Arquivo do mês: julho 2008

>FRESCURA NA COZINHA

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Vejam vocês uma coisa… Publiquei, dia desses, aqui no BUTECO, minha receita de bife à parmegiana (que pode ser lida aqui). Dias antes, meu chapa Bruno Ribeiro escreveu um texto sobre a rabada que preparo, e que pode ser lido aqui. E tanto no meu texto como no texto do Bruno, meteu o pitaco Fernando José Szegeri:

– Daria meio braço pra saber por que diabos o bife é à parmegiana e o queijo é parmiggiano… Ô, frescura! – disse ele diante do meu balcão.

Depois foi ao balcão do Bruno e esbravejou:

– Mano Bruno: eu, que não sou exibido como o Edu e moro mais perto, terei enorme satisfação de fazer-te uma rabada à moda suburbana. Leia-se, sem frescura. E tomando cachaça!

Notem bem, meus poucos mas fiéis leitores, que Fernando José Szegeri, um homem que tem extremo orgulho de seu nome e de seu sobrenome, tirou os dias recentes para me agredir (é, é verdade, uma de suas velhas manias, mas a coisa vem piorando a olhos vistos).

Pequena pausa. Deu-me, há semanas, o Szegeri, um telefonema. Em resumo, deu-se o seguinte:

– Edu?

– Sim!

– Posso pedir-te um favor?

– Dois!

– Quando te referires a mim, em teu blog, escreva Fernando José Szegeri, por favor.

– Como assim?

– É que escreves sempre Fernando, ou Szegeri, ou Fernando Szegeri, ou o homem da barba amazônica… não é verdade?

– É verdade.

– Então. Se puderes, escreva Fernando José Szegeri… Inteiro. Pode ser?

Ri, falamos um bocado mais, e desligamos.

Como o atendo sempre, voltemos ao tema de hoje.

Fernando José Szegeri crê, então, como se vê diante de suas duas declarações, que eu cozinho com frescura. Confesso a vocês, diante do balcão, que fui pego de surpresa. Já cozinhei inúmeras vezes para o homem da barba amazônica, no Rio e em São Paulo, e NUNCA (dito com uma ênfase que só ele sabe dar) recebi crítica parecida. Assim, de cabeça e de sopetão, sem parar muito para pensar, posso afirmar, sem medo do erro, que já preparei pra ele uma carne assada na cerveja, uns canapés que aprendi a fazer no BAR LÉO em SP (de rosbife caseiro, de pasta de gorgonzola e copa e de carne crua), risottos (mais de um, seguramente), pratos que sempre preparo (e os preparei assim pra ele!) com extremo esmero (o que ele considera, noto só agora, frescura).

Mas eu, que normalmente me rendo à sabedoria que aqueles olhos embotados escondem, não me renderei dessa vez. Se para Fernando José Szegeri eu cozinho com frescura, sem qualquer traço suburbano (valendo-me de seu raciocínio exposto no balcão campineiro), prosseguirei cozinhando com frescura.

Se para Fernando José Szegeri picar alho (trocadilho de propósito) simetricamente é frescura, triturar a cebola com a faca sem dela retirar a água é frescura, preparar marinadas para as carnes é frescura, tirar dos tomates as polpas com as sementes é frescura, então – eis a confissão que faço de pé, diante do balcão do BUTECO – sou, de fato, um fresco cozinhando (e vocês me julgariam muito mais fresco se soubessem mais detalhes de todo o meu modus operandi dentro da cozinha).

Como sou autodidata, como agrado de forma olímpica quando sirvo o que preparo, não vou mudar.

E Fernando José Szegeri que me perdoe.

Até.

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DO DOSADOR

 

* estive, no sábado, por um bom número de horas, com meu velho pai, no glorioso RIO-BRASÍLIA, onde derrubamos algumas casco-escuro acompanhadas por uma fabulosa porção de lingüiça (jamais deixarei de usar o trema!) fina, isso depois de um lauto almoço, que nos custou a fortuna de R$ 11,00… Leia-se: arroz, feijão, batatas fritas e dois filés à milanesa do tamanho dos pés de meu pai, que calça 44. Foi fabuloso, também, ser interrompido por um cara que chegou-se à mesa:

– Com licença… você é o Edu?

– Arrã…

– Muito prazer. Sou seu leitor, leio seu blog diariamente…

– Ô, rapaz, que legal… Muito prazer…

Papai orgulhosíssimo.

– O prazer é meu, Edu. Eu sou Lúcio…

– Esse é meu pai, Lúcio…

– Famoso, famoso…

E retirou-se, o malandro, depois das despedidas.

Daqui, diante do balcão do BUTECO, deixo meu fraterno abraço público pro Lúcio, torcendo para que possamos, em breve, trocar umas idéias ali, naquele templo encravado na Almirante Gavião.

* estive, no domingo também, ontem, no mesmíssimo RIO-BRASÍLIA, para assistir a Flamengo e Vasco na companhia de meu velho pai, do Fefê, do Mauro e do Felipinho Cereal. Cercado por três vascaínos e por um americano, vi – felicíssimo! – uma contundente vitória do meu Flamengo, por três tentos a um. Duas notas tristes: a TV insistindo em mostrar Márcio Braga e Roberto Dinamite, lado a lado, na tribuna do Maracanã, e meu pai e meu irmão abandonando o barco aos 25 minutos do segundo tempo, esbravejando contra o inacreditável técnico Antônio Lopes. Dez Brahmas e dois limões da casa depois, tomei o rumo de casa com a sensação do dever cumprido.

* eu ando pior a cada dia com essa mania insuportável – confesso – de querer o bem dos meus, mesmo no futebol. Sofri, confesso, com a derrota do Palmeiras por 2 a 1 para o São Paulo. Eu – vejam que patético – só conseguia pensar no Szegeri, na sua expressão de angústia durante o jogo, na sua barba cerrada sendo cofiada após o apito final, no seu muxoxo melancólico antes de desligar a TV.

* eu disse, logo aí acima, “o inacreditável técnico Antônio Lopes” – e isso porque meu pai e meu irmão têm horror às qualidades do atual treinador vascaíno -, mas preciso dizer a vocês que não há nenhum técnico em atividade no mundo, vivo ou morto, mais adequado ao Vasco da Gama. Antônio Lopes comove-me, sobremaneira, jogo após jogo, com a camisa verde de seda que ele considera seu maior talismã – passada a ferro, sempre, pelas carinhosas mãos de Dona Elza, sua mulher. Para entender melhor minhas razões, leia SOBRE O VASCO DA GAMA, aqui.

Até.

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BIFE À PARMIGIANA, A RECEITA

Minha intenção era publicar minha receita de bife à parmigiana (que preparei, essa semana, na casa de meus pais, como lhes contei aqui) qualquer dia desses, mas bem mais pra frente. Mas o farei hoje. A Betinha, de quem tenho uma saudade capaz de me fazer sofrer de cólica, pediu, publicamente, diante do balcão do BUTECO (e eu a ouvi):- Eu PRECISO da receita deste filé! E do purê também, amo purê de batata! Muitos beijos!Eu disse que a ouvi e quero lhes fazer uma confissão. A Betinha ligou-me hoje, de lá dos Estados Unidos, onde está desde meados de abril. E de lá para cá, eis mais um dado confessional que faço, ela tem me ligado com bastante freqüência. E não há um único, um mísero telefonema, por mais curto que seja, que não me faça ter uma pugente crise de coriza que se segue ao choro depois que desligamos. Tenho muita saudade dela e nem quero me estender nesse assunto sob pena de sentir as lágrimas brotando dos olhos embotados. Razão pela qual seu pedido (o pedido da receita…) soa-me como ordem. Eis, então, as receitas que ela me pediu. Primeiro, do bife à parmigiana. E depois, em seguida, do purê de batatas. Em frente!

Para o bife à parmigiana (para 4 pessoas) você vai precisar de 4 bifes bem altos (uns três dedos de altura) de filé mignon, bem limpinho, já sem as arestas. Compre-os num açougue de rua, por favor! Os açougues dos supermercados, invariavelmente, não sabem como tratar a carne, e a suposta economia feita vai por água abaixo na hora de medir a qualidade do que vai se comer. Vai precisar, também, de sal e pimenta do reino preta em grão, moída na hora. Vai precisar de farinha de trigo e de farinha de rosca, de 4 gemas, de molho de tomate (de preferência feito por você mesmo, em casa… ou, em último caso, de uma lata de um bom molho de tomate), de manteiga sem sal e de óleo de milho. Vai precisar, ainda, de presunto sem capa de gordura cortado bem fininho, de mussarela também fatiada e de queijo parmigiano reggiano ralado na hora.

Tenha tudo à mão, sobre a pia da cozinha. Num prato, os quatro bifes. Noutro, um pouquinho de farinha de trigo e noutro um outro tanto de farinha de rosca. Num quatro prato, as 4 gemas. O sal e a pimenteira por perto, assim como o molho de tomate, o parmigiano já ralado e o presunto e a mussarela separados. Escoltando tudo isso, uma dose de Red Label, muito gelo, e mãos à obra.

Com paciência de oriental e uma faca afiadíssima, corte cada um dos quatro bifes no sentido longitudinal, fazendo uma espécie de sanduíche aberto, tomando cuidado para não atravessá-lo inteiramente. Você terá o que eu chamo de um livro de carne nas mãos! Deixe os 4 abertos e coloque pouquíssimo sal e pouquíssima pimenta do reino na parte de dentro dos bifes. Em cada um deles, coloque duas fatias de mussarela de cada lado, e duas de presunto no meio, ficando cada bife, então, com quatro fatias de mussarela e duas de presunto. Feche-os e pressione-os com as mãos, de ambos os lados, de maneira que fiquem achatados (não demais!), e apare as arestas do queijo e do presunto, não deixando nenhuma sobra para o lado de fora. Sirva-se da segunda dose de uísque.

Passe cada um dos bifes pela farinha de trigo, sem fazer força, apenas para aderir um pouco de farinha a eles. Depois, pacientemente e sem pressa, mergulhe-os nas gemas de ovo. Da gema direto à farinha de rosca. E agora, sim! Pressione os bifes de maneira que todos eles fiquem impregnados da farinha de rosca, inclusive nas laterais.

Numa frigideira, coloque três partes de manteiga sem sal e uma parte de óleo de milho (ou de azeite, decida aí!), de forma que seja o suficiente para cobrir os bifes. Aqueça a frigideira em fogo moderado e coloque os bifes, um a um, e deixe-os dourar muito de leve, virando com extremo cuidado para que o empanado não solte. Tome cuidado para não escurecer demais o empanado… o grande lance é o dourado que fica!

Sirva-se da terceira dose, sem pressa…

Espere um bocadinho para que os bifes esfriem um bocadinho.

Pegue um refratário. Regue o fundo, de leve, com azeite. E prepare quatro montinhos de molho de tomate. Disponha cada bife sobre cada montinho. Sobre cada bife, uma fatia de mussarela e, sobre essa fatia, um bocado de molho de tomate, que deve escorrer ao redor do bife. No topo do molho de tomate, bastante queijo parmigiano reggiano ralado.

Leve ao forno pré-aquecido, sem estar muito quente, e deixe o queijo derreter lentamente, deixando para gratinar quando ele já estiver quase todo derretido. Se você tiver grill no seu forno para gratinar, ótimo. Caso não tenha, basta aumentar um bocadinho a temperatura nos minutos finais. Retire os bifes e sirva-os acompanhados do purê de batatas, cuja receita está a seguir.

Para a mesma quantidade de pessoas, é claro… Leve oito batatas médias, com casca, para ferver. Deixe ferver até ficarem macias… E esse tempo descobre-se com a manha… Depende do tamanho da batata, da qualidade da batata. Mas espete-as com um garfo, de vez em quando, e quando sentir que as bichinhas estão macias, é hora de desligar o fogo e escorrê-las. Espere esfriar um pouco, tire a pele das batatas e passe-as num espremedor, deitando o purê dentro de uma panela já com uma quantidade razoável de manteiga sem sal em temperatura ambiente, sem estar ainda derretida – ela derretará sob o calor das batatas. Rale um bocado de noz-moscada sobre o purê. Despeje, aos poucos (muito aos poucos!), e já com o fogo baixíssimo ligado, leite integral. Eu sou adepto do purê mais macio, mas há quem prefira um purê mais firme, e quem contribuirá para que seja de uma forma ou de outra será justamente a quantidade de leite despejada durante a fervura do purê (sem parar de mexer um só minuto!). Quando estiver com a textura escolhida, coloque duas gemas de ovo cruas, evidentemente, um pouquinho de creme de leite fresco e queijo parmigiano reggiano a gosto. Mexa bem, mexa bastante, e desligue o fogo. Só então prove o sal, corrija-o se for necessário e está pronto!!!!!

Bom proveito…

E ó… Betinha… se você for fazer essa receita aí… mande as fotos, tá? Beijo enorme imerso numa saudade do tamanho do oceano que nos separa.

Até.

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MINHA RABADA NA BOCA DO POVO

Meu queridíssimo amigo, de quem tenho olímpica saudade, Bruno Ribeiro – “o maior”, na insuspeitada opinião de outro irmão de quem tenho saudade indescritível, Fernando Szegeri (ambos me abandonaram e eu devo fazer por merecer) -, aprontou-me uma. Publicou, ontem, em seu indispensável blog, um texto chamado A RABADA DO EDU, que pode ser lido aqui. No tal texto, o Bruno exalta minha rabada como quem exalta um título, uma conquista, um prêmio, e vejo-me obrigado a dizer a vocês uma coisa, talvez com isso decepcionando o mais valoroso jornalista de Campinas, quiçá do Brasil se tomarmos caráter e conduta como parâmetros: o Bruno jamais provou da minha rabada, jamais sentiu o cheiro da minha rabada, jamais pôs as mãos, os dedos, jamais chegou perto da minha rabada!!! E é verdade, também, que o malandro não engana seus leitores. Confessa, apenas, seus sonhos, como costumeiramente são feitas as confissões pela manhã diante da xícara de café e do pão com manteiga. O Bruno – eis a confissão que me encheu de estranho orgulho! – sonhou com a minha rabada. Sonhou, mais precisamente, que eu e uma amiga sua, a quem não conheço, preparávamos juntos uma rabada, numa casa qualquer, e que fazíamos tudo para que ele perdesse a paciência e fosse embora sem provar do prato. E foi o que aconteceu. Para se vingar, valendo-me do verbo que ele próprio conjugou, espalhou em seu blog, na íntegra, a receita da rabada que preparo com renovado prazer. E eis onde eu queria chegar. O prazer que experimento ao cozinhar.

Dia desses mesmo, na casa de meus pais, decidi por fazer um prato, para o jantar, e anunciei em voz alta:

– Hoje farei meu clássico filé à parmegiana!

Mamãe deu rodopios pela sala lambendo os beiços, minha menina revirou os olhinhos antevendo a hora do jantar e só meu pai, um incorrigível, muxoxou:

– Você e essa sua mania de fazer de cozinhar um evento!

Pois desci, fui ao Largo da Usina a pé, comprei filés altíssimos com três dedos de altura, devidamente limpos e cortados (um grande açougueiro, o Fernando!), comprei mussarela, comprei presunto, manteiga sem sal, tomates, queijo parmesão, pimenta do reino preta em grão, farinha de trigo, farinha de rosca e voltei como se carregasse a matéria-prima do tesouro que eu mesmo faria (e carregava, de fato).

Cheguei em casa e lá estava meu pai, incorrigível, muxoxando na cozinha já com uma dose de uísque generosa servida num copo de cristal empunhado pela mão direita:

– Lá vem o artista…

E é assim, meus poucos mas fiéis leitores, que sinto-me cozinhando. Não um artista, como disse meu pai. Mas – literalmente – em meio a um grande evento. Basta vocês lerem a receita da rabada que o Bruno tirou do escaninho mofado do BUTECO e expôs em seu blog, visitadíssimo e concorrido!

Pausa: pressinto que nesse próximo final de semana haverá cheiro de rabada no ar, tantas as pessoas que, incitadas pelo bom malandro, prepararão o prato em suas casas!

Cozinhar não é, em absoluto, um troço mecânico. Esta a razão, por exemplo, que me faz detestar as aparentes facilidades que a indústria de alimentos inventa. É prático comprar alho picado, como o que vem nesses potinhos plásticos imitando baldinhos? É. Mas e o prazer de escolher uma boa cabeça de alho, escolher o maior dente, descascá-lo e picá-lo artesanalmente enquanto se beberica um uísque? É prático o molho de tomate enlatado? Evidente. Mas e a arte de escolher os mais vermelhos, cortá-los em quatro, retirar-lhes a polpa, as sementes, cozinhá-los com azeite e com ervas para preparar seu próprio molho, infinitamente mais saboroso? Como meu pai – voltando a ele – é um homem prático e eu não sou – ao menos no que diz respeito ao tema – o preparo do tal jantar, naquela noite, foi, para ele, uma tortura:

– Vai demorar?

– Bastante.

Meia-hora depois.

– E aí? A quantas anda?

Eu, provocando:

– Vou beber uma dose contigo enquanto os filés descansam antes de irem para a frigideira…

– Descansam?

– Arrã.

Um pouco mais tarde:

– Tô com fome, pô! E aí? E aí?

– Já estão gratinando no forno…

– Demora?

– Hum… mais uns vinte minutos…

Mas eis que sirvo o jantar e papai não consegue disfarçar.

A cada corte do filé, a cada escorrer do queijo e do presunto de dentro dele (segredo que conto noutra altura), a simples visão do queijo gratinado e dourado dando ainda mais graça à aparência que somava-se ao sabor do prato, e papai fazia uns sons indecifráveis que eu nem fiz questão de entender. Ele comeu – eis a verdade numérica incontestável! – três filés acompanhados do mais espetacular purê de batata que já provei, o meu, evidentemente, que é preparado também sem pressa com batatas cozidas ainda com casca, manteiga sem sal, leite integral, queijo parmesão, noz moscada e sal. Uma garrafa de vinho tinto sem maiores pretensões e estava terminado mais um grande jantar. Caseiro, sim, mas um grande jantar. Como convém, é claro.

Instado a manifestar-se durante a sobremesa, disse meu velho pai, depois de suspirar e pensar durante uns bons segundos de olhos fechados:

– Bom.

Pra quem o conhece, um elogio incomensurável.

Terminando, então.

Assim como minha rabada já está na boca do povo, prometo para brevíssimo a receita de meu filé à parmegiana com purê de batatas, para que caiam, ambos, no gosto e na mesa de vocês todos.

Até.

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>SOLIDARIEDADE, UM TIRO PELA CULATRA

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Pela primeira vez desde que comecei a cometer essa insanidade de contar, diante do balcão do BUTECO, as histórias que vivo, que vivencio, que testemunho e das quais ouço falar, vou atender a um pedido desse gênero… Vou mudar os nomes dos personagens dessa história realíssima em respeito às famílias envolvidas. A protagonista jurou-me, de pés juntíssimos e beijando os polegares em cruz, na frente e no verso, que a família do falecido (vocês entenderão!) lê o blog. Se lê, mesmo, irá reconhecer o enredo. Mas – confesso – o baque será infinitamente menor diante dos nomes não revelados. Vamos à história.

O telefone celular estrilou e ela, sempre solícita, mesmo correndo o risco da multa – estava dirigindo – e sempre com voz de o-que-eu-posso-fazer-para-ajudar:

– Alô?

Só ouviu soluços do outro lado da linha. Diana levou um susto, reduziu a velocidade, encostou o carro junto ao canteiro lateral, ligou o pisca-alerta e perguntou:

– Lucinha?! O que aconteceu?!

– Meu pai, Di, meu pai…

Diana perguntou, sem saber de nada, chutando:

– Piorou? – segurava o celular junto ao ouvido com o ombro esquerdo, mirava o retrovisor avaliando a situação do tráfego e roía o dedo mindinho da mão direita.

– Morreu.

– Morreu?

– Ainda há pouco… – e desabou de chorar.

Diana, óbvia como a multa que tomou do guarda municipal em plena avenida das Américas, fez a pergunta estúpida:

– Mas, mas… como?!

A amiga não respondeu. Só chorou, chorou, chorou, até que desligou.

É preciso brevíssima interrupção para uma explicação que dará ainda mais graça à história. Embora eu tenha usado a palavra “amiga” para me referir à Lucinha, ela e Diana não eram, exatamente, amigas. As filhas eram da mesma creche há exatos dois anos, e os encontros diários, na hora da entrada e na hora da saída da tal creche, as trocas constantes de obas e olás, a posterior troca de telefones e essa mania insuperável, do carioca, de travar intimidades a torto e a direito, fizeram com que ambas se considerassem, praticamente, amigas de infância. Mas façam uma idéia… Os maridos não se conheciam, não freqüentavam a casa uma da outra, nada disso. Eram, no máximo, colegas – como as filhotas. Vamos voltar.

Diana (diga-se), uma pessoa maravilhosa, sempre disposta a ajudar o próximo, sempre disponível para o que der e vier (ela adorava dizer isso sobre si mesma), chegou em casa esbaforida, afundou-se no sofá e discou para a casa de Lucinha. Atendeu o marido da amiga que contou-lhe o drama, na íntegra.

Em resumo: o pai de Lucinha fora, a passeio, para Nova York. Lá, no primeiro dia de férias, tomou um tombo, bateu com a cabeça no meio-fio, foi levado a um pronto-socorro, internou-se por conta de complicações que não vêm ao caso e, dois dias depois, morreu. A filha, preocupadíssima e incitada pela mãe, foi ao encontro do casal, tendo chegado aos EUA minutos antes da morte do pai. De lá mesmo, do corredor do hospital, bateu o telefone celular para a amiga – o telefonema do começo da história. Segundo o marido, preciso no repasse dos detalhes à Diana, o traslado do corpo estava sendo providenciado por Lucinha e o velório e o enterro estavam marcados para dali a dois dias, em Brasília, onde nascera o velho.

Assim que desligaram, entrou pela sala o marido de Diana, chegando do trabalho e trazendo, a tiracolo, as duas filhas. Deu de cara com a mulher com as mãos no rosto, expressão de susto, perguntou o que havia, a mulher foi minuciosa e encerrou, assim:

– Vou pra Brasília!

O marido desesperou-se. Não compreendia mais aquela demonstração aguda de solidariedade e de companheirismo, ainda mais com uma mulher a quem ele sequer conhecia! Mas a mulher tinha argumentos que soavam como definitivos:

– Eu não vou deixar a Lucinha sozinha nessa hora! Imagine! Ela mora no Rio, vai enterrar o pai em Brasília! Sei lá se ela conhece alguém em Brasília… Imagine! Imagine! Amiga minha não fica só numa hora dessas! Imagine a coitadinha sozinha com o caixão e a mãe, numa capelinha qualquer, sem companhia… Nunca! Nunca! Nunca!

E Diana foi, contra a vontade do marido e mesmo com as intensas queixas das filhas como prenúncio de uma saudade dolorida, no dia seguinte, à noite, para Brasília. Embarcou sozinha e embarcou – vocês verão – numa tremenda furada.

Foi, durante o vôo, fazendo planos que poderiam soar mórbidos, não fossem a pureza d´alma e a grandeza da intenção de Diana. Faria companhia, até a manhã do dia seguinte, no enterro, à amiga diante do corpo do pai. Faria festinha em suas mãos provavelmente trêmulas, diria uns ohs e uns ahs durante uns suspiros inevitáveis durante a madrugada, essas coisas…

Ao chegar à capital, bateu o telefone celular pra Lucinha. Desligado. Tentou uma, duas, três vezes, até que desistiu da idéia, conformou-se com sua presença apenas pela manhã, pediu a dica de um hotel para o motorista de táxi, comentou com ele o motivo de sua viagem, e o chofer:

– Ah! A senhora também veio pro velório do senador?

– Como?

– O velório do senador, coitado. Morreu longe do Brasil…

– Senador?

– Ex-senador, a bem da verdade… Mas, liturgicamente, minha senhora, senador da República, sim… Foi senador durante uns oito anos, o velório recomeça amanhã às sete da manhã no Salão Nobre do Congresso Nacional… Pobre doutor Caruso…

Ouvir o nome do pai da amiga doeu-lhe fundo.

– Salão Nobre?

– Sim.

– Congresso Nacional?

– Sim, senhora…

– Meu Deus…

– O que foi, madame?

– Nada…

Disse “nada” mas sentia, por dentro, que seus planos não se concretizariam.

Às cinco e meia estava de pé. Tentou o celular da amiga novamente. Permanecia desligado. Tomou um bom banho, vestiu-se e pediu o café da manhã no quarto, que engoliu com pressa. Desceu à recepção, pagou a despesa com o cartão de crédito, pediu um táxi e tomou a direção do Congresso Nacional.

– Com licença, senhora… A senhora está indo para o velório do doutor Caruso?

– Sim.

Olhavam-se pelo retrovisor.

– Está lotado… Já fiz quatro corridas para lá essa manhã.

– Lotado?

– Sim. Fila.

– Grande?

– Enorme.

Deu um muxoxo, fechou os olhos, respirou fundo algumas vezes até que ouviu o motorista.

– Pronto. Boa sorte, senhora.

Ela não podia crer no que via. Uma fila enorme, homens de terno, mulheres bem vestidas, carradas de meninos carregando coroas de flores imensas para dentro do Congresso Nacional, e ela de jeans, camiseta de malha, um agasalho de moleton e um desejo incrível de abraçar a amiga. Chegou-se para um segurança que tentava organizar a fila:

– Bom dia… Eu sou amiga da filha do senador e…

Foi interrompida:

– A senhora é da família? – perguntou consultando uma lista.

– Não, mas…

– Pro final da fila, minha senhora! Preferência só para os familiares…

Foi para o final da fila tentando o celular da amiga. Desligado.

Esperou – notem bem!, notem bem! – duas horas e quinze minutos para entrar no Salão Nobre do Congresso Nacional. A fila andava a passos lentos, e Diana, ao avistar Lucinha, tirou o agasalho de moleton e passou a girá-lo, segurando-o por uma das mangas, para chamar a atenção da amiga. Em vão. Lucinha, com o rosto mergulhado na janelinha do caixão do pai, estava num espaço reservado para a família e nenhuma atenção prestava ao que se passava naquele austero ambiente. Diana foi se aproximando – já havia desistido dos acenos patéticos com o agasalho – e percebeu, nervosa, quando Lucinha foi levada para um cômodo isolado por dois homens que a amparavam. Foi justo no instante em que ela passou diante do corpo do senador. Não foi vista.

Não foi vista e aquilo lhe doía como corte.

Quando percebeu, já estava do lado de fora do Salão Nobre. Dirigiu-se a um outro segurança:

– Por favor… a que horas vai ser o enterro?

– Às quinze, senhora.

– Onde, hein?!

– Será fechado apenas para a família, senhora.

– O quê?!

– Fechado para a família, senhora. Ordens da viúva e da filha do doutor Caruso.

– Mas o senhor pode dizer a elas que…

– A senhora é da família? – perguntou isso olhando Diana de cima a baixo.

– Sou! – mentiu.

– Seu nome, por favor.

– Diana Caruso.

O segurança consultou uma lista. Chamou alguém pelo rádio. Fez uma, duas, três perguntas. E dirigiu-se à Diana:

– Lamento, senhora. Não há autorização para nenhuma Diana Caruso, e por favor, não insista.

Desesperou-se, a pobre mulher. Tentou de tudo. Perguntou a um, perguntou a outro, mas tudo – desde sua roupa, incompatível com a cerimônia, até seu desespero desproporcional ao que se via – o que ela conseguiu foi um ou outro olhar de comiseração. Ficou ali, plantada, estacada, diante da porta do Congresso Nacional, até que viu a família saindo em direção a cinco carros oficiais estrategicamente parados diante da saída. Avistou a amiga. E gritou, a plenos pulmões:

– Lucinhaaaaaaaaaa!

Lucinha entrou no carro sem nem levantar o rosto, amparada por um segurança. A comitiva passou por Diana, ela acenou efusivamente para Lucinha, que finalmente a viu. Diana acenou com o celular e tentou, minutos depois, contato com a amiga. Chamou. E Lucinha atendeu:

– Olá, Diana, fale rápido que minha bateria está acabando…

– É que…

– Não precisava ter vindo…

– Aonde vai ser o enter…

Caiu a ligação.

Tentou de novo, de novo, de novo, e conformou-se. Disse, a caminho do aeroporto:
– Eu tentei… Mas deve mesmo ter acabado a bateria…

A viagem de volta foi tristíssima.

Não vira a amiga como pretendia. E pensou, durante o vôo, no que contaria ao marido para evitar a – mais que merecida – chacota.

Até.

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>SAMBA DA OUVIDOR

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Gabriel Cavalcante e Ricardo Brigante lançaram há poucos dias um blog que tem tudo para virar referência, o SAMBA DA OUVIDOR. Diante da magnitude da idéia dos dois malandros e do (já surpreendente) material que ambos, generosamente, dividem com quem pinta na área, não há o que dizer. Apenas isso…

Já pra !

Até.

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>A DOR ESTAMPADA NA VOZ

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Liguei, ontem à tarde, para um amigo meu, tricoloríssimo – e não revelarei seu nome nem à fórceps – e compungido ouvi sua saudação depois de uns quatro ou cinco estrilados do celular:

– Alô?!

Mesmo com o BINA acusando meu nome na telinha de seu aparelho, mesmo ele sabendo que era eu, evidentemente que era eu, ele foi incapaz de uma saudação mais calorosa ou mesmo mais pessoal. Era a dor da véspera – eu não tive dúvida.

Perguntei, tentando, sem êxito, demonstrar solidariedade:

– E aí, rapaz?

Ele grunhiu algo que não entendi. Continuei:

– Jogaço…

Novo som que não identifiquei.

Eu ainda disse uma coisa ou outra e não obtive, eis a verdade, nenhuma resposta capaz de sustentar um diálogo. Tudo o que ele conseguiu dizer, mais de uma vez, foi:

– O Renato é uma besta.

O treinador do Fluminense, que está se transformando numa espécie de Leão carioca – uma unanimidade negativa -, foi, na visão do meu amigo, o culpado pela não-conquista da Libertadores. Mas não vou entrar nesse mérito.

O que eu queria lhes dizer, apenas, foi o quanto me impressionou o tom soturno, o tom tristíssimo, o tom tétrico da voz do meu amigo. E muito da minha torcida pelo Fluminense na véspera (como contei aqui) deveu-se a uma tentativa tola de evitar a audição da dor egressa das profundezas de meus amigos tricolores.

Dirão vocês:

– Mas por que, então, você ligou para seu amigo?

Ora, ora…

Para prestar solidariedade. Enquanto escrevo ouço, nitidamente, palavra por palavra, tudo o que disse e tudo o que eu ouvi ontem durante o telefonema. E digo, sem medo do erro, que quando ele despediu-se com um “um beijo, meu irmão”, sua voz já era outra. E o objetivo, pueril, que seja, que quis atingir com a ligação no meio da tarde, foi atingido.

Até.

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>QUEM ESPERA SEMPRE ALCANÇA

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E os tricolores terão de esperar mais um bocadinho, sabe-se lá mais quantos anos, para verem o Fluminense tornar-se campeão da Libertadores – e quem espera sempre alcança, reza o hino tantas vezes entoado na noite de ontem, no Maracanã. Noite, diga-se, trágica, bem ao gosto do Sumo Pontífice da Catedral de Álvaro Chaves, Nelson Rodrigues. O Fluminense saiu perdendo de um a zero, reverteu o placar com três gols de um iluminado Thiago Neves (que, mais tarde, perderia um pênalti) mas não conseguiu o quarto gol, conforme eu previra aqui. O três a um levou a partida para a prorrogação, prenúncio da sempre desumana disputa de pênaltis. Um modorrento zero a zero na prorrogação empurrou, de fato, a decisão para os pênaltis, e o que se viu foi o que se viu: o Fluminense converteu apenas uma das cobranças e deixou escapar, no centésimo sexto ano de sua história, o título de campeão da Libertadores. Sobre o jogo, sobre a transmissão, sobre o que vi sentado diante da TV ao lado de meu velho pai, alguns pitacos:

* durante a resenha, antes do jogo, no SPORTV, foi curioso e engraçado assistir a um dos treinadores mais retranqueiros do futebol brasileiro, o tricolor Carlos Alberto Parreira, pedindo a escalação de dois atacantes desde o início da partida. Instado a se explicar graças à intervenção espirituosa do repórter Marcelo Barreto, saiu-se bem o treinador dizendo que estava, ali, palpitando como torcedor apenas;

* a transmissão da TV GLOBO dava a impressão de que apenas mulheres (e feias) estavam no Maracanã;

* impressionante a teimosia do treinador Renato Gaúcho que, uma vez mais, ainda que tendo feito a substituição bem mais cedo do que de costume, demorou a pôr o Dodô (que não esteve bem ontem) em campo;

* o preparo físico dos jogadores da LDU sobrou durante os quinze minutos finais da partida e ainda mais durante a prorrogação, pondo em xeque a comissão técnica comandada pelo fanfarrão treinador das Laranjeiras;

* falaram demais, na minha opinião, e cedo demais, alguns jogadores tricolores… Um disse, logo após o final da partida no Equador, há uma semana, que havia feito naquela noite o gol do título (o segundo da derrota por quatro a dois). Mesmo tendo sido o herói da partida de ontem, com três gols, Thiago Neves precisa aprender uma das máximas do futebol, que é tão óbvia e evidente que não me darei ao trabalho de transcrevê-la;

* de parabéns a torcida que lotou o estádio e fez a sua parte;

* e lamentável o (mais uma vez…) derrame de ingressos falsos e a quantidade de cambistas agindo sem qualquer repressão, isso no país que sediará a Copa do Mundo de 2014.

Até.

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>SOU TRICOLOR

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É evidente que eu não seria capaz de seguir a letra do hino e, conseqüentemente (recuso-me a abandonar o trema), completar o título com um falso “de coração”. Sou Flamengo desde que minha alma foi soprada pelo Criador, razão pela qual eu não soaria leviano, ainda que em nome de um título mais bonito pra crônica do dia. Mas hoje, quarta-feira, 02 de julho de 2008, logo mais à noite, sentar-me-ei na imaginária arquibancada ao lado do Vidal (que vai ao jogo, eu sei, com seu saudoso amigo Fabiano), do Valmir, do Marcelo Moutinho, do tio Osias do alto de seus oitenta e muitos (quantos, Szegeri???), do meu primo, Leonardo, do meu tio, Leopoldo, do Thiago Vasco (vejam que ironia o sobrenome do malandro!), do Carpilovsky, do Paulinho e do Dado, queridos de SP, do Daniel A., do Arthur Mitke, do Leo Huguenin, do meu cunhado, Marcelo Miranda, o Neném, enfim, de todos os tricolores que me cercam e a quem quero bem, e torcerei como um bárbaro pelo clube das Laranjeiras.

Agora, às oito da manhã dessa quarta-feira – a quarta-feira mais importante da história do Fluminense – quero dizer, diante do balcão do BUTECO, que acredito na vitória tricolor por um placar suficiente para que a conquista do título venha nos 90 minutos regulamentares. Eu sei, bem sei, que os tricolores todos, marchando na onírica procissão pela rua Pinheiro Machado e conduzidos por Nelson Rodrigues, Sumo Pontífice da Catedral de Álvaro Chaves, crêem numa vitória dramática, trágica, que há de vir nos acréscimos da prorrogação ou mesmo nos fatídicos pênaltis. Mais do que simplesmente crerem, os tricolores desejam, como bestas-feras alucinadas pelo risco, o sofrimento e a iminência do fracasso final, uma vitória épica, com a mesma ânsia do menino que persegue, como um louco, a figurinha mais difícil para completar a página de seu álbum.

De um jeito ou de outro, sofrendo ou não (mesmo sabendo ser inevitável o sofrimento desde o primeiro minuto do dia de hoje), tenho para mim que hoje é dia de Fluminense. Não apenas pelo impressionante retrospecto dentro do Maracanã (parece-me que, nesta Libertadores, são 16 gols pró e apenas 2 contra), não apenas pela diferença que tem feito – sempre que instada a fazer a diferença – a torcida do Fluminense, mas principalmente porque creio na fatalidade do futebol, é que tenho como certa a conquista tricolor na noite desta quarta-feira.

Verei o jogo quieto, possivelmente com uma garrafa de Red Label ao alcance da mão, como faço sempre que meu Flamengo não está em campo, mas ao lado de meus amigos tricolores presentes ao estádio ou não – se é que me faço entender.

A eles, meu fraterno abraço. Saibam todos que, segundos após o apito final, erguerei meu copo em homenagem a cada um, congratulando-me com a alegria, hoje deles, a mesma que experimentei, menino de calças curtas, em 1981.

Até.

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LEVANTANDO AS PORTAS DE AÇO

Promessa é dívida, cumpri-la é sempre uma dádiva e reencontrar a Rotina (maiúscula), essa deusa a quem rejeitamos por pura falta de bom senso, é sempre um prêmio. Eu digo que rejeitar a Rotina é falta de bom senso pois só quem a perde inesperadamente é que passa a dar intenso valor a ela, companheira-prenúncio de que tudo vai bem, obrigado. E eu, que no dia 06 de junho anunciei recesso até o final do mês – que terminou ontem – reabro hoje, primeiro de julho, as portas de aço do BUTECO devagarinho, sem pressa, sem alarde, mas com a sensação do dever cumprido, da promessa cumprida. Feito o intróito, em frente.

Em 06 de junho publiquei PROSSEGUINDO COM A REFORMA (aqui). No tal texto – e sabe-se lá onde eu estava com a cabeça quando cometi tamanha insanidade – lancei duas promoções, tolíssimas, que foram, eis a confissão que faço diante do balcão reformado, o maior fracasso, o maior fiasco, a maior prova de que não tenho NENHUM (com a ênfase szegeriana) talento para o marketing (o que, aliás, me deixa felicíssimo, já que atribuo ao marketing grande parte das mazelas que assolam o mundo).

Notem bem.

Pedi a meus leitores que mandassem fotos suas com a tela do computador ao fundo, com a imagem do BUTECO aparecendo. Disse, ainda, que sortearia, entre os participantes, um livro meu. Passados vinte e cinco dias… o que aconteceu? Recebi quatro fotografias, todas devidamente publicadas. A primeira da Inês, amiga querida que mora em Boston, no EUA, e que JÁ TEM MEU LIVRO. A segunda do Cláudio Menezes, de Volta Redonda, a quem não conheço. A terceira do Rodrigo Medina, de São Paulo, a quem também não conheço. E a quarta de meu cunhado, Marcelo, com sua mulher, a Thaís, que, evidentemente, TÊM MEU LIVRO. Vejam que sucesso retumbante.

Pedi, também, que os leitores mandassem fotografias tiradas durante os passeios feitos seguindo os roteiros que propus, aqui mesmo no BUTECO (o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto e o quinto). Esses leitores também participariam de um sorteio do mesmo prêmio. E essa promoção (soa-me patético, nesse instante, escrever “promoção”) foi ainda mais fracassada. Notem bem: apenas meus pais atenderam a meu apelo.

O resultado desse fracasso olímpico, desse fiasco aterrador, dessa deprimente adesão à minha infeliz idéia, é o seguinte: eu não vou sortear, sob pena de cair ainda mais no ridículo diante de todos, rigorosamente nada. E explico.

Inês, Marcelo, Thaís, papai e mamãe já têm meu livro. Sobram, portanto, o Cláudio, de Volta Redonda, e o Rodrigo, de São Paulo. Para chegar ao vencedor da promoção (e escrever “vencedor da promoção” me dá uma vergonha impressionante) eu não precisaria de sorteio algum. Poderia chamar qualquer pessoa, fazer um par ou ímpar e decidir o troço. Mas seria, convenhamos, de um ridículo sem precedentes. Peço, portanto, aos dois, publicamente, Cláudio e Rodrigo, que comprem meu livro caso queiram, de fato, lê-lo. Podem comprar por aqui, por exemplo, em 04 (quatro) parcelas de R$ 10,00 (dez reais), sem juros, no cartão de crédito.

Decidido isso, deixem-me encerrar por hoje.

Levanto, pois, as portas de aço do estabelecimento e os recebo, a todos, com indisfarçável alegria. E vamos em frente.

Até.

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