RESGATANDO MEU LIVRO

Eu lhes contei, aqui, sobre o rapto – não há nome mais adequado – de um livro meu, e logo do Nelson Rodrigues, cometido por Fernando Szegeri, um homem que dedica-se, com a paciência e o afinco de um escultor florentim, à arte de me pespegar os piores castigos.

E minha angústia foi tanta, a obsessão do livro que jamais seria devolvido consumiu-me de tal forma, sofri tão estupidamente, que na quinta-feira acordei resoluto:

– Vou hoje a São Paulo buscar você! – gritei já de pé, de camisolão (eu durmo de camisolão), como se o livro pudesse me ouvir (e tirem, por aí, suas conclusões sobre minha sanidade).

Por uma dessas coincidências inacreditáveis da vida (ou meramente circunstâncias favoráveis), minha Dani Sorriso Maracanã estava em SP, a trabalho, desde a terça-feira, e o brizolamóvel, meu xodó, desde a segunda-feira, na oficina para uma revisão geral.

Pequena pausa para uma explicação.

Revisão geral de um carro ano 1993 significa um gasto superior a seu próprio valor de mercado. Coisas que somente a paixão e o desequlíbrio mental do proprietário explicam. Vamos em frente.

Bati o telefone pra oficina, que fica na Penha:

– Bom dia, Paulo! O carro já está pronto?

– Pronto?

Gelei:

– Sim…

– Está zero quilômetro! Zero! Vai vir buscá-lo?

Em menos de meia-hora eu estava estacado diante do automóvel. Luzia. Reluzia. E paguei o preço do conserto chorando, aos prantos, numa crise de soluços que chocou mecânicos e eletricistas, muito mais pela emoção da transformação do carro do que pelo rombo causado no orçamento.

Parti em direção à gloriosa Tijuca.

Fiz minha mala em menos de cinco minutos, enlacei o Pepperoni e partimos.

Ah, meus poucos mas fiéis leitores… No que transformou-me o brizolamóvel…

As cancelas dos pedágios foram sendo liberadas, uma a uma, por cobradores atônitos diante da beleza da máquina, policiais rodoviários nos paravam para uma fotografia, quando passamos por Taubaté toda a turma do Sítio do Picapau Amarelo quicava às margens da Dutra, e assim foi até que cheguei a meu destino.

Quando toquei a campainha da Casa Vermelha, onde mora Fernando Szegeri com sua família, fui recebido – creiam nisso – pelo próprio, com um muxoxo:

– Mas já? – e deu-me as costas.

Referia-se, o homem da barba amazônica, ao fato de que havia passado pouquíssimo tempo desde nosso último encontro, tenho certeza disso. Uma triste certeza… O que para mim é uma benção, para ele é – chega a doer reconhecer isso… – uma amolação.

brizolamóvel em SP

Eis aí a prova irrefutável do êxito da viagem: o brizolamóvel estacionado na garagem da Casa Vermelha.

Êxito que repetiu-se na volta, quando embarcamos eu, Dani, Pepperoni e o livro.

Sou, de novo, um homem em paz.

Até.

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5 Comentários

Arquivado em confissões

5 Respostas para “RESGATANDO MEU LIVRO

  1. >Tinha um similar ao seu Brizolamóvel, só que cor de vinho, herdado de minha mãe. O bicho dava tanto, mas tanto prejuízo que, ao vendê-lo, fiz as contas e realmente o gasto em consertos superava o valor oferecido.E como em SP já está ficando impossível andar de carro, é de se pensar se não vale a pena gastar dinheiro só com livros…Abraços, Edu!

  2. >Não, Cláudio, o brizolamóvel:01) não tem similar. O que me permite dizer que o automóvel cor de vinho herdado de sua mãe era uma merda. O brizolamóvel apenas foi consertado com competência e sem economia porca;02) NUNCA – com a ênfase szegeriana – me deu prejuízo, só alegrias;03) não tem preço e não está à venda.Um abraço e continuo esperando a grade prometida.

  3. >Haahahahahahahhahahahaha com certeza aquele negócio vinho que eu estacionava na garagem era uma merda. A similaridade fica na marca e modelo.Mas lembro de uma qualidade: ele bebia como nós!A grade não foi esquecida. Pagarei em breve, mas prefiro que seja acertada a dívida em terras cariocas.Abraço!

  4. >Ô, Craudio, devedor não tem que preferir nada. Devedor tem que pagar!

  5. Pingback: RJ X SP X RJ | BUTECO DO EDU

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