>AFETO AINDA QUE À DISTÂNCIA

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Ontem, coisa de oito e meia da noite, estrila meu telefone. Na tela do celular, o maior e mais bonito sorriso do mundo. É minha menina, com a voz cheia de vida, anunciando que havia acabado de chegar no Sabiá. E me disse:

– Acabei de pedir dois chopes… um é seu.

Quando deu onze e meia da noite, três horas depois, voltou a estrilar o telefone e o mesmo sorriso surge diante de mim. É minha menina, de novo, e que dessa vez passa o telefone por toda a mesa, num ritual comuníssimo em dias e noites de porranca. E falo com – saquem o peso da mesa! – Augusto Diniz, Arthur Mitke e com Arthur Favela, até que volto a ouvir a voz da Sorriso Maracanã.

Pequena pausa.

É evidente que ele, Fernando Szegeri, o homem que dedica-se com a paciência de um Aleijadinho, de um Michelangelo, a espezinhar-me incessantemente também estava lá. Mas recusou-se a falar comigo. Eis o que eu ouvi. A voz da minha garota:

– Fê! Fê! – imagino que estendo o telefone – É o Edu!

Ouço a voz-trovão e imagino os gestos, as mãos como que espanando mosquitões da dengue diante do rosto:

– Fala que eu tô ocupado!

Minha menina ainda tentou amainar minha frustração mas a verdade, que dói, é essa: uma vez mais o homem da barba amazônica não perdeu a oportunidade da humilhação imposta.

Dito isso, em frente.

Fui dormir mais feliz, mesmo sozinho.

Um brinde à distância, manifestações explícitas de afeto ainda que feitas por telefone, declarações olímpicas de saudade, encontros marcados pra brevíssimo, e – apud Aldir Blanc – a certeza de que é preciso, sempre, discutir a importância da velha amizade e redimensionar a palavra saudade, já que é nela que tudo o que amei sobrevive.

Vai daí que falar, hoje, 05 de dezembro, em distância, em afeto, em saudade, em amizade, me remete ao dono do dia, Bruno Ribeiro, querido de Campinas, dono do PÁTRIA FUTEBOL CLUBE, território brasileiro como ele mesmo faz questão de pontuar, e que faz anos hoje.

Nascido em 1976, completando, portanto, 31 anos de vida hoje, o Bruno é – como eu, como o Simas, como o Szegeri, e é impossível não lembrar do memorável encontro de nós quatro, exatamente como previra o próprio Bruno, vejam aqui! – um velho.

É um velho e é um apaixonado pelas coisas do Brasil, um torcedor do Guarani, um jornalista maiúsculo, um compositor de mão cheia, um permanente inconformado, um homem de bem, um homem do povo, filho de Oxóssi.

Bar Central, distrito de Souzas, Campinas, SP

Eis a razão pela qual hoje, de pé diante do balcão imaginário do Bar Central, em Campinas, ergo meu copo bolinha cheio de cerveja Brahma, a esse amigo querido que me foi dado de presente pelos deuses, e peço pra ele, depois de oferecer a primeira talagada a Exu, como aprendi, humílimo, com meus irmãos, saúde constante, força permanente, coragem contínua, muito samba e muito amor, sempre.

E já que falei em deuses, e já que falei de nosso encontro a quatro – um filho de Xangô, um filho de Oxóssi e dois filhos de Ogum -, uma homenagem ao malandro em forma de texto e em forma de samba.

“Oxóssi é irmão de Ogum. Ogum tem pelo irmão um afeto especial. Num dia em que voltava da batalha, Ogum encontrou o irmão temeroso e sem reação, cercado de inimigos que já tinham destruído quase toda a aldeia e que estavam prestes a atingir sua família e tomar suas terras. Ogum vinha cansado de outra guerra, mas ficou irado e sedento de vingança. Procurou dentro de si mais forças para continuar lutando e partiu na direção dos inimigos. Com sua espada de ferro pelejou até o amanhecer.

Quando por fim venceu os invasores, sentou-se com o irmão e o tranqüilizou com sua proteção. Sempre que houvesse necessidade ele iria até seu encontro para auxiliá-lo. Ogum então ensinou Oxóssi a caçar, a abrir caminhos pela floresta e matas cerradas. Oxóssi aprendeu com o irmão a nobre arte da caça, sem a qual a vida é muito mais difícil. Ogum ensinou Oxóssi a defender-se por si próprio e ensinou Oxóssi a cuidar da sua gente. Agora Ogum podia voltar tranqüilo para a guerra. Ogum fez de Oxóssi o provedor.

Oxóssi é o irmão de Ogum.

Ogum é o grande guerreiro.

Oxóssi é o grande caçador.”

(Prandi, Reginaldo – Mitologia dos Orixás / Reginaldo Prandi; ilustrações de Pedro Rafael. – São Paulo: Companhia das Letras, 2001)

http://www.divshare.com/flash/playlist?myId=3006824-7b9

Com sua licença, Simas

Axé!

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6 Comentários

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6 Respostas para “>AFETO AINDA QUE À DISTÂNCIA

  1. >Querido… Estou sem palavras. E esta foto? Nem me lembrava mais dela! Você, Edu, sempre querido. Muito obrigado. O dia está só começando e você foi o primeiro a se lembrar. Sério. E duvido que ganharei, no dia de hoje, presente mais bonito. Axé, meu irmão!

  2. >Você é tão envolvente quando escreve que faz a gente ficar à vontade pra desejar tudo bom mesmo a quem a gente não conhece: parabéns, Bruno! Beijinho pros dois.

  3. >Malandro: eu, que sou preciso do início ao fim – você sabe… – lhe direi então…Você me mandou essa (e outra) foto em 11 de setembro de 2006, com o seguinte texto:”Edu, olha eu te enchendo de novo, mas é que achei aqui duas fotos que são a nossa cara. Este é o Bar Central, que ficava na esquina de minha antiga morada, no distrito de Sousas. Repare no uniforme azul dos funcionários e na maravilhosa vitrine do balcão. Tudo natural, sem forçar a barra para parecer antigo. O banheiro tem creolina e rodela de limão no mijatório. O sanduba de aliche é campeão. E a caipirinha de lima da pérsia com steinheguer é qualquer coisa para se tomar de joelhos. Sem falar que na frente do boteco existe uma praça à beira do rio Atibaia (mal comparando é o rio Maracanã do lugar). A gente bebe e fica sentado na ponte, olhando o rio correr para o nada. Um dia apresentarei à você este buteco da mesma forma que me apresentaste o Rio-Brasilia. “Tá bom assim?E, Marcella… todas as homenagens, hoje, serão poucas pra esse cara.Beijo.

  4. >A sua precisão me assusta! Mas, que felicidade, meu irmão!

  5. >Que bonita homenagem, Edu! Tão bonita quanto merecida. Ao Bruno todo o carinho e os melhores e mais sinceros votos hoje e sempre. Os adjetivos citados por você são todos, como de costume, “precisos do início ao fim”. Conheci teu balcão vindo lá pelo Pátria FC. A leitura diária do Buteco do Edu e Histórias do Brasil me foram dada de presente pelo Bruno. E de afeto a distância eu posso falar. Parabéns, Bruno. AbraçosPerla (do Pará)

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