>SOLIDARIEDADE, UM TIRO PELA CULATRA

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Pela primeira vez desde que comecei a cometer essa insanidade de contar, diante do balcão do BUTECO, as histórias que vivo, que vivencio, que testemunho e das quais ouço falar, vou atender a um pedido desse gênero… Vou mudar os nomes dos personagens dessa história realíssima em respeito às famílias envolvidas. A protagonista jurou-me, de pés juntíssimos e beijando os polegares em cruz, na frente e no verso, que a família do falecido (vocês entenderão!) lê o blog. Se lê, mesmo, irá reconhecer o enredo. Mas – confesso – o baque será infinitamente menor diante dos nomes não revelados. Vamos à história.

O telefone celular estrilou e ela, sempre solícita, mesmo correndo o risco da multa – estava dirigindo – e sempre com voz de o-que-eu-posso-fazer-para-ajudar:

– Alô?

Só ouviu soluços do outro lado da linha. Diana levou um susto, reduziu a velocidade, encostou o carro junto ao canteiro lateral, ligou o pisca-alerta e perguntou:

– Lucinha?! O que aconteceu?!

– Meu pai, Di, meu pai…

Diana perguntou, sem saber de nada, chutando:

– Piorou? – segurava o celular junto ao ouvido com o ombro esquerdo, mirava o retrovisor avaliando a situação do tráfego e roía o dedo mindinho da mão direita.

– Morreu.

– Morreu?

– Ainda há pouco… – e desabou de chorar.

Diana, óbvia como a multa que tomou do guarda municipal em plena avenida das Américas, fez a pergunta estúpida:

– Mas, mas… como?!

A amiga não respondeu. Só chorou, chorou, chorou, até que desligou.

É preciso brevíssima interrupção para uma explicação que dará ainda mais graça à história. Embora eu tenha usado a palavra “amiga” para me referir à Lucinha, ela e Diana não eram, exatamente, amigas. As filhas eram da mesma creche há exatos dois anos, e os encontros diários, na hora da entrada e na hora da saída da tal creche, as trocas constantes de obas e olás, a posterior troca de telefones e essa mania insuperável, do carioca, de travar intimidades a torto e a direito, fizeram com que ambas se considerassem, praticamente, amigas de infância. Mas façam uma idéia… Os maridos não se conheciam, não freqüentavam a casa uma da outra, nada disso. Eram, no máximo, colegas – como as filhotas. Vamos voltar.

Diana (diga-se), uma pessoa maravilhosa, sempre disposta a ajudar o próximo, sempre disponível para o que der e vier (ela adorava dizer isso sobre si mesma), chegou em casa esbaforida, afundou-se no sofá e discou para a casa de Lucinha. Atendeu o marido da amiga que contou-lhe o drama, na íntegra.

Em resumo: o pai de Lucinha fora, a passeio, para Nova York. Lá, no primeiro dia de férias, tomou um tombo, bateu com a cabeça no meio-fio, foi levado a um pronto-socorro, internou-se por conta de complicações que não vêm ao caso e, dois dias depois, morreu. A filha, preocupadíssima e incitada pela mãe, foi ao encontro do casal, tendo chegado aos EUA minutos antes da morte do pai. De lá mesmo, do corredor do hospital, bateu o telefone celular para a amiga – o telefonema do começo da história. Segundo o marido, preciso no repasse dos detalhes à Diana, o traslado do corpo estava sendo providenciado por Lucinha e o velório e o enterro estavam marcados para dali a dois dias, em Brasília, onde nascera o velho.

Assim que desligaram, entrou pela sala o marido de Diana, chegando do trabalho e trazendo, a tiracolo, as duas filhas. Deu de cara com a mulher com as mãos no rosto, expressão de susto, perguntou o que havia, a mulher foi minuciosa e encerrou, assim:

– Vou pra Brasília!

O marido desesperou-se. Não compreendia mais aquela demonstração aguda de solidariedade e de companheirismo, ainda mais com uma mulher a quem ele sequer conhecia! Mas a mulher tinha argumentos que soavam como definitivos:

– Eu não vou deixar a Lucinha sozinha nessa hora! Imagine! Ela mora no Rio, vai enterrar o pai em Brasília! Sei lá se ela conhece alguém em Brasília… Imagine! Imagine! Amiga minha não fica só numa hora dessas! Imagine a coitadinha sozinha com o caixão e a mãe, numa capelinha qualquer, sem companhia… Nunca! Nunca! Nunca!

E Diana foi, contra a vontade do marido e mesmo com as intensas queixas das filhas como prenúncio de uma saudade dolorida, no dia seguinte, à noite, para Brasília. Embarcou sozinha e embarcou – vocês verão – numa tremenda furada.

Foi, durante o vôo, fazendo planos que poderiam soar mórbidos, não fossem a pureza d´alma e a grandeza da intenção de Diana. Faria companhia, até a manhã do dia seguinte, no enterro, à amiga diante do corpo do pai. Faria festinha em suas mãos provavelmente trêmulas, diria uns ohs e uns ahs durante uns suspiros inevitáveis durante a madrugada, essas coisas…

Ao chegar à capital, bateu o telefone celular pra Lucinha. Desligado. Tentou uma, duas, três vezes, até que desistiu da idéia, conformou-se com sua presença apenas pela manhã, pediu a dica de um hotel para o motorista de táxi, comentou com ele o motivo de sua viagem, e o chofer:

– Ah! A senhora também veio pro velório do senador?

– Como?

– O velório do senador, coitado. Morreu longe do Brasil…

– Senador?

– Ex-senador, a bem da verdade… Mas, liturgicamente, minha senhora, senador da República, sim… Foi senador durante uns oito anos, o velório recomeça amanhã às sete da manhã no Salão Nobre do Congresso Nacional… Pobre doutor Caruso…

Ouvir o nome do pai da amiga doeu-lhe fundo.

– Salão Nobre?

– Sim.

– Congresso Nacional?

– Sim, senhora…

– Meu Deus…

– O que foi, madame?

– Nada…

Disse “nada” mas sentia, por dentro, que seus planos não se concretizariam.

Às cinco e meia estava de pé. Tentou o celular da amiga novamente. Permanecia desligado. Tomou um bom banho, vestiu-se e pediu o café da manhã no quarto, que engoliu com pressa. Desceu à recepção, pagou a despesa com o cartão de crédito, pediu um táxi e tomou a direção do Congresso Nacional.

– Com licença, senhora… A senhora está indo para o velório do doutor Caruso?

– Sim.

Olhavam-se pelo retrovisor.

– Está lotado… Já fiz quatro corridas para lá essa manhã.

– Lotado?

– Sim. Fila.

– Grande?

– Enorme.

Deu um muxoxo, fechou os olhos, respirou fundo algumas vezes até que ouviu o motorista.

– Pronto. Boa sorte, senhora.

Ela não podia crer no que via. Uma fila enorme, homens de terno, mulheres bem vestidas, carradas de meninos carregando coroas de flores imensas para dentro do Congresso Nacional, e ela de jeans, camiseta de malha, um agasalho de moleton e um desejo incrível de abraçar a amiga. Chegou-se para um segurança que tentava organizar a fila:

– Bom dia… Eu sou amiga da filha do senador e…

Foi interrompida:

– A senhora é da família? – perguntou consultando uma lista.

– Não, mas…

– Pro final da fila, minha senhora! Preferência só para os familiares…

Foi para o final da fila tentando o celular da amiga. Desligado.

Esperou – notem bem!, notem bem! – duas horas e quinze minutos para entrar no Salão Nobre do Congresso Nacional. A fila andava a passos lentos, e Diana, ao avistar Lucinha, tirou o agasalho de moleton e passou a girá-lo, segurando-o por uma das mangas, para chamar a atenção da amiga. Em vão. Lucinha, com o rosto mergulhado na janelinha do caixão do pai, estava num espaço reservado para a família e nenhuma atenção prestava ao que se passava naquele austero ambiente. Diana foi se aproximando – já havia desistido dos acenos patéticos com o agasalho – e percebeu, nervosa, quando Lucinha foi levada para um cômodo isolado por dois homens que a amparavam. Foi justo no instante em que ela passou diante do corpo do senador. Não foi vista.

Não foi vista e aquilo lhe doía como corte.

Quando percebeu, já estava do lado de fora do Salão Nobre. Dirigiu-se a um outro segurança:

– Por favor… a que horas vai ser o enterro?

– Às quinze, senhora.

– Onde, hein?!

– Será fechado apenas para a família, senhora.

– O quê?!

– Fechado para a família, senhora. Ordens da viúva e da filha do doutor Caruso.

– Mas o senhor pode dizer a elas que…

– A senhora é da família? – perguntou isso olhando Diana de cima a baixo.

– Sou! – mentiu.

– Seu nome, por favor.

– Diana Caruso.

O segurança consultou uma lista. Chamou alguém pelo rádio. Fez uma, duas, três perguntas. E dirigiu-se à Diana:

– Lamento, senhora. Não há autorização para nenhuma Diana Caruso, e por favor, não insista.

Desesperou-se, a pobre mulher. Tentou de tudo. Perguntou a um, perguntou a outro, mas tudo – desde sua roupa, incompatível com a cerimônia, até seu desespero desproporcional ao que se via – o que ela conseguiu foi um ou outro olhar de comiseração. Ficou ali, plantada, estacada, diante da porta do Congresso Nacional, até que viu a família saindo em direção a cinco carros oficiais estrategicamente parados diante da saída. Avistou a amiga. E gritou, a plenos pulmões:

– Lucinhaaaaaaaaaa!

Lucinha entrou no carro sem nem levantar o rosto, amparada por um segurança. A comitiva passou por Diana, ela acenou efusivamente para Lucinha, que finalmente a viu. Diana acenou com o celular e tentou, minutos depois, contato com a amiga. Chamou. E Lucinha atendeu:

– Olá, Diana, fale rápido que minha bateria está acabando…

– É que…

– Não precisava ter vindo…

– Aonde vai ser o enter…

Caiu a ligação.

Tentou de novo, de novo, de novo, e conformou-se. Disse, a caminho do aeroporto:
– Eu tentei… Mas deve mesmo ter acabado a bateria…

A viagem de volta foi tristíssima.

Não vira a amiga como pretendia. E pensou, durante o vôo, no que contaria ao marido para evitar a – mais que merecida – chacota.

Até.

6 Comentários

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6 Respostas para “>SOLIDARIEDADE, UM TIRO PELA CULATRA

  1. >Duvido um homem se despencar para Brasilia para acompanhar o enterro do pai do pai do coleguinha de escola do filho. Seria no minimo chamado de boiola!Mulher eh bicho estranho mesmo. Mas lindo na sua estranheza, ne?Beijo.

  2. >Sei não, mas fiquei com a impressão de que a moça mereceu entrar nessa roubada…

  3. >Renata: furada? Das maiores que eu já soube…Betinha: e as intenções – conheço bem a protagonista… – foram as melhores… juro!Brunão: mereceu não, querido… Creia em mim… Mas que foi engraçado, isso foi!

  4. >Isso tem a cara da brasileira. Vc imagina um sueco fazendo isso? Não. E um homem, de qq nacionaliadde, fazeno isso? Tb não. Só mesmo uma brasileira.

  5. >Trata-se, entretanto, Eugênia, de uma graaaaande brasileira, a protagonista. Uma grande brasileira. Grande é o país onde pulula gente como ela! Beijo.

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