UMA NOITE NA TIJUCA

Quando eu escrevi que só fico à vontade na minha cidade, leiam aqui, disse eu que pensei, à certa altura, naquele 18 de janeiro, estar delirando diante de tanta boniteza vivida. E repito tudo, palavra por palavra, com mais intensidade, até, para lhes dizer sobre o fim de tarde e sobre a noite de ontem, na minha mui amada Tijuca.

O Estephanio´s Bar transformou-se, ontem, num set de filmagem, para que fossem rodadas algumas cenas do filme Saens Pena, Estação Final, dirigido por Vinícius Reis. Em todas as cenas – eis o porquê do cenário escolhido… -, Aldir Blanc.

Aldir Blanc e Vinícius Reis, no Estephanio´s Bar, 10 de setembro de 2007
Chico Diaz e Aldir Blanc, no Estephanio´s Bar, 10 de setembro de 2007

Cheguei lá, com Tiago Prata e seu violão a tiracolo, por volta das cinco da tarde, onde já encontrei Fefê, Mari Blanc e Mello Menezes sentados dentro do bar, debaixo de luzes, holofotes, rebatedores, câmeras, tremenda estrutura, salaminhos e chope.

Bateu-me o telefone, às seis, o poço artesiano de doçura, Rodrigo Ferrari:

– Vem pro Renascença…

– Never! – respondi contaminado pelo clima hollywoodiano daquela esquina.

– Por quê?

Expliquei.

Expliquei e em menos de vinte minutos chegava o Digão.

Chegava o Digão ao bar e a filmagem ao fim.

O que se viu dali em diante, meus poucos mas fiéis leitores, foi coisa de filme, literalmente.

À mesa, eu, Digão, Fefê, Mari Blanc, Mello Menezes e Aldir.

O Prata sacou do violão e o Aldir, em tarde inspiradíssima, cantou que só vendo…

Disse à certa altura, visivelmente emocionado, passando a mão na cabeça do menino, a quem chamou de Querubim, em novembro de 2006, quando o conheceu, como lhes contei aqui:

– Se tu é mesmo filho do Edu, e se tu quiser, pô… pode se considerar meu neto de hoje em diante…

Foi ele dizer isso e o Prata, vermelhíssimo:

– ´brigado, vô…

Sambas antológicos originários do Salgueiro, canções letradas pelo próprio Aldir, e o choro já era coletivo (sem exagero, meu pai…) quando chegaram, convocados por telefone pelo craque da Folha Seca, o Arthur Mitke, o Gabriel do Cavaco, Jorge Alexandre e seu tantã, Abel com o cavaquinho, Beto Cazes com o pandeiro, Jorge do Renascença, e o Moyseis Marques, de quem gosto cada vez mais cantando. E foi ele, o Moyseis, cutucado pelo Prata, quem quase derrubou o gigante da Muda quando cantou Imperial, samba lancinante de Wilson das Neves letrado pelo Aldir:

– Venha… como um romeiro volta aos pés da Penha…

O Aldir – não me deixam mentir os presentes – chorou copiosamente até o último verso, quando, de pé, agradeceu à molecada que fazia ventar dentro do bar.

O troço tava tão bonito, mas tão bonito, que à certa altura – às vezes as coisas acontecem só pra que a beleza seja mais doída, vocês hão de entender… – o Mitke vira-se pra mim e diz:

– Bicho… fodeu!

– O que foi?

– Esqueci minha mochila com laptop, celular, carteira, documentos, dinheiro… tudo lá no Renascença…

Virou-se pra Rita, sua Rita, repetiu a lamúria e o Gabriel ouviu. Ouviu e disse com a autoridade que tem:

– Vamos lá agora. Eu duvido que não esteja lá.

Isso já quase onze e meia da noite.

A cara do Mitke era, e é compreensível isso, de quem não tinha nenhuma esperança. Saíram os dois, de carro e voltaram vinte minutos depois. O malandro me abraça aos prantos:

– A Tijuca é foda, o Gabriel é foda, vocês são foda…

Foi, mesmo, foda.

Tudo.

Liguei pro Szegeri pra dividir com ele a alegria e a emoção do momento.

A mesma emoção que vocês podem perceber, agora, assistindo a essa lindíssima interpretação do Mello Menezes para Valsa do Maracanã, de Paulo Emílio e Aldir Blanc, uma espécie de hino da Tijuca, acompanhado pelo monstruoso violão do Prata.

Até.

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