A PEDAGOGIA DE MEU PAI

Como mexi – oh, como me comovo com a dor alheia – com o sentimento de alguns membros da turma da erva quando disse – e repito, e repito! – que são todos uns bobos-alegres, volto ao balcão para fazer a confissão do mais-óbvio: eu, meus poucos mas fiéis leitores, eu também sou um bobo-alegre! E explico o por quê e, mais, explico a qual viés me refiro quando digo que sou um bobo-alegre. Vamos aos fatos.Quando escrevi a Marcha da Maconha (leiam aqui), contei sobre alguns métodos pedagógicos que meu pai utilizava para me transformar (e deu certo) num poltrão na matéria.

Agora quero lhes contar sobre uma lição específica que me transformou – vocês verão, acompanhem a historinha… -, durante um bom tempo, num bocó, num aparvalhado, num calino de marca maior.

Papai tinha um amigo (ou eram meus avós, sim, sim, eram meus avós) chamado Hélio Saboya, que Deus o tenha em bom lugar. Era casado – minha memória não me trai – com Cenyra Saboya, e eu bem me recordo do quanto me impressionava aquela mulher com dois ípsilon no nome (era uma estrangeira na Tijuca e justo por conta da duplicidade da letra elegante).

Estou aqui escrevendo e não sei se digo “que Deus a tenha em bom lugar” em relação a ela… Eu simplesmente não sei, e essa dúvida me machuca, se Cenyra Saboya está ou não está entre nós.

Hélio e Cenyra Saboya moravam na rua São Miguel, quase chegando na subida do Alto da Boa Vista, na Tijuca. Morávamos, nessa época, na rua São Francisco Xavier. E a caminho da praia (íamos à praia do Pepino), sempre que passávamos diante do prédio do simpático casal (eram simpáticos), lá estavam os dois na janela esperando as seis buzinadas que meu pai imprimia na Brasília branca.

E quando dobrávamos à direita no final da São Miguel, quando o carro começava a subir a avenida Edison Passos em direção à estrada do Joá, que nos levaria a São Conrado, meu pai dizia:

– História impressionante aquela daquele amigo do Hélio…

Eu, representando meu papel, cutucava o velho:

– Que história? Que história?

Notem que eu estava careca de saber da história. Mas ouvi-la mais uma vez era uma espécie de refeição para o pânico que crescia dentro de mim.

E ele repetia a história de um amigo do casal Saboya. Esse amigo tinha um filho, que por sua vez tinha um carro, e esse filho tinha um amigo e esse amigo estava um dia de carona com o rapaz quando foram parados numa blitz policial. Durante a blitz, documento pra lá, documento pra cá, apalpa daqui, revista dali, e pronto. Acharam maconha no porta-luvas do carro. E eis o drama que papai contava, com olhos de terror mirando meus olhos assustados de menino através do espelhinho retrovisor da Brasília:

– Esse menino, Dudu, ficou preso dez anos e jurava que não sabia da maconha do amigo. Cuidado com as companhias! Cuidado com as caronas que vais dar!!!!!

E me aterrava cada vez mais:

– Arruinou a vida do pai!

– A fortuna da família foi gasta com os honorários do advogado de defesa. E em vão!

– Cuidado com as caronas!

É bom lembrar que eu tinha, nessa época – o quê? – uns nove, dez anos.

O que ocorre é que, em 1987, eu com 18 anos e meu primeiro carro, um Passat bege, eu era um motorista em estado permanente de alerta (agora sim, notem como eu era um bobo-alegre).

A primeira providência que tomei foi levar meu Passat (acho que o ano de fabricação era 1982) a uma oficina. Defeito mecânico?

Não.

Pedi que retirassem o porta-luvas.

Lembro com nitidez o diálogo com o Mário, mecânico na São Francisco Xavier mesmo, quase esquina com a Mariz e Barros:

– Tirar o porta-luvas? Pra quê, rapaz?

– Para ninguém esconder maconha dentro! – para espanto do pobre Mário.

E quando saía da faculdade – se você estudou na PUC (alô, Márcio!) há de se lembrar disso – havia uma tempestade de polegares pedindo carona na saída do estacionamento. E era comum o bate-papo rápido:

– Tá indo pra onde, amigo? – eu nem conhecia o “amigo”.

– Tijuca.

– Belê! Dá uma carona?

– Você está transportando maconha?

Ou então:

– Tijuca, Tijuca?

– Isso, Tijuca.

– Pô, aê, valeu… – já ia abrindo a porta.

– Não tem porta-luvas no carro!

– Mas…

– Tem maconha na mochila? – e eu arrancava em direção à Tijuca, orgulhosíssimo.

Nunca dei – eis a verdade que me atesta o grau de bobo-alegre – uma mísera carona que seja.

Até.

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4 Comentários

Arquivado em confissões

4 Respostas para “A PEDAGOGIA DE MEU PAI

  1. >A pedagogia do meu pai era porrada.Ele dizia o seguinte:- Se chegar em casa com os olhos vermelhos vai entrar no cacete moleque!O saudoso Raul Seixas estava certo.Quem não tem colírio usa óculos escuros!Usuário anônimo (para não ser processado ou sacaneado)

  2. >Anônimo pra não ser sacaneado? Será que vc não conhece o tratamento dado aos anônimos por aqui?Edu, seu bobo-alegre, existem lugares bem menos suspeitos pra se esconder a erva danada…Abraço!

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