Arquivo do mês: agosto 2008

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Sentei-me há pouco diante da tela do computador, a janela à minha esquerda por onde entra um sol que reina num céu de azul intenso-sem-nuvem como testemunha e o sistema de edição do BLOGGER acusava que eu estava prestes a escrever o milésimo texto do BUTECO.

Diante disso, diante dessa constatação, não tenho nada, rigorosamente nada para lhes dizer no dia de hoje.

Sentei-me aqui com várias idéias na cabeça. Mas todas sucumbiram diante desse fato.

Todas.

Acho – apenas acho – que eu mesmo me comovi tremendamente com isso.

Até.

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>A OXUM MAIS BONITA

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(encontrado numa folha de papel A4 deixada sobre uma mesa do Rio-Brasília na noite de ontem)

“Quando ela dobrou a esquina, de surpresa, e iluminou ainda mais a rua já banhada da prata que a lua cheia derramava sobre a ruazinha tijucana, foi emoção demais pros meus anseios. Ela veio, você sabe, ela veio – eu disse olhando pra bola redonda que boiava sobre nós. Quando ela abraçou meus amigos com braços de aconchego e mãos de afeto e depois sentou-se a meu lado com os olhos um pouco menos marejados que os meus, senti minhas mãos trêmulas e fui encontrar amparo em suas mãos, pousadas sobre suas pernas. Ofereci a ela uma cerveja, e ela disse que não. Segundos depois, eu com os olhos cabisbaixos e um pouco sem-graça com a sugestão que julguei inoportuna, ela me disse com um sorriso embriagante que gostaria de uma batida de maracujá. Ergui o braço, pedi quatro batidas ao dono do bar e fui o homem mais feliz do mundo a cada gole meu, a cada gole seu, e nem me chateei quando ela se despediu, meio hora depois, dobrando de volta a mesma esquina que a trouxe. Eu e meus amigos choramos sem motivo aparente. Estávamos felizes, plenamente felizes, depois da acachapante presença da Oxum mais bonita entre nós.”

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>DORIVAL CAYMMI (1914-2008)

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O BUTECO cumpre o doloroso dever de informar a todos aqueles que aqui chegarem nesse sábado de céu azul e calor confortante, que subiu aos céus, hoje cedinho, pra conversar com Oxum mais de perto, Dorival Caymmi.

O que se beber hoje, não apenas no balcão imaginário, será em homenagem a ele – um dos maiores compositores do mundo.

Lembro-me da primeira vez que ouvi uma canção do Caymmi. Foi quando meu pai, assobiando ACALANTO, tentava fazer meu irmão dormir. Sabe-se lá por quais razões, essa certeza mora em mim: foi assim, desse jeito, que ouvi a primeira canção de Dorival Caymmi. Lembro-me, um bocado mais tarde, de meu pai (de novo e sempre ele) chegando em casa com um LP duplo, presente de final de ano da PETROBRAS, onde meu velho trabalhou a vida inteira, com Caymmi cantando ao vivo, no Teatro Castro Alves, em Salvador, acompanhado apenas por seu próprio violão.

Ouvi esse disco centenas de vezes. Decorei cada letra, aprendi a tocar cada uma delas no violão, e – ah, nossas maluquices… – passei a sonhar com o dia em que eu conheceria a Bahia e a cidade de Salvador.

Fui conhecer Salvador muito depois, há poucos anos, e não saberia explicar a vocês – as maluquices não nos deixam nunca! – o por quê disso, mas senti uma emoção indescritível quando pisei naquela terra.

Tudo o que eu vi, tudo o que eu ouvi, cada cheiro que senti, eu já conhecia. Cada baiana, cada ladeira, cada beco, cada igreja, cada praia, eu já conhecia.

Graças a ele.

Até.

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>JOAQUIM, UM GENTLEMAN

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Na segunda-feira, 11 de agosto, dia do advogado (nenhuma pessoa, viva ou morta, dirigiu-me um simplório voto de parabéns), escrevi NO RIO-BRASÍLIA (leiam aqui), contando-lhes sobre a agradabilíssima tarde de sábado que lá passei na ainda mais agradável companhia do Vidal. Ilustrei o tal texto com uma fotografia (veja-a em tamanho gigante aqui) da conta que pagamos naquela tarde. E foi meu pai, meu obsessivo, atento e metódico pai, que apontou o dedo em minha direção e disse:

– Du, você notou que a conta está somada errada?

Não, eu não havia notado. Não havia notado, o Vidal não havia notado, e deu-se a bulha no balcão imaginário do BUTECO.

Ontem, munido da fotografia impressa, dirigi-me ao templo de paredes azulejadas em azul e preto – estava vazio, vaziíssimo, ainda bem! – na companhia (em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades) de Cesinha Tartaglia, Felipinho Cereal, Marcelo Vidal e Rodrigo Ferrari.

Como não poderia deixar de ser, basta uma análise rápida da qualidade do local do encontro e dos personagens à mesa, a noite foi fabulosa. Pela mesa passaram algumas casco-escuro da Brahma, a clássica carne assada com coradas, muitos pastéis, doses de limão da casa e de maracujá, fígado e contrafilé acebolados, porções de lingüiça calabresa (nunca abandonarei o trema) e eu estendi, à certa altura, a fotografia para o Joaquim.

Branco como talco, mãos e lábios trêmulos, disse-me o bom:

– Foi sem querer… Puxa vida… Foi sem querer…

Estendeu-me uma nota de dez, que recusei:

– Desconta no final, Joaquim!

– Pelamordedeus, professor, pelamordedeus, aceite aí…

Consegui convencê-lo a descontar os dez reais apenas no final, mas foi incrível ver o sem-jeito dele diante de um deslize tão pequeno – ah, as lições que nos dá um buteco.

Foi um craque, ontem à noite (ele é um craque), o Joaquim.

Fechamos a noitada, eu, Cereal e Digão, bebendo a saideira oferecida pela casa, todos de pé diante do balcão, assistindo a algumas provas de natação na TV, e morrendo de rir diante dos comentários do cearense Joaquim sobre a ausência de brasileiros nas competições. Frases como:

– Um país desse tamanhão e não tem uma besta pra ir lá derrubar esse tal de Félpi!

Até.

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>RB

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É preciso, às vezes, uma certa dose de cinismo, um sorriso de canto com o cigarro imaginário pendendo do canto da boca, uma dose de limão da casa numa das mãos, um punhado de gente querida sentada à mesma mesa, para driblar o peso do dia-a-dia. É preciso que a mesa seja num lugar que fale ao coração, é preciso sentir-se em casa, é preciso não se preocupar com rigorosamente nada, ainda que por algumas horas, é preciso, é imperiosamente preciso. É preciso que, nesse tal lugar, que há de ser um bar, haja intimidade com os garçons, é preciso ser servido por Deus num dos mais pagãos templos do bairro, benção maior que um homem de fé pode desejar, ou então pelo Imperador em pessoa, um sujeito que faz do morro do Borel a sua Roma Negra e que é capaz de atender a você durante toda a noite com um sorriso digno de começo de dia. É preciso que o dono do buteco tenha a dose certa de mau-humor e de intolerência diante das reclamações injustas lançadas da mesa ao balcão, desde a temperatura da cerveja até o alto teor de gordura dos pastéis. É preciso que a dona tenha permanentemente as mãos cheias de carinho e os olhos cheios de fumaça – a cozinha não pára, o exaustor não dá conta e o bêbado insiste em fumar diante dela, falando sem parar e sem exigir atenção. É preciso que o cenário esteja em ordem, que os personagens estejam na área, que as casas em volta façam silêncio, que haja um grito de prazer vindo de alguma janela entreaberta suscitando os mais torpes comentários da assistência e que haja uma briga, dessas escandalosas, a fim de que os cronistas anônimos tenham o que contar no dia seguinte. É preciso que haja barulho de vidro denunciando os brindes feitos com os copos americanos cheios de cerveja, que haja o barulho de talheres cortando a mais bem feita carne assada da cidade, que haja um gemido de êxtase diante das coradas, que haja limão e maracujá dando ainda mais cores à mesa e à vida, que haja disposição para perceber que é preciso viver tudo isso, é preciso. É preciso. Definitivamente, é preciso.

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>NO RIO-BRASÍLIA

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Não precisou de mais do que isso.

conta do Rio-Brasília, em 09 de agosto de 2008

Sete garrafas casco-escuro de Brahma, um bife à milanesa com arroz, feijão e fritas, dois pastéis de carne fritos na hora e dois saquinhos de amendoim depois, eu partia do RIO-BRASÍLIA em direção à minha casa após – o quê? – pouco mais de quatro horas de boa conversa com ele, o amigo de há mais de duas décadas.

O Vidal bateu-me o telefone cedo, cedíssimo, e já com um apetite de judeu depois do jejum do Yom Kipur:

– Vamos almoçar no Rio-Brasília?

– Almoçar? Mas eu acabei de tomar o café da manhã…

Nem precisei de muitos argumentos.

Sentar-se à mesa de um buteco qualquer (se for o de fé, ainda melhor!) com um amigo desses, de vida inteira, e com disposição para derrubar algumas garrafas enquanto o verbo é solto, é uma das mais sublimes experiências pela qual pode passar um homem devotado ao prazer que só a presença de um amigo de verdade é capaz de proporcionar.

Rodrigueanamente, vazado de luz, atravessei a Almirante Gavião em estado de graça.

Até.

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>DONA ISAURINDA

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Dona Isaurinda… definitivamente, uma das grandes recordações da minha infância. Uma mulher muito simples, casada com o seu Mário, um homem igualmente simples, descendente de italianos e que se revezava entre o táxi (um TL, lembro-me com impressionante nitidez) e a banca de jornais na Conde de Bonfim, o que rendia para minha bisavó, que morava com meus avós na mesma vila, o privilégio de ler todas as revistas, fresquinhas, e de graça. Eram quatro, os filhos. Do mais velho ao mais novo: Aurélio, Renato, Ricardo e Marta. Moravam todos numa casa no final da vila, que ficava bem de frente para o portão da rua. A casa tinha portas altas de madeira. Entrava-se por esta porta e estávamos na sala. À esquerda, o quarto da Martinha, a caçula, que colecionava tampinhas de pasta de dente. Logo depois, também à esquerda, o quarto do casal. Um tantinho mais à esquerda, uma porta minúscula dava passagem para uma área interna onde havia um jardim, pequeno, mas muito bem cuidado pela dona Isaurinda, o tanque de lavar roupa e uns varais. Da sala havia uma passagem para a cozinha, onde também havia uma porta com passagem para o jardim. Na cozinha, à esquerda, pouco depois da entrada para o jardim, o único banheiro da casa. E, finalmente, também da cozinha, a porta de entrada para o quarto dos três filhos homens. Um troço curiosíssimo: Aurélio, o mais velho, era tricolor como o pai; Renato era vascaíno e Ricardo, rubro-negro como eu. Não me recordo, nem a fórceps, do time da Martinha. Do que me recordo, mesmo, era da comida da dona Isaurinda, dos lanches que a dona Isaurinda preparava, e da ansiedade com que esperávamos, no final do dia, geralmente depois de disputadas partidas de botão ou de futebol de meia, o seu Mário chegar com pacotes de figurinhas que disputávamos avidamente, sentados à mesa da cozinha daquela casa simples cujo cheiro me persegue até hoje.

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