A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – V

Muito se diz sobre a mãe judia: extremamente protetora, zelosa no mais alto grau, orgulhosa dos filhos mesmo que os filhos não o mereçam. Ocorre que – eis o que quero lhes contar hoje – perto da mãe tijucana, eis a verdade, a mãe judia é uma mãe relapsa, é uma mãe ingrata, é a antítese da mãe. Eu diria, se tivesse que preparar uma espécie de defesa de tese sobre o palpitante tema e em apertada síntese, que a mãe judia é fanática, cega, irracional, irascível, e a mãe tijucana é orgulhosa racionalmente.

A mãe tijucana é apegadíssima ao filho. É apegadíssima ao filho e não se satisfaz com esse apego a dois, não se satisfaz com o filho no colo dentro de casa, não se satisfaz com o carinho intramuros, não basta à mãe tijucana a certeza silenciosa da cumplicidade filial. Não. A mãe tijucana gosta de pôr o próprio filho – “sangue do meu sangue!”, a mãe tijucana adora tal expressão – num outdoor imaginário.

Vamos a exemplos práticos – e vocês hão de me entender.

Há uma piada, uma historinha sobre a mãe judia. A mãe judia passeia com seus gêmeos, dois meses de idade, empurrando, contente, o carrinho pelo calçadão da praia. Uma velhinha estaca diante do carrinho e diz:

– Oh! Que lindos! São seus?

E a idishe mama, apontando para um, depois para o outro:

– Sim! Este é médico, e este é engenheiro.

Notem que o fanatismo expõe a mãe judia ao ridículo.

A mãe tijucana, por sua vez, dá carinho, alimenta, educa, orienta o filho até o dia de sua formatura. Espera ver o canudo na mão do filhote. E dali em diante, aí sim, dali em diante passa a apresentar o filho:

– Eduardo, meu mais velho, advogado!

E ainda completa:

– Tem seu cartão aí, filho?

– Não, mãe… – coradíssimo de vergonha.

E ela, implacável:

– Mas eu tenho! – e estende o cartão em direção à amiga.

Outro exemplo: o filho da mãe tijucana consegue um bom emprego, imprime vigoroso êxito na carreira, até que um dia anuncia a compra de um apartamento. De um bom apartamento. De um bom apartamento em um condomínio fechado, de luxo, e a mãe enche-se de orgulho. Enche-se de orgulho e crava, na cabeça e no coração, uma meta: suas amigas têm que conhecer o apartamento do filho, precisam conhecer o apartamento do filho.

Eu não sei se vocês conseguem acompanhar o que eu digo. Mas se tal se dá com o filho de uma mãe de Copacabana, por exemplo, a aquisição do imóvel vai merecer, no máximo, um jantar em família. Um brinde singelo, um orgulho que a mãe guardará no coração discreto. Já com a mãe da Tijuca, não. Voltemos a ela e à cena que quero lhes propôr para uma mais ampla compreensão do modus operandi da mãe tijucana.

O filho, já tendo dado a notícia da compra do imóvel, põe a mãe no banco do carona e desliza com o automóvel até o apartamento. A mãe, que já tem nas mãos a chave do apartamento novo de seu filho, grita à certa altura:

– Pára! Pára! Rapidinho!

Salta. Volta em menos de dez minutos. O filho:

– O que você foi fazer, mãe?

– Cópia da chave para mim! Toca pro apartamento, toca!

Lá chegando, a mãe é uma festa de “ohs” e “ahs”. E decreta, ainda na sala:

– Ah! Mas eu tenho que trazer a Rita de Cássia pra conhecer isso aqui!

Percebam a obsessão pelo filho num outdoor:

– O prédio tem salão de festas?

– Tem, mãe…

– Oh! Que maravilha! Vou marcar um chá com minhas amigas aqui, na semana que vem!!!

– Mas, mãe, eu ainda nem me mud…

– Ih, meu filho, isso é o de menos! A Regina Lúcia precisa conhecer seu apartamento, seu prédio! – e dá pequeno saltitos enquanto avança pelo corredor.

– Mas eu só me mudo na semana que vem, mam…

– Ótimo! Vou chamar a Lia Cristina para dar uns toques na decoração!

E fica, a mãe tijucana, tendo crises de urticária e ansiedade enquanto não consegue levar as amigas para conhecerem o ninho do filhote. Até que, no dia da tal visita, dá-se ainda mais impressionante coisa. A mãe ignora, solenemente, dianta da amiga, a presença do filho. Tem a obsessão de expôr a sala, os móveis, a vista, as ferragens dos banheiros, o blindex do box e a cama, os quadros, a qualidade dos lençóis, esses troços. É uma febril, apontando o indicador orgulhoso em direção a tudo.

A mãe judia jamais faria isso. A mãe judia tem medo do olho gordo, a mãe judia teme seqüestros, a mãe judia tem o pânico da exposição à toa.

Notaram a diferença?

Dia desses volto a falar da mãe tijucana.

Eu, que evidentemente tenho uma (a quem amo profundamente), falo com conhecimento de causa.

Até.

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4 Comentários

Arquivado em confissões

4 Respostas para “A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – V

  1. >rsrsrs Edu, pode até ser , mas tenho uma filha de 19 anos que já é concursada e se vc tiver oportunidade de conhecê-la um dia irá morrer de rir do que ela chama “os kings de mamãe” em relação a este bendito e louvável concurso. Vai ver que é aquele pouco de sangue Tijucano que adquiri com as “Patricinhas” da minha adolecência,rsrsr um forte abraço.

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