Até.

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5 Comentários

Arquivado em confissões

5 Respostas para “A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – VII

  1. >Edu, essa série está demais da conta. Nem precisa ser da Tijuca pra se emocionar com essas histórias hilariantes e comoventes. Basta ter uma leve compreensão do que de fato é importante na vida. E quem não gostaria de conhecer as meninas Mathilde e Noêmia?

  2. >Saber envelhecer é pra poucos, convivo com uma tia de 72 anos que está cursando Direito no 7º período e pior , cola nas provas , leva uma colinha mínima dentro dos códigos. só que esta é de Copacabana.Abçs.

  3. >Edu, o que aconteceu com o Rio-Brasília?

  4. >Olga: a Mathilde e a Noêmia – que são cunhadas, tia Noêmia foi casada com um irmão de vovó – são o máximo. Creia em mim! Beijo.Monica: aposto que sua tia cola de uma colega da Tijuca. Aposto! Um abraço.Claudão: virou depósito. A besta-fera que comandava o RB rendeu-se ao capital, abriu um bistrô-de-merda ao lado e agora entulhará o lixo do novo lixo no interior do portentoso buteco da rua. Uma tristeza. Beijo, mano.

  5. >Se eu contar você não vai acreditar , a pessoa que faz as colas em miniaturas para a minha tia , se chama Selma e mora em frente ao SENAC da rua Uruguai, posso com isso ????? Morremos de rir eu e ela, morremos de rir… vou chamar a Selma pra ir no Chicão também !!!!

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