Arquivo do mês: julho 2008

>DO DOSADOR

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* ninguém me contou, eu mesmo vi com esses meus olhos e também ouvi com meus ouvidos. Chegam ao RIO-BRASÍLIA três pessoas que procuram pelo dono, o Joaquim. Explicam, rapidamente, que estão fazendo umas fotografias para uma exposição sobre bares e botequins, pedem permissão para algumas fotos na área, e o Joaquim, fino como ele só, diz que sim – rosnando. Diz a fotógrafa:

– Seu Joaquim, o senhor pode servir uma dose de batida de maracujá para que eu faça umas fotografias?

Ele não responde mas abre a geladeira, pega da garrafa da batida e começa a servir a dose num copo americano. A fotógrafa senta o dedo na câmera até que o Joaca interrompe o serviço. Ela diz, sem parar a série de fotografias:

– Contiua, seu Joaquim, continua…

– Pô! Mas aí eu vou ter que cobrar duas doses!

Um gentleman, como se vê. Ah, sim. Pequeno detalhe que omiti para que a grossura ficasse ainda mais evidente apenas no final: um dos três a que me referi era eu.

* eu lhes contei, dia desses, aqui, que fui abordado, justo no RIO-BRASÍLIA, por um camarada, o Lúcio, que se apresentou como leitor do blog e tal. Foi, como relatei no texto indicado, uma experiência gratificante. É legal, de fato, ser reconhecido e receber, como shampoo no ego flutuante, um elogio inesperado. Pois anteontem, domingo, estava eu no RIO-BRASÍLIA, na companhia da (ordem alfabética para não ferir suscetibilidades) Candinha, do Comandante, do Felipinho Cereal, do Leo Gola e de Luiz Antonio Simas. Até que ouço alguém me chamando na mesa ao lado. E dou de cara com a anã do Borgonovi (se você não sabe de quem se trata, saiba aqui):

– Edu! Esse meu amigo leu seu blog ontem, pela primeira vez, e adorou!!!

E virando-se pro cara, sentado a seu lado:

– Esse é o Edu! Conta pra ele como você chegou no blog, conta!

O cara:

– Prazer, Edu! Fui fazer uma pesquisa no google e tasquei lá as palavras barbearia e Afonso Pena, já que eu queria cortar o cabelo por ali e não conhecia nada, daí fui dar num texto em que você sugere um passeio pela Tijuca, muito bom, aliás!!! E muito bom, também, o Salão América! O seu Ernesto te mandou um abraço!

Incríveis, essas coincidências. Referia-se, o camarada, a esse meu texto, que pode ser lido aqui!

Até.

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>A ROSEIRA

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Muito provavelmente – eu quase que seria capaz de apostar vultosa soma – meus mais ferinos leitores terminarão de ler o texto que começo, nesse instante, a escrever (escrevo quase que de forma mediúnica, querendo com isso dizer que escrevo de sopetão, sem burilar isso ou aquilo, que fique claro), julgando-me ainda mais fresco do que na cozinha. Mas acordei, eis a verdade, mexido com a história que passo a lhes contar.

Há, numa determinada cidade, num determinado bairro, numa determinada rua, uma casa antiqüíssima (jamais deixarei de usar o trema). A casa abrigou, durante anos, uma família inteira que foi, com o tempo, desaparecendo. Vive ainda, dessa família, um homem que viveu a infância (felicíssima) na tal casa e que a alugou por razões que não vêm, realmente não vêm, ao caso. Quando a alugou, sem a intermediação de administradoras ou de advogados, o homem foi – no dia da mudança da nova família que na casa se instalaria -, pessoalmente, até a casa.

Já estaríamos, aí, diante de um caso raro, antigo. O proprietário, apegadíssimo à coisa alugada, vai até o endereço responsável por tantas marcas em sua alma e entrega, de olhos marejados, ao inquilino, a chave da casa, a chave dos quartos, conta a ele os detalhes sobre cada registro d´água, sobre cada tomada, cada parte do assoalho, do telhado. Vê, comovido, os empregados da empresa de mudança carregando caixas pra lá e pra cá, até que chama o inquilino para a parte da frente da casa. Ensaia despedir-se e diz:

– Posso lhe pedir uma coisa? – mal disfarça os olhos molhados e as mãos trêmulas.

– Claro… o senhor está sentindo alguma coisa? – responde o inquilino, um homem de bem, pondo a mão em seu ombro.

Fica mudo, o proprietário. Olha para baixo, para o alto, para os lados, esfrega o antebraço nos olhos e responde:

– Muitas coisas, meu caro… muitas coisas… Mas eu gostaria de lhe pedir uma coisa, apenas…

– Pois não.

– Está vendo esta roseira? – e aponta a roseira do jardim da casa.

– Claro!

– Trate bem dela… por favor… É o que mais quero lhe pedir… Era o xodó de meu pai, que a plantou há muitos anos, muitos anos… – e deu de chorar sem cerimônia.

Tal preocupação comoveu o novo morador, que prometeu especial dedicação à roseira. Não soou falso o abraço de antes da despedida. O homem partiu, visivelmente triste, mas grato por tudo aquilo, pela confiança depositada e pela promessa que ouviu e que lhe soou legítima, franca e verdadeira.

Passaram-se os anos e a roseira floria que era uma beleza. A cada inverno, a cada mês de junho, julho, explodiam as rosas, dezenas delas!, diante da casa, e o proprietário que jamais se deixou ver, pelo menos uma vez por mês passava pela rua, à tardinha, para matar as saudades e para ver, com os próprios olhos, o roseiral de seu pai em flor.

Há um ano e meio, mais ou menos, o proprietário bateu o telefone para lá. Contou sobre sua intenção de vender a casa, disse o preço, comentou que já havia recebido uma proposta de uma construtora, que estava apenas oferecendo a preferência, essas coisas. Ficou de mandar uma notificação por escrito apenas para cumprir as formalidades legais – a notificação de fato chegou e foi devidamente respondida -, mas naquele mesmo telefonema o inquilino declinou, com o coração apertado, da preferência. Não tinha e nem teria o dinheiro… Mas como o tempo passara sem mais nenhum telefonema, mais nenhum contato, nada, o assunto ficou esquecido.

Semana passada esteve lá, pessoalmente, uma vez mais, o proprietário. Mas dessa vez bateu à porta. Foi recebido efusivamente pelo casal que o convidou para entrar. O dono da casa, o inquilino, fez questão de perguntar:

– O senhor viu a roseira?! Viu que beleza?! Mais de trinta rosas abertas, fora os botões! De rosa eu entendo! – disse piscando pra mulher.

– Vi, vi, sim… – e tinha os olhos cabisbaixos.

Explicou o por quê da visita.

Havia vendido a casa, há coisa de uma semana. Para a tal construtora mesmo, que comprara, também, mais cinco casas na mesma calçada para subir um espigão. Fez-se silêncio naquela sala de onde se avistava a roseira. O ex-proprietário estendeu em direção ao inquilino a notificação já assinada pela empresa, a nova proprietária, concedendo noventa dias para a desocupação do imóvel. Pouco se disse. Ofereceram ao homem um café, um chá, mas ele não aceitou. Levantou-se, despediu-se, mas repetiu-se a cena de anos antes.

O inquilino atravessou a porta da sala, caminhou pelo alpendre, com os punhos cerrados travando o choro, e foi até os pés da roseira, de onde chamou seu senhorio.

– E a roseira? E a história de seu pai?

O homem partiu sem nem olhar pra trás, chorando de soluçar e pedindo desculpas, visivelmente constrangido.

Quando – eis a pergunta que eu faço – alguém terá coragem de dizer não ao dinheiro, de dizer não à especulação, de dizer não à ganância para manter de pé – que seja – uma roseira, uma história de vida, um roseiral de lembranças e de memórias?

Até.

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UM BREVE TELEFONEMA

Eu não ia mesmo escrever nada hoje, quarta-feira… A discussão está comendo solta nos comentários no balcão público do BUTECO, e é um prazer – confesso – ver que o Homero, um dos maiores responsáveis pelo êxito grandioso do MITSUBA, apoiou seus cotovelos na área e deu seu pitaco no texto UM PASSEIO PELA TIJUCA (leiam aqui), ver que minha rabada está, literalmente, na boca do povo (leiam aqui), ver as pessoas delirando com uma simples receita de bife à parmegiana (leiam aqui), perceber que a camisa do Antônio Lopes chama a atenção de tanta gente (leiam aqui) ou mesmo perceber que meu modus operandi na cozinha causa tamanha balbúrdia (leiam aqui). Razão pela qual eu, a princípio, preferi deixar o balcão quieto, hoje, pra ver a discussão crescendo nos comentários… Mas qual o quê!

Bateu-me o telefone, há minutos, Fernando José Szegeri, e repito depois de encher os pulmões de ar e de bater uma imaginária continência: Fernando José Szegeri. Diga você também, meu caro leitor, de preferência com os pulmões turbinados, o nome do homem da barba amazônica: Fernando José Szegeri. E preciso, para que o exercício seja exitoso, lhes dizer como se pronuncia, na língua natal de seu último nome (a origem é húngara), o pomposo nome Szegeri. Já fiz isso, é verdade, uma vez, leiam aqui este texto de 21 de junho de 2006 que vocês saberão. Diz-se XÊGERI, sendo que o “g” é o “g” do gato e não o “g” do gerúndio. Mas isso lá na Hungria… Aqui no Brasil dizemos SÊGERI mesmo, ignorando o “z” e mantendo o “g” de gato. E como ele faz questão do nome completo, brademos: Fernando José Szegeri. Vamos ao telefonema.

Estrilou meu celular, a telinha mostrou o homem da barba amazônica flagrado na travessa do Comércio, no velho centro do Rio (ah, as modernidades…), e eu atendi:

– Szegeri!

Ele, do lado de lá:

– Hein?!

– Fala, mano!

– Você me chamou de quê?!

Eu, obediente:

– Fernando José Szegeri!

E ele riu.

Seguiu, o funcionário público:

– Queria que você contasse, hoje, que te dei esse telefonema. – e eu ouvia, ao fundo, o som de uma maçã sendo mordida.

Indaguei:

– Tá comendo maçã?

– Na mosca! E maçã da Turma da Mônica, que eu só gosto das bem ácidas!

Notem bem, meus poucos mas fiéis leitores, que imagem, que imagem!, o homem da barba amazônica, funcionário público, está sentado sozinho em sua mesa na repartição, comendo uma maçã da Turma da Mônica enquanto liga para este que vos escreve. Eu pergunto:

– E queres que eu conte o quê, querido?

– Que te liguei. Apenas isso. Mas escreva lá, Fernando José Szegeri, por favor.

Eu ri.

– Mas tenho que contar do telefonema?

– Eu prefiro. Assim todos ficam sabendo que não te abandonei, como você maldosamente insinuou dia desses. Mas veja lá, mano… Decline meu nome completo, na íntegra, por inteiro!

– Se você preferir…

– Prefiro.

– Escuta… – comecei a provocar.

– Desembucha…

– Teu chefe, teus colegas de repartição, teus desafetos…

– O que é que têm eles?

– Imagina… tascam Fernando José Szegeri no Google, por exemplo, e…

Cortou-me acompanhado do som da maçã sendo roída:

– E daí, maninho?!

– Não te incomoda? – e ouvi o som seco de um sopro, como o de uma zarabatana em funcionamento.

– O que foi isso?

– Isso o quê?

– Esse barulho.

– Cuspi o bagaço da maçã. Não, não me incomoda. O que tem me incomodado mesmo é ler meu nome pela metade, ou seu terço, ou ainda um apelido que não gosto. Quero meu nome em neon, maninho, em destaque sempre que eu for citado!

Eu, com pressa:

– O.K., deixa comigo!

E despedimo-nos.

Eu, que nasci Eduardo Braga Goldenberg, que sou advogado e que ostento em minhas petições apenas o primeiro e o último nome (o que me transforma num judeu na íntegra, o que não corresponde à verdade), eu que lancei um livro que estampa, na capa, também, apenas meu primeiro e último nome, eu que ignoro meu nome do meio até mesmo em meu endereço eletrônico (edugoldenberg@gmail.com), sofri de vergonha depois de mais esse telefonema de meu pomposo amigo.

Meu pomposo e dileto amigo, Fernando José Szegeri.

Até.

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>FRESCURA NA COZINHA

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Vejam vocês uma coisa… Publiquei, dia desses, aqui no BUTECO, minha receita de bife à parmegiana (que pode ser lida aqui). Dias antes, meu chapa Bruno Ribeiro escreveu um texto sobre a rabada que preparo, e que pode ser lido aqui. E tanto no meu texto como no texto do Bruno, meteu o pitaco Fernando José Szegeri:

– Daria meio braço pra saber por que diabos o bife é à parmegiana e o queijo é parmiggiano… Ô, frescura! – disse ele diante do meu balcão.

Depois foi ao balcão do Bruno e esbravejou:

– Mano Bruno: eu, que não sou exibido como o Edu e moro mais perto, terei enorme satisfação de fazer-te uma rabada à moda suburbana. Leia-se, sem frescura. E tomando cachaça!

Notem bem, meus poucos mas fiéis leitores, que Fernando José Szegeri, um homem que tem extremo orgulho de seu nome e de seu sobrenome, tirou os dias recentes para me agredir (é, é verdade, uma de suas velhas manias, mas a coisa vem piorando a olhos vistos).

Pequena pausa. Deu-me, há semanas, o Szegeri, um telefonema. Em resumo, deu-se o seguinte:

– Edu?

– Sim!

– Posso pedir-te um favor?

– Dois!

– Quando te referires a mim, em teu blog, escreva Fernando José Szegeri, por favor.

– Como assim?

– É que escreves sempre Fernando, ou Szegeri, ou Fernando Szegeri, ou o homem da barba amazônica… não é verdade?

– É verdade.

– Então. Se puderes, escreva Fernando José Szegeri… Inteiro. Pode ser?

Ri, falamos um bocado mais, e desligamos.

Como o atendo sempre, voltemos ao tema de hoje.

Fernando José Szegeri crê, então, como se vê diante de suas duas declarações, que eu cozinho com frescura. Confesso a vocês, diante do balcão, que fui pego de surpresa. Já cozinhei inúmeras vezes para o homem da barba amazônica, no Rio e em São Paulo, e NUNCA (dito com uma ênfase que só ele sabe dar) recebi crítica parecida. Assim, de cabeça e de sopetão, sem parar muito para pensar, posso afirmar, sem medo do erro, que já preparei pra ele uma carne assada na cerveja, uns canapés que aprendi a fazer no BAR LÉO em SP (de rosbife caseiro, de pasta de gorgonzola e copa e de carne crua), risottos (mais de um, seguramente), pratos que sempre preparo (e os preparei assim pra ele!) com extremo esmero (o que ele considera, noto só agora, frescura).

Mas eu, que normalmente me rendo à sabedoria que aqueles olhos embotados escondem, não me renderei dessa vez. Se para Fernando José Szegeri eu cozinho com frescura, sem qualquer traço suburbano (valendo-me de seu raciocínio exposto no balcão campineiro), prosseguirei cozinhando com frescura.

Se para Fernando José Szegeri picar alho (trocadilho de propósito) simetricamente é frescura, triturar a cebola com a faca sem dela retirar a água é frescura, preparar marinadas para as carnes é frescura, tirar dos tomates as polpas com as sementes é frescura, então – eis a confissão que faço de pé, diante do balcão do BUTECO – sou, de fato, um fresco cozinhando (e vocês me julgariam muito mais fresco se soubessem mais detalhes de todo o meu modus operandi dentro da cozinha).

Como sou autodidata, como agrado de forma olímpica quando sirvo o que preparo, não vou mudar.

E Fernando José Szegeri que me perdoe.

Até.

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DO DOSADOR

 

* estive, no sábado, por um bom número de horas, com meu velho pai, no glorioso RIO-BRASÍLIA, onde derrubamos algumas casco-escuro acompanhadas por uma fabulosa porção de lingüiça (jamais deixarei de usar o trema!) fina, isso depois de um lauto almoço, que nos custou a fortuna de R$ 11,00… Leia-se: arroz, feijão, batatas fritas e dois filés à milanesa do tamanho dos pés de meu pai, que calça 44. Foi fabuloso, também, ser interrompido por um cara que chegou-se à mesa:

– Com licença… você é o Edu?

– Arrã…

– Muito prazer. Sou seu leitor, leio seu blog diariamente…

– Ô, rapaz, que legal… Muito prazer…

Papai orgulhosíssimo.

– O prazer é meu, Edu. Eu sou Lúcio…

– Esse é meu pai, Lúcio…

– Famoso, famoso…

E retirou-se, o malandro, depois das despedidas.

Daqui, diante do balcão do BUTECO, deixo meu fraterno abraço público pro Lúcio, torcendo para que possamos, em breve, trocar umas idéias ali, naquele templo encravado na Almirante Gavião.

* estive, no domingo também, ontem, no mesmíssimo RIO-BRASÍLIA, para assistir a Flamengo e Vasco na companhia de meu velho pai, do Fefê, do Mauro e do Felipinho Cereal. Cercado por três vascaínos e por um americano, vi – felicíssimo! – uma contundente vitória do meu Flamengo, por três tentos a um. Duas notas tristes: a TV insistindo em mostrar Márcio Braga e Roberto Dinamite, lado a lado, na tribuna do Maracanã, e meu pai e meu irmão abandonando o barco aos 25 minutos do segundo tempo, esbravejando contra o inacreditável técnico Antônio Lopes. Dez Brahmas e dois limões da casa depois, tomei o rumo de casa com a sensação do dever cumprido.

* eu ando pior a cada dia com essa mania insuportável – confesso – de querer o bem dos meus, mesmo no futebol. Sofri, confesso, com a derrota do Palmeiras por 2 a 1 para o São Paulo. Eu – vejam que patético – só conseguia pensar no Szegeri, na sua expressão de angústia durante o jogo, na sua barba cerrada sendo cofiada após o apito final, no seu muxoxo melancólico antes de desligar a TV.

* eu disse, logo aí acima, “o inacreditável técnico Antônio Lopes” – e isso porque meu pai e meu irmão têm horror às qualidades do atual treinador vascaíno -, mas preciso dizer a vocês que não há nenhum técnico em atividade no mundo, vivo ou morto, mais adequado ao Vasco da Gama. Antônio Lopes comove-me, sobremaneira, jogo após jogo, com a camisa verde de seda que ele considera seu maior talismã – passada a ferro, sempre, pelas carinhosas mãos de Dona Elza, sua mulher. Para entender melhor minhas razões, leia SOBRE O VASCO DA GAMA, aqui.

Até.

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BIFE À PARMIGIANA, A RECEITA

Minha intenção era publicar minha receita de bife à parmigiana (que preparei, essa semana, na casa de meus pais, como lhes contei aqui) qualquer dia desses, mas bem mais pra frente. Mas o farei hoje. A Betinha, de quem tenho uma saudade capaz de me fazer sofrer de cólica, pediu, publicamente, diante do balcão do BUTECO (e eu a ouvi):- Eu PRECISO da receita deste filé! E do purê também, amo purê de batata! Muitos beijos!Eu disse que a ouvi e quero lhes fazer uma confissão. A Betinha ligou-me hoje, de lá dos Estados Unidos, onde está desde meados de abril. E de lá para cá, eis mais um dado confessional que faço, ela tem me ligado com bastante freqüência. E não há um único, um mísero telefonema, por mais curto que seja, que não me faça ter uma pugente crise de coriza que se segue ao choro depois que desligamos. Tenho muita saudade dela e nem quero me estender nesse assunto sob pena de sentir as lágrimas brotando dos olhos embotados. Razão pela qual seu pedido (o pedido da receita…) soa-me como ordem. Eis, então, as receitas que ela me pediu. Primeiro, do bife à parmigiana. E depois, em seguida, do purê de batatas. Em frente!

Para o bife à parmigiana (para 4 pessoas) você vai precisar de 4 bifes bem altos (uns três dedos de altura) de filé mignon, bem limpinho, já sem as arestas. Compre-os num açougue de rua, por favor! Os açougues dos supermercados, invariavelmente, não sabem como tratar a carne, e a suposta economia feita vai por água abaixo na hora de medir a qualidade do que vai se comer. Vai precisar, também, de sal e pimenta do reino preta em grão, moída na hora. Vai precisar de farinha de trigo e de farinha de rosca, de 4 gemas, de molho de tomate (de preferência feito por você mesmo, em casa… ou, em último caso, de uma lata de um bom molho de tomate), de manteiga sem sal e de óleo de milho. Vai precisar, ainda, de presunto sem capa de gordura cortado bem fininho, de mussarela também fatiada e de queijo parmigiano reggiano ralado na hora.

Tenha tudo à mão, sobre a pia da cozinha. Num prato, os quatro bifes. Noutro, um pouquinho de farinha de trigo e noutro um outro tanto de farinha de rosca. Num quatro prato, as 4 gemas. O sal e a pimenteira por perto, assim como o molho de tomate, o parmigiano já ralado e o presunto e a mussarela separados. Escoltando tudo isso, uma dose de Red Label, muito gelo, e mãos à obra.

Com paciência de oriental e uma faca afiadíssima, corte cada um dos quatro bifes no sentido longitudinal, fazendo uma espécie de sanduíche aberto, tomando cuidado para não atravessá-lo inteiramente. Você terá o que eu chamo de um livro de carne nas mãos! Deixe os 4 abertos e coloque pouquíssimo sal e pouquíssima pimenta do reino na parte de dentro dos bifes. Em cada um deles, coloque duas fatias de mussarela de cada lado, e duas de presunto no meio, ficando cada bife, então, com quatro fatias de mussarela e duas de presunto. Feche-os e pressione-os com as mãos, de ambos os lados, de maneira que fiquem achatados (não demais!), e apare as arestas do queijo e do presunto, não deixando nenhuma sobra para o lado de fora. Sirva-se da segunda dose de uísque.

Passe cada um dos bifes pela farinha de trigo, sem fazer força, apenas para aderir um pouco de farinha a eles. Depois, pacientemente e sem pressa, mergulhe-os nas gemas de ovo. Da gema direto à farinha de rosca. E agora, sim! Pressione os bifes de maneira que todos eles fiquem impregnados da farinha de rosca, inclusive nas laterais.

Numa frigideira, coloque três partes de manteiga sem sal e uma parte de óleo de milho (ou de azeite, decida aí!), de forma que seja o suficiente para cobrir os bifes. Aqueça a frigideira em fogo moderado e coloque os bifes, um a um, e deixe-os dourar muito de leve, virando com extremo cuidado para que o empanado não solte. Tome cuidado para não escurecer demais o empanado… o grande lance é o dourado que fica!

Sirva-se da terceira dose, sem pressa…

Espere um bocadinho para que os bifes esfriem um bocadinho.

Pegue um refratário. Regue o fundo, de leve, com azeite. E prepare quatro montinhos de molho de tomate. Disponha cada bife sobre cada montinho. Sobre cada bife, uma fatia de mussarela e, sobre essa fatia, um bocado de molho de tomate, que deve escorrer ao redor do bife. No topo do molho de tomate, bastante queijo parmigiano reggiano ralado.

Leve ao forno pré-aquecido, sem estar muito quente, e deixe o queijo derreter lentamente, deixando para gratinar quando ele já estiver quase todo derretido. Se você tiver grill no seu forno para gratinar, ótimo. Caso não tenha, basta aumentar um bocadinho a temperatura nos minutos finais. Retire os bifes e sirva-os acompanhados do purê de batatas, cuja receita está a seguir.

Para a mesma quantidade de pessoas, é claro… Leve oito batatas médias, com casca, para ferver. Deixe ferver até ficarem macias… E esse tempo descobre-se com a manha… Depende do tamanho da batata, da qualidade da batata. Mas espete-as com um garfo, de vez em quando, e quando sentir que as bichinhas estão macias, é hora de desligar o fogo e escorrê-las. Espere esfriar um pouco, tire a pele das batatas e passe-as num espremedor, deitando o purê dentro de uma panela já com uma quantidade razoável de manteiga sem sal em temperatura ambiente, sem estar ainda derretida – ela derretará sob o calor das batatas. Rale um bocado de noz-moscada sobre o purê. Despeje, aos poucos (muito aos poucos!), e já com o fogo baixíssimo ligado, leite integral. Eu sou adepto do purê mais macio, mas há quem prefira um purê mais firme, e quem contribuirá para que seja de uma forma ou de outra será justamente a quantidade de leite despejada durante a fervura do purê (sem parar de mexer um só minuto!). Quando estiver com a textura escolhida, coloque duas gemas de ovo cruas, evidentemente, um pouquinho de creme de leite fresco e queijo parmigiano reggiano a gosto. Mexa bem, mexa bastante, e desligue o fogo. Só então prove o sal, corrija-o se for necessário e está pronto!!!!!

Bom proveito…

E ó… Betinha… se você for fazer essa receita aí… mande as fotos, tá? Beijo enorme imerso numa saudade do tamanho do oceano que nos separa.

Até.

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MINHA RABADA NA BOCA DO POVO

Meu queridíssimo amigo, de quem tenho olímpica saudade, Bruno Ribeiro – “o maior”, na insuspeitada opinião de outro irmão de quem tenho saudade indescritível, Fernando Szegeri (ambos me abandonaram e eu devo fazer por merecer) -, aprontou-me uma. Publicou, ontem, em seu indispensável blog, um texto chamado A RABADA DO EDU, que pode ser lido aqui. No tal texto, o Bruno exalta minha rabada como quem exalta um título, uma conquista, um prêmio, e vejo-me obrigado a dizer a vocês uma coisa, talvez com isso decepcionando o mais valoroso jornalista de Campinas, quiçá do Brasil se tomarmos caráter e conduta como parâmetros: o Bruno jamais provou da minha rabada, jamais sentiu o cheiro da minha rabada, jamais pôs as mãos, os dedos, jamais chegou perto da minha rabada!!! E é verdade, também, que o malandro não engana seus leitores. Confessa, apenas, seus sonhos, como costumeiramente são feitas as confissões pela manhã diante da xícara de café e do pão com manteiga. O Bruno – eis a confissão que me encheu de estranho orgulho! – sonhou com a minha rabada. Sonhou, mais precisamente, que eu e uma amiga sua, a quem não conheço, preparávamos juntos uma rabada, numa casa qualquer, e que fazíamos tudo para que ele perdesse a paciência e fosse embora sem provar do prato. E foi o que aconteceu. Para se vingar, valendo-me do verbo que ele próprio conjugou, espalhou em seu blog, na íntegra, a receita da rabada que preparo com renovado prazer. E eis onde eu queria chegar. O prazer que experimento ao cozinhar.

Dia desses mesmo, na casa de meus pais, decidi por fazer um prato, para o jantar, e anunciei em voz alta:

– Hoje farei meu clássico filé à parmegiana!

Mamãe deu rodopios pela sala lambendo os beiços, minha menina revirou os olhinhos antevendo a hora do jantar e só meu pai, um incorrigível, muxoxou:

– Você e essa sua mania de fazer de cozinhar um evento!

Pois desci, fui ao Largo da Usina a pé, comprei filés altíssimos com três dedos de altura, devidamente limpos e cortados (um grande açougueiro, o Fernando!), comprei mussarela, comprei presunto, manteiga sem sal, tomates, queijo parmesão, pimenta do reino preta em grão, farinha de trigo, farinha de rosca e voltei como se carregasse a matéria-prima do tesouro que eu mesmo faria (e carregava, de fato).

Cheguei em casa e lá estava meu pai, incorrigível, muxoxando na cozinha já com uma dose de uísque generosa servida num copo de cristal empunhado pela mão direita:

– Lá vem o artista…

E é assim, meus poucos mas fiéis leitores, que sinto-me cozinhando. Não um artista, como disse meu pai. Mas – literalmente – em meio a um grande evento. Basta vocês lerem a receita da rabada que o Bruno tirou do escaninho mofado do BUTECO e expôs em seu blog, visitadíssimo e concorrido!

Pausa: pressinto que nesse próximo final de semana haverá cheiro de rabada no ar, tantas as pessoas que, incitadas pelo bom malandro, prepararão o prato em suas casas!

Cozinhar não é, em absoluto, um troço mecânico. Esta a razão, por exemplo, que me faz detestar as aparentes facilidades que a indústria de alimentos inventa. É prático comprar alho picado, como o que vem nesses potinhos plásticos imitando baldinhos? É. Mas e o prazer de escolher uma boa cabeça de alho, escolher o maior dente, descascá-lo e picá-lo artesanalmente enquanto se beberica um uísque? É prático o molho de tomate enlatado? Evidente. Mas e a arte de escolher os mais vermelhos, cortá-los em quatro, retirar-lhes a polpa, as sementes, cozinhá-los com azeite e com ervas para preparar seu próprio molho, infinitamente mais saboroso? Como meu pai – voltando a ele – é um homem prático e eu não sou – ao menos no que diz respeito ao tema – o preparo do tal jantar, naquela noite, foi, para ele, uma tortura:

– Vai demorar?

– Bastante.

Meia-hora depois.

– E aí? A quantas anda?

Eu, provocando:

– Vou beber uma dose contigo enquanto os filés descansam antes de irem para a frigideira…

– Descansam?

– Arrã.

Um pouco mais tarde:

– Tô com fome, pô! E aí? E aí?

– Já estão gratinando no forno…

– Demora?

– Hum… mais uns vinte minutos…

Mas eis que sirvo o jantar e papai não consegue disfarçar.

A cada corte do filé, a cada escorrer do queijo e do presunto de dentro dele (segredo que conto noutra altura), a simples visão do queijo gratinado e dourado dando ainda mais graça à aparência que somava-se ao sabor do prato, e papai fazia uns sons indecifráveis que eu nem fiz questão de entender. Ele comeu – eis a verdade numérica incontestável! – três filés acompanhados do mais espetacular purê de batata que já provei, o meu, evidentemente, que é preparado também sem pressa com batatas cozidas ainda com casca, manteiga sem sal, leite integral, queijo parmesão, noz moscada e sal. Uma garrafa de vinho tinto sem maiores pretensões e estava terminado mais um grande jantar. Caseiro, sim, mas um grande jantar. Como convém, é claro.

Instado a manifestar-se durante a sobremesa, disse meu velho pai, depois de suspirar e pensar durante uns bons segundos de olhos fechados:

– Bom.

Pra quem o conhece, um elogio incomensurável.

Terminando, então.

Assim como minha rabada já está na boca do povo, prometo para brevíssimo a receita de meu filé à parmegiana com purê de batatas, para que caiam, ambos, no gosto e na mesa de vocês todos.

Até.

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