Arquivo do mês: fevereiro 2008

>OS METÓDICOS, DE NOVO

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Em 20 de abril de 2005 eu publiquei O PIADISTA DE ELEVADOR, que pode ser lido aqui, sobre esse tipo insuportável, irritante, desagradável, repulsivo (leiam que vocês, neófitos no balcão do BUTECO, hão de entender). Em 25 de abril de 2005, cinco dias depois, portanto, publiquei OS METÓDICOS, que pode ser lido aqui, onde trato do detalhismo insuportável que acomete o freqüentador, praticamente um sócio-atleta, dos hortifrutis espalhados pela cidade.

Hoje, 20 de fevereiro de 2008, quase três anos depois, quero lhes contar sobre outros tipos nos quais esbarramos quase que diariamente e que são – é preciso deixar a cartilha do politicamente correto de lado – insuportáveis. Vamos a eles.

Vejam as velhas que vão sozinhas à padaria, ao supermercado, à quitanda. Alguém consegue me explicar a razão pela qual TODAS (com a ênfase szegeriana), ou QUASE TODAS, no instante de pagar a conta, tiram uma bocetinha (boceta – substantivo feminino – 1. caixinha redonda, oval ou oblonga, feita de materiais diversos e usada para guardar pequenos objetos) da bolsa e espalham CENTENAS de moedas sobre o caixa dizendo com aquela máscara comum em direção à pobre funcionária:

– Filha, me ajuda?

E os freqüentadores de padarias? Por que, meu Deus, por que, dizem as MESMAS frases todos os dias para os pobres balconistas, e sempre com o mesmo sorriso idiota na cara, como se fossem protagonistas e autores de frases e imagens geniais????? Na Padaria Milu ou na Panificação Estudantil, ambas pertinho de casa, a cena se repete diariamente:

– Me veja dois franceses… moreninhos, hein! – e guincha de rir, a velha.

– Pra mim, meia dúzia de queimadinhos de praia! – esse gargalha dando tapinhas no balcão.

A velha, a terceira da fila, diz:

– Muito boa essa!

Quando chega sua vez, diz altaneira:

– Os meus bem clarinhos, tá? – e quase toma uma vaia da fila diante da obviedade do pedido.

E a variedade dos pedidos é de causar náuseas:

– Bege!

– Cróque-cróque…

– Morninho…

– Mulatinho!

E os que não perdem por nada o cafezinho grátis oferecido nos supermercados? Cotoveladas, chutes, atropelos, vale tudo na fila de QUALQUER stand de QUALQUER café em QUALQUER supermercado. Dia desses eu estava no Mundial da rua do Matoso e testemunhei o seguinte diálogo enquanto tentava passar com o carrinho por uma dessas filas.

– Corcel, você não disse que detesta o Café Canaan?

– Cala a boca, Mercedes! De graça eu tomo qualquer merda!

Fina, como se vê, a Dona Corcel. E como ela, basta que se tenha olhos de ver, há milhares espalhadas por aí.

Dia desses volto ao tema, já que esses tipos, insuportáveis – repito – estão em toda a parte.

Na feira então, nem lhes conto!

Conto, sim.

Prometido. Minha próxima incursão na mesma temática será sobre os insuportáveis das feiras livres.

Até.

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PRATINHA, O INTERNACIONAL

Vocês hão de me perdoar esse brevíssimo hiato – não escrevo desde sexta-feira passada, o que gerou uma meia dúzia de e-mails malcriados -, mas ando assoberbado como há muito não ficava! Razão pela qual apenas hoje atendo a um pedido patético, convenham, de meu filho mais novo, Tiago Prata. Vou lhes explicar.

Na quinta-feira passada, 14 de fevereiro, publiquei o texto Betinha, a internacional, leiam aqui, fazendo menção à recente viagem da Betinha às Filipinas com escala em Dubai. Pra quê!?

Serei preciso, como sempre.

Publiquei o texto por volta de uma hora da madrugada daquela quinta-feira, e antes das nove da manhã estrilou meu celular piscando o nome do Prata no visor do aparelho. Eu nem cheguei a dizer o alô protocolar:

– Por que apenas a Betinha é internacional?! Por que? – o tom era de choramingo.

O cérebro ainda fazia as necessárias sinapses para compreender o tom de mágoa do menino, quando ele emendou, fungando:

– Esqueceu que eu passei o réveillon em Buenos Aires? – e bateu com o telefone no gancho imaginário.

Eis que minutos depois eu recebo o e-mail abaixo.

email

Notem, então, que atendo ao pedido – patético, devo repetir – do garoto, numa prova incontestável de que mimo, sem rodeios, minha cria.

E já que ele fez questão de anunciar sua viagem para Buenos Aires, já que ele fez questão de ser taxado, publicamente, de internacional, vou me permitir tecer brevíssimos comentários sobre o destino do menino na passagem do ano.

Antes, porém, brevíssima digressão.

Eu disse um pouco mais acima que o pedido do Prata foi patético. E foi mesmo. Mas trata-se de um meninote, de um garoto recém-chegado aos 21 anos, ainda gozando as delícias dos dez, doze, treze anos de idade.

Não fosse verdade isso, e não seria rotina uma cena como essa.

Tiago Prata dormindo na Folha Seca, 22 de dezembro de 2007

O sujeito entra na Folha Seca, a livraria do meu coração, em pleno sábado, samba armado pra começar às duas da tarde, e a Dani e o Digão, de dentro do balcão, pondo o indicador sobre os lábios, a ponta do dedo sobre a ponta do nariz:

– Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh! O Pratinha está dormindo…

Voltemos ao tema.

Tiago Prata foi, então, passar o réveillon em Buenos Aires. E não estava sozinho.

A classe média brasileira, que na década de 60, 70, gostava de arvorar suas viagens para Petrópolis, Teresópolis ou Friburgo como se fosse para os Alpes Suíços (que a Betinha também conhece!), a classe média que comprava casacos de pele, pantufas, gorros, luvas e botas para desfilar diante do Palácio de Cristal, do Dedo de Deus, ou das cachoeirinhas de Friburgo, agora faz de Buenos Aires sua mais nova meca.

Todo mundo – pergunte a quem está do seu lado agora! – tem a melhor dica do melhor bife de chorizo de Buenos Aires, todo mundo sabe de cor os endereços de Puerto Madero, todo mundo trata o estádio Bombonera com a intimidade de um Maracanã, de um Parque Antártica, todo mundo volta mastigando alfajores como se os biscoitos fossem testemunhas da infância de cada um, todo mundo volta falando “hola, que tal?”, “buenos dias”, com a facilidade de uma calopsita bem treinada, e por aí vai.

Resumo da ópera: não deixa de ser internacional, também, como queria, o Prata. Mas a Betinha tem, digamos, mais garbo.

Até.

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BETINHA, A INTERNACIONAL

Vocês hão de me perdoar o que poderá lhes soar, a princípio, como adulação e bajulismo, embora seja apenas, a bem da verdade que me persegue da mesma forma que me acompanha a precisão, fruto do enternecimento que causou-me um comentário, feito há pouco, no BUTECO.

Foi feito há pouco, mais precisamente às 23h32min desta quarta-feira, o seguinte comentário no texto DO DOSADOR, escrito em 12 de fevereiro de 2008, que pode ser lido aqui:

“Não acho nada inverossímil a história do romance de domingo na Tijuca. Não é difícil imaginar um cara dizendo isso em um buteco nem uma mulher rindo. Não tenho dúvida que, apesar do susto (ou exatamente por isso) eu riria, mesmo não havendo, obviamente, qualquer chance de romance com um cara que diz uma coisa dessas…”

Referia-se, a comentarista, ao texto ROMANCE DE DOMINGO NA TIJUCA, que pode ser lido aqui, que gerou desconfiança em alguns – peço desculpas desde já pelo adjetivo – incautos.

A comentarista foi a Betinha.

Eu digo que foi a Betinha e me enterneço novamente, não pelo simples fato de que foi a Betinha, e vou tentar ser mais claro.

A Betinha mora no Flamengo, como vocês sabem, com o Flavinho, como já lhes contei em 16 de setembro de 2005, aqui e em 07 de novembro de 2007, aqui, para ficar apenas nestes dois exemplos bastante elucidativos (leiam, pô!).

Mas não me escreveu do Flamengo, a Betinha.

Antes, permitam-me breve digressão.

Quando lhes contei uma história passada no apartamento do casal, no Flamengo, em 16 de setembro de 2005, escrevi:

“(…) a Betinha chegou, há dias, da Suíça, e vejam que nisso, também, reside a escalada do Flavinho, cujas namoradas até então chegavam, no máximo, de Cabo Frio.”

Pois bem.

A Betinha acessou o BUTECO, e comentou no BUTECO (!!!!!), diretamente das Filipinas.

Se cravou seu comentário às 23h32min da noite de quarta-feira, significa dizer que o fez às 9h32min da manhã de quinta-feira, 14 de novembro – vejam como ela está loooooooooonge, aqui.

É, indubitavelmente, uma internacional, minha mais-querida, a Betinha, que aparece na foto abaixo com minha Dani, no reveillón 2007/2008, pouco depois da meia-noite.

Dani e Betinha, 31 de dezembro de 2007, Santa Teresa

Convocada às pressas para uma reunião de emergência – vejam se ela não é muito importante -, a Betinha partiu no domingo passado. E, já no sábado, um dia depois de receber a notícia, o Flavinho era um homem em estado de graça.

Estávamos na rua do Ouvidor e ele, eufórico, contava sobre a viagem da mulher.

Eu provocava:

– Mas e aquela namorada sua dos tempos do Cachambi? Não fazia essas viagens?

E ele, erguendo o copo de cerveja:

– Nem pro Jacaré, Edu! Nem pro Jacaré!

Eu insistia:

– E aquela outra que você namorou quando morou em São Paulo?

Ele, vermelho de tanto que ria:

– Jamais atravessou o Tietê!

E brandia as passagens aéreas da Betinha, cheio de orgulho.

Um orgulho como o meu, confesso, por sabê-la com os cotovelos apoiados no balcão imaginário, mesmo de tão longe.

Ergo a caldeireta com quatro dedos de pressão em direção a ela, minha querida amiga de quem tenho, neste exato instante em que escrevo, aguda saudade, para um brinde que somente quem ama é capaz de realizar.

Até.

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HOJE É DIA DE MARIA HELENA

Faz anos hoje, oito mais precisamente, essa coisa mais linda, Maria Helena, sobrinha querida, afilhada emprestada, chamego olímpico.

Publico hoje, como homenagem à pequena, o texto PEQUENAS MULHERES, publicado orginalmente em 24 de julho de 2000, quando ela só tinha pouco mais de cinco meses, na revista eletrônica SENTANDO O CACETE, que mantive no ar, durante alguns anos, ao lado de Aldir Blanc, Fernando Toledo, Mariana Blanc, Mauro Rebelo e Mello Menezes.

Maria Helena, 10 de novembro de 2007

“Sexta-feira, 18h, como combinado, estávamos Dani e eu a postos na casa de Magali e Ricardo pra cuidar da pequena Maria Helena até às 8 da manhã de sábado. Os dois, depois de meses de sufoco, iriam passar a noite fora, dormir num motel, algo do gênero, deixando Maria sob nossos cuidados.

O curso, proferido pelo pai, durou das 18h às 21h. Incluía apostilas do Delamare, uma boneca Barbie pra dar realismo ao treinamento, pequeno estojo de primeiros socorros pesando aproximadamente 16 quilos contendo umas 2 dúzias de fraldas de tecido, 5 pacotes de fraldas descartáveis, 2 conjuntos de camisetas pagão, 2 casaquinhos de lã, 4 pares de sapatinhos, 6 pares de meia, toucas, luvas, babadores, óleo Johnson, cotonetes, lenços umedecidos da Turma da Mônica, toalhas com capuz, termômetros, 12 mamadeiras de 240 ml, 12 mamadeiras de 150 ml, 6 mamadeiras de 80 ml, esterilizador de mamadeira, chupetas, prendedores de chupetas, pinça, bebê conforto, funchicória, band-aid, talquinho, diversas mantas, bisnagas de Hypoglós, potinhos coloridos com papinha, água de ameixa, água de laranjeira, água de melissa, chá de jamelão, chocalhos, babá eletrônica e pilhas de reserva, além de um pára-quedas e máscaras de oxigênio para um caso de emergência (eles moram no décimo terceiro andar, e nunca se sabe…). Eu e Dani assistíamos a tudo um tanto quanto horrorizados, e era tarde pra desistir da tarefa.

A mãe chegou somente às 21h15min e tomou, digamos, nosso ponto. Nos entregou duas pranchetas com perguntas básicas, todas acertadas, gabaritamos, tchau, tchau. Da porta do apartamento ao elevador levaram uns 15 minutos. Revisão dos tópicos mais importantes, gritos de “vê lá, heim!”, “olha a mamadeira das onze!”, “não esqueçam de trocar a fralda depois do cocô”, “cuidado”, “nada de pizza pra menina”… e pronto. Foram embora em estado de absoluto pânico, demonstrando extremíssima confiança em nosso talento.

Bem que estranhamos quando, menos de meia hora depois, a campainha tocou e uma voz do lado de fora disse “a pizza chegou”. Não pedimos pizza nenhuma e acabamos reconhecendo Ricardo, o pai, pelo olho mágico, de capacete vermelho, óculos escuros, uma jaqueta de plástico estranhíssima e uma pizza gigante numa das mãos. Descoberto e denunciado, disse apenas “ela está bem, gente?” e saiu de volta deixando a pizza no corredor.

A apostila apontava: entre onze e onze e sete da noite, Maria Helena acordaria aos berros de fome. Deu onze. Onze e meia. Meia-noite. Nada. Fomos ao quarto e levantamos a tampa do moisés (esse foi o nome que aprendemos). Tampa, sim. De palha, com orifícios para respirar e camadas de filó para evitar ataques de mosquitos. Maria Helena dormia plácida.

Voltamos pra sala. Assitíamos TV com o zumbido da babá eletrônica ao fundo. Quando nos preparávamos para tornar a noite mais quente, o berro. Dani em disparada partiu pro quarto e me mandou pra cozinha preparar a mamadeira M-57, segundo a apostila. Vesti o macacão branco, uma espécie de escafandro asséptico, e iniciei a receita: 120ml de água Perrier, 3 colheres rasas de NAN, uma colher de sopa de água de ameixa, mexer bem com colher de pau virgem, deixar ferver por 48 segundos em fogo médio e pronto. Quando terminei as duas estavam na sala. Maria felicíssima. Um sorriso de doer de bonito. Mamou tudinho, eu orgulhoso. Dani fotografando. O único problema foi que, desrespeitando as regras, fui tocar violão pra menina assim que a mamadeira terminou. A menina fez cocô, arrotou, mamou de novo, fez outro cocô, espirrou e tossiu, e numa birra clássica dos bebês, me obrigou a ficar tocando até às 7h45min quando pai e mãe entraram em casa estarrecidos com a cena. Dani dormia exausta, havia pilhas de fralda no chão, a cozinha estava um pandemônio, e Maria sentada à minha frente, minha garrafa de uísque pela metade entre as suas perninhas, batendo palminha ao final de cada canção, armando um berreiro ao menor sinal de intervalo, meus olhos vermelhos de sono e desespero, feridas nos dedos, e um “que bom que você chegaram”, foi tudo o que conseguimos dizer antes de saltar de pára-quedas para o playground do prédio.

Acabou? Não. Porque fomos então buscar Pimentinha, minha cocker spaniel, Milena, minha afilhada, Mariana, minha comadre, Maurício, namorado da Mariana, Igor, o pastor canadense deles, e Henrique, outro sobrinho da Dani, pra um passeio na Lagoa. Semana que vem conto a aventura, mas pra terminar, o acontecimento daquela tarde.

À certa altura, eu, Dani, Mariana e Maurício estávamos tomando um chope às margens da Lagoa, quando vimos Milena vir correndo de longe, braços abertos gritando em direção à Dani… “diiiiiiindaaa!!!!!!”…

Acordei em casa.”

Até.

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>DO DOSADOR

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* Escalar um time reserva para jogar um clássico como o Fla X Flu é uma temeridade, e explico. Ambos os times cometeram essa barbaridade, mas o Fluminense manteve Thiago Neves, o titular que acabou fazendo a diferença e três gols na vitória acachapante de 4 x 1. A temeridade, explicava-me Luiz Antonio Simas enquanto assistíamos à partida em meio a doses de maracujá no Rio-Brasília, são as estatísticas:

– Daqui a 100 anos ninguém vai querer saber quantos titulares havia em campo. O 4 x 1 do placar eletrônico brilhará como uma estrela para todo o sempre.

* Falei em Thiago Neves e quero lhes dizer que me pergunto o que pensam os torcedores e os jogadores do Botafogo diante da infeliz declaração do meia das Laranjeiras dando conta de que ele anseia logo pela final da Taça Guanabara, contra o Flamengo. Como assim, se Botafogo e Fluminense jogam no sábado e Flamengo e Vasco no domingo, justamente para decidirem quais serão os finalistas? Vai mal, o garoto.

* Escreveu-me um leitor que pediu anonimato – irei atendê-lo, é evidente – perguntando sobre a veracidade da história que lhes contei ontem, ROMANCE DE DOMINGO NA TIJUCA, aqui. E eu que pensei que já tinha deixado devidamente claro para todos que eu sou, agudamente, preciso do início ao fim.

* Eu ainda não havia comemorado, publicamente, a volta à ativa de meu mano Fernando Szegeri em seu blog SÓ DOI QUANDO EU RIO depois de mais de seis meses de afastamento voluntário. O faço hoje para lhes dizer que eu hei de um dia ter (e quero ter!) a sobriedade para escrever algo tão fundamental como seu texto, publicado ontem, chamado O PERIGO MORA ALÉM, que pode ser lido aqui. Diz tudo o que eu queria dizer, mas – repetindo – com uma sobriedade que eu ainda não conheço.

Até.

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>ROMANCE DE DOMINGO NA TIJUCA

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Domingo, oito e meia da manhã, na esquina forte de Afonso Pena com Pardal Mallet, eu havia acabado de estacionar o carro para ir à feira, ali pertinho, na Vicente Licínio, quando decidi ir ao balcão do Bar do Chico beber uma água com gás para ajustar o pH e preparar a carcaça para o dia que viria. Estava eu de pé, no balcão, e um homem, na casa dos cinqüenta anos, sozinho à mesa, bebia uma dose de Domeq quando ajeitou-se no balcão, a meu lado, uma mulher entre os trinta e cinco e os quarenta anos. Linda, é preciso que se diga. Pediu uma água mineral sem gás, um envelope com dois comprimidos de Engov, e logo depois de tomar o santo remédio pediu uma Brahma e foi se sentar na mesa ao lado do camarada do Domeq. Disse ela, pra ninguém (troço típico em buteco):

– Tô com uma puta dor de cabeça…

E o cara, de primeira:

– Quer dar uma mamada aqui? – e pôs a mão em concha entre as pernas.

Olhei eu, olhou o Chico e olhou a mulher, diante da categoria da abordagem.

Ela disse:

– O quê?!

– É, querida, calma… É pra ver se a tua dor vai pro caralho.

Ela riu de chorar, sentou-se com ele e quando eu voltei da feira os dois não estavam mais lá.

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>DO DOSADOR

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* Amanhã, sábado, 09 de fevereiro, a partir das 14h, a rua do Ouvidor será palco, mais uma vez, de uma roda de samba que já é, de longe, o melhor programa da cidade. Como disse, dia desses, uma mais velha que merece todo o respeito que os sabidos merecem, a quem meu mano Szegeri me apresentou, “festas populares, alegrias do povo, como as festas religiosas, o circo, o mercado, as conversas nas esquinas, as feiras livres, o escambo a céu aberto, as festas de rua, as praças cheias, as cadeiras nos portões, precisam ser constantemente retomadas”. A cada roda de samba na Ouvidor, com a rua cheia, com os bares abertos, com os braços dos amigos abertos, com os copos erguidos brindando à graça daquele momento, a vida fica mais bonita. Podem crer nisso.

* Um dos grandes momentos do Carnaval foi, como já lhes contei aqui, a Feijoada da Apuração, na mansão da Manguassônia. Muitos amigos presentes, muita gente querida, mas nada que tenha superado a alegria de reencontrar o João Vitor, hoje com nove anos de idade, (falo dele aqui, quando conto sobre o lançamento de meu livro no Rio), a quem não via há muito tempo graças à vilania de gente que não merece menção.

* Poucos troços foram mais divertidos do que a concentração para o desfile da Boi da Ilha do Governador, que ficou em nono lugar entre as quatorze agremiações que disputaram o Grupo de Acesso B do Rio de Janeiro em 2008. Como lhes contei ontem, também aqui, minha Sorriso Maracanã e meu irmão mais novo, o Cristiano, conseguiram, em cima da hora, duas vagas no carro alegórico abre-alas da escola. E lá fomos nós três para a Presidente Vargas, altura do prédio dos Correios, às duas e meia da manhã. Cristiano para o carnavalesco, assim que chegamos:

– Oi. Eu sou o Cristiano e essa é a Dani. Nossas fantasias?

– Ihhhhh! Ainda não estão prontas, mas estão chegando, já, já.

Faltam duas horas pra escola desfilar. Diante da ausência de notícias, volta o Cristiano:

– E aí? Alguma notícia?

O gênio:

– Olha, meu querido… ficar sem desfilar vocês não vão, tá? Nem que seja com a roupa que vocês estão!

Falta uma hora e meia pro desfile e vem galopando, em nossa direção, o carnavalesco com um saco preto nas mãos:

– As calças chegaram, as calças!

Dani, pela primeira vez se dirigindo ao cara:

– Só as calças? E o resto?

– Paciência, meu amoreco, a gente dá um jeito.

Uma hora pra entrarem na avenida e volta o cara:

– Olha, melhor vocês vestirem mesmo o chapéu da bateria, e… hum… coloca essa camisa, ó! – e estende uma camisa visivelmente de outra fantasia.

A Dani:

– E o sapato? Estou de chinelo!

Ele olhou em volta, correu duas pistas adiante na Presidente Vargas, abaixou-se, meteu a mão numa poça abjeta e voltou com duas alpargatas brancas, imundas e molhadas:

– Veste isso, ó! Melhor que ir de chinelo!

E meu irmão:

– E eu?

– Seu chinelo pelo menos é preto. Combina!

E assim desfilaram os dois no carro abre-alas. Foram descobrir, a menos de dez metros da boca da avenida, que havia uma coreografia para os destaques do carro, que foram aprender somente na Praça da Apoteose.

Como me disse o Simas, que a tudo assistia das frisas, na companhia do Mussa:

– Avante, Boi!

Para que vocês tenham uma noção do espetáculo que foi o desfile do Boi da Ilha, o enredo era sobre o Apocalipse. O primeiro carro representava os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. O segundo, um posto de gasolina. O terceiro, uma biblioteca. E o quarto, fechando o desfile, uma gaiola!

* Outra boa coisa desse Carnaval foi a derrocada da Viradouro e, conseqüentemente, dessa mentira forjada que atende pelo nome de Paulo Barros. Catapultado à categoria de gênio do Carnaval (não faz nem cócegas num Fernando Pamplona, num Júlio Matos, numa Maria Augusta, num Joãozinho Trinta), Paulo Barros criou uma comissão de frente formada por personagens de um desenho animado americano (Mr. Freeze, ou algo que o valha), um carro alegórico com Edward Mãos de Tesoura, outro personagem americano, esse do cinema, uma ala de Alien, mais bosta enlatada, e merecia uma sonora vaia da imprensa, se a imprensa fosse séria. Mas para Paulo Barros, só adulação. Com tantos elementos nada brasileiros na avenida, justo na mais famosa festa popular do mundo, ele deveria abandonar o Carnaval e tentar a carreira em Hollywood. Eu aposto que ele não arrumaria nem estágio.

Até.

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