BALANÇO DE MINHA PRÓPRIA AUSÊNCIA

Eis-me aqui, de volta ao balcão virtual do BUTECO, depois de uma ausência forçada de dezenove dias – sou preciso até para isso. Sinto-me, pois, na obrigação – é preciso fazer a pungente declaração – de dar uma brevíssima satisfação a vocês, meus poucos mas fiéis leitores, explanando sobre as razões que me levaram à ausência, ao silêncio, ao afastamento.

Recebi, durante esse período, emails comoventes de gente – é impressionante isso! – preocupada com meu sumiço.

É a essa gente que me dirijo.

E a mim mesmo, que fique claro.

E dirijo-me a mim mesmo pois preciso expurgar o que me consome por dentro, o que me corrói como ácido letal, o que me arruina e me aterra como um pesadelo que sobrevive à noite e que persiste durante o dia.

Passei – a foto abaixo é exata visão do que vi por longos cinco dias – fabuloso período de, digamos, férias, ao lado da minha Sorriso Maracanã, em Pouso da Cajaíba, pequeno paraíso que fica a cerca de duas horas de barco de Paraty.

Pouso da Cajaíba, 25 de julho de 2007

Pausa… Estive também em Paraty, por uma noite, quando de lá voltamos. Fedia, ainda, à FLIP, mas foi agradável.

Voltando.

Antes de nossa ida para Pouso da Cajaíba, porém – lembrem-se lendo isso aqui -, recebemos em casa esse homem que dedica-se, com a paciência de um Aleijadinho, a me destroçar.

Fernando Szegeri veio, dessa vez, como diria minha mãe, com a família trololó em peso. Nunca entendi bem essa expressão que aprendi com mamãe. Mas os diálogos que eu ouvia eram assim:

– Fulana foi, Mariazinha?

– Foi.

– Sozinha?

– Não. Com a família trololó a tiracolo!

Ou então:

– Mariazinha, você vem com o Isaac?

– E com a família trololó também!

Feita a explicação, estando claro que “família trololó” significa todo-mundo-ao-mesmo-tempo-agora, vamos em frente.

Vocês hão de se recordar, lendo isso aqui, que eu tenho verdadeira aversão ao empréstimo de livros. Escrevi, vejam bem, que:

“Eu não empresto livros em nenhuma hipótese, e empresto ao “nenhuma” a ênfase szegeriana. Não é que eu desconfie do caráter do sujeito a quem emprestaria o livro, em absoluto. Mas é regra pétrea esse troço de emprestar o livro e o livro nunca (szegerianamente de novo) voltar. Simples. O sujeito lê, guarda na intenção de um-dia-eu-devolvo e fica por isso mesmo.”

E o que fez Fernando Szegeri?

Demonstrando que diverte-se com meu sofrimento, ainda de pijamas, na manhã em que partiria para São Paulo, apalpando um livro de Nelson Rodrigues tirado da estante do corredor, disse apalpando capa e contracapa, como se analisasse uma peça de picanha maturada:

– Hummm…

Um “hummm” dito pelo Szegeri mete-me medo, dá-me as piores sensações.

– O que foi?

– Esse eu não li… – disse enigmático.

– Não?

– Vou levar! – e meteu o exemplar debaixo do braço esquerdo, dirigindo-se ao banheiro, onde ficou – sua média diária durante a estadia, diga-se – uma hora e meia.

Vejam isso!

Não pediu-me emprestado (e eu não conseguiria dizer “não” a ele, por puro pânico).

Não disfarçou.

Não foi sutil.

Quando saiu do banheiro, vestindo um puidíssimo roupão azul de listras brancas e chinelões dignos de um bisavô centenário, perguntei ajoelhado diante da porta (protagonizando uma cena patética, diga-se):

– Leu?

Ele riu.

Apenas riu.

Tinha meu livro na mão direita, e foi com ela (com a mão direita) que deu sete batidinhas no alto de minha cabeça, dizendo ritmado:

– Vou-le-var-pra-São-Pau-lo! – para explodir, então, numa gargalhada sardônica.

No dia seguinte parti para Pouso da Cajaíba com Dani.

Vivi momentos de lua-de-mel no Haiti, é verdade.

Mas a obsessão do livro perdido (eu sei que ele JAMAIS me devolverá a obra) foi a causa de pesadelos, calafrios, tremores, perguntas sem sentido dirigidas a caiçaras que de nada sabiam, tragédia particular que por pouco, por muito pouco, não estragou meu merecido descanso.

Até.

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4 Comentários

Arquivado em confissões

4 Respostas para “BALANÇO DE MINHA PRÓPRIA AUSÊNCIA

  1. >Ele voltou!E, sobre a questão dos livros, quem o conhece sabe como Edu é enfático com essa questão de empréstimo de livros e, portanto, sei que não há exageros na narrativa desta postagem. Prova disso é o que o cara escreveu em minha página meses atrás, cujo trecho destaco:”Arthur (…), compre “A MÃO ESQUERDA”, do monstruoso Fausto Wolff, o maior e melhor livro que já li na vida e que algum filhodaputa de merda me roubou, já que pra mim é fácil saber que fui vítima de uma mão grande (a esquerda ou não): eu não empresto livros nem à base de porrada”.Está tudo aqui: http://absurdosturos.blogspot.com/2007/04/os-livros-com-os-quais-andei.htmlGrande abraço, amizade, e bem-vindo de volta às nossas telas.

  2. >Eu comprei “À Mão Esquerda”!!!Abraço, Edu.

  3. Pingback: RJ X SP X RJ | BUTECO DO EDU

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