BELMONTE RIMA COM DESMONTE

Basta ler Tsc, de primeiro de dezembro de 2006 (aqui), Investimento de quanto?, de 31 de março de 2007 (aqui), Belmonte em Paris, de 12 de abril de 2007 (aqui) ou Nojo absoluto, de 07 de outubro de 2007 (aqui) para perceber que, daqui do balcão, jamais deixei de alertá-los, mesmo sofrendo, com isso, carimbadas na testa que me definem como um radical, para o poder destrutivo, em larga escala, do que a grande imprensa chama de Rede Belmonte, comandada pelos espanhóis que vêm fazendo com os butecos do Rio o mesmo que já fazem, há anos, com o futebol brasileiro e nossos jogadores (basta ver a quantidade de craques brasileiros cooptados pelos clubes espanhóis), com nossas empresas de telefonia (depois de privatizadas, grande parte na mão dos espanhóis), com nossos bancos (vide a entrega vergonhosa do Banespa ao Santander que acaba de comprar, também, o Banco Real).

Hoje, de pé diante do balcão imaginário do Buteco, quero lhes dar uma tristíssima notícia e ao mesmo tempo lhes fazer um pedido. A notícia – imaginem daí – envolve mais um golpe sujo desses porcos-investidores que não medem esforços para transformar buteco pé-sujo em lavandeira, em pé-limpo fashion, em temakeria, como lemos aqui. E o pedido é romântico, eis que pode ser rigorosamente ineficaz diante da força do dinheiro e da selvageria do capitalimo – temas sobre os quais vem tratando, com o conhecimento que o caracteriza, meu irmão Fernando Szegeri em seu Só dói quando eu rio (aqui). Mas nos deixará – a mim, pelo menos… – com a sensação, não do dever cumprido (antes que me chamem de exagerado, o que rejeito com veemência), de que fizemos o mínimo a nosso alcance, ainda que tenha sido romântico o gesto de um mísero telefonema com o intuito de se fazer um pedido, apenas. Vamos aos fatos.

Imagino que grande parte de vocês, meus poucos mas fiéis leitores, conheça o Rio de Janeiro. E conhecendo o Rio de Janeiro, conheçam o aprazível bairro das Laranjeiras, onde moram, por exemplo, os queridos (em ordem alfabética para não ferir suscetibilidades) Arthur Bezerra, Helion Póvoa, José Leal, Maria Helena Ferrari, tio Osias e Rodrigo Ferrari). Conhecendo o bairro das Laranjeiras, conheçam a praça São Salvador. E, conhecendo a praça São Salvador, conheçam dois pé-sujos da melhor qualidade, a Casa Brasil e a Adega da Praça.

Pois bem.

José Sergio Rocha já havia deixado enigmático recado no texto Uma semana antes (leiam aqui), de 14 de março de 2008, não por acaso sobre uma matéria destrutiva publicada no jornal O Globo (não é esse o tema hoje, vou em frente):

“Edu, mais um blog vai entrar na área e de sola contra os botequins de frescos. Ainda não tenho o endereço, mas o blogueiro é meu chapa Washington Luiz, santista, morador na praça São Salvador, onde o Belmonte está acabando com um dos melhores butecos da Zona Sul.”

E eis a verdade: a Rede Belmonte, esse lixo abjeto no qual nunca pisei, acaba de comprar a Casa Brasil, pé-sujo de esquina e coladinho à Adega da Praça. Fez a proposta abjeta à viúva pouco tempo depois da morte do português que comandava a casa há décadas.

Captaram o espírito do troço?

Pois os vendilhões do templo, na cândida pessoa de um personagem patético criado para encantar a imprensa (um ex-garçom batalhador que, oh, conseguiu construir um império…), vêm assediando de maneira imunda os donos da Adega da Praça, outro pé-sujo de primeira onde já tive a honra de ser servido pelo competente garçom que atende pelo nome de Vampiro graças a seus protuberantes caninos.

A oferta – ouvi dizer – que começou na casa dos R$ 100.000,00 já está chegando aos R$ 200.000,00.

É difícil, dirão vocês. Mas é preciso resistir.

Vai ser – diante do inevitável é bom pensar num paliativo – delirante ver o Belmonte às moscas ao lado da Adega da Praça lotada de gente que entende do riscado. Ou – que seja – o Belmonte cheio de gente comportada e afrescalhada em choque com os freqüentadores do pé-sujo ao lado.

Eis a razão pela qual peço um telefonema que seja para o Evandro (o proprietário) ou para o Luiz (seu braço direito). Vocês podem conhecê-los lendo Os donos da barricada (texto do blog Tire as mãos do meu pé-sujo, o tal blog indicado pelo Zé Sergio, aqui).

O telefone de lá é 2558-3285, código de área 21, é claro.

Ah, sim. E se quiserem, façam dos comentários a este texto um espaço de protesto. Semana que vem – acabo de ter essa idéia! – vou beber por lá e levo tudo impresso para eles.

Até.

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32 Comentários

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32 Respostas para “BELMONTE RIMA COM DESMONTE

  1. >Edu: repasse aos donos da Adega da Praça quando for beber por lá. De qualquer forma, ligarei para eles mais tarde. Evandro e Luiz: sabemos que a tentação do dinheiro é grande, mas sejam fortes! A Adega é um patrimônio do Rio de Janeiro e, se vocês a venderem, será mais um patrimônio a ser demolido, vilipendiado, descaracterizado. Será mais um pedaço da identidade carioca jogado na lata de lixo da História. Vocês podem ter certeza que a Adega será sempre mais popular do que o Belmonte. Vocês não correm o risco de fechar as portas caso não aceitem a proposta, porque o povo gosta do butiquim e já está acostumado ao seu balcão de fé, onde a vida ainda acontece de forma espontânea. Vocês sabem mais do que eu o quanto é duro tomar conta de um bar. Mas vocês têm esta missão. Esta é a missão que São Sebastião delegou à vocês. A Adega, com as bençãos de todos os santos que governam a Cidade Maravilhosa, há de continuar sempre cheia e sempre amada pelo povo. Caso vocês aceitem a proposta do Belmonte, vão perder algo muito mais valioso do que dinheiro: a amizade que vocês conquistaram com a clientela. E o ponto não vale R$ 200.000. Não vale R$ 300.000. O ponto de vocês não tem preço. O dinheiro um dia acaba. E acaba mais rápido do que podemos imaginar. Mas a dignidade do trabalhador; o amor desinteressado por algo ou alguém; o respeito e o cuidado para com as coisas do povo e da cidade; isso tudo vale muito mais do que qualquer oferta. A felicidade de vocês, Evandro e Luiz, está justamente no butiquim. Sem vocês, a Adega não é nada; e vice-versa. Vocês e o butiquim são a mesma coisa. Não podemos perdê-los. Vocês são parte da história e da cultura do Rio de Janeiro, cidade que me viu nascer e que guarda minhas digitais em seus balcões mais sujinhos. Espero que vocês resistam, como os bravos soldados que são. Eu me comprometo, desde já, a só beber na Adega sempre que for ao Rio. Estamos com vocês!

  2. >e por causa de coisas assim eu preciso voltar logo. Dá licensa Edu, a gente não se conhece e eu nunca escrevi aqui, mas tô sempre que possivel passando para saber da cidade maravilhosa. Melhor ainda do seu balcão… Eu paulistano até o osso, mas com outras incursões pelo mundo no momento, passei apenas pra dizer que esses filhos da puta da Espanha não sacaneiam apenas a gente, mas o povo de la também. Passei por Barcelona, Gijon e Madrid ano passado e foi foda de ver o que estão fazendo com todos esses lugares em nome do turismo. Minha sorte é que tenho bons amigos nas okupas para me ajudarem a entender issoe conhecer a cidade autêntica. Imagina que até a prazeirosa rumba de barcelona (Mano Chao que o diga!), onde ainda se canta com a força dos anarquistas de 36, está praticamente proibida de se fazer na rua? Que quase não se pode beber nas calçadas e praças? Tudo em nome do turismo e da evolução. Isso só detona os pequenos estabelecimentos e o povo da cidade. Igualzinho o “progresso” oferecido a cidade do Rio. Resistir é mais que necessário! O lugar mais foda que conheci em Barcelona não cabiam mais que 15 pessoas num bar que não tinha cadeira. Um senhor asturiano, entre sidras, propangadas da CNT e ao som da Internacional e claro da rumba, te servia a breja mais barata por lá. Nem preciso falar dos causos, né? Ele esta no meio de um grande centro financeiro que se instalou nos ultimos 20 anos, na plaza universidad. Disse que só sai dali morto. Já o tempo que ele tem o bar? 45 anos! E agora a neta é quem esta ajudando e ela falou a mesma coisa. confere aqui pra dizer que não estou mentindo – http://paladardepalavra.blogspot.com/2007/12/despedida.htmlBoa sorte a todos vocês!abraçosAlessandro ps- ah! e quanto a essa coisa da política de boa vizinhança… bom, relaxa. Tem coisas que não se pode tolerar, principalmente o pior, o desprezivel e detestavel, como o que você acaba de contar. Tô contigo e não abro.

  3. >Edu, vamos marcar uma incursão semana que vem à Adega, com nosso pessoal do ramo. A gente toma um porre lá em repúdio à especulação mauriçola. Bora marcar com o povo?

  4. >Bruno: que texto, malandro, que texto!! Confio firmemente que suas palavras solidificarão ainda mais o firme propósito de resistência do Evandro, o dono da última palavra! Entregarei a ele, cheio de justificado orgulho, cópia de seu emocionado apelo. E depois me conte como foi o telefonema, pô! Beijo.Alessandro: isso aí é apenas mais uma faceta desse bicho que atende pelo simpático nome de Mundo Globalizado. Abraço.Cesinha: mas é evidente que sim! Marquemos a barricada! Façamos a marcha dos 10 mil. Litros. Abração!

  5. >Edu, vou ligar ainda hoje pra lá. E mais. Vou enviar via Correio uma faixa com o emblemático grito de guerra NO PASARÁN! (salve, Pasionaria!). Quando você e os amigos guerreiros forem entortar o gargalo na Adega, façam-me o favor de estendê-la em vossas mesas.Esta desgraceira espanhola que nos assola hoje, nada mais é que um capítulo a mais da tragédia inaugurada por Francisco Pizarro, el gran filho-da-puta (e isto não é adjetivo. É fato. Peça ao Simas que nos conte como Pizarro, filho bastardo de um milico, foi largado em fraldas na escadaria de uma igreja, e como passou sua infância e adolescência criando porcos, o que, certamente, lhe moldou a visão de mundo e das pessoas). Os financistas e empreendedores de España nos miram com olhos de Pizarro.

  6. >David: aguardo, então, a faixa com a gloriosa frase da mítica Dolores Ibárruri para estendê-la à mesa no dia da grande vigília. Forte abraço.Cereal: vou lhe avisar a data e conto com você lá! De camisa do América, pô! Abração.

  7. >Quero aderir à comovente proposta do colossal Bruno Ribeiro e também ao porre coletivo proposto pelo César Tartaglia. Vamos combinar a data! A gente vai de Sampa e ainda reboco o “exército” Vamos, Favela? Vamos, Bruno? A causa é justíssima! Porra, me criei na Rua São Salvador e a Casa Brasil (não me lembrava do nome – ninguém a chamava assim por ali: era “português”) foi meu pé-sujo de fé numa fase porreta da minha vida, como já havia confessado.Aux armes, citoyens!Formez vos bataillons!Marchons, marchons…

  8. >Meu irmão Szegeri: convoque os bravos membros da família Tirone, traga o glorioso Gordo, venham todos com o axé do Sabiá. Se o Evandro não resistir ao capital – há de resistir, há de resistir, há de resistir!!! – a gente reescreve a história da Toca do Baiacu, racha a conta, cobre a proposta dos porcos do Belmonte e compra o bar, pô!

  9. >Qual o dia? A que horas? Vou marcar com o Washington e pedir que acione os sócios dele no blog Américo Vermelho e Paulo Adário e a malta toda de bebedores da Adega.De pé ó vítimas da sede!De pé, cachaças desta terra!A estrela solitária nos conduz!À Adega que não se encerra!

  10. >Vamos, mano Szegeri. Se a causa é nobre, vamos! Mas com a faixa, por favor!

  11. >Eu tô nessa brigada. Avise-me quanto ao dia e a hora!abs.,Daniel A.

  12. >Também tô nessa brigada – cuja causa é nobre, muito nobre!

  13. >Não acredito, Edu. Não acredito. Não sou exatamente um opositor do Belmonte, mas decerto é um estabelecimento que não combina – e nada – com o clima da São Salvador. Estive lá no domingo (rola uma roda de choro, sabia?), quando cheguei a comentar com o pai da F. que gosto muito da Adega: cerveja de garrafa, sempre gelada, atendimento competente… PQP.

  14. >Vamos lá! Só não prometo, nem a pau, fazer o que o Bruno pretende: só beber na Praça São Salvador. A outra coisa é a seguinte: o Não Passarão é um lema fabuloso, mas o fato é que os filhos da Puta do generalíssimo Franco passaram. Vamos, desde já, pensar em um novo lema para a resistência cívica que se anuncia épica.Abraços e beijos.

  15. >Bruno, Gordo e eu aguardamos a data. Tâmos nessa missão!Beijo.

  16. >Edu, vale levar também aquele texto do blog do Favela, o Dobrada às Avessas, que servirá para mostrar o que disse o Bruno: há coisas que não têm preço.Aproveito o tema e deixo o alerta para os meus conterrâneos da terra da garoa, onde há um processo semelhante. A compra, no entanto, se dá pelos coreanos. E todos nós sabemos que os orientais não têm um milésimo da cordialidade de qualquer portuga dos botiquins…

  17. >Edu,O meu saudoso tio Zé (que morreu no mesmo dia em que o Brizola partiu dessa para a melhor) dizia o seguinte:”- Estão apaulistando os botecos dos cariocas!”Esse tio era um tricolor doente e um amante dos pé-sujos. Ele não entrava em bares chiques nem apanhando. Um forte abraço!

  18. >Sze, que maravilha essa gravação da Marselhesa pela Piaf!!! Você tem ela cantando o Ça Ira????!!!

  19. >Porra, Zé Sergio… e você prossegue demonstrando publicamente o avanço avassalador de sua senilidade… Putaqueopariu… A sugestão do Szegeri, malandro, foi apenas a Marselhesa… A gravação da Piaf – monumental, de fato – é minha. Ô, dinda!

  20. >Então, animal, tens ou não tens a vagaba da Edith Piaf cantando a porra do Ça Ira?!?! Se tiveres, manda. Sobre a data da carraspana cívica, topo qualquer uma, desde que não demore muito, senão as retroescavadeiras chegam antes. E vai te à merda antes que eu me esqueça.

  21. >Ao fim e ao cabo sentencio, com a licença do vô do Velho: se tudo der certo, vai dar uma merda colossal!!!

  22. >Ô, Roberto Fraga, só agora eu vi o comentário do teu tio, que podia ser gente fina à beça, mas de butiquim e Paulicéia, pelo visto, entendia bem pouco. Cá como aí, a babaquice impera e o capitalismo come solto. Butiquins de responsa e enganações, malandros e otários há por toda parte. Venha a Sampa, abra o coração, disponha-se a perder-se nessas esquinas periferentas (ando muito influenciado pelo Caio Ramos…) e depois mande o teu pitaco, até colaboramos no roteiro. Ou, de repente, tu até tromba o “escrete Barra Funda reforçado” pelos laranjais e tira uma idéia. Até lá, cumpadre, fica na encolha quando o tema for butiquim de paulista.

  23. >Dou meu total apoio à causa! Sou sempre pró botequins de verdade. Esses bares maquiadinhos não tem graça alguma. Vá dar uma volta no Fórum e encontrará as mesmas pessoas, as mesmas caras e bocas.Abraços,Natasha

  24. >O Simas tem razão, os fdp de Franco passaram, mas a resistência nunca, nunca mesmo morreu. recomendo a biografia de Lucio Urtubia, falsificador, anarquista, obrero, que teve a moral de colocar de joelhos o maior banco do mundo na época (City Bank agora) e ainda assim não ficar rico! Um Quixote que não lutou contra moinhos de vento,mas contra gigantes de verdade!Butecos como esse são a própra necessidade de sobrevivencia em dias tão alarmantes, afinal de contas o fim da história nunca aconteceu. São imprescindiveis para a saúde mental do povo brasileiro. a las barricadas!abraçosalessandro

  25. >Tô sem saco pra terçar com o Simas se o No Pasaran! foi invalidado pelo franquismo. Ele é profissional da História, e sabe que tudo depende de que distância se analisa os fatos. Dito isto, revogue-se La Pasionaria, e segue faixa com o verso com que João Bosco e Aldir Blanc levantaram consciências em maio de 1972, no disquinho de bolso do Pasquim. O Brasil adormecido piscou o olho com aquele RESPONDEREI: NÃO!, em Agnus Sei.

  26. >que merda essa notícia, Edu. Aquele cantinho não pode ser destruído! Conte comigo para o movimento de resistência, e não deixe de avisar-nos (pelo blog mesmo) a data da manifestação. Estarei lá! aliás, como moro a duas esquinas da praça, vou passar a ir lá com mais frequência e aproveitar essas incursões pra manifestar o repúdio de toda essa gente boa ao desmonte do caráter tradicional, lúdico e idílico da praça.Abraço!ps – ontem almocei na Rotisseria… divinas, divinas aquelas esfirras!

  27. >Edu, meu camarada, me avise o dia que eu também tô junto. Se for entre a quinta e a segunda fica mais fácil, mas se não for eu dou meu jeito.abraço, Arthur Mitke

  28. >Arthur,A Rotisseria realmente é demais. Conheces o Céu da Guanabara?

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