UM PASSEIO PELA TIJUCA

Sábio é o homem que dispensa o automóvel, que dispensa, com ares de ojeriza, o metrô, o mais desumano meio de transporte de que se tem notícia, sábio é o homem que se vale do ônibus somente em último caso, e vou explicar tudo. O automóvel é detestável pois exige do motorista atenção permanente, olhos pra frente, no máximo uma espiada pelo retrovisor, pernas e braços sob controle absoluto, movimentos que o impedem de ver o que se passa à sua volta, o impedem de ver as coxas das moças que passam pela calçada com vestido de normalista, o impedem de ver as casas, as janelas, as árvores, os jardins, os mais velhos, as crianças, os jornaleiros, os butecos pelo caminho, o casario do trajeto, os bichos, tudo enfim. O metrô, franca e sinceramente, quase que não merece comentários. Debaixo da terra, com toneladas de pessoas com fios pendendo dos ouvidos (leiam o que escreveu sobre esse triste fenômeno, o meu mano Szegeri, aqui), com vagões invariavelmente lotados à beira do insuportável (como cheios estão os bolsos da concessionária que administra, mal, o metrô carioca), o metrô não permite nada ao usuário além do desconforto, da solidão, da aridez da paisagem e da frieza da assistência (quantos bêbados você já encontrou no metrô? Sobre bêbados em transporte público, leiam PÁRA, QUE EU QUERO DESCER, aqui, e PÁRA, QUE EU QUERO DESCER (II), aqui, ambos os textos de autoria também dele, Szegeri). Já o ônibus, meio de transporte pelo qual tenho intensa simpatia, em tudo contrasta com o automóvel e com o metrô. O ônibus permite ao passageiro que tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, uma visão panorâmica da cidade, permite ouvir o som das ruas, as buzinas, os pregoeiros dos sinais de trânsito, a fofoca das mulheres dos bancos da frente, as lamúrias do casal dos bancos de trás, permite ver o sarro consentido, de leve, no meio do corredor do coletivo, as queixas da trocadora, as piadas do trocador, os esporros que leva o motorista a cada freada mais brusca. Mas, ainda assim, deve ser utilizado apenas em último caso.

O homem sábio anda, mesmo, a pé.

Andando a pé, meus poucos mas fiéis leitores, é possível respirar, in totum, a atmosfera da cidade. Quantas vezes você já se flagrou, ainda que num rápido passeio a pé, dizendo, “nunca havia reparado nessa casa!”? Várias, certo? Pois caminhando a pé, esses sustos são constantes e permanentes. A pé se pode cumprimentar os porteiros do trajeto que, dependendo da constância com que você o atravessa, viram fraternos amigos de seu dia-a-dia. A pé dá-se bom dia a torto e a direito; para os empregados do comércio das ruas, para o gari com quem se cruza, para o guarda de trânsito, para os vizinhos que, geralmente, têm um sorriso pronto para corresponder a seu aceno. A pé sente-se os cheiros da cidade. Os cheiros do monóxido de carbono que sai nervoso dos canos de descarga desregulados que existem aos montes, mas também o cheiro do jardim dos prédios da rua, muitos deles com flores que jamais seriam vistas d´outro ângulo. E se você passa por uma feira? Vêm os cheiros também das flores, mas vêm os cheiros das frutas, das ervas frescas, e seu dia e seu passeio ganham em qualidade. Tem o cheiro dos passantes, e se você for bom de nariz, detectará água de colônia, perfume francês, loção pós-barba, e os perfumes de jasmim das moças que não passam nada sobre a pele, mas que exalam o perfume que elas mesmo produzem…

Eu disse tudo isso para sugerir – vejam vocês como ando dando voltas… – um passeio a pé pela Tijuca, de preferência para um sujeito chegado à comida e à bebida servida nos butecos mais vagabundos aos quais eu não resisto.

Se você não morar perto do ponto de partida, pegue um ônibus!

Proponho que a marcha comece num domingo pela manhã, por volta das 10h. O ponto de partida é a monumental (com a palavra, Luiz Antonio Simas) padaria TRIGUS, na Mariz e Barros esquina com a Ibituruna. Nem em Paris, meus caros, nem em Paris!, você encontrará pães como os que são vendidos nesse portentoso estabelecimento tijucano. De pé, no balcão, você se regozijará com seu pão predileto, seu sanduíche preferido, um café preto bem quente e estará pronto para começar a caminhada. Atravesse a Ibituruna e saia andando pela Mariz e Barros no contrafluxo do trânsito, em direção à rua Felisberto de Menezes, a primeira à direita (antes, você verá passar, à sua esquerda, a Senador Furtado e a Paraíba). Entre nela depois de babar, literalmente, diante da beleza que é a entrada do INSTITUTO DE EDUCAÇÃO, imponente construção que dobra a esquina na qual você entrará. Daí você dará no Largo Frei Cassiano Villarosa, e entrará à esquerda, de leve, na rua Barão de Iguatemi.

Não caia na tentação de virar à direita para parar na feira da Vicente Licínio. Essa é a próxima etapa. Vá por mim e entre na Barão de Iguatemi.

Na calçada do seu lado esquerdo, pouco depois do jornaleiro, uma carranca quase na calçada vai te anunciar que você está diante do ACONCHEGO CARIOCA. Se tudo for como sempre, a Kátia, uma das donas, estará lendo jornal na varanda, do lado de fora, e irá encará-lo com expressão de um mau humor que não resiste ao primeiro sorriso. Pergunte pelas cervejas da casa e delicie-se com o cardápio extenso de louras, ruivas e escuras das mais variadas procedências. Sente-se. File o jornal da Kátia, puxe conversa, mas fique apenas na primeira garrafa. Antes de sair pergunte a ela pelo bar do Paulinho, seu irmão. Ela apontará o braço e o dedo para o lado direito, olhando para a rua, ou seja, você passou por ali e nem notou. Vá até lá.

O Paulinho é outro boa-praça. Montou o bar tem pouco tempo. Construiu, pacientemente, uma câmara frigorífica para guardar as carnes exóticas que serve no bar. Peça a ele para mostrá-los; a câmara e as carnes! Ele terá intenso prazer em fazê-lo. Enquanto isso, é evidente, peça uma outra cerveja com a intenção, inarredável, de manter-se apenas nessa uma. Fique de pé, no balcão, aproveite da boa conversa do malandro, despeça-se e tome o rumo da feira.

Chegou na feira? A fim de equilibrar o pH e de colocar glicose pra dentro do organismo, na primeira barraca à esquerda de quem entra, peça um pastel e um caldo de cana grande. Você terá direito a um, dois, três choros dentro do copo e estará pronto para seguir em frente. Passeie pela feira, sem pressa. A feira livre é uma festa de cores, de cheiros, de gostos (sempre há uma provinha em cada barraca!), e não se deve ter pressa nessa hora. Veja os peixes, os camarões, compare os preços, compre o que lhe der na telha, veja tudo com cuidado, apalpe as frutas, cheire as frutas, puxe papo com os feirantes, sábios das ruas, e tenha ouvidos atentos às piadas que são apregoadas cada vez que uma mulher bonita passa. Dia desses, estava eu comprando frutas quando passa uma menina, não mais do que 18 anos, linda, com seios enormes querendo saltar pra fora da blusa. E o feirante:

– Olha o melão, minha gente! Que melão é esse?! Que melão é esse?! Mesmo caro vale a pena! Olha o melão! Madurinho, madurinho!

Atravessar a feira, se você for atento e curioso – como deve ser – vai lhe tomar entre 45 minutos e uma hora. Você já vai estar na rua Campos Sales, rua da sede do glorioso América, do Felipinho Cereal. Dobre à direita e entre, lépido, na primeira à esquerda, na rua Pardal Mallet. Siga em frente pela calçada da direita. À sua direita mesmo, já quase na esquina da rua Afonso Pena, você verá uma das mais lindas casas da Tijuca… Casa de frente ampla, um alpendre à direita de quem olha da rua, um alpendre de livros de infância, um jardim impressionante cercando a casa… e mais uns passos você chega na esquina e deve sentar-se no BAR DO CHICO. Como é domingo e ainda é de manhã, comecinho da tarde, quem deve estar no balcão é o Chicão, não o Chico. Peça uma Brahma gelada e preste atenção nas mesas à sua volta. Todas, sem exceção, estão ali domingo após domingo, religiosamente. Os mais-velhos sob a marquise discutindo sobre cavalos e futebol, a rapaziada no balcão comentando a rodada da véspera, e você deve ficar, mesmo, nessa única cerveja, deixando pra comer no SALETE, na rua Afonso Pena, que pode ser visto da esquina.

No SALETE, farte-se. O chope é da Brahma e bem tirado. As empadas de camarão são as mais deliciosas desde que se inventou empada. Coma duas, três, e depois sente-se pra almoçar. Não tem erro no cardápio. Você pode pedir o risoto de camarão, o filé à francesa, peça de olhos fechados qualquer dos pratos e você será um homem satisfeito.

Eis o roteiro, meus poucos mas fiéis leitores. Pelos meus cálculos, que têm tudo para dar errado (quando tem buteco no roteiro tudo pode acontecer…), se você começar a marcha por volta das 10h, você deverá sair do SALETE por volta das 15h, a tempo de ver o jogo do domingo no RIO-BRASÍLIA. Saindo do SALETE, ande na mão do trânsito pela Afonso Pena e siga até a Haddock Lobo. Dobre à esquerda. Caminhe, resista aos bares do caminho e chegue até a esquina da rua Almirante Gavião. É ali. Seja bem chegado. Peça uma gelada ao Joaquim e termine, ali, o seu domingo tijucano em estado bruto.

Até.

PS: nosso querido Felipinho Cereal, em seu blog BOEMIA & NOSTALGIA, complementa as histórias que venho contando sobre a Tijuca com fotos simplesmente impagáveis de tão interessantes e reveladoras! Vejam aqui!

25 Comentários

Arquivado em Rio de Janeiro, Tijuca

25 Respostas para “UM PASSEIO PELA TIJUCA

  1. >ah! q roteiro magnífico!

  2. >O primeiro parágrafo é demais! Achava que só eu odiava o metrô e havia abolido o carro! Isso sem falar no táxi, que além de tudo é caro pra diabo.Ônibus e pé e – acrescento – bicicleta. Tão aí os meios de transporte dos ‘sábios’.

  3. >Gustavo: há muita gente que eu conheço, muita!, que não suporta o metrô, o mais desumano meio de transporte público oferecido aqui no Rio. Quem gosta, mesmo, de andar de metrô, não gosta de gente, não gosta do povo, não gosta da cidade, das ruas, dos bares, das construções… Veja você o que andei proseando com o Helion Póvoa num texto recente também sobre a Tijuca… Como um usuário contumaz do metrô vai saber sobre as peculiaridades da rua Caruso? Nunca! E bem lembrado… a bicicleta também é um graaaaande meio de transporte, e que o diga o Felipinho Cereal, o maior pedalador da Tijuca!

  4. >O Salete rapaz! Ah, o salete!Trabalhei alguns anos (segunda metade da década de 70) , no 678 da Mariz e Barros (aquele caixotão, onde era o SENAI – hoje acho que é FIRJAN) e tenho gratíssimas recordações dos chopes dos finais de tarde no Salete, acompanhados daquelas empadas e outros petiscos divinos, com direito à passagem das meninas, saindo do Instituto de Educação, com aquelas sainhas plissadas…ô coisa boa!!!Abraços.

  5. >Salve, Cazé com “z”!!! Eu também amo o Salete, rapaz… Os garçons e o gerente de lá, sempre que pinto na área, dizem a um ou outro:- Desde pequenininho esse cara vem aqui…Era meu pai, rapaz, depois dos constantes passeios à praça Afonso Pena, que dava um pulinho lá pra refrescar o bico e almoçar com mamãe e o caçula, esse que vos fala.O Manolo morreu, morreu sua companheira, mas o glorioso Salete mantém-se altaneiro no mais alto degrau da cozinha da Tijuca e do Brasil!Abração.

  6. >É verdade Gustavo e Edu, a bicicleta é bacana mesmo. Pena que as ciclovias da cidade encontram-se somente na zona sul, e por aqui temos que nos virar entre os carros.

  7. >Esse roteiro estah perfeito. Quanta saudade… Como eh mesmo o simbolo daquele bonequinho com o nariz escorrendo que outro dia uma leitora usou aqui?…

  8. >Cereal: não reclama, malandro, que você anda de bicicleta pela Tijuca de olhos fechados dando banho em muito automóvel! E isso com um charme fora do normal, com sua bicicleta modelo… modelo… modelo? Conta aí! Abração.ps: você viu que papai fez, lá no seu blog, promessa pública de pagar todas as mensalidades dele que estão atrasadas no América se você se candidatar a presidente e vencer?

  9. >Ô, Betinha: e a saudade que a gente sente de você, menina?! Mas segura sua onda… amanhã o meu Xerife segue a seu encontro – certo, né? – e já, já, 2009 está aí para que possamos recebê-la de volta, com direito a muuuuuitos roteiros como esse. Grande beijo.

  10. >Edu,Que inveja. Aqui no Lins não dá para andar pelas ruas sem ser assaltado ou pisar em bosta de cachorro, porco ou vaca.Vamos marcar um “tour” pela Tijuca.A última vez que estive na Tijuca para passear foi nos saudosos anos 80, quando eu freqüentava o Só Cana.Uma namorada minha era dona de um restaurante na mesma rua e outro amigo querido também morava lá.Bons tempos!!!O Só Cana ainda existe?

  11. >Ô, Fraga Jr.! Mas então o Lins mudou demais, rapaz! Meus avós moraram lá, entre 1980 e 1982, mais ou menos, e eu – mesmo pirralho – lembro-me da calmaria que era aquilo, rua Conselheiro Ferraz, salvo engano da minha memória.O Só Kana ainda existe, sim. O tradicional mantém-se firme na rua Conde de Bonfim, uma espécie de clube fechado, os mesmos freqüentadores todos os dias naquela sacra-esquina. E há um outro, modernoso (nunca pisei nele!), na avenida Maracanã, perto da Praça Varnhagen.Abraço do tamanho da Tijuca!

  12. >Edu,E aquela praça com os cavalos, bodes e outros semoventes??? Ainda dá para montar em alguma coisa???Eu vivia por lá todos os domingos entre 1974/76.Pense na idéia de um “tour” coletivo.Creio que os seus “fiéis leitores” iriam comparecer em peso.Um forte abraço!

  13. >Fraga Jr.: a praça a que você se refere é a Xavier de Brito, delírio das minhas sobrinhas, por exemplo. Aquilo lá, de fato, aos domingos, ainda é uma grande pedida pra molecada. E sem contar que tem, no entorno, três grandes pedidas pra biritar: o Rei do Bacalhau, o buteco do seu Manel, ao lado, e ao lado do buteco, na esquina, o Bar do Pavão.Reconheço sua boa intenção, rapaz, sugerindo esse tour coletivo, mas eu estou – confesso desde já – rigorosamente fora disso. Eu, justo eu, dando uma de Vovó Stella pra marmanjo na Tijuca, nem a fórceps!!!!!Abraço forte.

  14. >Caloi 10, ano de 1979, estado de 0km. Cuido com um carinho danado.E sobre a presidência do América, estou começando a pensar no assunto. Te garanto que o clube melhoraria de situação, e ainda por cima teriamos de volta ilustres tijucanos como o Issac.Vamos ver.bj.

  15. >Ilustre Tijucano,A sua resposta das 13:11 ao Fraga, lembrou-me de um samba do Aldir e Maurício Tapajós com locação no famoso logradouro: “Valquíria, que tinha mania de ser bom cabrito/ Comprou um jerico na Xavier de Brito/ E saiu pela Muda…” etc. e tal.

  16. >Sei não, Edu. Na minha modesta opinião, acho que esta tua série de textos-exaltação à Tijuca, futuramente, poderia render uma publicação em livro, hein?!

  17. >Ô, Bezerra, olha o exagero, malandro, olha o exagero… Se você tivesse uma editora e fosse o editor-chefe, ótimo, o livro estaria garantido… Abração e obrigado, mais uma vez, pelo imerecido elogio.

  18. >Fala Edu! Definitivamente um dos lindos lugares a percorrer. Valeu pela hospitaleira proposta. E sobre o caminhar, definitivamente uma arte para aqueles que sabem passear e conhecer o mundo que lhes cerca, exatamente porque assim podem entender um pouco mais de si mesmo. quem é que mata? polui? desumaniza? carro ecológico? pois então…recomendo a visita a esse sitio aqui que é uma pérola para alternativas do transporte e relexões sobre o homem-máquina. http://apocalipsemotorizado.net/é isso aí! boa sorte e abraços.

  19. >Edu, esta série da Tijuca me deixou comovida… Acho que ela deveria virar um livro, e com urgência! Aliás, a Tijuca merece mesmo uma homenagem à altura!!! Antes que algum aventureiro lance mão!Beijos e parabéns!

  20. >Salve, Ione! Seja bem chegada de volta!! Obrigado pelos elogios – imerecidos – e pela torcida pelo livro. Quem sabe, hein?! Um beijo.

  21. >Oi. É a primeira vez que entro no seu blog. Gostei muito do que li. Este roteiro a pé eu conheço muito bem e tá aprovadíssimo.

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