O BACALHAU DE DOMINGO

Eu dei como título a este texto, de hoje, O BACALHAU DE DOMINGO, mas minha vontade inicial, confesso, era que fosse FLAVINHO, O ANFITRIÃO, e explico.

Antes de explicar, porém, quero pedir a vocês que leiam os textos ROYAL SALUT E UMA DO PAPAI (aqui) e PRATO CHEIO PARA O SUICÍDIO (aqui), ambos contendo importantes dados sobre essa faceta, de anfitrião, do meu dileto e querido amigo Flavinho, o Xerife do balcão imaginário do BUTECO.

Flavinho e Betinha nos receberam no domingo passado para uma bacalhoada – essa monumental que se vê, abaixo, sendo cuidadosamente preparada (clique na imagem para que sua boca encha d´água) por uma Betinha a cada dia mais apurada na cozinha.

bacalhau na casa do Flavinho e da Betinha, 04 de novembro de 2007

Mas vamos ao Flavinho.

O Flavinho, já lhes contei, é egresso do Cachambi, bairro onde já exercia com maestria – é preciso fazer justiça – o papel de anfitrião. Com maestria, é verdade, mas com ingredientes bem diferentes, vou explicar melhor.

O Flavinho recebia seus convidados na laje de sua casa pedindo a todos, sempre, – prática lamentável… – que levassem cerveja. Servia, como entrada, pãozinho sacadura, broas de milho e pão careca. E o almoço era, geralmente, churrasco de músculo ou, num dia de vaca gorda, de chã de dentro.

Para que salte aos olhos de vocês a diferença que se vê agora, vou transcrever meu breve diálogo com o Xerife na manhã do domingo. Estava eu no Mundial da Matoso:

– Flavinho, quer que leve alguma coisa? Cerveja?

E ele, do outro lado, telefone na mão esquerda e a pistola na direita apontada para o alto:

– Nada! Nada! Rigorosamente nada! Dinheiro há! Dinheiro há! Dinheiro há!

E desligamos.

É preciso que se diga, ainda, em nome da precisão, que a catapulta que o arremessou do Cachambi em direção ao Flamengo tem um nome: Roberta Oliveira, minha querida e cada vez mais querida Betinha, que já morava lá. Foi, portanto, um movimento conveniente, prático, óbvio, natural. Mas é preciso que se diga mais!

O que moveu meu emérito amigo foi a obsessão e o amor que nutria – e ainda nutre, lhes garanto – pela mulher com quem hoje divide a vida, o apartamento, as contas, tudo.

Pequena pausa: num desses domingos recentes almoçávamos, no Salete, eu, Dani Sorriso Maracanã, papai, mamãe, e justamente eles, Flavinho e Betinha. E meu protagonista de hoje fez, a certa altura, tão comovida declaração de amor à Betinha, que meu pai, já levemente embriagado, chorou de soluçar diante de uma mamãe enternecida. Voltemos ao assunto.

Faço questão de lhes dizer isso já que a regra – bem sei a regra, eu que tanto tempo convivi com vacas que tentaram, em vão, destruir meu pasto – é um movimento semelhante ao protagonizado pelo Flavinho – de ascenção social – por meios e interesses menos nobres. Há os pobres de espírito que têm a obsessão do apart-hotel na zona sul da cidade, a obsessão doentia da caminhada no calçadão do Leblon, a cupidez desmedida que a mim, pelo menos, enoja.

Ele, não. Ele, batalhador como pouca gente, estudioso até o último fio de cabelo (fadado aos primeiros lugares, aguardem), mudou-se para o Flamengo por questões meramente práticas. E foi lá, no Flamengo, que adquiriu gostos refinados.

No lugar da cerveja pedida (e as marcas que chegavam eram Malt 90, Belco, Cristal), litros e mais litros de Therezópolis Gold, Erdinger, Stella Artois, Guinness. No lugar do pãozinho sacadura, da broa de milho e do pão careca, pães caseiros feitos com farinha de trigo e semolina, ambos os produtos importados, por ele mesmo, que exibe orgulhoso, como um Olivier Anquier, tesouros recheados com cebola argentina, camembert francês, azeitonas gregas, rúcula italiana. E no lugar do churrasco, pratos refinados como o bacalhau, servido com fartura impressionante.

E cutucava os convidados:

– Quer mais azeite?

Um “não, obrigado” era tomado como ofensa:

– Não?! Custou 80 reais o vidro! É italiano!

E derramava azeite no prato alheio, depois de tirar o dosador:

– Prove! Prove!

Eu vi – eis a confissão final – o Flavinho servindo azeite na boca de Rodrigo Ferrari, com o auxílio de uma colher de sopa, dizendo baixinho:

– Degusta, Digão! Sinta o sabor das oliveiras em flor…

Foi, mesmo com a derrota do Flamengo (que ainda assim manteve-se, até então, entre os classificados para a Libertadores 2008), um domingo auspicioso.

Até.

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17 Comentários

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17 Respostas para “O BACALHAU DE DOMINGO

  1. >kkkkk!!!depois dizem que churrasco de pobre só tem lingüiça e asa!

  2. >Colherzinha na boca, é? Sei não, sei não…

  3. >Rigorosamente fiel aos fatos!!!Foi um prazer enorme ter vocês aqui em casa.

  4. >Zé Sergio, madrinha de nós todos, velha coroca querida: o pior é que a verdade é rigorosa, como atesta o anfritrião, imediatamente após seu comentário! Beijo.Flavinho: no que diz respeito a mim, meu caro, o prazer foi meu. Só os idiotas – os beócios olímpicos e integrais – recusam convites similares ao que vocês me fizeram. Eu é que agradeço, querido. Beijo enorme.

  5. >Caracas… fiquei com inveja Edu. Gostaria de ser convidado para uma boca livre dessas. Posso retribuir o convite com um almoço no meu muquifo aqui no Lins (Boca do Mato). A minha esposa faz um Calango com Farinha maravilhoso. De entrada tem Chique-Chique. : )

  6. >Roberto Fraga Jr., com o perdão da franqueza e da sutileza tijucana que me caracterizam segundo alguns, e dentro do princípio prefiro-sempre-a-piada-ao-homem:01) eu fui convidado, não poderia tê-lo convidado… Primeiro porque não lhe conheço pessoalmente, segundo porque a casa não era minha e terceiro porque quem ofereceu a boca-livre não fui eu;02) é inadmissível, em terras tijucanas, negociatas gastronômicas nestes termos toma-lá-dá-cá;03) querendo me convidar, esteja à vontade, como eu e minha mulher (na Tijuca não há esposas) estaremos à vontade para aceitarmos ou não;04) vovó morou muito tempo na Conselheiro Ferraz, no Lins; a princípio, seria um prazer voltar à tão querida terra.Fortíssimo abraço!

  7. >Porra Edu, tu é grosso pra caralho, parece até que foi nascido e criado na Abolição! Custava convidar o cara e depois comer a porra do calango com farinha lá no Lins com o primo do Fraguinha e sua digníssima? Vai ver que o tempero salvava a mistureba. Caralho, esse buteco prima pela falta de etiqueta!!! Repara não, ô Fraga do Lins!

  8. >Dada a popularidade do Buteco (blog é o caralho!!!), acredito que muito em breve choverão convites e pedidos de receita. Já posso visualizar o Flavinho ao lado do Renato Machado degustando vinhos caríssimos, cuidadosamente aromatizados a famosa Bacalhoada. P.S.: Porra Edu, colocar uma foto dessas é sacanagem, um ato vil de covardia. Eu, por exemplo, deparei-me com ela na hora que tava indo almoçar numa espelunca aqui ao lado do trabalho. Senti-me um merda. Nem preciso mencionar qual foi o castigo…R Fraga Jr., essa história de calango com farinha é verdade mesmo?? Saudações e parabéns a todos os envolvidos no evento.Daniel A.

  9. >Daniel,Já pedi e fui atendido em dois pedidos de receita. A rabada que fiz com a receita do Edu é espetacular, a feijoada, confesso que ainda não fiz. Acho que todos os pratos citados aqui no Buteco, deveriam vir com a receita. E ainda, concordo com você. Buteco, sim, blog é coisa de viado.

  10. >Szegeri,Acompanho o voto do relator, velho, também entrego os pontos …Saravá!

  11. >Lamentável a postura fraguiana de entregar os pontos, se ela significar o abandono do barco, na esteira da mesma condenável postura szegeriana, a demonstrar a intolerância de ambos para o convívio que o balcão pede. Lamentável.

  12. >Capitão,Szegeri com a palavra …Saravá!

  13. >Fraga velho, em consideração à tua nobre pessoa, e tão somente por isso, volto aqui para dizer somente o seguinte: venha para cá semana que vem e beberemos de verdade em um(ns) butiquim(ns) de verdade, com balcão de verdade que não peça nada, onde não tenha ningém pra ditar o que seja lamentável, condenável, lavável ou injetável. E onde otário não se cria. Deixe a patuléia virtual trocando receita de foagrá.Saravá!

  14. >Pois é Edu, diante do excessivo número de erros de português no meu último post que fariam o seu “Creyçon” ficar envergonhado (espero que tenham sido causados por alguma configuração do teclado já que eu nem tinha bebido), aqui vai…Como eu ia dizendo, o negócio do Calango é uma receita da família da minha “digníssima”. Eles desenvolveram seus dotes culinários por conta das inúmeras “gerações famélicas” no sertão nordestino (a teoria Darwinista explica isso). O Calango é a ponta do iceberg das iguarias nordestinas. No sítio do meu sogro nenhum semomente que “cruze a roça” escapa ileso. Todos vão para a panela (tatus, cotias, micos, capivaras…).Tomara que o IBAMA não tome conhecimento desse post. Ainda bem que a maior parte da família veio para o “sudeste maravilha”. Os que ficaram na “terrinha” arrumaram parceriros por lá. Esses, em duas ou três gerações, voltarão a viver em cavernas.

  15. >corrigindo… nenhum “semovente”…. : )

  16. >Lembrei de uma das histórias do teu livro, na qual o Flavinho aparece berrando aos 4 ventos o valor daquela bebida cara (100 reais, né? Segunda-feira sou péssimo pra lembrar as coisas…)

  17. >Cem dólares, 4rthur, cem dólares.

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