O MUNDO É PEQUENO MAS A TIJUCA É MAIS

Na semana passada recebi extenso e atencioso email de uma leitora recente do BUTECO, a Ione, de Brasília. Contava-me, no tal email, a Ione, como chegara ao balcão imaginário, contava-me sobre os textos que mais gostara, contava-me sobre sua infância no Rio de Janeiro, até que disse, à certa altura, o seguinte:

“Olha, eu adorei os seus comentários, especialmente sobre o consultor automotivo! Fiquei imaginando um cara bem tosco, como aqueles que via na rua da minha avó, que tinha várias oficinas mecânicas (ela morava no início da Barão de Mesquita, em frente ao colégio Militar), o que faria ao ser chamado de Consultor Automotivo… O prédio da minha avó (em que até hoje ainda moram alguns tios) é o 48 da Barão de Mesquita, que fica na esquina com a Morales de Los Rios. Eu decorei o nome dessa rua porque, além de ter uma memória impressionante (que funciona terrivelmente bem para coisas bestas), achava muito engraçado aquela ruazinha minúscula ter um nome tão pomposo! E na mesma calçada, esquina com a São Francisco Xavier, tinha uma lanchonete que fazia o melhor cheeseburger da Terra.”

Ao ler o número do prédio, 48, senti o tranco do arremesso em direção ao passado. Foi nessa rua, a Barão de Mesquita, que morei quando nasci. É até engraçado dizer “morei quando nasci”… Papai e mamãe moraram ali, parece, por uns dois ou três anos no máximo, o que significa dizer que não tenho nenhuma (com a ênfase szegeriana) memória ou lembrança desse período. Ou melhor, tenho, sim. Mas as lembranças que guardo são as que me foram contadas – choro intensamente enquanto escrevo -, como a do episódio passado no dia 6 de maio de 1969.

Minha bisavó, nascida em 6 de maio – leiam aqui o texto SEIS DE MAIO -, dia também do aniversário do Colégio Militar, que fica exatamente em frente ao prédio em que morávamos, dormiu, naquele 5 de maio de 69, ao lado de meu berço, apenas para que, às seis horas da manhã, ela pudesse me tomar nos braços e me proteger do barulho dos tiros de canhão que fazem parte, desde a fundação do colégio, das comemorações de 6 de maio. O menino, então com nove dias de vida, – será que minha bisavó vislumbrava ter a importância que tem em minha vida enquanto me aninhava? – experimentava, ali, naquele momento, o calor e o aconchego do colo mais doce, e que busco, ainda, nos braços de mamãe e de vovó.

Mas enfim… Senti o tranco do arremesso ao passado e precisava de uma confirmação.

– Pai? Qual o número do prédio em que moramos na Barão de Mesquita?

– E eu lembro!? Pra que você quer saber isso? Lá vem merda…

Desliguei.

– Mãe? Você lembra o número do prédio em que moramos na Barão de Mesquita?

– Ihhhhh… melhor perguntar pro seu pai…

Tentei minha avó.

Em vão.

O máximo que ela me disse, e que me fez ter novo tranco:

– Fica quase na esquina da Morales de Los Rios… Tenho uma amiga que mora lá até hoje… Vou falar com ela e depois te digo, está bem?

Minha ansiedade não permitiu a espera.

Tomei da bicicleta e da câmera fotográfica e parti, ansioso, em direção ao prédio de pastilhas azuis tantas vezes apontado por papai e mamãe, sempre que por ali passávamos de carro:

– Foi aqui que você nasceu…

E quase sempre mamãe repetindo a história daquele 6 de maio.

Barão de Mesquita 48

Ao chegar diante do prédio na manhã de sábado, eu ouvi tiros de canhão, mas dentro de mim. Senti o cheiro da pastilha de hortelã preferida de minha bisavó, seu cheirinho permanente de talco, ouvi a voz de meu pai e ouvi o som de seu assovio em meus olhos pra me fazer dormir, a voz de minha mãe cantando um samba do Salgueiro, ouvi cânticos de índios, ouvi o zumbido de flechas passando rente a meu rosto, até que, trêmulo, pus-me a fotografar o edifício diante dos olhares de meia-dúzia de velhinhos que jogavam carteado num buteco ao lado da portaria do 48, o prédio que me viu bebê.

Dirigi-me ao balcão, pedi uma Brahma, fui me refazendo aos poucos, até que tocou meu telefone.

Era minha garota.

E ri, enxugando as lágrimas, enquanto me lembrava de nosso começo e de meus argumentos apaixonadíssimos para convencê-la a trocar Copacabana pela Tijuca.

Barão de Mesquita 48

Quando perguntei ao homem por trás do balcão quanto eu lhe devia pela água e pela cerveja, ouvi a voz que veio da mesa de jogo:

– Deixa essa com a gente, menino. Vá com Deus.

Voltei pedalando, chorando ainda mais, com essa certeza ainda mais solidificada dentro de mim: o mundo é pequeno. Mas a Tijuca é mais.

Até.

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13 Comentários

Arquivado em confissões

13 Respostas para “O MUNDO É PEQUENO MAS A TIJUCA É MAIS

  1. >Du , mas o numero do apto. me lembro , foi o 810 !!! essa voce não sabia e que o bar que sua leitora cita era do Castrinho !!!

  2. >Oi Edu, estou emocionada com a sua atenção em ir conferir o edifício, e ainda fotografar a placa da rua… Com toda certeza a Tijuca é minúscula! E cedo ou tarde a gente acaba se esbarrando por aí!Obrigada pela deferência, e pode crer que vou virar freguesa do teu buteco!Beijão,Ione

  3. >Mais uma crônica de bom gosto e agora com fotografias. Pelo visto o próximo livro do Edu será “inundado” por fotos. Um forte abraço! : )

  4. >EduAlem do “Castrinho”!!! Linda Lembranca.Serah que tem o autopecas Mundial na Sao Francisco Xavier, em frente a B.de Mesquita?Joao

  5. >Que beleza, malandro! Que beleza! Sabe que da última vez que fui ao Rio, tive a mesma sensação ao passar diante do Hospital dos Italianos, onde nasci, no Grajaú? Você sabe das coisas. Beijo, querido!

  6. >Brilhante o texto! (Também sou oriundo dessas adjacências tijucanas – nasci num hospital da Rua São Francisco Xavier).

  7. >Esse buteco ao lado da portaria foi onde eu tomei a minha primeira Coca-Cola em lata, nos idos de 1981…O nome do lugar era Castrinho (obrigada aqui ao ‘seu pai’), agora me lembro perfeitamente! O hamburger tinha um gosto de feito em casa, bem diferente do que se come nessas grandes redes, que têm gosto de isopor em qualquer lugar do mundo! E como a fatia do queijo era quadrada, sobrava nas extremidades aquela parte torradinha… sim, era uma fritura das boas, gordura saturada legítima, que na época se comia sem a menor culpa! Saudades…

  8. >Conheço a área, bem ali onde ficam várias mecânicas, hoje com aqueles cartazes amarelos oferecendo instalação de CD de painel. Morei na Barão de Mesquita por três anos, no número 128, esquina com a Deputado Soares Filho. E sabe do que lembro bem? Do inebriante cheiro de mijo dos cavalos do colégio militar, que vez por outra toma conta dos ares daquela região. O brabo é voltar lá, nos arredores daquele pequeno morro, e ver que instalaram um (pausa para o arroto) Wal Mart onde era o prédio da Light. Wal Mart, Edu, na Tijuca! É foda.Porra, não conheço mas simpatizo muito com a figura do Bruno Ribeiro. E agora ainda mais, já que descobri que o cara, que eu julgava ser paulista, nasceu no meu bairro de coração, onde moro (com exceção dos três anos que passei na Tijuca) há 24 anos!E por fim, Edu, um ansioso sempre entende o outro, razão pela qual te imagino fácil catando a bicicleta e cruzando meia Tijuca pra reviver coisas que você nem se lembra.Um abraço emocionado, a você e ao Bruno, um quase conterrâneo.

  9. >Edu, o anonimo entre o Bezerra e o Arthur sou eu, ok? Desculpe a falta de familiaridade com o site e os comentários!!!Nossa, quanto Tijucano bacana passa aqui pelo buteco… Apesar de morar meio longe atualmente, náo nego as minhas origens por parte de pai! Realmente, aqueles cavalos do CM de vez em quando fediam pra cacete, e conforme o vento a gente sentia lá da casa da vó!

  10. >Lindo… só posso falar isso… Lindo…e como é linda a Tijuca

  11. >- Deixa essa com a gente, menino. Vá com Deus.(emocionado)saudades.Rodrigo Bud

  12. Pingback: ARREMESSO VIOLENTÍSSIMO EM DIREÇÃO AO PASSADO | BUTECO DO EDU

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