>FILOSOFIA DE BUTECO

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O Rio-Brasília, meu buteco de fé, na Tijuca (onde mais?), – e percebam que o “na Tijuca” entre vírgulas deixa evidente que refiro-me a meu buteco de fé dentre todos os butecos do mundo – viveu ontem uma noite de glória (leiam sobre ele, o Rio-Brasília, aqui).

Rio-Brasília, 15 de julho de 2007

À mesa (que rima), eu, Vidal e Felipinho Cereal.

Sob o pretexto de vermos o jogo (apenas o Vidal padece do mal de torcer para o tricolor das Laranjeiras), nos encontramos às 21h e demos por abertos os trabalhos.

Muita Brahma, que ontem estava especialmente gelada, porções de lagarto acebolado, limão da casa, o sagrado maracujá, e o cenário apontava para uma grande noite.

À nossa frente, duas mulheres que não entendiam rigorosamente nada de futebol, davam botinadas verbais de fazer corar um asno. Diante delas, um sujeito bebendo sozinho e concordando com tudo o que as duas diziam entre gargalhadas histéricas que denunciavam a solidão que as corrói, numa tentativa de fazer bonito com as moças, mais murchas que os pastéis da manhã vicejando na vitrine embaçada do balcão.

À nossa direita, três militares da reserva numa conversa fora de época. Falavam sobre o assassinato de Tancredo Neves, sobre uma tentativa de homicídio cometida por José Sarney, episódio abafado pelos militares, sobre ordens expressas dadas pelo presidente Lula para o assassinato do prefeito de Santo André, e minha camisa de malha surrada, vermelha, com a estrela do PT, fazia com que os três lançassem flechas de ódio em nossa direção rebatidas com frases que eu dizia alto para, digamos, incrementar o ambiente:

– … mas se tudo der certo o terceiro mandato vem aí!

– … sou Dilma Russef 2010 e acabou-se!

Até que pintou uma mulher nova na área.

Na faixa dos 30 anos, negra, magríssima, chegou ventando.

Tropeçou no vaso de comigo-ninguém-pode, agarrou-se no ferro que sustenta o toldo, deu um tapinha nas costas de uma das mulheres da dupla, soltou um arroto que escapou durante um soluço, entrou trôpega no bar e agarrou-se ao balcão como náufrago em mar bravio à bóia salvadora.

– Ondje fica u vã… vã… vãnhêro?

O Joaquim, com cara de indisfarçado nojo, apontou pro fundo do bar.

E lá foi nossa heroína esbarrando em cadeiras, mesas, torta e envergada, uma espécie de Gabriela Andersen-Scheiss de ébano (entendam, lendo aqui).

Cinco minutos. Dez minutos. Quinze minutos, nem sinal da porta abrir. Grita o Cereal:

– Vai ficar feia a coisa no seu banheiro, hein, Joaca…

Alguém guincha de rir no buteco.

– Tem cloro suficiente aí?

O garçom Júlio César, carinhosamente chamado de Imperador, trava a gargalhada.

Até que depois de quase meia hora, sai a pobrezinha do banheiro.

Sem cerimônia, para repúdio das duas damas e reprimendas ditas entre sussurros dos três gorilas da caserna, nossa heroína toma um senhor banho na pia que fica na entrada do banheiro. Esfrega os braços, a nuca, molha os cabelos, atravessa o salão apoiando-se nas paredes, dá um tchau geral e parte.

Nós três explodimos de rir.

O Joaquim e o Imperador, então, cada um com um balde, entram no banheiro, de onde vinha um cheiro tipo língua negra em Ipanema – sacaram a imparcialidade?

Felipinho tirando sarro da situação. Vidal fazendo troça. Eu, passando mal de rir.

Joaquim no Rio-Brasília, 15 de julho de 2007

Até que saem, os dois, do banheiro.

Felipinho, um lorde, manda:

– E aí, Joaca? Tava podre?

E eis, meus poucos mas fiéis leitores, a frase que fez o buteco inteiro, pela primeira (e única) vez na noite, irmanar-se numa explosiva gargalhada.

O Joaquim, com cara de poucos amigos, aquela típica de quem vai dar uma senhora lição de moral em alguém, aproxima-se de nós, põe as mãos na cintura, ajeita os óculos, pigarreia e diz:

– Ela é mais limpa que muito ser humano!

Acho que o Imperador corre risco de perder o emprego. Nem ele agüentou de tanto que riu.

Até.

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1 comentário

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Uma resposta para “>FILOSOFIA DE BUTECO

  1. >HAHAHHAHAHAHAHAHAHAHHAHADá licença que eu vou ser o primeiro a dizer(com alguma vergonha) que me peidei de rir.Rapaz, sem puxação de saco, que eu não sou desses homossexualismos, mas vc tá me lembrando ,cada vez mais, o Sérgio Porto.forte abraçoMarcio

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