A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – IV

Dia desses eu estava de carro, dando carona ao Ricardo, marido da Magali, minha cunhada, irmã da mulher que me ensinou a sorrir, quando ele me disse, do banco do carona:

– Estou com fome. Vamos parar pra comer alguma coisa?

Estávamos na Mariz e Barros e os pneus do automóvel cantaram eufóricos quando dobrei à esquerda na Afonso Pena:

– Vamos ao Salete!

Era um sábado. E por uma dessas insondáveis decisões anti-comerciais o SALETE fecha às oito da noite aos sábados. Eram sete e quarenta da noite quando estacionei diante do bar e sentamo-nos do lado de fora. Veio o garçom:

– Dois chopes na pressão! E quatro empadas.

– Senhor, com licença… A cozinha já fechou para pedidos e infelizmente as empadas acabaram faz tempo…

– O Ferreira está aí?

– Sim, senhor.

– Pode chamá-lo?

– Pois não.

Veio o Ferreira à mesa, o gerente, e ele passou a fazer com os braços os mesmos gestos afoitos que fazem os bonecos infláveis dos postos de gasolina quando me viu.

Nem precisei de muitos argumentos:

– Ô, Eduardo, quantas empadas vocês vão querer?

E ficamos ali, eu e o Ricardo, bebendo chope, comendo empada e conversando sobre a Tijuca, centro de nossas atenções naquele começo de noite.

É preciso que eu lhes diga que o Ricardo também é (como eu) um típico exemplar de hommo tijuccanus. Vejam se não é: nasceu na Barão de Mesquita, fez natação e futebol aquático no TIJUCA TÊNIS CLUBE, estudou no SÃO JOSÉ e fez medicina na UERJ.

Morando hoje na Barra da Tijuca por contingências que não vêm ao caso, perguntou-me o Ricardo apontando para a esquina da Mariz e Barros com a Afonso Pena:

– Ali não era a Gerbô?

Ah, meus poucos mas fiéis leitores… A pergunta foi como um murro na alma e fui violentamente arremessado ao passado. Senti, no instante seguinte à pergunta, um forte gosto de palmière na boca (biscoitos caramelados que eram um dos vícios gastronômicos de mamãe) e me vi, de calças curtas e camisa listrada, de mãos dadas com papai e mamãe, no amplo salão branquíssimo, cercado por vitrines giratórias exibindo bolos e tortas impressionantes! E disse ao Ricardo, que concordou comigo às gargalhadas:

– Festa na Tijuca sem bolo da Gerbô era vaiada na hora do parabéns.

Eis a verdade inapelável: a ansiedade dos convidados de uma festa de aniversário, de uma comemoração de bodas, de uma festa de debutante, era verificar a grife do bolo, da torta. Havia, inclusive, uma cisão nítida entre os mais velhos. Os mais tradicionais, os mais conservadores, os mais arraigados às tradições do bairro (caso de minha bisavó, de minha avó, de minha mãe) consideravam a GERBÔ o ápice em matéria de doceria. Os mais avançados (termo debochado que minha bisavó usava), os mais tendentes às coisas novidadeiras, preferiam a VOVÓ CATARINA, que luta para manter-se aberta até hoje, na Conde de Bonfim.

Falei da GERBÔ e ficamos lembrando do comércio de rua naquele pedacinho da Tijuca. Papai e mamãe, sempre que precisávamos de uma fotografia 3×4, me levavam para posar na FRIMA, que ficava ao lado da REGINA, que deu lugar à TRIGUS, na esquina da Mariz e Barros com a Ibituruna.

Papai comprava seus automóveis no CARDOSO, que ficava no POSTO LORD, na Campos Sales, e enquanto papai escolhia o carro, nós nos fartávamos na PITUCHINHA comendo os mais saborosos salgadinhos que, aleluia!, ainda podem ser comidos no mesmíssimo lugar.

Perto das nove e meia da noite, embriagados pelas lembranças do bairro e delicadamente convidados pelo Ferreira para irmos embora, tomamos a direção da Barra da Tijuca.

Tijucaníssimos, subindo a Conde de Bonfim em direção ao Alto da Boa Vista, ainda fomos pelo caminho numa festa de indicadores apontados para fora das janelas do carro:

– Carioca e América, dois portentosos cinemas que deram lugar a uma farmácia e a uma igreja evangélica… Eu assisti à estréia de E.T. aqui!!!

– Bruni Tijuca, como eu vim ver filmes aqui…

– Aqui ficava a Khalil M. Gebara!

– Olha o Tijuca!

– Como é antiga a Five Magazine, ainda está ali, olha só…

– Ainda existe a Vanzilotta?????

– Claro! Fica aqui na José Higino, ó, onde eu estudei muito tempo! Grande Palas…

– Ainda tem a Tele-Rio, aqui?! Putz!

– E onde é o Otto, ali ó, era o Bicho da Tijuca, tremenda espelunca…

– Cara! O Batista!

– Olha só! Outra filial do Palas, abandonada… Aqui estudei no segundo grau…

– O Só Kana, Edu! Ainda existe! Olha só!

– Rua da Cascata, Rico. Aqui também havia um Palas…

– Ordem Terceira da Penitência…

– … onde eu nasci!

Um pouco mais à frente eu percebo o homenzarrão de quase dois metros, do meu lado, fungando:

– Pô… o São José… que saudade… Nem prestei atenção quando passamos a Vovó Catarina… – e assoou o nariz, os olhos vermelhos, enxugando os óculos.

E subimos o Alto da Boa Vista impregnados disso tudo.

Até.

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8 Comentários

Arquivado em confissões

8 Respostas para “A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – IV

  1. >É Edu, mais um belo texto e esses arremessos ao passado …. bom , mas quero te contar sobre a Raphaella uma moça que trabalha aqui comigo , mais ou menos da idade da minha filha uns vinte anos , que cursa administração e é uma gracinha de pessoa uma boneca , mas Tijucana daquele jeito sabe , passional (ops!) digo, apaixonada que chega a ter inimigos de tantos comentários preconceituosos sobre outros bairros e na defesa da sua Tijuca, sabe como é jovem … Na sexta – feira ouvindo uma discussão dela com uma moradora de Vila Valqueire, eu já me divertindo do jeitão da menina , cheguei pra ela – e falei – Rafa vc deveria ler os textos do blog “Buteco do Edu”, tudo a ver com você . Ela na mesma hora respondeu – Buteeeeeeeco Deeeuuuusssssss me livre , odeio botequim !!!!!!

  2. >Eu morri de rir e lembrei-me das Patricinhas da Tijuca, a diferença delas para as da zona sul não estavam na beleza, todas eram lindas, mas a personalidade esta sim. As Patricinhas da Tijuca sempre foram fortes, determinadas e sempre souberam o que queriam da vida. Além disto, se preservavam mais em termo de comportamento e envolvimento com drogas, eram mais família e tinham ambições de cursar nível superior, era claro esta diferença. Já na zona sul , ainda se tratando de final dos anos 70/80 o bagulho era doido. Minha convivência com elas não me fez virar Patricia (era riponga) mas herdei a ambição de me formar e dar valor a um bom emprego.Um abração.

  3. >Quanto ao texto, não quero me tornar repetitiva, mais bélissimo, belissimo.parabéns.

  4. >Monica: obrigado, mais uma vez. Aquele abraço.

  5. Pingback: A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – VI | BUTECO DO EDU

  6. Pingback: A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – VII | BUTECO DO EDU

  7. ANA PAULA CAMPOS

    Dudu, até hoje, nos aniversários dos meus filhos, são da Pituchinha as tortas que saboreamos!!!

  8. Pingback: A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – X | BUTECO DO EDU

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