A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – II

Diante do sucesso que foi a publicação do texto TIJUCA EM ESTADO BRUTO (leiam aqui), tive a idéia de lhes contar, hoje, sobre uma recente experiência que vivi no restaurante FIORINO, o mais luxuoso, o mais requintado, o melhor restaurante, indubitavelmente, da Tijuca (ele é o melhor do Brasil, mas como minha praia é a Tijuca, restrinjo-me a ela). Fica na Heitor Beltrão e – eu sempre disse isso e repito agora – não deve nada ao GERO, ao CIPRIANI, ao LOCANDA DELLA MIMOSA, esses restaurantes de comida italiana que têm muito que engatinhar até chegarem ao nível do tijucaníssimo FIORINO. Pois bem, vamos aos fatos. Antes, porém, brevíssimo intróito. E antes do brevíssimo intróito, quero lhes dizer que ao escrever a palavra “FIORINO” lembrei-me, agudamente, da Lina, minha queridíssima cunhada, a pessoa mais refinada que jamais conheci. A Lina, que conhece pouco da Tijuca, vez por outra ri de mim quando elogio o FIORINO. Duvida de mim, acintosamente duvida de mim, quando digo que os mais caros restaurantes italianos do país não fazem cócegas nos pés do charmoso restaurante às margens do rio Trapicheiros. Razão pela qual aproveito o ensejo para convidá-la, publicamente – uma vez mais – para um jantar no portentoso FIORINO. Ao intróito.

Eu não sei se já lhes contei isso, mas vira-e-mexe alguém me pergunta:

– Edu, de onde você tira tanta história?

Ou:

– Haja imaginação!

Tudo besteira, meus poucos mas fiéis leitores, um ledo engano esse exaltar de uma susposta capacidade inventiva, criativa. Tudo está boiando à nossa volta, basta ter olhos de ver e ouvidos de ouvir. E eu, eis a verdade, sou um homem antenado as vinte e quatro horas do dia. Meus ouvidos são sonares, meus olhos são radares, e assim vou recolhendo, aqui e ali, as histórias que compõem o quadro do BUTECO e que agradam, ainda bem!, a tanta gente. Voltemos ao FIORINO.

Lá estava eu no interior do restaurante, muitíssimo bem acompanhado, aniversário de minha avó. Ocupávamos uma mesa de oito lugares num dos cantos do salão, quando percebemos a algazarra de três casais com um bebê a tiracolo. Não foi preciso grandes prospecções: tratava-se de marido e mulher, o filhinho com meses de vida, e seus respectivos pais.

Sentaram-se perto de nós. O mais velho – pai do marido, eram parecidíssimos! – disse de braços abertos ainda de pé, para o atencioso maître (mas olhando para nós, de soslaio, em busca de atenção):

– Capricha, pingüim! Capricha que hoje meu filho tá pagando! Foi promovido no trabalho e convidou a gente pra jantar no que ele chamou de melhor restaurante do bairro! – e deu um tapa nas costas do pobre maître que com a violência do gesto, quase caiu.

Ele ainda se ajeitava do susto e do tapa na altura do omoplata, quando uma das mulheres – mãe do promovido – gritou:

– Meu bem! Meu bem! Olha pra cá! Abraça o pingüim e olha pra cá!

E explodiu o flash.

Vovó, coradíssima, cochichou:

– Vamos para o segundo andar, vamos…

Eu, de olhos espetados em direção a ela, supliquei:

– Vamos ficar, vovó! Vai ser imperdível acompanhar isso!

Minha avó, resignada e dulcíssima como de costume, fez festinha em minhas mãos e aquiesceu.

O maître, para o homem na cabeceira:

– Aceitam couvert?

– Evidente! Evidente! – e batia no bolso do paletó sorrindo para a mulher.

– Quantos couvert, senhor?

– Somos seis? Sete com o Cauã? Então queremos sete couvert! – e gargalhou.

Quando chegaram à mesa os couvert – papai é testemunha, meu velho caiu da mesa de tanto rir com a obervação de um dos membros da escandalosa família -, a outra velhota, mãe da mãe do bebê, sugeriu aos gritos:

– Ah, Ronaldo Henrique, vamos embora! Vamos embora! Vamos pro La Mole! O couvert de lá dá um banho nessa miséria aqui! É isso que dá ser chique! Sou muito mais o La Mole da Marquês de Valença!

Ela se dirigia ao genro, que tentava apaziguar os ânimos:

– Calma, dona Lucrécia! A senhora não gosta de patê de foie? Desses pães? A casa aqui é coisa fina! Premiadíssima! Né, não, pingüim?!

– Patê de fuá?! Gosto de patê de presunto, patê de galinha… vambora pro La Mole, gente…

O maître não chegou a responder, foi chamado por vovó que lhe disse, acarinhando suas mãos:

– Não ligue, meu filho. Eles não sabem o que dizem.

Dona Lucrécia prosseguia esbravejando, possuída:

– Não tem lingüiça! Não tem picles! Não tem azeitona! Não tem ovo de codorna com molhe rosé! Viva o La Mole! Viva o La Mole!

O marido a acalmou dizendo alguma coisa em seu ouvido.

Nós já jantávamos quando o maître tornou a se aproximar daquela mesa. Ele havia distribuído os cardápios um pouco antes e agora perguntava:

– Já escolheram, senhores?

Dona Lucrécia, impossível:

– Se o mení estivesse em português, né, pingüim!? Não tem macarrão?

– Senhora, pasta é a especialidade da casa…

– Macarrão, pingüim, macarrão! Piraquê, Adria, sabe o que é isso?!

O genro, já alterado – a mesa consumia chope em quantidades industriais – , falou alto com a própria mulher:

– Mas tua mãe hoje tá que tá, hein?! A gente tenta dar um lustro na velha mas a inhaca não arreda pé da alma da mulher. Ô, raça!

Mamãe chorava de rir, minha avó rezava de olhos fechados pedindo paz no ambiente, papai me pedia os detalhes que perdia, e chegaram, depois de um tempo razoável, os pratos da família.

Os pratos, no FIORINO, chegam à mesa cobertos, e os garçons somente retiram as tampas que os cobrem no instante em que os mesmos já se encontram diante de você. Pois foi um espetáculo quando levantaram a tampa do prato da sogra do promovido:

– Só isso?! Caraca! Que miserê!

Os maridos – o pai e o sogro de Ronaldo Henrique – não estavam nem aí. Continuavam enchendo a cara de chope. A mãe de Ronaldo Henrique, àquela altura já horrorizada com o espetáculo dado pela sogra do filho e ligeiramente envergonhada (pedia desculpas com a mão em nossa direção), esnobou:

– Mas não tem elegância alguma… Meu cabelo-de-anjo está daqui, ó! – e balançou freneticamente o lóbulo de sua orelha esquerda.

Fim do jantar, todos visivelmente embriagados – o pobre Cauã dormia no colo de minha avó, que oferecera seus préstimos à mãe do menino -, veio a conta.

Quando Ronaldo Henrique pôs os olhos na conta (mais de seiscentos reais incluindo os 10%, o maître contou pra minha avó, que, indiscretíssima, perguntou o valor…), agiu naturalmente. Tirou um bolo de notas de cem do bolso do paletó, contou oito notas em voz alta, pediu palitos (não havia) e disse:

– Fica com o troco, pingüim!

A mãe da criança recolheu o bebê do colo de minha avó – meu pai não acreditava na cena que via -, dona Lucrécia pediu pra tirar uma fotografia conosco – “Ô, família legal, essa! Vocês são da Tijuca também, não são?!” -, ela e vovó trocaram telefones, descobriram em questão de segundos que eram ambas espíritas, o maître tentava convencer Ronaldo Henrique a aceitar parte do troco (a gorjeta foi polpudíssima!), a mãe de Ronaldo Henrique gemia em direção ao marido – “Um perdulário, nosso menino…” – e o pai, orgulhoso, dizia para o sogro, escorado em seu ombro de tão embriagado:

– Se meu filho tá podendo tem mais é que gastar! Dinheiro há, minha gente, há dinheiro!

Até.

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17 Comentários

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17 Respostas para “A TIJUCA EM ESTADO BRUTO – II

  1. >É meu caro Edu! Você pode ter olhos de ver e ouvidos de ouvir, mas uma coisa é certa: as melhores histórias te perseguem. Mais uma vez, sensacional! Abraços!

  2. >Perseguem nada, rapaz… Experimente dedicar-se ao fabuloso exercício de perceber o mundo à sua volta. Você verá que está tudo ali, pronto, prontíssimo. De qualquer forma, obrigadíssimo. Um abraço.

  3. >Mas não basta perceber, querido Edu, a vida à nossa volta. Não basta ter olhos de ver e ouvidos de ouvir. Há que se saber contar histórias. Há que se ter o dom da escrita. Eis aí vossa vantagem sobre a maioria de nós. Beijo!

  4. >Bruno, querido: não vou ficar, aqui, rejeitando seu elogio… Aliás, repare que nunca mais escrevi “imerecidos elogios”, troço que eu escrevia bastante em situações similares a essa que você criou escrevendo isso aí. Comecei a achar que neguinho que fica com essa coisa – “oh, que é isso?”, “não exagere” – quer é mais elogio, mais confete, mais bateção de palma. Mas é o seguinte: Querer perceber e absorver a vida à nossa volta, malandro, é o primeiro passo. Ter olhos de ver e ouvidos de ouvir, o segundo. E contar as histórias é o fundamental. Uns contam bem, outros nem tanto – é verdade. Mas há que se contar as histórias, querido! É preciso contar as histórias! Eu mesmo – eis a confissão pública que faço – já ouvi histórias ótimas muito mal contadas. E as repassei. Foi preciso, para tanto, que alguém as tivesse contado. É isso. Beijo.

  5. >Edu, concordo com você quando diz que as histórias estão à nossa volta, mas perceber isso e estar antenado é que faz a diferença entre as pessoas criativas e as pessoas “comuns” como nós. Além disso, não basta ouvir, tem que saber contar e você tem esse dom.Fui transportada para o Fiorino e vi toda a cena. Muito bom.Bjs

  6. >Saber contar a história! Poucas vezes li algo tão preciso e impecável como aqui no seu buteco. Você tem o dom meu camarada!

  7. >Obrigado, Jonas. Tem muita coisa boa por aí pra ser lida. Comece, por exemplo, pelos blogs que indico aí à direita. Um abraço.

  8. >Meu caro Edu,Me lembrou logo no inicio , quando falei do PLUS , que não era da Tijuca e sim do talento da observação e descrição que você tem e que é restrito a poucos, como foi o caso da Pharmacia da Matoso. Como tinha recém chegado aqui no blog tive a impressão que tu tinhas tirado uma onda comigo , quando disse “na Tijuca não tem PLUS, não”, impressão esta logo depois dissipada ao perceber o jeito inteligente e moleque de “ver, ouvir e falar “ do cotidiano, do qual as pessoas por correria e pouca importância com o que acontece a sua volta , não se dão o prazer de perceber o quanto a simplicidade é boa. Confetes a parte , você faz isso muito bem , por isto os textos estão chamando a atenção, no meu caso em especial que gosto de ler escrever , tenho aprendido bastante até para aplicar no meu humilde bloguinho. O incentivo a convivência familiar também é show de bola, valor não cultivado por muitos. Um abração.

  9. >Obrigado, Monica. Aquele abraço.

  10. >Eduardo, o Fiorino é sem dúvida o melhor restaurante de toda a Zona Norte. Acredito que fique pau a pau com os citados da Zona Sul. Uma das melhores sensações de lá é quando o garçom tira a cobertura do prato. É como se fosse um espetáculo particular.Ah, e concordo que as histórias não nos perseguem e sim estão a nossa volta. Vou te mandar por e-mail uma viagem que fiz de metrÔ. Abraços,

  11. >Mande, Xandão, a sua história. Faço questão de lê-la.E me permita uma correção: o Fiorino não fica pau a pau com os citados.Os citados não têm condições de lamber sequer a sola dos chinelos sujos de barro do Fiorino. Eis a verdade.Um abraço.

  12. >Meu Deus, isso é impagável. Perde pra novela mexicana. Estou rolando de rir.Edu, isso é cinematográfico. Fiquei a imaginar TODAS as cenas. Facilitou eu conhecer o lugar, mas mesmo se não conhecesse, sensacional!

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