Arquivo do mês: maio 2007

>DEPOIS, A CANALHA RECLAMA

>

Sempre que um imbecil chega pra mim e diz a frase-feita “Direitos Humanos só pra bandido, né?”, eu digo, pacientemente – mas minha paciência já acabou – que não. Digo que os Direitos Humanos existem para proteger todo e qualquer homem. Digo que a tortura é desumana, crime inafiançável, e que se o papel do bandido – uso essa linguagem tosca para os imbecis entenderem o troço – é ser malvado, torturar mesmo, matar, roubar etc etc etc (incluídos os bandidos-filhos-das-putas que a classe média condescendentemente chama de “bandidos de colarinho branco”, como se isso diminuísse a violência de seus crimes), o papel do Estado é manter a ordem e cumprir a lei.

Razão pela qual me revolta ler o que acabo de ler no site do jornal EXTRA.

Depois, quando esses caras partem pra cima em busca de vingança, sem medir conseqüências e sem escolher alvos, a canalha bate pezinho, veste branco, abraça a Lagoa, estende faixa na janela e depois, como se nada tivesse acontecido, vai ao cinema.

“RIO – Acusados em inquérito policial de torturar, espancar e humilhar com sevícias sexuais detentos do Presídio Evaristo de Morais, o Galpão da Quinta, em São Cristóvão, agentes penitenciários – 36 deles integrantes do Grupo de Intervenções Táticas (GIT) – também poderão responder a processos por homicídio e formação de quadrilha. A polícia está investigando se, entre as vítimas do GIT, acusado de ocupar violentamente a unidade entre os dias 4 e 6 deste mês, está José Januário Pereira Filho, de 24 anos, condenado por assalto.

Internado no hospital penitenciário do Complexo de Gericinó, na Zona Oeste, o detento morreu no último sábado. A certidão de óbito, do Instituto Médico Legal (IML), informa que o preso morreu de broncopneumonia. Porém, um documento da Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) revela que José Januário morreu devido a agressões físicas.

Na notícia-crime que deu origem a um inquérito na 17ª DP (São Cristóvão), 14 presidiários figuram como vítimas. O deputado estadual Alessandro Molon (PT) solicitou à promotora Vera Regina de Almeida que inclua a morte de José Januário na investigação.

Representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), do Ministério Público estadual, da Defensoria Pública e da Assembléia Legislativa já entrevistaram mil presos no Galpão da Quinta.

– O estado que descumpre a lei tem de ser punido. Quem paga por esse tipo de violência é a sociedade – disse o presidente da comissão de direitos humanos da seção Rio de Janeiro da OAB, João Tancredo.

As denúncias levaram a Seap a abrir uma sindicância. O coordenador de segurança do órgão e toda a equipe do GIT foram exonerados. O ouvidor da Seap, Paulo Baía, também foi demitido, após enviar ao governador Sérgio Cabral um dossiê sobre o caso.

Segundo as denúncias, os agentes dispararam balas de borracha. Encapuzados e armados com cassetetes, gás lacrimogêneo e spray de pimenta, teriam posto os presos nus. Os detentos teriam sido obrigados a rastejar, comer lixo, imitar animais e, entre outras sevícias, desfilar de calcinhas.

Irmã mais velha de José Januário, Andréa Dutra Pereira, de 27 anos, chorou quando viu o detento vivo pela última vez, na quarta-feira passada. Ela afirma ter ouvido do irmão o relato detalhado das agressões sofridas por ele durante a ocupação do Galpão da Quinta.

– Informei o estado dele à Vara de Execuções Penais (VEP) – contou Andréa, cujo irmão só foi internado após a denúncia.

José Januário, que na cadeia se tratava de hanseníase, morava com os pais, em Realengo, antes de ser preso. Abandonou os estudos no 4º ano do Ensino Fundamental. Trabalhava como auxiliar de serviços gerais numa firma de montagem de estandes.

Segundo o pai, o ambulante José Januário Pereira, de 52 anos, se ele estivesse vivo, teria o emprego de volta em breve.

– Meu filho tinha se convertido ao Evangelho na cadeia. Tinha até conseguido o regime semi-aberto, só faltava usufruir do benefício na prática – lamentou o pai, que pretende processar o estado.”

Até.

4 Comentários

Arquivado em Uncategorized

>EXAME DE FEZES

>

Vamos fazer, juntos, e publicamente, uma espécie de exame de fezes, devendo ficar claro que uma matéria podre publicada – onde mais? – no jornal BARRA, que vem encartado em O GLOBO aos domingos, fará o papel das fezes. Leiam comigo, façam seus comentários (fazendo o papel de examinadores), e perceberemos juntos que a podridão, a nojeira, a escrotidão, não têm limites.

Eis o título da merda, que não está sequer assinada:

publicado no GLOBO BARRA de 20 de maio de 2007
Vomitaram? Pois nem comecei.

Desde quando boemia tem grife? Vou recorrer ao Houaiss.

“* substantivo feminino
1 roda de intelectuais, artistas etc. que leva a vida de modo hedonista e livre, bebendo e divertindo-se
2 Derivação: por metonímia.
a vida dessa roda ou vida semelhante que levam outras pessoas
3 Derivação: por extensão de sentido.
vida de quem ama dormir a desoras, divertindo-se em grupo e ger. ingerindo bebidas alcoólicas
4 Derivação: por extensão de sentido. Uso: pejorativo.
procedimento de quem é vadio e pândego
Ex.: vida de b.”

Boemia em shopping é coisa de viado.

Mas vamos em frente.

publicado no GLOBO BARRA de 20 de maio de 2007

Nauseados? Pois o exame das fezes ainda não começou!

Notem que informação interessante… E de fato é interessante, pois dá intensa e sólida coerência ao discurso contra esses bares-de-merda. Onde já se viu buteco em centro comercial de luxo? E que bostas são RioDesign e Fashion Mall se não dois miomas ainda não extirpados do corpo da resistente e heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro? Heróica e resistente, sim! Foi a Betinha quem me contou, por exemplo, que na semana passada foi almoçar no Bar Brasil, patrimônio da cidade, na Lapa. E o Bar Brasil lotado, com fila! Para que vocês entendam a auspiciosa notícia, basta dizer que o Bar Brasil, hoje, encontra-se cercado, literalmente, praticamente espremido, entre o Antonio´s e o Botequim Informal… que estavam, vejam que beleza, às moscas! A canalha não passará! Voltemos ao exame.

publicado no GLOBO BARRA de 20 de maio de 2007

Esse cidadão, o investidor Leonardo Rezende (sem o negrito, evidentemente), notem bem!, diz que achava que shopping não tinha a ver com buteco. Mas – prossegue – ele notou uma demanda muito grande de clientes e atrativos como estacionamento regular, cinemas e segurança. Com licença… PUTAQUEPARIU! Quem foi a besta que publicou uma merda dessas, minha gente?! Quem? Como se permite isso?

Encerrando a análise da matéria-de-merda, vou deixá-los com a pérola que soltou a superintendente de marketing da empresa que administra o Fashion Mall (!!!!!):

publicado no GLOBO BARRA de 20 de maio de 2007

Quer dizer… a mulher (notem o cargo que a mesma ocupa…) só agora percebeu que buteco (o “pé-limpo” fica por conta da escrotidão da hora) é o que é.

Não passarão! Não passarão!

Diz a matéria-de-merda, ainda, que o Fashion Mall abriga um lixo chamado Metido a Besta – como já havia informado a lamentável Anna Ramalho, aqui -, e o RioDesign o Botequim Informal.

Eu sugiro ao meu irmão Luiz Antonio Simas – e o Felipinho bem que poderia nos acompanhar – que façamos o seguinte… A gente dá uma passada na Rocinha e traça uma picanha na Via Apia com umas casco-escuro e algumas muitas doses de cana. Daí convidamos uma dúzia de malandros da pesada, que – isso é fato – serão amigos de infância depois do primeiro engradado, e vamos todos ao Metido a Besta, dentro do Fashion Mall, mioma maior da cidade ao lado de lixos como New York City Center e Downtown, todos na Barra Cada Vez Menos da Tijuca.

Vai ser divertidíssimo. Até porque poderíamos convocar dona Anna Ramalho, com seus dois ajudantes, para cobrir, digamos, o evento.

Até.

5 Comentários

Arquivado em Uncategorized

>UMA TARDE PORTUGUESA COM CERTEZA

>

Domingo, 20 de maio. Bateu-me o celular, cedíssimo, Luiz Antonio Simas:

– À feira?

– Desça em dez minutos. Passo aí de carro.

Simas desceu em dez minutos e eu fui, no instante em que o vi, um homem afogado numa certeza: a de que o domingo prometia.

Pequena pausa: essa frase foi de um cinismo olímpico. Todos os domingos me trazem a mesmíssima sensação. Todos.

Rimos de engasgar, os dois, quando percebemos que – é evidente que sem querer – estávamos vestidos rigorosamente iguais. Éramos um par ridículo, bermudas verdes, camisas de malha cinza, tênis e a indefectível bolsa de palha.

Fizemos a feira e fomos, digamos, ao que interessa: à cerveja no Bar do Chico. Bebemos uma, bebemos duas, até que Candida bateu ligação pro marido. Ouvi o Simas dizer, seriíssimo:

– Claro, meu amor, claro. Você deu sorte… Estou exatamente em frente à barraca da pêra… Claro, claro… Quantas? Claro, Candida, claro… Não, não… Nem encontrei o Edu… Não… Chego em dez minutos. Beijo.

Bebemos a terceira e despedimo-nos.

Tínhamos, eu e Dani, marcado para o meio-dia, o almoço de aniversário de 60 anos da Raquelina, surpresa armada pelas filhas, Guerreira e Kaká (sobre a Guerreira e a mãe, leiam aqui).

Fomos.

Fomos – no clube português Trás-os-Montes, na Tijuca – e lá sentamos com duas mais-que-queridas: Sônia, a amada Manguassônia, e a Betinha, amada também.

Vão tomando nota dos desenhos do domingo!

Sônia, Dani e Betinha, no Clube Trás-os-Montes, 20 de maio de 2007

Lá ficamos até às quatro da tarde, quando partimos, os quatro, para o Rio-Brasília. Objetivo? Assistir Flamengo X Goiás.

Pouco antes do jogo começar, chega o Felipinho, ele sim o comandante-em-chefe do Rio-Brasília – o Joaquim bate continência quando o cara aparece e Deus – eis o mais incrível – pede-lhe a benção.

O Flamengo vence o Goiás por 3 a 1, e aparece, sem que tenhamos combinado nada, o Simas.

O relato do Felipinho é fiel – leiam aqui -, não vou me ater aos detalhes, eis que quero lhes contar outra coisa.

Luiz Antonio Simas, Felipinho e Eduardo Goldenberg

À certa altura da noite, já todos calibradíssimos, Flavinho, Manguaça, Guerreira e Marcy já integrando a mesa, Luiz Antonio Simas cai num choro de fazer tremer a pacata Almirante Gavião.

Agarrado a uma garrafa de Mercedes, cachaça oferecida pelo Felipinho (que ainda pagou a conta inteira sozinho, gentileza que a canalha só conhece quando atrelada a alguma troca suja de favores sujos), o nosso historiador maior, Simas, urrava (para desespero do Joaquim, que pedia silêncio):

– Há exatos 509 anos, queridos, Vasco da Gama aportava em Calicute, porra! Em 20 de maio de 1498, Vasco da Gama, o bravo navegador português… – e chorava mais, interrompendo o discurso.

Até que sorveu o que restava da garrafa pelo gargalo.

Ficou de pé.

E comovendo os presentes, cantou, altaneiro, o hino de Portugal, chorando como uma criança.

Brindávamos, ali, à arte do encontro.

Fomos para casa – creiam – dançando em fila indiana, e eu cantarolando a canção que aprendi à tarde, com a apresentação do Grupo Folclórico Guerra Junqueiro durante o almoço lusitaníssimo.

http://video.google.com/googleplayer.swf?docId=2082701470574427968&hl=en
Você está achando que o Simas, por estar bêbado, falou besteira? Enganou-se! Leia aqui!

Até.

10 Comentários

Arquivado em Uncategorized

>E O BRUNO DISSE TUDO!

>

Há exatamente uma semana eu postava aqui o texto “E O SIMAS DISSE TUDO”, leiam aqui.

Comentando o imprescindível texto do igualmente imprescindível Simas, escreveu o Bruno Ribeiro, lá de Campinas:

“Dizer o que diante disso? Camaradas, às armas! Salve nosso Comandante!”

E como o Bruno não é homem de descumprir a palavra, e como o Bruno é também imprescindível na luta pelo que é nosso, faço questão de transcrever, na íntegra, seu fundamental texto “VIRADA CULTURAL É O CARALHO”, publicado no excelente PÁTRIA FUTEBOL CLUBE.

Pátria Futebol Clube

É preciso perceber, de cara, a beleza do título do texto, a agressividade contida no título de texto, que demonstra que o camarada Bruno segue à risca o ensinamento que manda endurecer sem perder jamais a doçura. Leiam o texto, do início ao fim, e vocês perceberão que eu assino embaixo, na íntegra. Há tempos eu defendo deixar a resignação e a política da boa vizinhança de lado. É dedo na cara da canalha, mesmo!

“Durante toda a semana passada só se falou na Virada Cultural Paulista, que pela primeira vez teve uma edição campineira. De sábado para domingo foram 24 horas ininterruptas de música, teatro, cinema e exposições. Trabalhei na cobertura do show do grupo Sistema Negro, no Jardim Ieda. A expectativa (não a minha, evidente) era de que o show de rap, que ocorreu diante do sexto distrito policial de Campinas, acabasse em confusão – à exemplo do show dos Racionais, em São Paulo. Típica associação preconceituosa que a classe média faz do rap com a violência – reforçada depois que a Rede Globo culpou o público pelo confronto com a polícia militar. Não cabe agora discutir de quem foi a culpa pela pancadaria, mas é sempre bom lembrar que o problema é o homem e não o lugar de onde ele vem. Só discorda quem não conhece a periferia de perto.

Eu já sabia que seria um show tranqüilo. Depois fui para a redação escrever a matéria, mas não quis participar da Virada Cultural. Comprei um vinho na volta e fiz uma sopa na santa paz do lar, ouvindo a música que gosto, na altura que gosto, na companhia de quem gosto. E isso me basta.

Não participei em nenhum momento do oba-oba geral. Primeiro porque, danem-se os politicamente corretos, esse papo de virada é coisa de viado. E segundo que não tenho mais paciência para shows. Não agüento mais encontrar a mesma “turminha da balada” ou, como gosto de chamar, a “turminha do u-hu”. Ela está no “samba-rock pra quem começou a gostar de preto há pouco tempo”; ela está no “rock psicodélico com influências de folclore pernambucano e literatura de cordel”; está no “forró sem cabeça-chata para meninas que dançam ciranda” e agora também na “gafieira que acha que é gafieira só porque tem sax e trombone na formação, mas que não canta samba sincopado e nem samba de breque”. Estou cantando a bola em primeira mão: atentem para o surgimento da mais nova moda universitária: a gafieira. E eu, como estou cada vez mais decidido a firmar um pacto com a vida, pacto de só viver o que for verdadeiro, me recuso a estar nesses lugares onde todo mundo se acha o i do mississipi.

A Virada Cultural é feita para essa classe média que, além de não ser produtora de cultura, não entende picas do assunto (embora se ache a grande mantenedora das vanguardas artísticas) e se limita apenas a consumir shows sem qualquer critério. Aliás, o critério que ela conhece é sempre o da quantidade e nunca o da qualidade: se o show está lotado, então é bom. E mesmo assim não pode estar lotado de pobre: tem que ter muita “gente bonita”. Cultura no cu dos outros é refresco. Essa é a mentalidade da classe média e é por isso que me recuso terminantemente a compartilhar de seus mesmos gostos e interesses. Venho da classe média também, mas nunca aderi ao seu modo de vida. Estou seguro de não estar falando nenhum absurdo.

Vou explicar melhor a minha bronca. Antes, porém, peço licença ao Eduardo Goldenberg para roubar descaradamente uma citação do Ariano Suassuna publicado primeiro no seu Buteco do Edu:

Image Hosted by ImageShack.us

O Ariano disse tudo: se for preciso assumo essa briga sozinho, como já tenho feito nos últimos dez anos. O país ainda não está pronto para ser nação e é por isso que alguém tem de meter o dedo no nariz da classe média e dizer para ela: “Você está errada”. Também estou certo de não cometer nenhuma injustiça. Injustiça, por exemplo, é o que fizeram com o samba e o choro na programação da Virada. À eles foram dedicados os piores horários e locais: ao grupo Choro Bandido, que está lançando seu segundo CD e tem entre seus integrantes craques como Chiquinho do Pandeiro e Daniel Romanetto, foi reservada uma apresentação às 8h de domingo, no Bosque dos Jequitibás. A mentalidade é: “chorinho é coisa de velho; velho acorda cedo; chorinho é bucólico; manda o chorinho para o bosque”. O samba também foi tratado como moeda de troca: apenas Ilcéi Miriam e o grupo do Cupinzeiro foram convidados, entre tantos grupos bons que poderiam ter ocupado outros horários do programa. Sem falar que samba é sempre na praça e nunca no teatro ou nas grandes salas de espetáculo. E também ao samba deram um horário ingrato, quando as pessoas estavam saindo do trabalho. Muita gente saiu da periferia para ver o samba e não conseguiu chegar a tempo, porque dependia de ônibus e às seis da tarde não há ônibus para quem mora do outro lado da ponte. Engraçado como as duas maiores expressões da música popular brasileira são sempre tratadas com desdém pelo poder público e pela classe média – a mesma que gosta de “valorizar” o samba e “resgatá-lo” de algum lugar que ninguém sabe qual seja.

As noites são reservadas sempre aos ritmos estrangeiros (rock, blues, jazz) ou à música com discurso pop de bandas como Cordel do Fogo Encantado. O argumento – posso até ouvir vozes aí do outro lado da tela – é de que o samba não é capaz de lotar o espaço público. Não fossem a hipocrisia e o eufemismo, diriam abertamente: “O samba não é capaz de lotar o espaço público de gente bonita, de gente da nossa laia”. Mas então é a hora de nos perguntarmos por que e para quem é feita a Virada Cultural. Para que tipo de público os governos municipais movem seus esforços e investem o dinheiro de nossos impostos? E, Deus meu, de onde tiraram a idéia de que em Campinas não há cultura acontecendo o ano todo?

Domingo, enquanto muita gente ia para a Estação Cultura gritar u-hu, eu fui para a periferia, onde me criei com muito orgulho. E só me arrependo de não ter uma máquina fotográfica para mostrar aqui no blog, batendo o pau na mesa, que o samba não precisa de cartaz e nem do aval da classe média para acontecer e reunir muita gente. A roda, aliás, não é show, é cultura no sentido profundo do termo. Está acontecendo porque tem de acontecer, porque é passada de pai para filho, porque é uma necessidade e toda a comunidade está ao seu redor, confraternizando, dividindo a garrafa de cerveja, o churrasquinho feito na hora, a alegria e a tristeza da vida real. A vida de verdade, sem que ninguém precise fazer tipo para se sentir inserido ou representado. As relações não passam pela questão da roupa, do padrão de beleza, do julgamento moral. Todo mundo é truta, todo mundo é irmão, a partir do momento em que o samba pega e você o respeita. Estou falando do Pagode da Vó Tiana, terreiro localizado na Vila Teixeira, comandado pelo parceiro Juninho Fortaleza (com quem emplaquei Salve a Defumação, um sambão de macumba que já anda nas bocas da negrada da Vila).

“Pessoal, andaram dizendo que a roda de hoje ia ficar vazia por causa da Virada Cultural. Falaram que tava todo mundo indo ver o jazz e ver o rock. E a Vila Teixeira disse não. Todos aqui disseram não à esse papo furado de que a cultura estaria lá, do outro lado da ponte, e que a gente só teria uma opção: atravessar a cidade para poder se divertir um pouco. E nós dissemos não. Dissemos que não é verdade. Porque nós somos a cultura de Campinas. Ela está aqui, na periferia. E não precisa ser convidada para subir no palco. A casa cheia de amigos em dia de samba é a prova de que a nossa cultura é viva e é forte” – disse o pandeirista Cilão, na abertura dos trabalhos, sendo aplaudido de pé por cerca de 300 pessoas.

Lá encontrei Amaury “Velha Arte” e Nelsinho Fidélis – este o maior cantor de samba do Estado de São Paulo. E banco a afirmação se alguém duvidar. Terminada a roda – que contou com a presença de Sombrinha, parceiro de Arlindo Cruz – fomos de táxi para a Vila União, no maravilhoso Bar do Neto. Detalhe: fomos tão longe que o taxímetro marcou R$ 80 ao final da corrida. Adivinha se pagamos? É claro que não! Na quebrada é todo mundo camarada e uma mão lava a outra. E o Amaury tinha crédito na praça. De modo que o taxista também entrou para beber com a gente. E o samba comendo solto na mesa do butiquim. Candeia, Aniceto, Xangô. Vou repetir: Candeia, Aniceto, Xangô. Só sabe a dimensão disso quem é do riscado. E ouvir o primeiro verso é sacar que a cidade não conhece a cidade. E ainda tem muito o que aprender se quiser falar em cultura.

Pergunta se eu paguei a conta? Claro que não de novo! Aliás, acho que ninguém nunca paga a conta. Porque sempre tem alguém que se oferece para pagar a sua, da mesma maneira que alguém pagou a dele e assim por diante. No fim, vai ver, o sujeito pendura e acerta no fim do mês. Eu volto lá em outra oportunidade, deixo uma meia dúzia de Brahmas pagas na conta do cidadão, sem esperar nada em troca. E essas pequenas gentilezas vão gerando mais gentilezas, de modo que cria-se uma espécie de segunda família (para muitos, a primeira) e a roda de samba é onde estas relações se exacerbam, como que num transe. A roda de samba propicia um momento mágico em que você se sente realmente parte de um grupo e sua pessoa passa a ter alguma importância. O sujeito deixa de ser um consumidor passivo para ser agente histórico do que está acontecendo naquela hora. E a alma do bairro, da cidade, da pátria, da humanidade, percorre cada músculo e cada nervo de seu corpo. Sem luxo, sem frescura, sem glamour. Na vivência da única democracia que conheço, que é a roda de samba feita na mesa do buteco. Ali, onde a vida acontece e as pessoas são naturalmente felizes (sem esconder suas dores), a cultura é parte integrante do cotidiano. Não precisa que lhe dediquem um final de semana, nem que a classe média reconheça sua existência e seu valor. O povo lhe faz imortal, não é meu camarada?

PS: O endereço? Não dou nem sob tortura.”

Vão, o texto do Simas e o texto do Bruno, para a sessão “EU ASSINO EMBAIXO”.

Até.

7 Comentários

Arquivado em Uncategorized

OUTRO PRESENTE IRRETRIBUÍVEL

Eu digo freqüentemente – e não me canso de fazê-lo – que o cultivo da gratidão é um troço que me ocupa a cabeça e o coração, graças à educação que recebi – e vejam que foi pouco o que absorvi! – de meus pais, Isaac e Mariazinha.

Essa a precípua razão que me fez escrever, em setembro de 2006, uma espécie de inventário dos presentes irretribuíveis que ganhei ao longo da vida até aquele dia, quando meu irmão Luiz Antonio Simas me fez privilegiado, leiam aqui.

Essa a precípua razão que me fez escrever, em janeiro de 2007, um texto agradecendo publicamente o carinho comovente que me fizeram Rodrigo Folha Seca, Daniela Folha Seca e o Bruno, timaço da livraria do meu coração, leiam aqui.

Essa, também, a precípua razão que me fez expor, na vitrine do BUTECO, os presentes que recebemos, eu e Dani, das mãos – literalmente, eis que ela mesmo os fez – da Sônia, leiam aqui e aqui.

Pois bem…

Ontem estivemos, eu e a minha garota, a mulher que me ensinou a sorrir, minha Sorriso Maracanã, na casa de Sonia e Benjamim, para um jantar que nos foi, carinhosa e acolhedoramente, oferecido por eles.

Presentes, também, Marquinhos, Tetela, Regina e Sílvio.

Noite agradabilíssima – voltamos, eu e Dani, encantados com tudo -, samba como música de fundo, boa comida, boa bebida, bom papo, até que aguardávamos o táxi, convocado por telefone.

A menos de 15 minutos da hora de descermos, bati os olhos numa das paredes da sala.

E disse ao anfitrião:

– Há gelo?

Ele, espirituoso, já sacando minhas intenções, respondeu de primeira:

– Há, e há esperança! – e foi buscar o balde de gelo e a garrafa de Chivas Regal.

Pois enquanto eu bebia a saideira – que eu não seria o tijucano íntegro que sou sem ela – percebi Sonia e Benjamim cochichando.

E segundos antes de descermos, já durante a despedida, enquanto fazíamos promessas mútuas de mais noites como aquela, Benjamim foi à parede, tomou a placa entre as mãos e estendeu-me o mais recente irretribuível.

Sou – faço essa confissão com um certo ar de estranho orgulho – um sujeito de sorte.

Vai, a placa, para a parede do BUTECO DO EDU, o real.

Cheguei a brincar com eles, ontem à noite, que poderia, inclusive, ser minha lápide: Enquanto houver gelo, há esperança.

Enquanto não chega a hora, que seja apenas um de meus lemas!

De pé diante do balcão imaginário ergo o copo à noite agradabilíssima e ao carinho – irretribuível – dos dois.

Até.

3 Comentários

Arquivado em gente

>ARIANO SUASSUNA

>Às vésperas de completar 80 anos:

publicado no JB de 20 de maio de 2007
Não é à toa que a canalha tenta – sempre em vão, diga-se – denegri-lo.

Ao centenário!

Até.

2 Comentários

Arquivado em Uncategorized

>INFAME

>

Vejam como é engraçadíssima – permitam-me o deboche olímpico – a coluneta da Anna Ramalho, já devidamente esculhambada aqui.

Saquem a tirada de hoje – na legenda da fotografia -, no caderno BARRA do JB:

publicado no JB de 19 de maio de 2007

De foder, não?

Inauguro hoje, no menu à direita, a seção BARBARIDADES DA ANNA RAMALHO!

Até.

3 Comentários

Arquivado em Uncategorized