À MODA DA TIJUCA

Eu e a Sorriso Maracanã somos padrinhos de seis afilhados. Em ordem alfabética, Alfredinho, Ana Clara, Dhaffiny, Iara, Milena e Raphael. Filhos de Alfredo e Raquel, Ricardo e Magali, Buba e Lu, Szegeri e Railídia, Mariana e Marcelo, Júlio e Ana, talvez não sejam mais meus afilhados quando eu terminar de escrever este texto. Explico.

Antes, porém, quero lhes dizer que vale a pena correr o risco de perder a condição de padrinhos, até mesmo em razão de que, sem modéstia, somos os tios preferidos da molecada, sejamos ou não padrinhos, embora seja comovente demais ouvir, por exemplo, a Milena, minha afilhada mais velha, me chamando de diiiiiiiiiindo e a Iara, a paulistinha, me chamando de diiiiiiiiiiiiiiiiiiiindo. Mas correrei o risco. Vamos em frente.

Na sexta-feira passada, estrilou meu celular. Era Maria Helena, irmã da Ana Clara:

– Tio Babo?! A gente pode dormir amanhã na casa de vocês?

Depois da agradabilíssima manhã de sábado, que começou na Folha Seca e estendeu-se, à tarde, no Armazém Senado, partimos nós dois para a missão: resgatar as meninas – pobrezinhas… – que moram na Barra Cada Vez Menos da Tijuca.

Lá chegando – o combinado era devolvermos as meninas no dia seguinte na hora do almoço! – a mãe, Magali, irmã da minha Dani, estendeu-nos quatro mochilas, duas de roupa e duas de brinquedo, e com um boneco de pano e feltro, horroroso, parecido com um espantalho, numa das mãos, em tamanho natural (mais alto que as meninas) e um caderno na outra, disse-me, visivelmente para que elas ouvissem:

– Então, tio Babo… As meninas estão levando pra dormir lá, também, o Príncipe João Felipe…

Franzi a testa, tomei um chute na canela, da Dani, e ela prosseguiu a estranha palestra:

– É que a cada final de semana o Príncipe João Felipe dorme na casa de um coleguinha, do colégio, e nós, os pais, precisamos fotografar as atividades do pequeno monarca e colar todas as fotografias neste álbum – estendeu-me o troço – para que os coleguinhas vejam tudo na semana seguinte… Entendeu, tio Babo?

Quase vomitei ali mesmo, na sala, enquanto folheava o álbum, verdadeiro tratado de pedofilia e pederastia – onde o mundo vai parar?!?!?!?!?! Meninos dormindo abraçados com o boneco, meninos brincando de gangorra com o boneco, meninos e meninas sentados à mesa tomando café, almoçando ou jantando com o imbecil de pano, um horror.

Já no elevador, perguntei à Maria Helena:

– Como é mesmo o nome dessa bicha?

Ela riu e disse:

– João Felipe…

Quando fomos entrar no carro – e as meninas simplesmente amam o brizolamóvel graças às seguidas sessões de cataquese a que são submetidas sempre que estão conosco… – Maria Helena, já no meu clima, disse à irmã:

– Ana! Ponha esse idiota na mala junto com nossas mochilas!

Durante o caminho, aquele papo…

– Na Tijuca, minhas queridas, príncipe é o nome de um penteado muito legal, o Príncipe Danilo…

– Se vocês aparecerem com esse babaca lá na rua irão vê-lo sendo espancado pela molecada do São Carlos…

– Vamos limpar o cocô do Pepperoni com ele?

– Ele é meio afrescalhado, né?

Dani até que tentou me repreender, mas as meninas riam tanto, mas tanto, daquilo tudo, que prefiriu manter-se calada.

Até que chegamos. Chegamos e eu propus:

– Vamos fazer a sessão de fotos?

A Maria Helena:

– Ah, não! Joga logo esse idiota no lixo!

Ana Clara, incendiada pela irmã:

– Vamos colocar fogo nele! Tio Babo, tive uma idéia: coloca ele no forno e vamos ficar assistindo com a lâmpada de dentro ligada!

Para que as meninas pudessem cumprir o pedido pela escola (algumas fotografias coladas no álbum e o boneco, inteiro, devolvido na segunda-feira), as convenci de não serem tão radicais.

E fiz três fotos.

Fiz três fotos e ditei a elas as legendas, escritas com letrinhas de forma imediatamente abaixo de cada uma delas:

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FOTO 1: JOÃO FELIPE SE SUBMETENDO A UMA SESSÃO DE DESCARREGO DIANTE DE UM DEFUMADOR GIGANTESCO À BASE DE ALECRIM, ALFAZEMA, SAL GROSSO, INCENSO E BENJOIM, AO SOM DE PONTOS DE CABOCLO, A FIM DE TIRAR DO CORPO E DA ALMA AS NEGATIVIDADES DA BARRA DA TIJUCA

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FOTO 2: JOÃO FELIPE, JÁ UM POUCO MAIS AMBIENTADO, DEPOIS DE BEBER INÚMERAS DOSES DE MARAFO, TENDO DORMIDO COM A GARRAFA E O COPO NAS MÃOS DE TÃO BÊBADO QUE ESTAVA

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FOTO 3: JOÃO FELIPE, TRISTE MORADOR DA BARRA DA TIJUCA E ACOSTUMADO COM A VIDA ARTIFICAL DOS CONDOMÍNIOS DE LUXO DO BAIRRO MAIS PODRE DO RIO DE JANEIRO, ATROPELADO POR NÃO SABER ATRAVESSAR UMA RUA DE VERDADE COM CARROS DE VERDADE NA MANHÃ DO DIA SEGUINTE, AINDA DE PORRE
Até.
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29 Comentários

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29 Respostas para “À MODA DA TIJUCA

  1. Impagável o texto, as imagens e os benefícios para as meninas! Excelente história! Saudações acreanas.

  2. Edu querido! Que beleza! Que beleza! Nunca ri tanto numa manhã como hoje. Impagável do início ao fim. Eu daria um dedo para ver a cara da professora quando as meninas entregarem o caderno com as fotos. Parabéns e obrigado por livrar o Rio da babaquice!

  3. Estou com o Milton Molon e com o Bruno Ribeiro de quem sou leitor tbm. Sensacional essa crônica. Por que vc não escreve em jornal Edu? Mais gente deveria ler vc. E eu lanço uma campanha aqui: se vc teve o azar de ter seu filho na Barra chame o Edu pra ser padrinho! abç Marcos Lohmann

  4. UÁ! KÁKÁKÁKÁ! RSRSRSRS! 🙂 UASHUASHUASH! RRRRRRRRRRRRRR! ESTOU SEM AR!

  5. Sen-sa-cio-nal!!!!! Háháháháhá!!!!!

  6. Como diria alguém que eu conheço sobre essa crônica, DE ANTOLOGIA!

  7. Gostei desse texto. bom mesmo. abços, edu. do amigo, Paulo Stocker

  8. q boneco feio! medoooo

  9. Porra, mas o Boneco é feio mesmo

  10. Depois dizem que os dindos estragam os afilhados… Dádiva de texto pra essa manhã chuvosa aqui em SP! E, realmente, é um boneco feio pra caralho. Abraços!

  11. Vim parar aqui graças a uma pesquisa sobre Aldir Blanc no Google. Li a entrevista, perfeita. E vim dar uma olhada no blog. Bendita hora! Humor refinado de primeira. Parabéns e um abraço. Acabo de encomendar seu livro.

  12. Grande momento do Buteco do Edu, leitura obrigatória de toda manhã. Abraços, Augusto.

  13. SENSACIONAL!!! QUE MORRA O PRÍNCIPE!!! RSRSRS André Pessanha

  14. Du , brilhante !!! depois disso as meninas certamente serão expulsaas da escola ou serão reprovadas …rs…rs..rs..

  15. Adorei!!! ahahahahahahahahaha!!! Faltou uma foto do boneco fumando um cigarrinho e tomando uma cerva na roda de samba do Estephanio’s.

  16. Atual morador da Lagoa mas nascido e criado na Tijuca que ainda frequento uma vez por semana para um lanche com meus avós, sofrendo os revezes de um dia de caos na cidade, só tenho a dizer que a leitura dessa crônica foi o remédio que eu precisava para desopilar o fígado e recuperar o humor.

  17. Edu, vc viu a nota “Pau puro” no Ancelmo (http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/frontdorio/)? Tem um link aqui pro Buteco.

  18. Estou apenas engrossando a fila dos que não se aguentaram de tanto rir. Muuuuuuuuuuuuuuuuuuuito bão!

  19. Eu leio seu blog diariamente. Embora me interesse mais por futebol e botequim do que por humor, tenho que reconhecer que a crônica de hoje está impagável. Um de seus melhores momentos. É mesmo verdade isso? Um abraço.

  20. Galinho, querido, quero aqui publicamente entregar os pontos. Eu bem que tentei, esse tempo todo, mas eles venceram. São muitos, agora. Não dou mais conta. Peço demissão, em caráter irrevogável.

  21. Impagável, maravilhoso, e ainda por cima colocando a Barra no seu devido lugar – nenhum! Abraço.

  22. Edu, Sou de Sampa.Escrevo pra teatro aqui na terra da garoa. Li teu livro . Manhãs cariocas de sábado… Sempre que vou ao Rio, passo na Folha Seca e Rodrigo apresenta uma novidade (comprei teu livro lá) e tomo uns gorós no Senado, em pé, apoiado no balcão de mármore. Saudades… Saravá!

  23. >Sensacional. Trabalho com o Daniel A. e ele me recomendou o seu Blog. Pena que não consigo visualizar as fotos. Fiquei deveras curioso. Um forte abraço!

  24. Ontem foi aniversário do meu chefe e ele contou que, aos três anos, voltou da escolinha chorando porque a professora pediu pra cada criança cantar uma música na apresentação de final de ano e ele não sabia nenhuma. Em casa, seu pai ouviu – e resolveu – o problema ensinando e ensaiando com o filho a seguinte canção: esse cara não bebe e não fuma charuto, enfie uma vara no cu desse puto. Foi isso. O menino chegou na apresentação do maternal II, estufou o peito e mandou essa.

  25. Fala Edu, Aproveitando gancho do parceiro Fraguinha, novo leitor, presto-lhe minhas homenagens pelo texto. Que beleza de padrinho! Se por acaso for exonerado dessa patente em virtude do episódio do baitolinha de pano, avise-nos que será formada uma frente em defesa dos bons costumes e da ordem. Afinal de contas, que porra de educação é essa consubstanciada em bajulação a bonecos com nome de Príncipe??? Fiquei sabendo ontem, em uma conversa com amigas do trabalho, que em algumas festinhas juninas de crianças realizadas em escolas da Barra, as menininhas são induzidas a dar estalinho no parceirinho depois de dançar quadrilha. São crianças de 4 anos de idade!!! Será que sou muito careta ou de fato isso é um grande absurdo??Saudações, Daniel A.

  26. Tenho quase certeza de que sou um dos mais veteranos do grupo que está lhe dando os parabéns, com exceção do Isaac (porra, Isaac, é o animal do teu filho que te chama de mais velho, eu só estou chamando de veterano). Por isso mesmo, estou ainda mais perplexo com essa porra toda que está acontecendo nos costumes. Por isso, não me surpreendem absurdos como este que foi comentado pelo Daniel A., aí mais pra cima. Um dia, numa festinha de aniversário de criança, em Icaraí, há uns 10 anos, quase saí na porrada com a mãe e o babaca do padrinho de uma menina, por incentivarem a guria e os outros pivetes da festa a dançarem com a porra da garrafinha. O próprio pai da menina, meu chapa, com quem eu tomava algumas na merda do plei, ficou sem fôlego quando viu a filha de uns cinco anos chegar fantasiada de Carla Peres, com shortinho cavado, bustiê, maquiadinha feito uma barbie. Quase teve um troço, mas não falou nada. Eu é que não me aguentei e fiz um discurso contra aquela bosta. Aí vieram o babaca do padrinho, a escrota da madrinha e a mais escrota de todas, a mãe, tentando me desqualificar, dizendo que eu estava velho e biritado. Porra, aí o tempo quase fechou. Chamei aqueles putos todos de idiotas, pedófilos enrustidos, o caralho a quatro. Somente outro convidado da merda da festa, que o Edu conheceu por eu ter levado uma vez no Estephanio, é que entrou também na confusão. Saímos ou fomos convidados a sair, nem me lembro. O meu outro chapa, pai da aniversariante, quase veio junto, mas a coisa estava feia demais. Quem mandou casar com uma imbecil daquelas e ainda por cima deixar que ela chamasse para padrinhos um casal de cuzões? A “Pequena Miss Sunshine” lavou minha alma, mas isso foi dez anos depois. Puta que os pariu!

  27. Zé Sergio , ele não sabe o que diz , e mais , não diríamos que somos veteranos e sim que somos os MAIS EXPERIENTES !!!!

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