A PODRIDÃO DE UM JORNAL

Ontem minha caixa de email espocou feito milho em pipoqueira, que eu odeio forno de microondas e, conseqüentemente, a pipoca prática que tem gosto de isopor. O relógio marcava seis e meia da manhã quando chegou o primeiro, assinado por um Tabelião (senti-me notificado):

“Meu velho, nem uma palavra sobre o atual furdunço envolvendo os pé-sujos e sua higiene, e o comentário do Juarez Becoza sobre serem lugares feitos por gente do povão para gente do povão? Já foi melhor nisso, hein? Beijos.”

Notem que a marcação de meus poucos mas fiéis leitores é, ao contrário da marcação exercida pelos zagueiros do Flamengo, infelizmente…, implacável. Mas vamos ao palpitante assunto que tantos emails provocou.

O GLOBO, ontem, através de uma de suas empregadas, Selma Schmidt (recuso-me a chamar de jornalista quem se presta a certos papéis), deu início – não tenho dúvidas disso – a uma sórdida campanha contra os butecos cariocas (ainda são dez mil, apesar da ação predatória de meia-dúzia de empresários e de milhares de babacas que caem no conto desses imbecis).

matéria publicada no jornal O GLOBO de 25 de setembro de 2007

A matéria intitulada PÉS BEM MAIS DO QUE SUJOS, que ocupa uma página inteira do caderno RIO, tem um tom denuncista covarde e propõe-se aparentemente a cobrir a vistoria (chamada de blitz, na matéria) feita em oito butecos pelo presidente da Comissão de Saúde da Câmara de Vereadores. Vistoria essa acompanhada pelo jornal O GLOBO. Eis aí meus primeiros estranhamentos.

Quando houve, recentemente, um operação feita pela Delegacia do Consumidor com acompanhamento de técnicos da Vigilância Sanitária, e quando descobriram algo como cem quilos de carne vencida no Belmonte do Jardim Botânico, não havia UM mísero fotógrafo ou UM mísero jornalista de O GLOBO “acompanhando” a operação?

Por que esta notícia saiu num canto de página, tímida, sem qualquer destaque? Vejam aqui.

Vejam bem… É EVIDENTE (com a ênfase szegeriana) que, em geral, as cozinhas dos butecos pé-sujos não são, de fato, um primor de higiene e assepsia. Mas também não o são as cozinhas de QUALQUER restaurante, simples ou requintado, ou de QUALQUER bar-de-merda dessas redes perniciosas de franquia.

E não tem mais o que fazer o presidente da Comissão de Saúde da Câmara de Vereadores?

A certa altura da matéria, o tal presidente da malfadada comissão alerta:

“- Quem consome alimentos preparados nesses bares está sujeito a contrair doenças infecto-contagiosas.”

E quem não está sujeito a contrair doenças infecto-contagiosas comendo em QUALQUER lugar na rua? Quem?

Mas o presidente dessa ocupadíssima comissão prefere apontar o dedo na direção, justamente, dos butecos. Sugestão rápida: por que não faz uma vistoria apurada nas contas pessoais de seus colegas vereadores? Por que não checa os contratos escusos entre a Prefeitura e algumas construtoras, que tiveram o PAN como objeto, e que enriqueceram, da noite pro dia, uma pá de gente? Por que? Por que bater no lado mais fraco, sempre? Digo lado mais fraco porque, um dia depois da publicação da tímida matéria denunciando a apreensão de carne vencida no Belmonte, deu-se ampla publicidade a uma nota oficial (é de rir) divulgada pela assessoria de imprensa (é de rir) da cadeia do bar-de-merda. Quem irá meter o indicador na fuça do vereador e defender os butecos?

Outro troço, esse engraçado. A Sra. Selma Schmidt (eu gostaria de saber como) chegou até a Sra. Rita de Cássia Goulart, manicure, 38 anos, sumidade quando o assunto é buteco. E escreveu a seguinte pérola, peça fundamental na história do jornalismo investigativo:

“Há duas semanas, a manicure Rita de Cássia Goulart, 38 anos, passou mal com a lingüiça que comeu em um pé-sujo em Laranjeiras:

– Botequim, nunca mais.”

Ontem, enquanto almoçava um PF num pé-sujo no Largo do Machado, neguinho no balcão, apontando pra tal matéria, dizia com a boca cheia de farofa, rindo violentamente:

– PQP! A Rita bebeu cerveja, bebeu cachaça, pediu rabo de galo, limão da casa, comeu meia porção de lingüiça e mete a culpa na coitada?!

O que exsurge da matéria covarde e meramente denuncista é o que acompanha a história desse jornal, desde sua fundação (sobre posturas do jornal O GLOBO, recomendo a leitura de elucidativo texto de meu mano Simas, aqui): ódio às coisas do povo e às coisas da gente mais simples, nojo à escâncara de tudo o que é popular e que sobrevive independente da submissão aos poderosos e às engrenagens sujas do maquinário que sustenta a canalha.

Não passarão!

Até.

Anúncios

25 Comentários

Arquivado em botequim, imprensa

25 Respostas para “A PODRIDÃO DE UM JORNAL

  1. >Esse vereador é um idiota. “Quem consome alimentos preparados nesses bares está sujeito a contrair doenças infecto-contagiosas.” – Já foi comprovado em dezenas de programas de TV que a COZINHA DAS RESIDÊNCIAS abriga milhares de microorganismo. Quem consome qualquer coisa em QUALQUER lugar está sujeito a isso. Além disso, eu já comi em dezenas de botecos, almoço fora desde que comecei a trabalhar e nunca tive nada. É LÓGICO q essa ação está concatenada c o lance do Belmonte. Tipo: “eu sou… mas quem não é?”

  2. >Edu, se não tem sujeira não tem gosto. Só o Globo não sabe disso…E existe uma coisa que chama resistência natural do organismo. Você pode até passar mal da primeira vez, mas na segunda o negócio desse bonito.Abraços!

  3. >Opa, errei ali em cima… É DESCE!!

  4. >Salve, Edu! Não passarão!Interrompi o trabalho ontem cedo, revoltado, pra comentar (sem a sua verve…) no blog Samba, Boemia e Vagabundos (com o nosso Gabriel da Muda).Essa canalha bem que tenta, mas não consegue destruir o que é a carioquice genuína.abs

  5. >edu, véio, cê farda mas não talha! eu também li essa babaquice e achei EXATAMENTE o que a eugênia aí achou: pegaram o (aaaaargh!) belmonte de calça arriada, aí é preciso deixar claro o “sou, mas quem não é?”. pois eu vou sim, a boteco; como sim, em boteco; gosto sim, de boteco; não deixo não, de ir a boteco e tenho a mais absoluta certeza de que “mal estares” tu pega em qualquer lugar. agora, jeito de babaca, aceitando aliviar a “rede” belmonte com matéria em jornal, não se pega em qualquer lugar, não. já nasce com isso…abre outra! caíque

  6. >Por isso é que eu sempre mando link dos seus textos para minha lista de amigos por email. Seus textos são fundamentais e bastante esclarecedores. Falam a verdade e desmascaram os mentirosos travestidos de jornalistas. Parabéns uma vez mais. Saudações acreanas.

  7. >Pau neles! Será que nos quiosquezinhos chiques que a Dona Cora Rónai come sempre acompanhada de sua legião interminável de puxa-sacos na Lagoa a cozinha é limpa? Esse vereador é uma besta. Pau neles!

  8. >Será que tem doutorado o nobre vereador? Arrogante como parece ser, vejam o email do citado parlamentar: dr.carloseduardo@camara.rj.gov.brJá escrevi para ele.Acho que deveríamos todos pressioná-lo ao menos para que ele explique o por quê dessa perseguição sem sentido logo contra os botequins.Façamos valer nossa cidadania!Vamos entupir a caixa de email do vereador. Pelo menos os assessores dele terão trabalho. Eu duvido que ele se dê ao trabalho de ler o que mandamos para o email. Afinal ele é um DOUTOR acima de tudo e de todos.

  9. >Desde que comecei meu estágio, em Rio Comprido, há pouco mais de um mês, almoço, com freqüência, um saboroso e módico PF (três contos!) no pé-sujo do Seu Perereca, um flamenguista de prima (tanto é que há um bandeiraço do Mengão exposto na parede desse buteco) e um daqueles coroas tradicionalmente ranzinzas.Quando eu ainda não estagiava, e quando sobrava um qualquer no meu bolso, comia num pé-sujo perto da faculdade, o Bar Andorinha, em Ipanema, já que, quase sempre, a fome não me esperava chegar em casa, na Pavuna, para me torturar.Detalho: trago, com satisfação, esse meu hábito de comer em pés-sujos desde a minha infância. Tanto minha mãe quanto meus avós, sempre que eu os acompanhava nas ruas, sempre!, levavam-me, na hora do rango, prum desses butecos.Se houve alguma vez em que, ao comer nesses lugares, passei mal, jamais, jamais! Portanto, e pra ser grosseiro mesmo, que é essa a minha intenção, que a Selma, O Globo e o Presidente da Comissão de Saúde da Câmara de Vereadores vão tudo tomar no cu!

  10. >Quando acharam quase uma tonelada de carne estragada num BELMONTE da zona zul, publicou-se apenas uma notinha no jornaleco.Essa máfia é nojenta.

  11. >Felipinho ou Cereal ou Homem-Brinquedo: acho lindo esses arroubos, esses exageros, essas demonstrações inequívocas das paixões que nos comovem tanto… A apreensão, de pouco mais de cem quilos de carne vencida, vira, nas suas palavras, a apreensão de quase uma tonelada de carne estragada. Lindo, lindo, lindo! Pau na canalha!

  12. >Edu,se voce conhece alguem da redação d’o globo, pergunte se o que aconteceu na semana passada com eles foi causado por comida de buteco.Abraços rubro-negosMarcelo Alves

  13. >O que aconteceu com eles na semana passada, Marcelo?

  14. >Cachorros, mentirosos, tratantes, baixo nível de jornalistas e de parlamentares, covardes, vendidos, canalhas! Não passarão como diz o Edu. Não passarão!Manu

  15. >É Edu, piriri geral !!!Abraços a todosMarcelo

  16. >Esse último parágrafo do texto me lembrou demais o Brizola. Ele assinaria isso. Brizola vive!BRIZOLISTA ROXO

  17. >marcelo, o piriri foi por conta de terem comido onde? seria no antiquarius? seria no fasano al mare? com certeza se fosse no café e bar santo antonio, em itaipú, niquíti, que de café e de santo não tem nada, não teriam sentido xongas. que nem eu.caíque

  18. Ave

    >O bacana é que tentaram meter o Juarez Becoza no ‘rolo’ mas ele não caiu nessa.

  19. >sabe o que senti depois de todas as vezes que comi a carne assada com coradas do Rio Brasília?Alegria.

  20. >O Juarez Becosa, que não existe, é farinha do mesmo saco!

  21. >Cariocas, ao contra-ataque: Edu “Galo” Goldenberg para vereador! 2008 está aí!Só uma perguntinha: a “blitz” pra ser séria tem que ser de surpresa, certo? Se é de surpresa, como é que os empregadinhos do Dr. Roberto acompanharam a operação? Ou a imprensa foi avisada? Se foi, por quê? É pra fiscalizar ou é pra aparecer? Ou só o pasquim do Dr. Roberto foi avisado? Se foi isso, qual o motivo do privilégio da informação? Pra qualquer lugar que correr, os caras tem que se explicar. Não caberia uma interpelação oficial, Dr. Eduardo?

  22. >PREZADOS,é claro que o piriri geral d’o globo precisa de confirmação jurídica(…) Mas é vero! Caíque, não sei onde foi. Deve dar uma boa história. Fico devendo.A propósito,falar mal de buteco laranjeiras??Qual buteco? Obrigado Edu pela carona,saudações rubronegrasMarcelo Alves

  23. >szegeri, mandou bem camarada. se é blitz (blitz significa relâmpago. caíque também é cultura…)é prá ser relâmpago. cumé que o globo sabia? eu, hein….caíque

  24. >Eles que não mexam com os verdadeiros butecos da cidade. É puro fascismo, querem destruir o que não se enquadra no modelito “babaca zona sul”.

  25. >Sacanagem, O Pé-sujo é um simbolo carioca tanto quanto o Pão-de-açucar ou o Cristo.Não vou ao Rio há bastante tempo (indesculpável), mas assim que chegar procurarei o buteco mais próximo.Todos os Cariocas que amam realmente a cidade tem a obrigação de defender os butecos.AbraçosXupisco

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s