>A SABEDORIA DO SIMAS

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Luiz Antonio Simas é, para quem o conhece, uma referência. Diante do alunado, um farol. Diante dos amigos, a sapiência. Não é à toa que o Szegeri, o homem da barba amazônica de São Paulo, e também um sábio, o chama apenas de Velho, com o maior respeito que pode haver. Não é à toa que o Bruno Ribeiro, lá de Campinas, sem saber do epíteto dado pelo Szegeri, também a ele se refere como O Velho, assim mesmo, com o artigo maiúsculo denotando, digamos, intensa obediência. E por aí vai… Poderia eu, se quisesse cansá-los, desfiar um rosário de exemplos que atestam, incontestavelmente, a extensão da sabedoria desse brasileiro máximo, desse carioca imprescindível, desse, hoje, enraizado tijucano até o último fio de cabelo que ele, diga-se, já não tem.

Fiz menção à calvície do Simas e senti vontade de reviver esse trecho, que publiquei aqui, e que dá exata noção do que vai no alto da cabeça do sábio:

“Não há, no alto da cabeça do protagonista de hoje – ou mesmo do lado, atrás – um único projeto de fio de cabelo. Não há a mais remota expectativa de um fio de cabelo. Não há a esperança, mesmo distante, da mais remota penugem. Um tufo, que seja. Nada. O Leo Boechat, por exemplo, é uma Rapunzel ao lado do Simas. Daí a barbaridade que foi assistir a Candinha fazendo carinho com os dedinhos naquela superfície árida como se enrolasse cachinhos imaginários.”

Mas vamos ao que quero lhes contar.

Simas, rua do Ouvidor, 25 de agosto de 2007, foto de Felipinho Cereal

Dia desses passeávamos eu, Rodrigo Ferrari e Luiz Antonio Simas, pelo velho centro histórico do Rio de Janeiro. Foi quando ouvimos o grito:

– Professor! Professor!

Era um aluno do Simas – cujo nome preservarei a pedidos – que esbravejava e brandia os braços como um desses bonecos infláveis de posto de gasolina, sentando do lado de fora do Al-Fárábi (clique!), sebo capitaneado pelo Carlos, na rua do Rosário.

O Simas, sempre solícito, nos disse:

– Aluno meu. Vamos até lá…

Sentamo-nos à mesa com o rapaz que estava – é preciso dizer em nome da precisão – em frangalhos. Bêbado. Falando com dificuldade.

Tão logo nos sentamos, o menino agarrou-se num dos braços do Simas, como se fora um náufrago em mar bravio, dizendo coisas em seu ouvido e exibindo, seguidas vezes, o celular.

O resumo da história…

O rapaz estava sendo assediado por uma colega de turma, tremenda baranga, através de incontáveis mensagens enviadas pelo celular. O rapaz – esse era seu drama – tentava, sem êxito, ser frio, polido, desinteressado nas respostas. Mas a mal-ajeitada não dava trégua.

Foi quando o Simas, depois de analisar cuidadosamente o conteúdo das mensagens – recebidas e enviadas – passou à lição. Passou à lição e eu e o Folha Seca rolávamos de rir diante do embevecimento do menino.

– Meu garoto… Vamos aos seus erros crassos… NUNCA – e ele emprestava um tom, uma expressão, uma ênfase, como se desse aula para uma centena de alunos – responda NADA para uma mulher por quem você não tem interesses escusos com uma exclamação no final… Veja essa aqui… termina com beijos seguido de uma exclamação… Um horror! Um horror!

O garoto de olhos vidrados.

– Essa outra, veja… – e esfregava a tela do celular no nariz adunco do aluno – depois de beijos você pôs reticências… Isso soa lânguido para uma baranga apaixonada…

E ele ficou ali, analisando uma a uma, quando o menino, unhas cravadas no braço do mestre, perguntou:

– E eu faço o quê, professor? Ignoro?

– Claro que não, rapaz… Se você ignorar ela imaginará que você não recebeu a mensagem e vai ficar insistindo…

– E então? E então?

– Quer saber, garoto? É infalível…

– Por favor…

– Responda apenas o seguinte… Em letras maiúsculas… AQUELE ABRAÇO. E ponha um ponto final, apenas.

Ontem à noite bateu-me o telefone o Simas. Contou-me, às gargalhadas, que o aluno lhe telefonara pela manhã, gratíssimo. Seguiu a lição e nunca mais recebeu qualquer investida da tal fulana.

Um gênio, nosso Simas. Um gênio.

Até.

5 Comentários

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5 Respostas para “>A SABEDORIA DO SIMAS

  1. >fala, edu! encontrei com vocês ali na porta do Al Farabi, mas acho que cheguei atrasado prá essa cena…Um abraço.Caíque.

  2. >Pois então… foi exatamente nesse dia!

  3. >taquiuspariu! Até na arte dos encontros e desencontros o Velho é versado!Grande Simão, AQUELE ABRAÇO.

  4. >É a pura verdade. O maior perigo, reafirmo, é o ponto de exclamação.

  5. >Verdade. Ponto de exclamação e reticências enchem qualquer coração de esperança. Dica alternativa pro aluno do Simas (que resolveu MUITO bem a questão): pra me livrar de cantadas inconvenientes, eu lanço sempre um ‘é foda…’, que serve como resposta em qualquer situação. Um ‘é foda’ seguido de um ‘dá licença um minutinho’ sempre resolveram elegantemente esse tipo de situação.

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