FARTURA

E disse Luiz Antônio Simas, aqui, quando escreveu, com a discrição que lhe é peculiar, sobre nosso irmão paulista, Fernando Szegeri:

“Vem daí a conhecida hospitalidade do povo Yorubá, farta em gentilezas, bebidas, comidas e danças.”

Meu querido Simas foi, e é isso que é importante destacar, extremamente econômico, moderado, parco – eu diria – e modestíssimo.

O simples ato de misturar gentileza, bebida, comida e dança, dentro da mesma gamela da fartura, faz com que o leitor se distraia e não preste atenção num dos troços mais impressionantes do final de semana – principalmente para um tijucano confesso: a quantidade de comida oferecida pelo casal anfitrião.

Vamos aos fatos.

Ao chegar à casa de meus irmãos queridos, Szegeri e Stê, na sexta-feira passada no final da manhã, deparei-me com uma perna traseira de porco, o festejadíssimo presunto cru, inteira – vou repetir… inteira – sobre a pia da cozinha. Eu jamais havia visto coisa igual, só no cinema.

presunto cru

Tomado por uma alegria juvenil deslumbrada, perguntei:

– Posso cortar?

Szegeri, à moda de Xangô, como um trovão, gritou um não que fez tremer a Vila Romana.

Pequena pausa elucidativa: ao chegarem Bruno Ribeiro e Luiz Antônio Simas, o Szegeri foi um verdadeiro distribuidor de facas, dirigindo-se aos dois o tempo inteiro:

– Brunão, quer cortar uma fatia?

– Simas, vá fundo no lado esquerdo!

E fazia essas ofertas com um sorriso que eu, e apenas eu, percebia.

Mas o presunto cru, gigantesco – quero repetir – a próxima foto não engana -, era apenas um detalhe do farnel aparatoso.

Fernando Szegeri cortando presunto cru, São Paulo, 22 de junho de 2007

Pepinos em conserva, lingüiças defumadas de variadas bitolas e temperos, tremoços portugueses, panceta de leitão, panceta defumada – para quem não sabe, a panceta é um embutido de porco que vem com o próprio couro, com toicinho e carne da barriga dentro, alimento salubérrimo, como se vê -, pães de enlouquecer um padeiro tijucano, queijos indescritíves no que diz repeito à quantidade, qualidade e variedade, e eu, acostumado à simplicidade carioca e à falta de dinheiro disponível para tantos arroubos gastronômicos – eu seria, vê-se, vaiado dentro de uma comunidade Yorubá – sofria de pequenos arremessos e falta de ar diante das etiquetas com códigos de barra e preços ofuscando minha visão zona-norte.

Eu não seria deselegante a ponto de dar o preço de cada produto. Mas o presunto cru, apenas o presunto cru, custou mais que minha ida e minha volta, de avião.

O Prata, por exemplo, quando deu de cara com a etiqueta pregada na ponta do osso do presunto, a arrancou e veio engatinhando em minha direção. Dizia, com as mãos trêmulas:

– Você viu isso? Você viu isso?

Image Hosted by ImageShack.us

E os camarões?

Se lhes parecem pequenos, ou mesmo médios, ou ainda grandinhos – este último adjetivo dito com ar de deboche – deve-se à minha incompetência como fotógrafo ou à qualidade tosca de minha câmera digital.

Quando retirados da geladeira pelo Szegeri, ainda crus, evidentemente, pareciam lagostas.

Foi quando o Szegeri, vendo o brilho nos meus olhos e a baba escorrendo da boca do Simas – que confessadamente devota ao camarão um amor que a mais nenhum alimento devota – deu uma de Flavinho – entenda aqui o porquê:

– Cem reais o quilo! Cem reais!

Quando ele disse “cem reais o quilo”, é preciso ser preciso do início ao fim, houve um silêncio na cozinha. Não exatamente pelo choque – que foi evidente e coletivo. Mas porque as pessoas estudavam, mudas, a melhor posição para o ataque aos crustáceos.

E eis que chega o domingo.

Chega o domingo e há, no rosto de cada um, uma tristeza carimbada.

Mas o Szegeri não deixa pedra sobre pedra.

O Prata disse, assim que levantou:

– Hoje é o enterro dos ossos? – perguntou referindo-se a uma cerimônia típica na Tijuca, na qual os convidados acabam com o resto da comida da véspera.

O Pompa, nosso bom Szegeri, riu.

Riu, fez festinha na vasta cabeleira do Prata, e disse algo que ninguém compreendeu, mas que foi:

– Ah, essa escumalha carioca…

Estalou os dedos e deu-se a mágica.

churrasco

Em questão de segundos Capitão Leo Gola – o maior e melhor churrasqueiro do mundo – comandava a churrasqueira da casa vermelha para delírios dos presentes.

Eu digo delírios dos presentes tijucanos de alma, nos quais o Prata, apesar de morar em Botafogo, se inclui.

Jamais vimos – a impressão foi unânime – tantas carnes e tão variadas.

Tanto que ontem, no final do dia, enquanto comemorávamos entre amigos o aniversário do querido Mussa – que faz anos hoje e para quem ergo o copo cheio diante do balcão imaginário – o Rodrigo Folha Seca, esse poço artesiano de ternura, abriu a mochila e de lá tirou uma peça inteira de picanha argentina maturada que estendeu sobre um papel laminado cuidadosamente forrando o balcão.

Para espanto dos presentes, fatiou a carne como se fosse um carpaccio, e disse, oferecendo o primeiro pedaço ao aniversariante:

– Roubei da casa do Szegeri!

Até.

Anúncios

5 Comentários

Arquivado em confissões

5 Respostas para “FARTURA

  1. >No quesito precisão, meu mano Galo está para os cronistas como um Omega para os relógios suíços.

  2. >E tem gente que ainda se mata por festas onde são servidos canapés…Vai entender.

  3. >Estou sem comer até o presente momento. E lá se vão quatro dias!

  4. >Os camarões, deuses meus; os camarões!!!!!!

  5. Pingback: MONUMENTAL DOMINGO | BUTECO DO EDU

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s