>COZINHAR

>

Não tem jeito! Sempre que publico uma de minhas receitas, como fiz ontem (leiam aqui), os recados deixados no balcão virtual do BUTECO pululam, são muitos, é um tal de neguinho fazer “hum!”, fazer “oh!”, fazer “ah!”, é gente que tem palpite pra dar, é gente que tem sugestão a fazer, e isso me dá – o que justifica o mesmo tema, hoje – uma tremenda vontade de discorrer sobre o tema: cozinhar.

Quero lhes dizer, antes, que há apenas uma única pessoa no mundo a quem eu perdôo pelo fato de detestar os rituais que cercam uma refeição: meu amado pai. Papai – desde cedo ouço suas queixas… – vive a dizer que adoraria poder alimentar-se como os astronautas, à base de uma ou duas pílulas diárias. Detesta molhos, pastas e cremes (esse é um de seus chavões). Gosta de sopas instantâneas, não vê diferença alguma entre manteiga e margarina, acha que cozinhar é desperdício de tempo e que comer é, apenas, uma necessidade física. Dito isso, em frente.

Eu, vocês que me lêem sabem disso, sou o extremo oposto. Vejam esse exemplo, que tomarei como mote para lhes escrever hoje: ontem, dediquei a receita de risotto de camarão (aqui) a uma prima de Volta Redonda, a Cristina. A Cristina, por sua vez, deixou seu recado no balcão virtual:

“Edu, meu querido (…) você descreveu fielmente a baba escorrida na tela do monitor (…). Mas não se limitou a isso, escorreu pela mesa, pelo teclado, pelo meu colo, (…). E não pense que isso te livra do compromisso assumido (…) de fazer a mesma coisa pra mim quando eu estiver aí (…)

Cris Pureza”

Notem que esse comentário, esse aceitar de meu convite, desperta em mim um sentimento magnífico!

Passo a planejar, desde já, o preparo do mesmo prato para a Cristina. E eis o que eu queria lhes contar (e que causará náuseas em meu velho pai): cozinhar, para mim, não se restringe a ficar de pé, diante do fogão, cuidando das panelas ou das travessas no forno. Não. É algo muito além disso. E vou valer-me desse almoço que ainda está para acontecer para que vocês compreendam o que é, afinal, cozinhar. E quero saber a opinião de vocês, é claro!

Quero que a Cristina me diga o quanto antes que está vindo. Quero que seja num domingo, nosso almoço. Quero acordar cedíssimo para começar a conjugar o verbo cozinhar. Quero ir à feira da Vicente Licínio, sentar-me à sombra da barraca de pastel próxima à Barão de Iguatemi e, para manter o mesmo tema, pedir um pastel de camarão com catupiry e um caldo de cana grande. Quero sair com minhas bolsas de palha em direção às peixarias para escolher os melhores camarões, os mais bonitos, os mais graúdos, pedir para que os mesmos sejam limpos e seguir caminho. Comprar os coentros mais verdes, mais vivos, escolher as mais bonitas cebolas, comprar o alho, os tomates mais maduros, vermelhíssimos, íntegros, comprar limão pra preparar caipirinha pras moças, comprar pimenta dedo-de-moça pra dar uma bossa ao risotto. Atravessar a Campos Sales e tomar a direção do BAR DO CHICO. Beber uma – apenas uma! – Brahma de pé, no balcão, e retornar à feira pra buscar os camarões. Seguir em direção ao MUNDIAL da Matoso. Comprar as garrafas de vinho branco verde e seguir pela própria Matoso em direção à Haddock Lobo, fazendo brevíssima parada no XODÓ DA VOVÓ, quase na esquina da Santa Amélia. Beber uma – apenas uma! – Brahma e tomar o rumo de casa.

Chegando em casa, mais prazer.

Abrir as bolsas, mostrar à minha menina as minhas compras, cheirar o coentro, os limões, colocar os camarões na geladeira assim como as garrafas de vinho, começar a preparar a praça com cuidado, com zelo, com carinho, com amor, com profundo prazer. Servir-me da primeira dose de Red Label, admirar a paisagem que vai se desenhando à minha frente, curtir as cores que explodem sobre o balcão da pia da cozinha, os cheiros que invadem o ambiente, e o domingo vai ganhando contornos indizíveis capazes de explicar – talvez! – os mistérios que a mão que vai comandar a colher de pau dentro da panela esconde.

Eis, meus poucos mas fiéis leitores, o mistério. Cozinhar é tudo isso. É sair para comprar os ingredientes com profunda satisfação, escolhendo cada um deles como quem escolhe um presente para si mesmo, é ter profundo prazer em mostrar as compras como quem exibe um troféu, uma conquista, é preparar a praça com o mesmo zelo de quem se prepara para uma grande festa, é cozinhar sem pressa, é beijar a mulher amada de vez em quando, chamando-a para perto de si a fim de dividir com você o espetáculo que acontece dentro da panela sobre o fogo, é comer também com os olhos, é ter olhos de ver para perceber a reação de cada um à sua volta, é apurar o olfato, é beber e perceber que foram feitos um para o outro, o vinho e a comida. É tudo isso, e é mais.

É muito mais.

Tudo isso e esse muito mais talvez expliquem o que o dito popular quer dizer quando diz que a mão do cozinheiro é que faz a diferença. Se as mãos são todas iguais – e não me venham rebater essa afirmação! – é bem possível que a diferença esteja, mesmo, nessa devoção que reside naquele que cozinha mais-além.

Até.

13 Comentários

Arquivado em Uncategorized

13 Respostas para “>COZINHAR

  1. >Bom Dia Edu! Belissima materia e deliciosa receita, e para parabeniza-lo deixo aqui meu recado e agradecimento.P.S.Ja comprei o Casal Garcia e temtarei cozinhar este domingo para meus amigos. Jose Reis

  2. >Eu , em contrapartida , tomo mais cervejas , porque vai me sobrar tempo , pois a sopa Vono que eu tomo , fica pronta em 3 minutos!!!

  3. >José: obrigado pelo imerecido elogio, mas… matéria?! Ô, José, ô, José, trata-se de simples e humilde bate-papo virtual de virtual balcão de virtual buteco!!!!! Boa sorte com a receita, espero que você tenha comprado o vinho no MUNDIAL da Matoso, onde é mais barato do que em qualquer outro lugar, espero que você compre os ingredientes na feira da Vicente Licínio – isso se você for do Rio… – e espero por notícias na segunda-feira. Tomara que dê certo. Um abraço.Meu pai, meu amado pai: como já disse, e repito, você está perdoado. Essa sopa, lamentável, tem gosto de plástico também? Tsc. Beijo, amo você.

  4. >Grande Edu, é isso aí! Beleza de texto! Aproveitando a carona, fica a sugestão para quem tem filhos: cozinhem em família, é diversão garantida!Forte abraçoMarcelo Alves

  5. >Valeu, Marcelo, obrigado mesmo! Mas me permita o pitaco, pô… Não é preciso ter filhos para ter família, concorda?! Eu, por exemplo, que não os tenho, preparei esse risotto de camarão no sábado passado ao lado da minha muito amada sobrinha, a Maria Helena – tia Dani é testemunha. Aliás, permita-me ainda mais.Acordei cedíssimo – a pecurrucha dormiu lá em casa! – e fui ao RIO-BRASÍLIA com a Maria, pois ela faz questão de comer dois pastéis de carne pela manhã, sempre que dorme lá.Quando voltei do passeio da Matoso, convoquei Maria, excitadíssima, pra me ajudar no preparo.É, de fato, diversão garantida.Para mim, que tenho seis afilhados oficialmente assim declarados, além dos abduzidos por mim – como é o caso da Maria, já que sou padrinho de sua irmã! -, a chance de diversão permanente é grande.Forte abraço.

  6. >Grande Edu,perfeita a observação!!Não demore com as outras fotos da Matoso, por favor…Forte abraçoMarcelo Alves

  7. >Falou, Marcelo: se as coisas correrem como eu imagino, sábado tem a segunda etapa do périplo pela Matoso – na companhia do queridíssimo Cereal e de meu velho pai. Daí choverão mais fotos, fica tranqüilo. Abraço.

  8. >Um das coisas que acho mais legal em cozinhar eh que te ensina a respeitar o Tempo. Aumentar o fogo, cortar tudo de qualquer maneira para ser rapido, nada disso resolve. Pelo contrario, na maioria da vezes estraga o prato. Eh preciso esperar, dar tempo aos ingredientes para que eles se desenvolvam e te deem o melhor do seu sabor e aroma.Nas poucas vezes em que cozinhei senti isso claramente. Eu na frente do fogao esperando a cebola esbranquecer no refogado, ansiosa para colocar logo os outros ingredientes e ver o prato pronto, e a cebola la, amolecendo devagarzinho…A cozinha para mim eh sempre uma grande licao.Saudade! Beijo enorme!

  9. >Betinha: é isso e é mais, querida, é mais! A cozinha te dá, também – e são tolos os que pensam estarmos na esteira do exagero – não apenas a necessidade imperiosa de respeitar o Tempo, que por sua vez nos exercita a paciência. O que é, por exemplo, o exercício de reduzir um molho? Horas, às vezes muitas horas, cuidando apenas disso, da redução do molho, provando o sal…A cozinha te dá também a exata noção da necessidade do capricho, da dedicação, do cuidado, para que tudo saia a contento. Dirão alguns que os renomados chefs agem com a rapidez de uma máquina, cortam legumes com uma quase-fúria, e eu lhes direi…Eles não cozinham com prazer (há exceções, evidentemente). Eles exercitam a vaidade profissional. Eles exercitam o orgulho. Eles exercitam suas habilidades mecânicas para que tudo seja mais rápido e, conseqüentemente, mais lucrativo.O homem que cozinha por prazer, com amor, sabe que nos pequenos detalhes é que reside a graça da coisa. Como eu já disse – e como você corroborou.Pensando no prato com antecedência de dias. Comprando os ingredientes com extremo cuidado, cheirando, apalpando, provando de tudo. Preparando a praça (obrigado, Lina!), respirando fundo, sentindo os aromas, bebericando devagar, cozinhando com a certeza de que ali, naquele momento, nada é mais importante do que você, sua comida e mais nada.Para depois, então, ver o prazer estampado no rosto e nos olhos de cada um dos sortudos convivas seus.Um beijo, querida.Saudade ainda maior.

  10. >Tenho dito sempre: tesão na vida – além de dar aulas, o maior! – é cozinhar. Tudo isso que você fala: as compras, a preparação da praça, as provas, as conversas – se os comensais estiverem participando -são momentos inigualáveis.Quando cozinho, só tenho uma idéia: alquimia…! Penso que cozinhar – para quem sabe conjugar esse verbo em todas as suas circunstâncias – é sempre buscar, em cada ingrediente e em cada combinação, ouro puro!E nós – que nos dedicamos à arte – sabemos que ele está em cada sorriso, em cada “Hummmmm”,em cada comentário…Abraços.

  11. >Edu, onde moro e bem mais longe, Eu moro em Danbury CT EUA. Os precos do Mundial e realmente bom o Casal Garcia tem o valor de $ 8.00US aqui.Um bom vinho.Abracos.Jose Reis.

  12. >Edu,perfeito o texto. Ontem quando disse que abriria o vinho na confecção falava exatamente deste prazer maravilhoso de chamar alguém pra cozinha bater um papo bem gostoso e normalmente lá em casa eu fico ouvindo um sambinha do Monarco e uma geladinha na pia, que tem de ter uma pedra de mármore de preferência. Aí é só cortar tudo miudinho, bem devagar , como diz a moça acima – respeitando o tempo.Parabéns mais uma vez !!!!

  13. >Edu,fiz hoje no aniversário de dois aninhos do meu bebê, foi um presente, para os pais , tios e padrinhos, já que ele mesmo saboreou um cabelinho de anjo com caldinho de feijão. Ficou perfeito com arroz branco.Grade abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s