UMA NOITE IMPERIANA

– E aí, Edu! Como foi na Cinelândia?

Foi o que me perguntou, aflito e ansioso pelas notícias, às nove e quarenta da manhã de hoje, o Favela.

Eu poderia ser sucinto, como nunca fui, e responder do alto do orgulho que só os boêmios têm:

– Comecei bebendo uma cervejinha com o João Bosco às seis e cheguei em casa às seis…

Como jamais – com a ênfase szegeriana – fui sucinto, vamos aos fatos.

Às seis da tarde bateu-me um fio (acordei velho, velhíssimo… quem, meu Deus, nas novas gerações, bate um fio para alguém?????), conforme o combinado, o João Bosco. Encontramo-nos no Odeon, pusemos o papo em dia – aliás, belíssimo papo e prenúncio de uma noite histórica, até que estrilou meu telefone. Era papai.

Papai, que recusa-se, como um teimoso incorrigível, a sair de casa à noite, rendeu-se a meu convite e ao amor que sente pelo Império Serrano e foi, com mamãe, para a festa da verde-e-branco de Madureira.

Isaac Goldenberg e Mariazinha Goldenberg, Teatro Rival, 16 de janeiro de 2008

Meu pai estava visivelmente emocionado – ele negará isso até a morte, mas estava -, assim como minha mãe, que derrubou-se à certa altura. Vou lhes contar.

Durante todo o show – que foi belíssimo e emocionante – papai marejava os olhos, cutucava a mim e ao Fefê e dizia em tom paternal:

– Aprendam, meus filhos… Isso é uma escola de samba!

Até que senti as unhas de mamãe cravadas em meu braço.

Jorginho do Império cantava, à capela:

“Uma pequena notável
Cantou muito samba
É motivo de carnaval
Pandeiro, camisa listrada
Tornou a baiana internacional
Seu nome corria chão
Na boca de toda gente

Que grilo é esse?
Vou embarcar nessa onda
É o Império Serrano que canta
Dando uma de Carmem Miranda

Cai, cai, cai, cai
Quem mandou escorregar
Cai, cai, cai, cai
É melhor se levantar, oi…”

Bem a calhar o refrão.

Mamãe estava derrubada, olhos cheios d´água, como cheio de balões esteve, ontem, o céu de Madureira, e disse:

– O primeiro carnaval do Fefê…

E quando seus olhos deitaram-se sobre os meus, lembramos, em comovido silêncio, que era esse um dos sambas que ela cantava, formosa que sempre foi, para me fazer dormir.

Leiam Reminiscências do Carnaval, por favor, escrito em 04 de fevereiro de 2005, há quase três anos, portanto, e vejam que não minto, que sou preciso do início ao fim. Leiam, por favor… aqui, porque é comovente demais a percepção e a confirmação de nossa própria coerência!

João Bosco, Teatro Rival, 16 de janeiro de 2008

As apresentações, todas, foram belíssimas. Além do próprio Jorginho do Império, se apresentaram Moyseis Marques acompanhado por Tiago Prata, Cláudio Jorge, Dorina, Wanderley Monteiro, Nilze Carvalho, Andréia Caffé (a grande surpresa da noite, salve Nova Iguaçu!!!!!) o Jongo da Serrinha comandado por uma sempre iluminada Tia Maria, a Velha Guarda Show do Império Serrano, Zé Luiz, João Bosco, a bateria da verde-e-branco com seus agogôs inconfundíveis e se o objetivo da escola foi angariar axé… estejam certos… o Império Serrano vai pisar forte, fortíssimo, na avenida!

Desnecessário dizer que o Teatro Rival, em uníssono, cantou Oguntê, Marabô, Caiala, Sobá, Oloxum, Ynaê, Janaína e Yemanjá, e que transformou-se em misterioso mar de lágrimas que brotavam dos olhos dos presentes à festa – dessas de não se esquecer jamais.

Danielli Pureza e João Bosco, rua Álvaro Alvim em frente ao Teatro Rival, 16 de janeiro de 2008

Agora prestem atenção.

Saímos do Rival, tontos de felicidade, e sentamos diante do teatro – havia mesas espalhadas pela rua – para mais um bocado de cerveja, que a sede era de anteontem. A escalação da mesa: eu, Dani, João Bosco, Simas, Candinha, Mussa, Elaine, Prata, Luísa, Moutinho e Flávia.

Acontece, meus poucos mas fiéis leitores, que quando a noite é mágica as surpresas se sucedem, a boniteza fica sendo cada vez mais presente e a berzundela não cessa.

Havia uma mesa, ao lado da nossa, na qual bebiam, e jogavam conversa fora, uns cinco, seis malandros. Todos na faixa dos cinqüenta anos – eu conhecia apenas o Ivan Milanez -, os caboclos foram se chegando, como só em buteco mesmo, e começaram a puxar sambas, um atrás do outro – meus amigos testemunharão a meu favor! -, um mais bonito que o outro, até que um deles – Careca, foi como ele se apresentou – disse:

– Canto os sambas do Império de 1948 até hoje, se vocês quiserem!

Sacou de um pandeiro, mandou ver, cantou Silas de Oliveira que nenhum de nós conhecia, cantaram e dançaram jongo nas pedras pisadas daquela rua, durante a madrugada, e o furdunço só terminou quando o dono do bar em frente pediu arrego.

João Bosco, Ivan Milanez, Careca e amigos na rua Álvaro Alvim em frente ao Teatro Rival, 16 de janeiro de 2008

Despedimo-nos, todos rigorosamente embriagados pela beleza da estreladíssima noite de quarta-feira, e foi o João que propôs, às três da manhã:

– Vamos comer um javali no Capela?

De lá saímos, em estado bruto de felicidade, às cinco e meia da manhã, com mesas e cadeiras empilhadas, Miro e Cícero a postos aguardando a debandada, o sol forçando a barra da noite, e eu me despedi de todos, um por um, agradecendo pela graça do encontro e pela força da noitada.

Luiz Antonio Simas, Marcelo Moutinho, Flávia, Elaine, Alberto Mussa e João Bosco, Nova Capela, Lapa, Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 2008

Disse no ouvido do João, antes de entrar no táxi, blanquianamente:

– Eu gosto quando alvorece porque parece que está anoitecendo…

E ele, de volta:

– E gosto quando anoitece que só vendo porque penso que alvorece…

Fui, pelo caminho, cantando:

“… e então parece que eu pude
mais uma vez, outra noite,
reviver a juventude.
Todo boêmio é feliz
porque quanto mais triste
mais se ilude.
Esse é o segredo de quem,
como eu, vive na boemia:
colocar no mesmo barco
realidade e poesia.
Rindo da própria agonia,
vivendo em paz ou sem paz,
pra mim tanto faz
se é noite ou se é dia.”

Até.

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6 Comentários

Arquivado em carnaval, música, Rio de Janeiro

6 Respostas para “UMA NOITE IMPERIANA

  1. >Não mereci essa honra. A três pessoas de comprar meus dois ingressos, acabaram-se as entradas :-sQ bosta, perdi um evento histórico!

  2. >Uma noite de antologia, para resgatar o orgulho de ser imperiano. Chorei três ou quatro vezes, e vi tantos outros chorarem. É bonito quando uma escola de samba se encontra com sua própria história…

  3. >Que beleza, Edu! Não há mais nada para dizer, apenas… Que beleza!

  4. >ah… foi tão lindo…

  5. Pingback: SERRINHA NA OUVIDOR | BUTECO DO EDU

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