EU, COADJUVANTE

(ou CONVITE PÚBLICO PARA ANIVERSÁRIO)

Caso vocês leiam Abril, o mês cruel (aqui), Tema de todo abril (aqui), A espiral – parte I  (aqui), A espiral – parte II (aqui) e A espiral – parte III, final (aqui), perceberão o que foi meu abril no ano de 2006.

Perceberão o que foi meu abril no ano de 2006 e por isso perguntarão:

– Onde a dor neste abril de 2007?

E eu, sincero:

– Em mim.

Tava demorando.

Acho, pensando agora enquanto escrevo, que eu não dei foi tempo pra sentir a pegada de abril.

Agora pela manhã, a 48h do dia 27, quando cravo 38, no instante em que fui escovar os dentes – vejam que horripilante – minha imagem no espelho vaiava a mim mesmo de maneira ultrajante. E gritava:

– Velho! Múmia! Idoso! Decrépito! Candidato a cemitério! – e ainda havia a trilha incidental, a gargalhada estridulosa do Prata.

Parei de escovar os dentes.

E eu – ou minha imagem, confesso que fiquei confuso – não parava com a auto-imolação sonora e gestual. E a gargalhada só fazia aumentar. E eis-me aqui, sem coragem para acabar de escovar os dentes, fazendo essa confissão patética.

Mas não estou aqui apenas para isso.

Estou aqui, precipuamente, para dizer a vocês que – prestem atenção! – Fernando Szegeri, esse mito brasileiro, o maior ser humano de nossa época, está chegando ao Rio de Janeiro depois de amanhã, 27 de abril, justamente o dia de meu aniversário (meu aniversário e aniversário, também, de minha nora, se é que vocês me entendem).

E Fernando Szegeri vem, mas não vem sozinho. Vem com a família toda: a doce Stê, de quem gosto mais a cada dia, minha querida afilhada Iara, sereia de meus rios, Rosa, coisiquinha que está com menos de seis meses de idade mas que é amada de maneira desonesta, e dona Cecília, mãe do meu mano paulista, e que por isso merece todas as homenagens possíveis e imaginárias: foi em seu ventre que foi gerado o Pompa.

Daí dirão vocês:

– Puxa… Vem só para o seu aniversário?

E eu respondo de primeira:

– Cheguei a pensar que sim. Mas é evidente que não!

O Szegeri, que trabalha numa repartição pública e que cuida com denodo de sua família – talvez sejam suas duas principais ocupações – dedica-se, com igual ou maior afinco, a me humilhar de maneira intensa e permanente.

Bateu-me o telefone na semana passada:

– Edu?

– Ô, querido…

– Estou indo praí no dia 27…

Eu, comovido:

– Puxa…

– Mas não tem nada a ver com seu aniversário, idiota. Vamos tocar no Trapiche Gamboa no dia 29 e eu preciso chegar antes para acertar uns ponteiros.

E desligou.

Isso significa dizer, meus poucos mas fiéis leitores, que dedicarei o dia 27 de abril, quando o Tempo gritará em meus ouvidos durante todo o dia – “velho! velho! velho!” – ao convívio com a família. Reunir-me-ei com meus pais, meus irmãos, minha avó, minha cunhada, minhas sobrinhas e meus sogros, no Alto da Boa Vista, numa espécie de ensaio geral para o meu velório, já que sempre – eu disse sempre -, desde que fiz 30 anos, tenho certeza absoluta de que estou comemorando o último aniversário.

Mas no dia 29 de abril, domingo, estarei no Trapiche Gamboa, na rua Sacadura Cabral 155, na Gamboa, evidentemente, a partir das 19h, comemorando, pela segunda vez (quando a gente acha que é o último tem que aproveitar bem), a passagem dos meus 38 anos.

E lá, ele, o mito, Fernando Szegeri, comandando a roda de samba com os Inimigos do Batente, diretamente de São Paulo. Dorina é a convidada deles. E meu garoto, Tiago Prata, gênio da raça, o convidado especial, fazendo chover e ventar com seu 7 cordas.

Quero ver vocês todos lá.

Mas notem que lindo: você percebe que não é ninguém quando consegue a proeza de ser coadjuvante na festa de seu próprio aniversário.

Até!

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9 Comentários

Arquivado em confissões

9 Respostas para “EU, COADJUVANTE

  1. >Comovente fidelidade aos mais ínfimos detalhes. Eu te entendo, Galo. Esta semana, mais que nunca, estou Otto. Aquele que não fui, em absolutamente nada, com uma retumbante exceção: “há em mim um pobre diabo…”. Beijo

  2. >REalmente, confesso que estava chando por demais estranho o seu silêncio até o dia de ontem. Mas hoje você se redimiu – santo reflexo que não se rende aos caprichos da idade!Deixo um beijo pro meu grande amigo, que estará com os seus nesta sexta-feira quase santa. E aguardo com muita ansiedade a chegada do domingão – para ver o grupo do Szegeri, claro!!!ehehhehehhh…Até breve, malandro!

  3. >feliz aniversário, véio! e não se ache à beira de partir dessa pruma melhor, não: eu biritando do jeito que birito já emplaquei cinco cinco, e em julho cravo cinco meia. só não ache de criar juízo. eu, por exemplo não crio juízo por que eu não sei o que é que ele come…

  4. >Caro Edu,Também estarei lá para prestigiar o Inimigos do Batente e a Claudia e o Cleverson do Trapiche. Arthur MitkePô, já ia esquecendo: vou aproveitar pra te dar um abraço pelo aniversário.

  5. >Edu, sabemos que o seu aniversário é coadjuvante, o Trapiche é coadjuvante e, por incrível que pareça, o samba é coadjuvante, já que o personagem principal deste domingo será o Estádio Mário Filho, o gigante do Maracanã, palco da maior final de campeonato carioca dos últimos anos. Os paulistas vem pra cá porque, convenhamos, Santos e São Caetano numa final é osso duro de roer. Já o charme de um Botafogo e Flamengo é indescritível.Aliás, suspeito que você vai chegar ao Trapiche e ninguém, eu repito, ninguém, estará lá – nem o Szegeri – pois nem mesmo a morte, dizia o Nelson, exime um cidadão de suas obrigações clubisticas.Eu te confesso minha forte suspeita de que você mesmo inovará, faltando ao seu aniversário para assistir e sucumbir a uma final prevista desde mil anos antes do nada!Prevejo para você, nesse dia, a solidão de todos os desertos.Quanto ao seu problema com a idade, refletido na decomposição vergonhosa do seu corpo, sugiro um hidroginástica.beijops: estarei lá, mas não me responsabilizo pelo meu estado físico e emocional no pós-jogo.

  6. >Simas: pois eu farei uma ameaça pública.Experimente aparecer em estado físico sóbrio e verás um aniversariante (ainda que, como coadjuvante, isso em nada importe) decepcionadíssimo.Quero vê-lo como naquela tarde gloriosa na casa de Betinha e Flavinho. Ou pior.

  7. >Ô, Velho, tá querendo me ver pedindo trocado na porta da Igreja da Lampadosa? Vira essa boca pra lá!!! Mas, de toda sorte, temos que compreender o entusiasmo botafoguense. Porque, afinal, tem coisas que só acontecem…

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