Arquivo do mês: agosto 2008

>TIJUCARMA

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Há quem creia que todos temos um carma a cumprir. Eu, e já sei disso há tempos, tenho um (ou uma, como queiram) tijucarma para carregar pelo resto da vida. E explico. Recebi, ontem, um comentário (que recusei) deixado no texto A TIJUCA ACABOU? NUNCA!!!!! (leiam aqui) assinado (sem, entretanto, qualquer identificação que comprovasse a origem) por Carmelo Maia (o mesmo nome do filho do saudoso Tim Maia). Não o publiquei mas darei a ele o necessário destaque para que vocês vejam com seus próprios olhos o gentilíssimo aparte do cara:

comentário recusado deixado em 24 de agosto de 2008 no BUTECO DO EDU

Que tal?

É a isso que chamo tijucarma. Eu, humílimo morador do mais aprazível bairro da cidade, apenas e tão-somente porque vivo daqui, de dentro do balcão, exaltando as qualidades da minha Tijuca, sou chamado, gratuitamente, por um cidadão a quem não conheço, de alcoólatra. E esse mesmo cidadão atribui a meu alcoolismo (que existe apenas em sua cabeça) esse amor incondicional pelo bairro onde nasci e fui criado. Uma tolice sem fim, francamente.

Como se não fosse possível amar a Tijuca de forma incondicional. Como se apenas a zona sul da cidade fosse passível de loas e de exaltações. Como se um homem sóbrio, como eu, às sete horas da manhã de um dia qualquer, não pudesse descer, ir à rua, ir à padaria, ir ao jornaleiro, sentindo-se plenamente feliz por estar caminhando por calçadas sem o cheiro da maresia. Como se apenas fora de si, bêbado, um homem pudesse ver beleza na Tijuca.

Nem vou me dar ao trabalho – falta-me tempo, paciência e disposição – de responder ao Carmelo Maia (ou a quem se valeu desse nome).

Vou – prefiro – erguer um brinde de dentro do balcão imaginário do BUTECO à Tijuca e a todos aqueles que têm olhos de ver, como eu vejo, a beleza que escorre pela Conde de Bonfim, descendo o Alto da Boa Vista, fertilizada pelas terras da Floresta da Tijuca, inundando e irrigando o bairro que me conhece como niguém.

Até.

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>AINDA SOBRE A TIJUCA

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Muito provavelmente motivado pela partida do velho Caymmi para a nova vida, foi que flagrei-me, ontem, saindo para o trabalho, cantarolando imaginariamente para a assistência que me lê e que não conhece o pedaço onde amarrei meu burro:

“Você já foi à Tijuca, nega?
Não?
Então vá!
Quem vai à Tijuca, minha nega,
nunca mais quer voltar…”

Cantei e me lembrei da fabulosa confissão pública feita por meu querido Bruno Ribeiro em seu BOTEQUIM DO BRUNO (leiam aqui), da qual extraio o seguinte trecho:

“O que quero dizer desde o princípio é que, hoje, também me sinto um pouco tijucano. Nos últimos anos, por exemplo, não me lembro de uma única viagem que eu tenha feito ao Rio de Janeiro sem que tivesse passado pela Tijuca ou me hospedado neste aprazível bairro. Diria mais: seria capaz de passar minhas férias inteiras sem sair da rua Almirante Gavião, onde está cravado o portentoso botequim Rio-Brasília.”

Outro que, recentemente, declarou sua paixão pelo mais aprazível bairro da cidade do Rio de Janeiro, foi Fernando José Szegeri, em seu SÓ DÓI QUANDO EU RIO (leiam aqui). Notem:

“Ultimamente estava morando na Almirante Gavião, mas confesso que outro banzo tijucano é dono dos meus quereres – inspiração desta crônica – numa rua com nome de revolucionário anti-imperial. O nome da moça, claro, eu não conto.”

Notem que os dois, verdadeiros tótens de sabedoria que me achatam com um simples olhar, não me deixam mentir.

Na Tijuca não há praia, mas em suas ruas, calçadas e praças caminham as moças mais bonitas do Brasil, com saias que revelam o que nossos olhos antevêem e com sandálias de dedo capazes de enlouquecer o cego da esquina. Na praia, não duvide: aquela sereia estendida na areia que te tira do sério vai voltar pra Tijuca depois do pôr-do-sol. Não há mais cinema de rua, queixa comuníssima por essas bandas, mas as maiores estrelas, protagonistas dos sonhos mais bonitos, dignas dos maiores papéis, passeiam por aqui, bebericam no mesmo buteco que você, saem de manhã bem cedo com carinha de sono pra comprar pão na padaria.

Eu poderia me estender ainda muito mais, mas falta-me o tempo.

Você já veio à Tijuca?

Não?

Então venha.

Como era sábio, o velho Caymmi.

Até.

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A TIJUCA ACABOU? NUNCA!!!!!

Foi meu dileto amigo Felipinho Cereal quem me cutucou virtualmente ontem no final do dia. Mandou-me o link direcionado para a carta de uma leitora, que foi publicada no blog sobre os bairros da cidade do Rio que o jornal O GLOBO mantém no ar. A tal carta, na íntegra, pode ser lida aqui.

Eu, hoje, suspendo as porta de aço do BUTECO apenas para me dirigir à leitora, que assina Nancy Aguiar. Compreendo, sinceramente, que cada uma das razões que, digamos, desiludiram a autora da carta, seja uma razão capaz de abalá-la e desequilibrá-la. Eu não a conheço, razão pela qual não posso querer saber mais do que suas palavras expõem, e suas palavras expõem uma pessoa triste com o destino dado ao bairro em que vive. O que não compreendo – e eis aí a principal razão pela qual dirijo-me a ela – é o título dado à carta – A TIJUCA ACABOU! – e a forma como ela vê o mundo, e conseqüentemente o bairro onde nasci e fui criado.

Peço licença a meus poucos mas fiéis leitores para me dirigir diretamente à dona Nancy.

A Tijuca, dona Nancy, ainda é um lindo bairro. Permita-me listar algumas das maravilhas daqui: temos ruas mais arborizadas que qualquer outro bairro da cidade (pau a pau com o Grajaú, que é um apêndice da Tijuca!), temos a maior floresta urbana do mundo, a Floresta da Tijuca, temos vários pequenos bairros dentro da Grande Tijuca que dão à Tijuca uma cara multifacetada e cheia de microcosmos incapazes de macular o conjunto, e falo do Maracanã, da Aldeia Campista, da Muda, da Usina, pequenos vilarejos com ares de cidade pequena, ainda cheios de casas (a senhora conhece, por exemplo, a rua Caruso, a rua São Vicente, a rua Domício da Gama, a rua Almirante Gavião, a rua Alberto de Sequeira, ruas fabulosas com imensa maioria de casas?), ainda com muitas praças. Aliás, permita-me lhe recomendar a leitura de cinco roteiros de passeios dentro da Tijuca que preparei entre os meses de maio e junho deste ano (aqui o primeiro, aqui o segundo, aqui o terceiro, aqui o quarto e aqui o quinto).

Não há mais “cinemas maravilhosos” na rua, é verdade, mas em que bairro há? Os shopping-centers, verdadeiras anti-cidades, gigantescas estruturas capazes de desestruturar a vida sadia de um ser humano, detêm hoje quase todos os cinemas da cidade, salvo raríssimas exceções. Ainda há lanchonetes famosas, dona Nancy, assim como ainda há diversos clubes (o TIJUCA, a AABB, o MONTANHA…).

Quanto ao bairro ter virado “um mercado de rua aberto, cheio de camelôs, menores de rua desrespeitando tudo e todos, ladrões desenfreados, ruas desertas, favelas crescendo sem controle, e olha que as favelas são pequenas, seria fácil contê-las, comércio de rua acabado”, discordo da senhora mais uma vez. A cidade do Rio de Janeiro, desgovernada há tantos anos, permitiu esse estado de coisas – não apenas na Tijuca.

O comércio de rua – citado em sua carta – aqui na Tijuca, por exemplo, mantém-se firme e forte, mesmo com importantes baixas de vez em quando… Ainda é possível comprar flores em lojas de rua, onde pode-se manter conta mensal, inclusive. Açougues, mesmo com o sumiço do glorioso AÇOUGUE RECREIO (leia sobre ele, aqui), há aos montes. Meu pai tem conta em um perto de sua casa, minha avó idem, e isso é comum em todo o bairro. Há sapatarias, vidraçarias, lojas de roupa, armazéns, pequenas quitandas, e é preciso, apenas, ter olhos de ver, dona Nancy, para perceber que a Tijuca ainda é um bairro caloroso, humano ao extremo, onde o convívio com o próximo é fácil, é desejável, é característico de cada quarteirão daqui.

Creio que a senhora se entrega quando diz… “Vou focar no meu quarteirão. Olhem quantas infrações, em todos os níveis, me deparo diariamente. Cruzamento da Maracanã com José Higino. Sinal avançado em qualquer hora do dia, retorno de quem vem da José Higino para a Maracanã, mesmo proibido, todos fazem, colocando pedestres em risco, Supermercado Extra (onde era a Fábrica da Brahma) abandonado, qualquer dia vai ter arrastão lá, com certeza, eles não tem e não nos dão segurança, menores de rua dormindo e tomando banho num cano aberto no Rio Maracanã, tiroteios ouvidos em qualquer horário do dia, Rio Maracanã fétido.”.

Quem pode ser responsabilizado pelas infrações cometidas na sua esquina, dona Nancy? Os motoristas, sem educação, os guardas responsáveis pelo controle do trânsito que não coibem as irregularidas ou o pobre bairro da Tijuca?! E o que tem o pobre bairro com o abandono do SUPERMERCADO EXTRA? Os meninos de rua, dona Nancy, estão em toda a cidade: na Tijuca, em Copacabana, no Leblon, no Centro, em Ipanema, e são todos filhos da pobreza que não merecem a atenção devida do poder público, não sendo – em absoluto! – um problema particular da Tijuca. O EXTRA está abandonado? Não oferece segurança? Então, dona Nancy, passe a ir ao MUNDIAL da Matoso, o maior supermercado do mundo!!!!!

Os tiroteios não são – de novo – exclusividade nossa. E acho melhor a senhora não tentar macular o Rio Maracanã, hein! O Maracanã é nosso rio, é de onde provém o soro poluído que nos salva depois de cada porre, como cantaram os poetas capazes de ver a beleza correndo o bairro, cortando suas ruas e desagüando no mar.

Dê-se uma chance, dona Nancy!

Olhe mais à sua volta e com mais amplitude.

No finalzinho de sua carta a senhora exalta duas pequenas belezuras que saltaram aos seus olhos que foram capazes, naquele instante, de ver o que o mais fabuloso bairro da cidade tem para nos oferecer.

Olhe permanentemente para o alto. Há um amigo meu, o Rodrigo Ferrari, que sempre que vem aqui diz:

– A Tijuca tem o céu mais bonito da cidade!

Ande mais a pé. Evite o metrô. Evite o shopping. Já que a senhora deu a dica de onde mora… Caminhe pela avenida Maracanã em direção à praça Xavier de Brito. Sente-se no BAR DO PAVÃO. Puxe conversa com ele, o Pavão, e com a dona . Pergunte pela dona Olívia. Converse com a dona Olívia. Fale em meu nome.

Beba um chope com eles. A senhora não bebe? Não tem problema…

Caminhe pela praça, perceba tudo à sua volta, o chafariz, a escola municipal, o prédio tombado da CEDAE, e volte embriagada de tanta boniteza e simplicidade para casa.

E aceite meu fraterno abraço. Do tamanho da Tijuca.

Até.

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>TAÍ!!!!!

>painel do BLOGGER acusando a publicação do milésimo texto do BUTECO

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>1.000

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Sentei-me há pouco diante da tela do computador, a janela à minha esquerda por onde entra um sol que reina num céu de azul intenso-sem-nuvem como testemunha e o sistema de edição do BLOGGER acusava que eu estava prestes a escrever o milésimo texto do BUTECO.

Diante disso, diante dessa constatação, não tenho nada, rigorosamente nada para lhes dizer no dia de hoje.

Sentei-me aqui com várias idéias na cabeça. Mas todas sucumbiram diante desse fato.

Todas.

Acho – apenas acho – que eu mesmo me comovi tremendamente com isso.

Até.

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>A OXUM MAIS BONITA

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(encontrado numa folha de papel A4 deixada sobre uma mesa do Rio-Brasília na noite de ontem)

“Quando ela dobrou a esquina, de surpresa, e iluminou ainda mais a rua já banhada da prata que a lua cheia derramava sobre a ruazinha tijucana, foi emoção demais pros meus anseios. Ela veio, você sabe, ela veio – eu disse olhando pra bola redonda que boiava sobre nós. Quando ela abraçou meus amigos com braços de aconchego e mãos de afeto e depois sentou-se a meu lado com os olhos um pouco menos marejados que os meus, senti minhas mãos trêmulas e fui encontrar amparo em suas mãos, pousadas sobre suas pernas. Ofereci a ela uma cerveja, e ela disse que não. Segundos depois, eu com os olhos cabisbaixos e um pouco sem-graça com a sugestão que julguei inoportuna, ela me disse com um sorriso embriagante que gostaria de uma batida de maracujá. Ergui o braço, pedi quatro batidas ao dono do bar e fui o homem mais feliz do mundo a cada gole meu, a cada gole seu, e nem me chateei quando ela se despediu, meio hora depois, dobrando de volta a mesma esquina que a trouxe. Eu e meus amigos choramos sem motivo aparente. Estávamos felizes, plenamente felizes, depois da acachapante presença da Oxum mais bonita entre nós.”

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>DORIVAL CAYMMI (1914-2008)

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O BUTECO cumpre o doloroso dever de informar a todos aqueles que aqui chegarem nesse sábado de céu azul e calor confortante, que subiu aos céus, hoje cedinho, pra conversar com Oxum mais de perto, Dorival Caymmi.

O que se beber hoje, não apenas no balcão imaginário, será em homenagem a ele – um dos maiores compositores do mundo.

Lembro-me da primeira vez que ouvi uma canção do Caymmi. Foi quando meu pai, assobiando ACALANTO, tentava fazer meu irmão dormir. Sabe-se lá por quais razões, essa certeza mora em mim: foi assim, desse jeito, que ouvi a primeira canção de Dorival Caymmi. Lembro-me, um bocado mais tarde, de meu pai (de novo e sempre ele) chegando em casa com um LP duplo, presente de final de ano da PETROBRAS, onde meu velho trabalhou a vida inteira, com Caymmi cantando ao vivo, no Teatro Castro Alves, em Salvador, acompanhado apenas por seu próprio violão.

Ouvi esse disco centenas de vezes. Decorei cada letra, aprendi a tocar cada uma delas no violão, e – ah, nossas maluquices… – passei a sonhar com o dia em que eu conheceria a Bahia e a cidade de Salvador.

Fui conhecer Salvador muito depois, há poucos anos, e não saberia explicar a vocês – as maluquices não nos deixam nunca! – o por quê disso, mas senti uma emoção indescritível quando pisei naquela terra.

Tudo o que eu vi, tudo o que eu ouvi, cada cheiro que senti, eu já conhecia. Cada baiana, cada ladeira, cada beco, cada igreja, cada praia, eu já conhecia.

Graças a ele.

Até.

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>JOAQUIM, UM GENTLEMAN

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Na segunda-feira, 11 de agosto, dia do advogado (nenhuma pessoa, viva ou morta, dirigiu-me um simplório voto de parabéns), escrevi NO RIO-BRASÍLIA (leiam aqui), contando-lhes sobre a agradabilíssima tarde de sábado que lá passei na ainda mais agradável companhia do Vidal. Ilustrei o tal texto com uma fotografia (veja-a em tamanho gigante aqui) da conta que pagamos naquela tarde. E foi meu pai, meu obsessivo, atento e metódico pai, que apontou o dedo em minha direção e disse:

– Du, você notou que a conta está somada errada?

Não, eu não havia notado. Não havia notado, o Vidal não havia notado, e deu-se a bulha no balcão imaginário do BUTECO.

Ontem, munido da fotografia impressa, dirigi-me ao templo de paredes azulejadas em azul e preto – estava vazio, vaziíssimo, ainda bem! – na companhia (em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades) de Cesinha Tartaglia, Felipinho Cereal, Marcelo Vidal e Rodrigo Ferrari.

Como não poderia deixar de ser, basta uma análise rápida da qualidade do local do encontro e dos personagens à mesa, a noite foi fabulosa. Pela mesa passaram algumas casco-escuro da Brahma, a clássica carne assada com coradas, muitos pastéis, doses de limão da casa e de maracujá, fígado e contrafilé acebolados, porções de lingüiça calabresa (nunca abandonarei o trema) e eu estendi, à certa altura, a fotografia para o Joaquim.

Branco como talco, mãos e lábios trêmulos, disse-me o bom:

– Foi sem querer… Puxa vida… Foi sem querer…

Estendeu-me uma nota de dez, que recusei:

– Desconta no final, Joaquim!

– Pelamordedeus, professor, pelamordedeus, aceite aí…

Consegui convencê-lo a descontar os dez reais apenas no final, mas foi incrível ver o sem-jeito dele diante de um deslize tão pequeno – ah, as lições que nos dá um buteco.

Foi um craque, ontem à noite (ele é um craque), o Joaquim.

Fechamos a noitada, eu, Cereal e Digão, bebendo a saideira oferecida pela casa, todos de pé diante do balcão, assistindo a algumas provas de natação na TV, e morrendo de rir diante dos comentários do cearense Joaquim sobre a ausência de brasileiros nas competições. Frases como:

– Um país desse tamanhão e não tem uma besta pra ir lá derrubar esse tal de Félpi!

Até.

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>RB

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É preciso, às vezes, uma certa dose de cinismo, um sorriso de canto com o cigarro imaginário pendendo do canto da boca, uma dose de limão da casa numa das mãos, um punhado de gente querida sentada à mesma mesa, para driblar o peso do dia-a-dia. É preciso que a mesa seja num lugar que fale ao coração, é preciso sentir-se em casa, é preciso não se preocupar com rigorosamente nada, ainda que por algumas horas, é preciso, é imperiosamente preciso. É preciso que, nesse tal lugar, que há de ser um bar, haja intimidade com os garçons, é preciso ser servido por Deus num dos mais pagãos templos do bairro, benção maior que um homem de fé pode desejar, ou então pelo Imperador em pessoa, um sujeito que faz do morro do Borel a sua Roma Negra e que é capaz de atender a você durante toda a noite com um sorriso digno de começo de dia. É preciso que o dono do buteco tenha a dose certa de mau-humor e de intolerência diante das reclamações injustas lançadas da mesa ao balcão, desde a temperatura da cerveja até o alto teor de gordura dos pastéis. É preciso que a dona tenha permanentemente as mãos cheias de carinho e os olhos cheios de fumaça – a cozinha não pára, o exaustor não dá conta e o bêbado insiste em fumar diante dela, falando sem parar e sem exigir atenção. É preciso que o cenário esteja em ordem, que os personagens estejam na área, que as casas em volta façam silêncio, que haja um grito de prazer vindo de alguma janela entreaberta suscitando os mais torpes comentários da assistência e que haja uma briga, dessas escandalosas, a fim de que os cronistas anônimos tenham o que contar no dia seguinte. É preciso que haja barulho de vidro denunciando os brindes feitos com os copos americanos cheios de cerveja, que haja o barulho de talheres cortando a mais bem feita carne assada da cidade, que haja um gemido de êxtase diante das coradas, que haja limão e maracujá dando ainda mais cores à mesa e à vida, que haja disposição para perceber que é preciso viver tudo isso, é preciso. É preciso. Definitivamente, é preciso.

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>NO RIO-BRASÍLIA

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Não precisou de mais do que isso.

conta do Rio-Brasília, em 09 de agosto de 2008

Sete garrafas casco-escuro de Brahma, um bife à milanesa com arroz, feijão e fritas, dois pastéis de carne fritos na hora e dois saquinhos de amendoim depois, eu partia do RIO-BRASÍLIA em direção à minha casa após – o quê? – pouco mais de quatro horas de boa conversa com ele, o amigo de há mais de duas décadas.

O Vidal bateu-me o telefone cedo, cedíssimo, e já com um apetite de judeu depois do jejum do Yom Kipur:

– Vamos almoçar no Rio-Brasília?

– Almoçar? Mas eu acabei de tomar o café da manhã…

Nem precisei de muitos argumentos.

Sentar-se à mesa de um buteco qualquer (se for o de fé, ainda melhor!) com um amigo desses, de vida inteira, e com disposição para derrubar algumas garrafas enquanto o verbo é solto, é uma das mais sublimes experiências pela qual pode passar um homem devotado ao prazer que só a presença de um amigo de verdade é capaz de proporcionar.

Rodrigueanamente, vazado de luz, atravessei a Almirante Gavião em estado de graça.

Até.

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