MINHA RABADA NA BOCA DO POVO

Meu queridíssimo amigo, de quem tenho olímpica saudade, Bruno Ribeiro – “o maior”, na insuspeitada opinião de outro irmão de quem tenho saudade indescritível, Fernando Szegeri (ambos me abandonaram e eu devo fazer por merecer) -, aprontou-me uma. Publicou, ontem, em seu indispensável blog, um texto chamado A RABADA DO EDU, que pode ser lido aqui. No tal texto, o Bruno exalta minha rabada como quem exalta um título, uma conquista, um prêmio, e vejo-me obrigado a dizer a vocês uma coisa, talvez com isso decepcionando o mais valoroso jornalista de Campinas, quiçá do Brasil se tomarmos caráter e conduta como parâmetros: o Bruno jamais provou da minha rabada, jamais sentiu o cheiro da minha rabada, jamais pôs as mãos, os dedos, jamais chegou perto da minha rabada!!! E é verdade, também, que o malandro não engana seus leitores. Confessa, apenas, seus sonhos, como costumeiramente são feitas as confissões pela manhã diante da xícara de café e do pão com manteiga. O Bruno – eis a confissão que me encheu de estranho orgulho! – sonhou com a minha rabada. Sonhou, mais precisamente, que eu e uma amiga sua, a quem não conheço, preparávamos juntos uma rabada, numa casa qualquer, e que fazíamos tudo para que ele perdesse a paciência e fosse embora sem provar do prato. E foi o que aconteceu. Para se vingar, valendo-me do verbo que ele próprio conjugou, espalhou em seu blog, na íntegra, a receita da rabada que preparo com renovado prazer. E eis onde eu queria chegar. O prazer que experimento ao cozinhar.

Dia desses mesmo, na casa de meus pais, decidi por fazer um prato, para o jantar, e anunciei em voz alta:

– Hoje farei meu clássico filé à parmegiana!

Mamãe deu rodopios pela sala lambendo os beiços, minha menina revirou os olhinhos antevendo a hora do jantar e só meu pai, um incorrigível, muxoxou:

– Você e essa sua mania de fazer de cozinhar um evento!

Pois desci, fui ao Largo da Usina a pé, comprei filés altíssimos com três dedos de altura, devidamente limpos e cortados (um grande açougueiro, o Fernando!), comprei mussarela, comprei presunto, manteiga sem sal, tomates, queijo parmesão, pimenta do reino preta em grão, farinha de trigo, farinha de rosca e voltei como se carregasse a matéria-prima do tesouro que eu mesmo faria (e carregava, de fato).

Cheguei em casa e lá estava meu pai, incorrigível, muxoxando na cozinha já com uma dose de uísque generosa servida num copo de cristal empunhado pela mão direita:

– Lá vem o artista…

E é assim, meus poucos mas fiéis leitores, que sinto-me cozinhando. Não um artista, como disse meu pai. Mas – literalmente – em meio a um grande evento. Basta vocês lerem a receita da rabada que o Bruno tirou do escaninho mofado do BUTECO e expôs em seu blog, visitadíssimo e concorrido!

Pausa: pressinto que nesse próximo final de semana haverá cheiro de rabada no ar, tantas as pessoas que, incitadas pelo bom malandro, prepararão o prato em suas casas!

Cozinhar não é, em absoluto, um troço mecânico. Esta a razão, por exemplo, que me faz detestar as aparentes facilidades que a indústria de alimentos inventa. É prático comprar alho picado, como o que vem nesses potinhos plásticos imitando baldinhos? É. Mas e o prazer de escolher uma boa cabeça de alho, escolher o maior dente, descascá-lo e picá-lo artesanalmente enquanto se beberica um uísque? É prático o molho de tomate enlatado? Evidente. Mas e a arte de escolher os mais vermelhos, cortá-los em quatro, retirar-lhes a polpa, as sementes, cozinhá-los com azeite e com ervas para preparar seu próprio molho, infinitamente mais saboroso? Como meu pai – voltando a ele – é um homem prático e eu não sou – ao menos no que diz respeito ao tema – o preparo do tal jantar, naquela noite, foi, para ele, uma tortura:

– Vai demorar?

– Bastante.

Meia-hora depois.

– E aí? A quantas anda?

Eu, provocando:

– Vou beber uma dose contigo enquanto os filés descansam antes de irem para a frigideira…

– Descansam?

– Arrã.

Um pouco mais tarde:

– Tô com fome, pô! E aí? E aí?

– Já estão gratinando no forno…

– Demora?

– Hum… mais uns vinte minutos…

Mas eis que sirvo o jantar e papai não consegue disfarçar.

A cada corte do filé, a cada escorrer do queijo e do presunto de dentro dele (segredo que conto noutra altura), a simples visão do queijo gratinado e dourado dando ainda mais graça à aparência que somava-se ao sabor do prato, e papai fazia uns sons indecifráveis que eu nem fiz questão de entender. Ele comeu – eis a verdade numérica incontestável! – três filés acompanhados do mais espetacular purê de batata que já provei, o meu, evidentemente, que é preparado também sem pressa com batatas cozidas ainda com casca, manteiga sem sal, leite integral, queijo parmesão, noz moscada e sal. Uma garrafa de vinho tinto sem maiores pretensões e estava terminado mais um grande jantar. Caseiro, sim, mas um grande jantar. Como convém, é claro.

Instado a manifestar-se durante a sobremesa, disse meu velho pai, depois de suspirar e pensar durante uns bons segundos de olhos fechados:

– Bom.

Pra quem o conhece, um elogio incomensurável.

Terminando, então.

Assim como minha rabada já está na boca do povo, prometo para brevíssimo a receita de meu filé à parmegiana com purê de batatas, para que caiam, ambos, no gosto e na mesa de vocês todos.

Até.

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10 Comentários

Arquivado em comida, confissões, gente

10 Respostas para “MINHA RABADA NA BOCA DO POVO

  1. >Poxa Edu, maldade isso!!! Escreve logo a receita. Fiquei com água na boca.

  2. >Querido: sua rabada é uma obsessão desde que li, pela primeira vez, o seu texto – abrilhantado pela foto… E que foto! Palavras da Tatiana Rocha, ontem, no msn: “Fdp, agora vou ter que comer rabada! Imprimi a receita do seu amigo. Vamos tentar fazer no próximo domingo?”. Estou na expectativa. Não será a sua, evidente. Mas aposto que chegará perto, pois a Tati também é do ramo. Beijo! PS: não o abandonei, irmão, apenas estou de férias e um tanto quanto afastado de e-mail, msn, skype e afins… Saudades!

  3. >Presunto no parmegiana??? Você deve estar brincando…

  4. >Andrea: em breve, em breve…Brunão: conte-me, na segunda-feira, sobre a rabada da Tatiana, querido, sem as maldades de praxe. Beijo.Szegeri: não nos entendemos sobre a origem e o formato de um simples brioche, não me causa estranheza mais esse estranhamento seu… Quando estivermos juntos, mano, preparo esse bife pra você. Beijo.

  5. >Fala Edu!É no forno ou na frigideira? ou nos dois?Manda a receita ae!abração,Daniel A.

  6. >Eu PRECISO da receita deste file! E do pure tambem, amo pure de batata!Muitos beijos!

  7. >huuummm! q delícia!gente q sabe cozinhar é o máximo. é gente q sabe se doar, meio bruxo (a), meio alquimista. gente q reúne pessoas ao redor de si. cada pedacinho da comida é 1 pedaço de afeto.este blog já nos presenteou com cada foto… humm!escuta, Edu, vc ñ vai zoar a orgia dos jogadores do Flamengo? e dar seu parecer sobre a Lei Seca? hein? estamos ansiosos em te ler sobre estes assuntos risosbeijo!

  8. >Daniel A.: vê-se que você entende tanto de cozinha quanto o técnico do Fluminense entende de futebol e esquemas táticos… Frita-se, malandro, e depois ao forno! Publicarei a receita já, já, já que a Betinha pediu. Abraço.Betinha: aguarde alguns minutos. Já publicarei ambas as receitas.Eugenia: vou responder suas perguntas, uma a uma…(01) escuta, Edu, vc ñ vai zoar a orgia dos jogadores do Flamengo? Não.(02) e dar seu parecer sobre a Lei Seca? Não.(03) hein? Não.Um beijo.

  9. >Mais, Edu, eu entendo mais!Você é que está por fora, veja:Minha avó paterna, falecida há 5 anos, com 93, italiana, uma Diva da cozinha e da vida, depois de anos fazendo na frigideira e forno, passou a fazer, exclusivamente, no forno; e ficava uma delícia, quase tão boa quanto a frita, pode acreditar. Motivo: o colesterol, dela e do meu avô. Ela sempre reclamava, dizia que não ficava a mesma coisa, mas eu, confesso, nem sentia tanta diferença. Abração e manda logo essa receita. Mas, desde logo, aviso: melhor do que a da Dona Olga, nunca será! (por razões óbvias, é claro) Daniel A.

  10. >Daniel A.: e você acha que eu sou maluco de querer competir com sua avó, rapaz? Só se eu fosse completamente maluco. Eu, que nunca provei da comida da sua avó, sei que não dá nem pra saída. Forte abraço.

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