O MAIOR É UM

Faz anos hoje, 25 de janeiro, meu velho pai, o maior. Quem lê o Buteco sabe o quanto falo do meu velho, um personagem rigorosamente do cacete, pronto pra qualquer história (não fossem verdadeiras todas as histórias que conto e meu pai seria a solução para ficções delirantes, tão perfeito ele é para qualquer boa história), herói declarado da minha infância. E quero, hoje, em homenagem a ele e também ao Carnaval, que se aproxima, mostrar-lhes três pequenos tesouros que encontrei, ontem à noite, após mais uma expedição de prospecção dentro dos armários da casa de papai e mamãe em busca da fotografia que é, há semanas, confesso, minha obsessão (eu já disse que as tenho em profusão).

Um leitor, ontem, me parece, sugeriu que tudo não passa de mis-en-scene em busca de audiência. Erro grosseiro da parte dele. Tivesse eu já encontrado a tal fotografia e ela seria exposta no balcão do Buteco na primeira oportunidade. Não tenho nem nunca tive sangue frio para surpresas do gênero. Dito isso, em frente.

Ontem, 24 de janeiro, véspera do aniversário do velho, meu irmão Luiz Antonio Simas publicou em seu mais-que-imprescindível blog, o  Histórias do Brasil, um texto monumental intitulado É o bom! É o bom! É o bom! (leia-o aqui), sobre o Bafo da Onça, bloco do coração de meu pai (já, já, vocês entenderão porque refiro-me a este texto de autoria de meu mano).

Se há um troço que tem me comovido agudamente nessa desenfreada busca pela tal imagem, é o cuidado de meu pai e o cuidado de minha mãe com uma coisa que eu prezo demais, que são os registros (já falei sobre a importância dos registros aqui).

Há registro de tudo, de rigorosamente tudo, e esses registros são fundamentais para explicar muita coisa sobre o que somos. E parte desses registros é o que trago hoje para deixar exposto no imaginário balcão.

Papai (seguramente foi ele) teve o cuidado de guardar, dentro de um de meus álbuns de fotografia, o Caderno B do Jornal do Brasil do dia 06 de fevereiro de 1970, uma sexta-feira, véspera do primeiro carnaval da minha vida.

A matéria de capa, intitulada O maior são dois, é assinada por Genison Augusto e trata de dois dos maiores blocos cariocas, justamente o Bafo da Onça e o Cacique de Ramos.

Abaixo, a imagem da matéria, dividida em dois (ela ocupa toda a capa do CADERNO B), que pode ser lida clicando sobre cada uma delas.

matéria de autoria de Genison Augusto, intitulada O MAIOR SÃO DOIS, publicada no JORNAL DO BRASIL de 06 de fevereiro de 1970, sexta-feira, véspera do carnaval

matéria de autoria de Genison Augusto, intitulada O MAIOR SÃO DOIS, publicada no JORNAL DO BRASIL de 06 de fevereiro de 1970, sexta-feira, véspera do carnaval

A matéria é deliciosa de se ler, e traz uma série de curiosidades, algumas delas hilariantes, como por exemplo:

– o Bloco da Seringa, de Higienópolis, juntou, no desfile de 1969, quinze pessoas incluindo a bateria;

– a Secretaria de Turismo, à época, dava uma subvenção aos dois blocos para que eles desfilassem nos três dias de fevereiro, mesmo sem participarem do desfile oficial;

– o Bafo da Onça nasceu em 12 de dezembro de 1953, oito anos, um mês e nove dias antes do Cacique de Ramos;

– a sede do Cacique de Ramos ocupava, em 1970, todo o andar superior de um shopping-center em Olaria, e a do Bafo da Onça ficava numa casa emprestada, sem telhado, no Catumbi, onde funcionara um cinema;

– o Bafo da Onça ensaiava às sextas e domingos no Clube Minerva, no Catumbi, e aos sábados no Clube Monte Sinai, na Tijuca, na rua São Francisco Xavier 100 (nós morávamos, nessa época, no número 84!!!!!), ao passo que o Cacique de Ramos ensaiava no Palácio do Samba, em Olaria, às sextas e sábados, e aos domingos na sede do Botafogo, no Mourisco.

Falei em curiosidade e quero oferecer essa última imagem, esse último registro de hoje, a meu pai – evidentemente – e também à minha Sorriso Maracanã, ao meu mano Fernando Szegeri e à Lina, minha cunhada favorita, já que os três são useiros e vezeiros do mesmo discurso, de que eu até hoje me porto como uma criança dependente de meu pai, que todos os dias é papai pra lá, papai pra cá, papai isso, papai aquilo.

Há – finalmente descobri uma prova material que me absolve diante deles, quero crer! – uma razão, fortíssima, para tal.

Eis o que descobri num pequeno livro de registros chamado Meu primeiro ano de vida:

anotação em um de meus álbuns de infância

Até.

Anúncios

7 Comentários

Arquivado em Uncategorized

7 Respostas para “O MAIOR É UM

  1. >Maravilha! Parabéns ao Isaac, imperiano da melhor qualidade. Eduzinho, a matéria do jornal só cometeu um leve equívoco. O Bafo surgiu no dia 12 de dezembro de 1956. Chequei a informação , antes de postar no Histórias, no fundamental Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro , do Felipe Ferreira; no Dicionário Cravo Albin; no depoimento do Capilé, presidente do Bafo,sobre Sebastião Maria Carpinteiro – fundador da agremiação; e no Carnaval: seis milênios de história, do Hiram Araújo.Beijos!

  2. >Edu, só mais uma coisinha. Eu desconfio que a sede do glorioso Bafo da Onça tenha se transformado, por incrível que pareça, numa igreja pentecostal. É mole?

  3. >Simão: perfeito, querido, perfeito! O repórter, de quem não encontrei um mísero registro na grande rede (procurarei saber com o Marechal alguma coisa sobre o cara!), seguramente cometeu um equívoco quando escreveu a data de fundação do Bafo da Onça. Vai ver que escreveu a matéria calcado em recente entrevista com o Sebastião Maria, daí já viu, né?Quanto à tomada da sede do Bafo por uma igreja… Vamos fantasiados de oncinha, completamente de porre, fazer uma funçanata diante da construção, na segunda-feira de carnaval?!

  4. >quando eu tiver um filho, pretendo ser tão coruja quanto teu pai contigo. Logicamente, serei favorecido pelos avanços tecnológicos, e poderei tirar fotos, fazer filminhos, gravar as primeiras palavras em audio… pensando bem, serei um pai beirando o insuportável.

  5. >Edu querido, queria convidar você e seus fiéis leitores a dar uma passada no meu blog pra lerem sobre um aposentado da FAB que conheci no Pavão Azul, um boteco de Copacabana que você deve conhecer. Duvido que os comentários deste senhor sobre Brizola, Che Guevara e Lamarca passarão incólumes pelo seu crivo.www.absurdosturos.blogspot.comBeijo e até brevíssimo.

  6. Marcos Pinto da Silva

    o bafo da onça teve como primeiro presidente um agente da policia especial por nome de arandir e os primeiros ensaios do bloco foram realizados no clube astoria situado a rua catumbi sobrado, tiao maria era o vice-presidente. no domingo de carnaval o bloco formava na rua valença,
    onde morava tiao maria na vacaria. nosso bloco começou a fazer sucesso no programa do jacy campos as 12:hs na extinta tv tupi, quando ele começou a comentar que o samba era da cor, como a bateria do bafo era
    de branco, com somente um componente escuro chamado por nos de
    (bira crioulo), nosso diretor de bateria chamava-se helcio vulgo carecao e
    auxiliado por ari vulgo guarda-chuva. O comentario acima e de um ritmista
    do bafo no ano de 1956 na marcaçao da bateria formada por Antenor,
    Marcos e Dico.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s