ARREMESSO AO PASSADO EM PAQUETÁ

Assim que chegamos à Paquetá, no sábado, a primeira pessoa que me veio à cabeça foi meu pai. Desde pequeno que ouço histórias de meu pai em Paquetá, ilha que o viu tantas vezes, em tantas férias, de calças curtas, juntamente com seu irmão, Leopoldo, e com seus pais, meus avós Elisa e Oizer (sobre meu avô, leiam Ventos em meu coração, aqui, e O pai me disse, aqui).

Mal desembarquei e disquei pra ele (acho uma fantasia nostálgica belíssima o uso do verbo “discar” na era do telefone celular):

– Pai? Em que casa você ficava quando era menino aqui em Paquetá?

– Você está em Paquetá? – a voz engasgada denunciava o susto.

– Arrã.

E ele, preciso:

– Praia dos Tamoios, 557. Se por acaso não existir mais esse número, pergunte pela casa do seu João.

Estávamos, mesmo, na Praia dos Tamoios, e sugeri que seguíssemos direto pra lá.

Dei a mão pra minha menina e eu já era, no instante em que desligara o telefone, um sujeito guinchado abruptamente em direção ao passado. E eu já pisava a terra batida do piso na beira da praia em direção à casa buscando as pegadas deixadas por meu pai há mais de sessenta anos.

Estacamos diante da casa.

Paquetá, 24 de novembro de 2007

Um imenso portão branco fechado e eu, branco, acho que de medo (sou um poltrão diante de fantasmas que não vejo), permaneci estacado diante da placa 557. Foi a Betinha quem primeiro empurrou o portão, por onde entrou com a Dani. Eu, ainda do lado de fora, tornei a discar pro meu pai:

– Achei.

E ele, de primeira:

– Está de frente pra casa?

– Arrã.

– Do lado direito… tem um varandão? Uma espécie de alpendre?

– Arrã.

E desliguei quando avistei um homem vindo em nossa direção, saído de dentro da casa.

Paquetá, 24 de novembro de 2007

Dani já me conhece e, tenho certeza, me reconheceu, naquele momento, como um homem congelado pela emoção misturada com o medo. E foi ela quem perguntou:

– Boa tarde… Aqui é que é a casa do seu João?

O homem, altíssimo, barbado, riu. E disse ajeitando os óculos:

– Seu João morreu em 1970. Hoje quem mora aqui é a filha dele, com quem fui casado.

E riu.

Quando ele riu, depois de ter dito isso, pensei pra dentro:

– Fudeu. Esse é o seu João…

A Dani, então, apontando pra mim:

– É que o pai dele passou a infância aqui… A gente pode fazer umas fotos da casa?

E ele, simpaticíssimo, abriu os braços e disse:

– À vontade e com o maior prazer…

Paquetá, 24 de novembro de 2007

Evidentemente que movido e acionado pelo turbilhão emocional que me perturbava, fiz dezenas de fotos sem nexo enquanto suava excessivamente. E eu cheguei a ter, à certa altura, certeza absoluta de que nosso guia não só percebera meu estado como me sacaneava de forma aviltante e aguda. Ou não teria dito coisas como:

– Seu pai seguramente almoçou e jantou muitas vezes com esses talheres… – e me apontou uma cristaleira imensa que exibia faqueiros de prata exibidos como num museu.

– Tira fotos desse piso aí onde você está pisando… Seu pai deve ter brincado muito nesse chão…

E eu sentindo um zumbido nos ouvidos e vendo a casa girar.

Paquetá, 24 de novembro de 2007

A casa estava girando quando entrou, na sala, uma senhora. O gorducho, diante do silêncio, adiantou-se:

– Eles vieram em busca da casa e procurando pelo seu pai… O pai dele – e apontou o indicador em minha direção – passou a infância aqui!

Ela disse coisas, ele disse outras tantas coisas, eu percebia que eles quatro conversavam amistosa e animadamente, só que o piso, com desenhos e geometria capazes de piorar a sensação de tontura, me fazia estar muito longe, há anos dali, brincando de rolimã com meu pai diante dos olhos azuis de meu avô.

Paquetá, 24 de novembro de 2007
Até.
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6 Comentários

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6 Respostas para “ARREMESSO AO PASSADO EM PAQUETÁ

  1. E seu pai, Edu? Ele já viu as fotos?

  2. Betinha: creio que sim. Ele é, e digo isso sem medo do erro, o primeiro leitor de cada texto… Mas se vai ou não se manifestar, são outros quinhentos. Beijo, querida!

  3. Betinha , o Edu ameaçou mostrar um monte de fotos e me decepcionou …. a casa , pelo que deu pra ver , mudou muito…. não havia tantas plantas… do lado direito de quem entra pelo portão havia um grande carramanchão com umas flores roxas e dentro tinha uma imensa mesa onde a garotada daquele tempo se reunia para planejar as ” artes “, as janelas da casa eram de cor vermelha … foi apenas o que deu pra ver….

  4. Parabéns, Edu! Ótimo texto!

  5. Putz, que coisa linda. Muito bom ver um texto de quem valoriza a memória…

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