UM PASSEIO PELA TIJUCA – V

Vamos ao quinto – e último, por enquanto… – roteiro que proporei a você, leitor disposto a conhecer mais a fundo a Tijuca, a se despir desse preconceito bobo contra a Tijuca, esse bairro carioca ao extremo, zona norte em estado bruto, e a você, tijucano orgulhoso mas – quem sabe? – sem paciência para esse exercício de andar a pé conhecendo, mais de perto, o lugar em que vive.

Vou propor, como ponto de partida, numa manhã de sábado, por volta das dez da manhã, uma casa de café da manhã na rua Lúcio de Mendonça quase na esquina da rua Mariz e Barros, chamada DOCE ACÁSSIA. Antes de entrar, compre no jornaleiro em frente – exatamente em frente! – um exemplar de qualquer jornal, o de seu agrado, para ler enquanto se prepara para forrar o estômago e agüentar o tranco do dia. E torça para encontrar – há chances, há chances! – Luiz Antônio Simas, freguês da casa (já tomei café da manhã lá, com o malandro). Abuse. Chocolates, café preto e forte como petróleo, pães de todo gênero, frios, manteiga, sucos, caia dentro, mas sem pressa. Você pagará baratíssimo, e se você não for da Tijuca, se for, por exemplo, da zona sul da cidade, você vai achar que a conta está muito errada, pra menos! Encerre o café da manhã com uma água geladíssima, com gás, tome a calçada e vá, rapidinho, pra sua direita. Caindo na Mariz e Barros, a menos de dez metros de onde você está, dobre à direita e entre no primeiro buteco que encontrar. Um autêntico pé-sujo, balcão enorme, comprido, e depois de pedir uma Brahma como abrideira (no copo americano, é claro!), lance o primeiro gole ao chão, ofereça a quem de direito, beba a garrafa sem pressa, preste atenção à conversa que acontece ali (há sempre o que ouvir…), fique nessa única garrafa e volte para onde você estava.

Acene para a simpaticíssima dona da casa de café da manhã, despeça-se do jornaleiro e siga a Lúcio de Mendonça no sentido do trânsito (que é quase nenhum). Preste atenção à vila que há no número 21, um paraíso encravado numa rua já paradisíaca. E ainda vou propor o seguinte… Entre na primeira à esquerda, rua Benevenuto Berna. Antes de entrar, entretanto, preste atenção ao belíssimo prédio, EDIFÍCIO AYMORÉ, que fica na esquina da Benevenuto Berna com a Lúcio de Mendonça, de pouquíssimos andares, amarelo, ocupando toda a esquina, agradabilíssimo. Conheço poucos edifícios naquele estilo… Ande até o final da Benevenuto Berna, sem pressa, e veja que beleza de casas, por toda a extensão da rua, dos dois lados…

No final da rua, à esquerda, há o MITSUBA, o melhor restaurante japonês do Brasil. Quem sabe você não se anima a comer lá mais tarde? Mas volte para a Lúcio de Mendonça, volte… Rume para a esquerda e tome a direção da rua Moraes e Silva, onde há, às quintas-feiras, uma outra fabulosa feira livre, que tem seu coração na Praça André Rebouças (que não é praça, é um largo, apenas!), cruzamento das ruas Moares e Silva com Oto de Alencar. É nela, na Oto de Alencar, que você vai entrar.

A Oto de Alencar é outra aprazível rua tijucana, na qual é celebridade um leitor constante do BUTECO, o Marcelo Moutinho. À direita de quem segue em direção à rua General Canabarro, notem!, há o EDIFÍCIO MOUTINHO, uma das jóias da rua, prédio antigo, portaria ampla, apartamentos que parecem ser enormes… uma grande rua, uma grande rua!

Chegando na rua General Canabarro, dobre à direita e você vai dar de cara, logo depois da padaria da esquina, com o BODE CHEIROSO, buteco de primeira.

Pausa rápida.

Deu-me aguda vontade de recomendar a vocês a leitura do texto SZEGERI NO RIO – PARTE III, que pode ser lido aqui, no qual conta uma história que termina, justamente, no BODE CHEIROSO. E foi no BODE CHEIROSO, também, que filmei a sempre comovente cerimônia do lava-pés num buteco, vejam aqui. Mas vamos voltar e ao que interessa.

Lá, no BODE CHEIROSO, comandado por duas irmãs, onde trabalha o legendário Bigode, e no qual tivemos o prazer de beber, recentemente, eu, Bruno Ribeiro e Luiz Antônio Simas (na companhia da doce Candinha), a cerveja é sempre, mas sempre, sem exceção, gelada como deve ser. Serve-se comidinha caseira de primeiríssima, também, e tira-gostos de fazer qualquer um virar freqüentador assíduo. Eu destaco a carne-seca desfiada com farofa e a lingüiça mineira, também com farofa. Mas vá por mim… Peça que não tem erro. Peça uma dica ao Bigode, à Marta, a qualquer um que lhe atender, e você ficará, garanto, satisfeito.

Fique ali por algumas horas e depois siga a caminhada. Saindo do buteco, atravesse a rua, tome a direção da esquerda e entre na primeira à direita, rua Luiz Gama. A Luiz Gama é uma ruazinha mínima, que liga a General Canabarro à avenida Paula Souza, avenida com um canteiro gigantesco que serve de base para um verdadeiro túnel de árvores. Entrou na Luiz Gama, beba um – eu disse um! – chope em pé no BAR DO CHICO´S. E notem que troço tijucano, pô!

O certo seria BAR DO CHICO ou CHICO´S BAR, certo? No Brasil inteiro, certo. Na Tijuca, não. Na Tijuca, o gênio criativo tascou lá, na tabuleta… BAR DO CHICO´S!!!!! E tá certo!

Siga na Luiz Gama mesmo e conheça o mini-estabelecimento que há ali ao lado do bar. Uma mistura de armazém com delicatessen, de vendinha com verdureiro, de mini-mercado com faz-tudo, uma zorra cativante! Ao lado, parede com parede, um pé-sujo dos melhores, mínimo, onde não cabem mais do que cinco pessoas dentro! Mas há mesinhas espalhadas por toda a calçada – aquilo em dia de jogo no Maracanã, a poucos metros dali, é uma festa! – e a cerveja também é gelada a ponto de te fazer perder a hora.

Quando achar que é a hora, volte pra General Canabarro e vire à direita. Vá até a esquina da rua São Francisco Xavier e delire, delire! Você estará num bar que foi infelizmente recém-reformado, mas que mantém, pendurado na marquise do lado de fora, uma jóia rara (sonho em comprar aquilo há anos!!!!!): um letreiro luminoso, antiqüíssimo, ovalado, muito antigo – não conheço nenhum outro na cidade inteira!!! – do refrigerante GRAPETTE!

Peça uma água sem gás, ali mesmo. E repare na beleza que é o COLÉGIO MILITAR, bem à sua frente. Casarios muito antigos, a capela (onde fui batizado!), o portão imponente que se abre para a São Francisco Xavier, e tome o rumo dessa rua, andando em direção à esquerda.

Você passará em frente ao MITSUBA de novo, na esquina da rua Benevenuto Berna. Se você quiser muito comer comida japonesa, é a pedida. Caso contrário, se você estiver a fim de conhecer o melhor restaurante do bairro, um dos melhores do país (que desbanca Cipriani, Fasano, Gero etc), caminhe um pouco mais. Siga pela São Francisco Xavier mesmo, atravesse a rua Mariz e Barros, siga pela mão do trânsito na calçada do seu lado esquerdo, você passará pelo MONTE SINAI, verá à sua direita o ORSINA DA FONSECA, escola pública que ocupa um terreno impressionante, passará pelo EDIFÍCIO JUREVA, número 90 (onde morava um legendário morador da Tijuca, o Seu Bandeira, que fazia sucesso com sua bicicleta motorizada graças a uma bateria de carro instalada no banco traseiro do carona!!!!!), pela vila número 84, onde moraram meus avós e minha bisavó com sua irmã, Idinha, e chegará à esquina da Heitor Beltrão. Antes de entrar à esquerda, repare na IGREJA DE SÃO FRANCISCO XAVIER DO ENGENHO VELHO.

Essa igreja teve sua origem numa pequena ermida construída às margens do rio dos Trapicheiros (que passa em frente ao FIORINO, em toda a extensão da Heitor Beltrão), em terras da Companhia de Jesus, em 1572, tendo sido construída com a participação efetiva de José de Anchieta, considerada por muitos historiadores o berço da Tijuca. A Igreja, tal como se vê hoje, foi construída em 1815, passou por diversas reformas – uma delas bancada, em grande proporção, pelo Duque de Caxias, que morava ali pertinho, na rua do Andaraí Pequeno, hoje a rua Conde de Bonfim) – tendo sido, a última, em 1928.

Entre, pois, à esquerda, caminhe uns metros e pronto: você chegou ao FIORINO. Aproveite!

Até.

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20 Comentários

Arquivado em Tijuca

20 Respostas para “UM PASSEIO PELA TIJUCA – V

  1. >Edu, já copiei e colei todos os roteiros da Tijuca. É tudo o que eu gosto, inclusive a feira. Vou ler com calma cada pedacinho… me deu até vontade de comer um belo pastel de feira… pena que hoje está esse tempinho. Antes eu ia até a Gloria aos domingos.. vou seguir seu roteiro. Abraços e bom domingo.

  2. >Olha, Edu, a forma como você descreve esse roteiro cultural-etílico-gastronômico, faz-me sentír como se o estivesse experimentando, fisica e espitirualmente. Já pensou em escrever um livro com foco nesse tema? Por favor, deixe-me sugerir o título: “Um passeio pela Tijuca”. Poderia ser outro (risos)? Por favor, quero estar na noite de autógrafo, aí num desses maravilhos lugares da … TIJUCA.

  3. >Querido, meu irmão… Por absoluta falta de tempo ainda não tinha comentado sobre este seu fabuloso roteiro tijucano, digno de antologia. Um dia – espero que breve – pretendo cumprir à risca todas as tuas indicações. Não é só comovente a maneira como você descreve as coisas do teu bairro, mas é também importante, como documento de uma época, para a memória de uma cidade que ainda resiste e que ainda ama em meio ao caos. O que me chamou mais atenção – e se não for pedir demais eu gostaria muito de ver, um dia, uma foto publicada aqui no BUTECO – foi o luminoso do GRAPETTE! Fiquei, querido, sinceramente emocionado, imaginando a plaqueta redonda, um pouco empoeirada, quiçá a última sobrevivente da família! Não duvido nada se você disser que ainda é possível tomar uma garrafinha de Grapette num botequim da Tijuca! Beijo!

  4. >Urge transformar esses textos num livro da série “Cantos do Rio”.

  5. >Andrea: depois me conte se gostou!PêGê e Simas: vocês têm uma editora?!Bruno: muito em breve, mano, publico a fotografia! Prometo!

  6. >Oi, Edu!Sou leitora assídua dos textos deste Boteco há meses! Encontrei teu blog quando fazia uma pesquisa sobre botecos e seus interiores… sim, sou arquiteta e trabalho com design de interiores, mas, antes que você torça o nariz, é bom avisar que não sou responsável por nenhum projeto desses botequins de mentira que proliferam por aí… Sou tijucana desde sempre, nasci e vivi durante 25 anos ali no Largo da 2ª feira, na Rua Aguiar. Depois de 20 anos longe, estou de volta ao mesmo endereço… E é um prazer me deparar com esses roteiros afetivo-etílicos que você tem publicado! Neste último, bastava você ter andado um quarteirão a mais para se deparar com o Colégio de Santa Teresa de Jesus, onde estudei desde o jardim de infância (é, naquela época, existiam jardins e existiam infancias!), que funciona há 90 anos. Lendo os comentários, lembrei do Cinema 3, ali na Conde de Bonfim, onde as músicas dos Beatles tocavam nos intervalos entre as sessões… Lembrei da carteira de estudante que falsifiquei para assistir “Tommy” no Comodoro… E do 1º livro impresso do Torquato Neto, quase uma brochura, comprado na Livraria Eldorado, mantido como relíquia até hoje… É muito bom estar de volta! Feliz Tijuca para todos nós!

  7. >Bacana, Carmen! Seja bem chegada ao balcão do BUTECO, pela primeira vez (primeira vez, né?), e bem chegada à Tijuca, de volta! Beijo.

  8. >Caramba, Edu! Edifício Moutinho! Não sabia que alguma parte da família tinha se fixado na Tijuca (a concentração maior é em Madureira, na Penha e na Ilha). Sobre o Fiorino: é, de fato, um primor. E com a vantagem de funcionar numa casa charmosíssima (os proprietários abbriram um restaurante na Lagoa – cardápio e preços quase iguais, mas num sobrado sem nenhuma personalidade)…

  9. >É, Moutinho, e é um belíssimo edifício, desses bem zona-norte, cara de casa coletiva de família mesmo! Faça esse roteiro, rapaz, e dê uma carteirada no porteiro!!!Conheço essa “filial” do Fiorino. Chama-se Artigianno (algo assim) mas, de fato, não tem 1% do charme do restaurante tijucano.Abraço.

  10. >gente, tem um prato no Fiorino q é de comer ajoelhado: é uma massa em formato de flor – na verdade, vêm umas 3 ou 4 no prato – recheada de queijo e presunto! Sensacional!Me lembro também de uma entradinha, acho q berinjela ou abobrinha, cortada fininha, temperada, huummm! Ah, e o lugar é lindo, grande, especial mesmo.

  11. >Ah, a Heitor Beltrão…minha avó morou durante toda a minha infância em um prediozinho de três andares que fica na margem direita de quem vai da São Francisco Xavier em direção à Afonso Pena, que está lá até hoje, imprensado por espigões, substitutos de casas lindas…lembranças boas das férias e natais comemorados com toda a família e das “peladas” jogadas no meio da rua, interrompidas – de vez em quando, naquela época! – por um veículo…boas lembranças…abraços.

  12. >É, Cazé, eu também brinquei muito por ali… A bem da verdade, meus avós, juntamente com minha bisavó e uma tia minha, moravam numa vila que havia ali na meiúca da Heitor Beltrão, da Professor Gabizo, e a Heitor Beltrão era passagem obrigatória, já que meus pais moravam na São Francisco Xavier. Ô, bons tempos…

  13. >Edu,Eu sou um dos seus leitores fantasmas. Sempre estive no seu Buteco, mas você não me via. É que eu não pedia a cerveja. Ia lá e pegava, escondido. Mas, com a reforma do Buteco, que parou de dar destaque aos nossos (viu como estou do seu lado?) inimigos (J, JL e outros da mesma laia) percebi que agora a administração do Buteco está focada na qualidade do entretenimento histórico e etílico tão importante para nós.Já escrevi muito para quem ia só dar um alô.Então, um abraço à todos do Buteco.Ah, só para não deixar passar em branco. Freqüento muitos dos lugares expostos no roteiro da Tijuca. Ah, você sabia que o Bode Cheiroso também é conhecido como “Bar dos Cornos”?sds, Wander.

  14. >Caro Eduardo. Como bom butequeiro ficarei assíduo deste endereço. Suas dicas serão seguidas com tenacidade religiosa. Só não precisava exagerar sobre o nosso modesto Mitsuba. Ah, o texto está uma delícia. Abraços, Homero Cassiano

  15. >Homero: é um grande prazer recebê-lo aqui no balcão do BUTECO!!! E saiba que acho, de fato, o Mitsuba um grande restaurante, uma grande e permanente pedida e não é por outra razão que, vira e mexe, estou pessoalmente na área ou pendurado no telefone fazendo meu pedido para ser entregue em casa! E não estou dizendo isso, é evidente, por conta de sua presença aqui! Mas já que estás aqui, fique sabendo que considero o seu restaurante, o Mitsuba (obrigado pelo nosso), o maior! O maior! Um forte abraço.

  16. >Como um jovem tijucano que tanto admira o bairro em que vive, me sinto tentado a seguir um destes roteiros muito em breve!

  17. >Lucas: faça isso que você não irá se arrepender. Forte abraço, seja bem chegado.

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  20. Edu: Que tal se a gente TOMBASSE a Rua Benevenuto Berna com o lindo Edifício Aymoré? Me dá vontade de ir morar por aí e minha filha, meu genrão querido e meus 3 netos??? Já enviei um e-mail para um montão de vereadores, topa essa parada??? Eu sou ótima comedora de tapioca de feira com direito a um bom caldo de cana… Bjs, Alice.

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