QUITANDA ABRONHENSE

Ontem, quando me dirigia para o ponto do glorioso 406A, ônibus que me leva diariamente para o trabalho, parei diante da não menos gloriosa QUITANDA ABRONHENSE, na rua do Matoso, e encomendei, na hora, com a simplicidade só possível ao comércio de rua, meia-dúzia de côcos para serem entregues em minha casa. Paguei, deixei um trocado pro rapaz que faria a entrega, ele foi, voltou, e eu ainda estava esperando a condução, pensando no que vou lhes contar agora. Um detalhe, antes: não foi o ônibus que demorou, é que eu moro ali do lado!!!!!

Quanto mais o tempo passa (aproximo-me dos quarenta…) mais uma certeza crava-se em mim. O homem, para ser feliz, para ser plenamente feliz, para ao menos experimentar a sensação da felicidade, acompanhada de uma sensação de conforto, de integridade (prestem atenção à palavra), precisa ter olhos de ver, e olhos de ver mais além. Só assim, meus poucos mas fiéis leitores, o homem conseguirá integrar-se ao meio em que vive – e dessa integração é que nascerá (vou explicando, vou explicando) sua sensação de plenitude.

Vejam bem.

É bem verdade que eu já falei sobre isso, aqui mesmo no BUTECO, de outras maneiras, seguramente, quando falei sobre a beleza que mora na simplicidade das coisas da vida, quando sugeri passeios pela Tijuca etc (não estou disposto a me estender para não perder o fio da meada). Mas quero ser, hoje, mais direto.

O homem que procura, diária e constantemente, estar integrado ao meio em que vive (e refiro-me, especificamente, ao lugar em que moramos), é infinitamente mais feliz do que aquele que se isola ou que, mesmo não buscando o isolamento, não estende o olhar à sua volta, à sua frente, não busca entendimento com as pessoas e com as coisas que fazem parte do cenário do dia-a-dia. Vou ser mais claro.

O morador da Haddock Lobo, por exemplo, tem diversas opções em termos de supermercado (a pé, apenas): o REDE ECONOMIA, o PÃO DE AÇUCAR, o MUNDIAL. Conheço os três, vou sempre aos três conforme a conveniência de minha compra, e tenho por hábito cumprimentar os seguranças, as caixas, os empacotadores, os locutores (há locutores nos mercados da Tijuca!), todos, enfim. Mas é preciso que haja olhos para o pequeno comércio, similar, de rua. Infinitamente mais caro, é verdade, eles merecem nossa atenção pelo que de humano podem oferecer no trato com você. O dono, a dona, geralmente te chamam de “freguês”, tem sempre um sorriso a postos, tem produtos, as mais das vezes, mais frescos, mais bem selecionados e – batata, batata! – uma boa história na ponta da língua pra contar. Tem, conseqüentemente, o que ensinar a você.

Ali, na minha área (essa que você pode ver no mapa abaixo), que acaba de perder o AÇOUGUE RECREIO, como bem apontou meu queridíssimo Felipinho Ceral em seu blog, o BOEMIA E NOSTALGIA (o texto a que me refiro pode ser lido aqui), há de tudo um pouco, e cada visita (ainda que para nada, apenas para um simples “olá, como vai?”), cada aceno, me dá essa sensação de integração tão fundamental para a nossa contextualização dentro do mundo, do continente, do país, da cidade, do bairro, da rua.

mapa de trecho da Tijuca

No trecho da Matoso a que me refiro, há uma pastelaria, um salão de beleza, uma casa lotérica, um sapateiro, uma loja tem-de-tudo (como não existe mais!) – colchões, eletromésticos, miudezas, tudo pendurado no teto, entulhado pelo chão, abarrotando a simpática loja! -, duas lojas de produtos veterinários, uma loja de decoração (pisos, tecidos para cortinas etc), algumas lanchonetes, a gloriosa quitanda que dá nome ao texto de hoje, um armarinho, uma loja de automóveis. No trecho em destaque da Haddock Lobo há dois supermercados, três jornaleiros, uma distribuidora de bebidas, dois clubes, um buteco, uma farmácia, dois bancos, duas agências de automóveis, uma oficina mecânica, duas lojas de ferragens, algumas lojas de roupa, uma sapataria, uma papelaria, um motel, uma garagem 24h, uma galeria com intenso comércio, e – tenham isso como certo – conhecer as pessoas que trabalham ali, os donos, tudo isso, engrandece demais a gente.

Você deixa de ser um cartão de crédito ou de débito, ou um consumidor anônimo portando o dinheiro que trocará por mercadoria, para ser gente.

E gente com capacidade de conhecer, conviver e entender gente, é infinitamente mais feliz e mais inteira.

Até.

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24 Comentários

Arquivado em Rio de Janeiro, Tijuca

24 Respostas para “QUITANDA ABRONHENSE

  1. >A Quitanda Abronhense é referência na Tijuca. No fim de cada tarde sempre pintam uns coroas pra jogar um carteado por lá. Temos que marcar uma tarde/noite para bebermos as cervejas da casa, são geladíssimas. Topas? Beijo.

  2. >Mas é evidente que eu topo, malandro! Basta marcar… Afinal… moramos longe um do outro, não?!Me ligue e marcaremos! Penso que, a princípio, podemos agitar isso pra quarta-feira da semana que vem… Dali partiríamos para o RB, eis que pretendo apresentá-lo ao MM, que ainda não conhece o tesouro. Vamos?E vale lembrar, também, que na esquina da Haddock Lobo com a Alberto de Sequeira, quase em frente ao Sindicato dos Fumageiros, onde hoje existe uma loja especializada em lanternagem, pintura etc (uma espécie de “martelinho mágico”), havia, também, há até pouco tempo, uma QUITANDA ABRONHENSE – lembra? Igualmente caríssima, mas igualmente envolta numa atmosfera tijucaníssima e fundamental para manter o pH do bairro. Beijo.

  3. >E tem outra coisa, querido (você certamente sabe disso, apenas se esqueceu de citar): a pessoa integrada à vida do bairro, aquela que anda a pé e que conhece – ainda que seja de vista – as pessoas com as quais divide o mesmo território, sabe que a “onda de violência” não é tão grande quanto nos mostra o Jornal Nacional. Ela sabe que – sim! – é possível caminhar à noite pelas ruas, conversar com os vizinhos na calçada, enfim, ela se torna uma pessoa muito menos paranóica porque se sente protegida, parte da comunidade. O ser humano, para ela, não é mais uma ameaça, mas um igual a quem ela pode recorrer nos momentos de aflição. O “medo à violência” é, também, fruto de uma postura extremamente individualista, disseminada sobretudo entre a classe média alta das grandes cidades. Uma postura e uma mentalidade que excluem a rua e o pequeno comércio de seu cotidiano, crendo que lugares fechados e impessoais são mais “seguros”. Vem daí – e eles talvez não saibam – a depressão, a infelicidade, o medo, a solidão, o vazio…

  4. >Bruno, mano querido: não esqueci, não… É que eu sabia que você completaria o texto com o brilhantismo costumeiro!Falando sério, agora.Meu pai é testemunha disso e poderá, se quiser, atestar o que digo, por aqui mesmo…Eu SEMPRE digo isso a ele e à mamãe, e geralmente às segundas-feiras à noite, quando estou com eles, na casa deles, para jantarmos juntos. E invariavelmente perto da hora de voltar pra casa quando as recomendações de cuidado, previsíveis e atenciosas, se fazem presentes…A violência é infinitas vezes menor que a sensação de insegurança. E a sensação de insegurança é gerada por conta da retração do homem, por conta do isolamento do homem, por conta do encastelamento do ser humano dentro de domínios que só existem na cabeça dele e por conta da disseminação desse medo, como doença contagiosa, que é – tenho certeza disso – injustificável.Crimes isolados não podem ter o condão de abater o homem íntegro e integrado.É isso.Você disse tudo. Obrigado e beijo.

  5. >Grande Edu,voce não sabe como me toca este texto , ainda mais com o complemento do Bruno. Quando vim morar no Rio, foi na Matoso que vivi o primeiro ano, em uma pensão que ficava mais ou menos em frente ao Mundial!! Forte abraçoMarcelo Alves

  6. >Lembro-me perfeitamente desta outra quitanda, faz falta, mas prefiro a da Matoso mesmo. Outros comércios são marcas de nossa área: Na Haddock Lobo, entre a Matoso e Paulo de Frontin, temos o depósito de doces Popeye, a Braseiro Modas, Bidú Modas, a Flor de Liz (mescla de floricultura e papelaria), a ótica do bairro fica ali também, e sem contar com a gloriosa Ervedosa, loja de materiais de construção que pegou fogo há uns três meses, mas que se mudou para a Barão de Itapagipe.Quanto à cerveja na Quitanda Abronhense, ótimo, fechado para a semana que vem. Depois levamos o querido MM no RB.

  7. >Que beleza, Marcelo, que beleza! A isso eu chamo chegar no Rio com o pé-direito e pela porta da frente! A rua do Matoso merecerá, meu caro, em brevíssimo – e convocarei o Felipinho Cereal para me auxiliar na tarefa – uma série aqui no BUTECO. Trata-se de uma grande rua, com um comércio de rua capaz de comover um paralelepípedo.Felipinho: vê-se que você é – eu sempre digo isso – uma autoridade, um Sumo Pontífice em termos de Tijuca. Você está publicamente convidado para me auxiliar nessa tarefa de dissecar a Matoso numa série aqui pro BUTECO. Faremos fotos, entrevistas, registros memoráveis, espere só pra ver. Grande beijo, querido. Tenho um gigantesco orgulho de ter você entre os meus.

  8. >Na 28 de setembro, quase esquina com a Visconde de Abaete, ha uma quitanda chamada Abrunhosa. Tambem cara, tambem com produtos super frescos. Quando menina era la que eu comprava tomates para a minha mae, pois eram sempre muito mais bonitos que os do Boulevard. Serao irmas as quitandas? :)Beijos!

  9. >Ô, Betinha, são irmãs, sim. São zona-norte, como somos nós, são mais bonitas eis que mais simples, são testemunhas da nossa devoção pela beleza e pela simplicidade. Saudade olímpica de você… E já que você falou na sua mãe… faço, daqui, exclusivamente para o Szegeri, a confissão pública que fiz pra você, pelo celular, no próprio sábado…Szegeri, querido: sábado fui com Dani ao churrasco de aniversário da Lelê Peitos. Lá chegando, mano, quem foi a primeira pessoa que eu encontrei?Dona Miriam, mãe de sua musa.Faça uma idéia da cena.Sabes bem do que estou falando.És, também, doutor na matéria.Beijo em vocês três, Xerife incluído.

  10. >Grande! Vamos da Praça da Bandeira e registraremos tudo até chegar na Barão de Itapagipe. Podemos começar pelo bar MATOSINHO, o primeiro da rua, que fica do lado esquerdo, colado no Motel SAYONARA. Beijo, irmão.

  11. >Fechado, mano, fechadíssimo! Vai ficar bonito demais! Beijo.

  12. >Edu,Na Matoso,tinha uma biblioteca,ainda esta por lá?Abraço.Leonardo

  13. >Com o perdão da ignorância, alguém tem alguma idéia do que significa “abronhense”? Zè Sérgio (você ainda existe?), socorra-nos!P.S. Chorei como um recém-nascido ao constatar, súbito, essa verdade elementar, evidente, ululante: Betinha é da Vila Isabel…

  14. >Leonardo: biblioteca?! Há uma (ou duas) livraria… Não que me conste. Mas vamos checar! Abraço.Szegeri: querido… então imagine sua musa (com a licença do Xerife), menina-em-flor, indo comprar tomates no Boulevard 28 de Setembro pro almoço…Beijo.

  15. >Abronhense é quem nasce em Abronhosa, Portugal. Liguei pro dono, o “Zé da quitanda”. Português trabalhador e, às vezes, amável.Biblioteca, não tem mais não. Se não estou enganada, acabou nos anos 80, do século passado.

  16. >Obrigado, Olga! Você estava sumida! Abraço.

  17. >Grande Edu e Leonardo,havia, sim, uma biblioteca pública na Matoso próxima a Haddock Lobo e com ar condicionado e por ali também estava o Comodoro , tudo isto em 1973.Forte abraçoMarcelo Alves

  18. >Du , incrivel , mas ninguem se lembrou que na Matoso esquina com Haddock Lobo tivemos um dos maiores cinemas do Rio de janeiro , o famoso MADRI , onde foi palco de inumeras matadas minhas de aula e colado ao cinema , o famoso Divino Bar , onde a paquera comia solto com as meninas do Paulo de Frontin e onde realmente se criou a jovem guarda…. e a famosa casa dos parafusos ainda existente na matoso ?? tem tudo que é tipo de parafuso ………..acho que vou caminhar com voce e felipinho pra mostrar o que é verdadeiramente a rua do matoso……….

  19. >Marcelo Alves: obrigado, cara, muito obrigado. Você teria fotografias desse tempo?! Abração.Meu pai amado: escrevi um texto sobre sua eventual presença, meu velho, depois de ler esse seu comentário. Eu e Cereal – falo por ele sem autorização e sem medo do erro – ficaremos felizes e emocionados com sua presença. Beijo.

  20. >Olga, Olga: obrigado! Não, obrigadíssimo!!! Menos por você esclarecer o sentido da palavra “abronhense”, que no fundo não tem importância nenhuma (fora que, o que eu imaginava que significava era muito mais divertido; pensava eu, por exemplo, que o Zé Sérgio era abronhense, mas vejo que não…). Mais porque o teu comentário é simplesmente o MAIOR, em toda a história deste balcão tão maltratado. “Ligar para o português”, além de ser de uma gentileza extrema com a minha interrogativa pessoa, me fez chorar durante 25 minutos. Quem é que liga para xópim center? Vai falar com quem, meu Deus??? Além do mais, o saloio é amável. Às vezes. Genial. Genial…

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  22. Morei no 181, apartamento 206, ao lado da dona Rebeca e Perla (mãe e irmã do Silvio Santos), no Edifício ALCAZAR na década de 50. Pergunto se esta era a quitandinha que ficava em frente ao prédio! Sou de 1945, estudei no LAFAYETTE e a Tijuca era o meu quintal! Sergio, 24-2453168. Cine Comodoro na galeria da Haddock Lobo em frente ao Divino e Biblioteca Municipal ao lado do depósito da Kibon, quase na Barão de Itapagipe!

    • Sergio, será que você conheceu meu pai – Issac Goldenberg – também do La-Fayette?!

      • amigo Eduardo, e bem provável.Talvez nâo na mesma turma ,mas tenho certeza que temos amigos em comum , lembranças de professores e muitas estórias pois o la-fayette foi um marco em nossas vidas ! Pergunte se ele lembra do Gonzaguinha, pois foi da minha turma por dois anos; Isso merece um bom papo na quitanda abronhense que verifiquei tratar-se da mesma que fica defronte ao ed.Alcazar . Acho que sou o freguês mais antigo.devia ter uns dez anos talvez na primeira serie ginasial, por ai ! A propósito,faltou um alg. -o tel certo é 24 24533168 ; cel.vivo 22 99782783 Abraços a todos ! sergio arouca..

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