O DOMINGO

O domingo seria pacatíssimo. Depois de um sábado efervescente – participei à tarde de um campeonato de botão, à noite fomos à festa de 60 anos da Sônia e depois, ainda, à festa da Cris -, quando chegamos em casa às quatro e meia da manhã, o domingo teria de ser – repetindo – pacatíssimo.

Eu, que sempre acordo cedíssimo, mesmo durante os finais de semana, fui acordado ao meio-dia por uma Dani nervosa. Acordei e a vi, aos prantos, me sacudindo violentamente. Abraçou-me quando abri os olhos. Eu disse:

– O que houve?

– Pensei que você estivesse morto! Já é meio-dia!

Vejam como começou bem o meu domingo.

Eu estava – preciso repetir para que vocês entendam o drama – decidido a ficar em casa. Mais precisamente no quarto. E mais precisamente, ainda, na cama.

Mas eis que toca o celular. E pisca, na tela azul, o nome do menino. Comovi-me sobremaneira com o carinho do garoto, tomem nota:

– Edu?

– Fala, Prata!

– Tá em casa?

– Tô.

– Tô com saudade. Em 10 minutos estou no Rio-Brasília!

– Passa de carro aqui. Preciso ir à feira rapidinho!

E ele, velho por um segundo, disse:

– OK!

Olhei pra minha garota, com profundo amor, e disse depois de suspirar:

– Fudeu. Vamos comigo à feira?

Abriu-se o mais bonito sorriso do mundo e descemos, os dois, pra esperar o Prata.

Chega o Prata. Chega o Prata e ele chega, evidentemente, de Dorival. O Prata tem, quando dirige, 120 anos de idade. Tem hábitos avoengos. No banco do motorista – “para não manchar minhas camisas” – uma toalha rosa horrorosa. Espalhados pelo carro, sapatos, cabides, cordas de violão, meias, moedas, um mafuá. E chegamos à feira.

Fui rápido. Comprei um quilo e meio de lula e sugeri que bebêssemos uma Therezópolis Gold no Aconchego Carioca. Assim foi feito. E tomamos o rumo do Rio-Brasília, já que o Prata alegava uma fome olímpica. Lá chegando o menino bateu o telefone pro Simas, com quem combinou de ir ao Maracanã para a primeira partida da final da Taça Rio. Em questão de poucos minutos éramos quatro à mesa: eu, Dani, Prata e Simas.

O menino comeu, sozinho, uma feijoada que daria para quatro pessoas.

– Simão, vinte pras quatro! Vamos!

Partiram os dois e lá ficamos eu e minha garota.

Bate meu telefone.

– Oi, Fefê!

– Tá aonde?

– Rio-Brasília. Quer vir pra cá e depois lá pra casa? Comprei lula na feira. Topa?

– Tô indo praí.

Estávamos os três ali, de papo, cervejinha, maracujá, quando bate outra vez meu telefone.

– Oi, Betinha!

– Oi, Edu… Vocês estão fazendo alguma coisa?

– Estamos no Rio-Brasília com o Fefê, por que?

– Ah… Queria saber se vocês não querem vir aqui pra casa… Nós vamos abrir um 17 anos…

Eu, finíssimo:

– Vocês três não querem ir lá pra casa?

– Três?

– É. Você, o Flávio e o 17 anos.

– A que horas?

– Seis, pode ser?

– Combinado.

Chegamos em casa faltando pouco pras seis horas, com a bolsa cheia de cerveja. Seis em ponto, tijucanos são assim, chegam Betinha e Flavinho com a portentosa garrafa de Ballantine´s 17 anos. E bate meu telefone de novo:

– Fala, Prata!

– Tá no Rio-Brasília ainda?

– Em casa. Quer vir pra cá?

– Vamos passar aí, então. Mas rapidinho, tá? No máximo quinze minutos, que eu tenho uma festa em Santa Teresa…

– OK!

Chegam Prata e Simas.

Fefê, 15 de abril de 2007
Dani Sorriso Maracanã e Tiago Prata, 15 de abril de 2007

E o que vivemos ali, meus poucos mas fiéis leitores, foi de uma boniteza daquelas que chegam a doer.

Preparei uma – modéstia não é o meu forte – monumental lula à vinagrete, derrubamos a garrafa do 17 anos, jogamos muita conversa fora, rimos muito, emocionamo-nos em demasia – o Simas chorava de guinchar -, e foi a boniteza que brotava dali que fez com que todos saíssem lá de casa faltando pouco para a meia-noite.

Flavinho, 15 de abril de 2007
Betinha, 15 de abril de 2007
Pepperoni e Simas, 15 de abril de 2007
Simas, 15 de abril de 2007
Tiago Prata, 15 de abril de 2007

Um domingo que não teve nada, rigorosamente nada de pacato.

Fiquem com o Simas, esse monstro, cantando Cartola aos prantos, acompanhado pelo violão endiabrado do Prata.

Até.
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7 Comentários

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7 Respostas para “O DOMINGO

  1. >Olá Edu! Belo vídeo! Me deu saudades do “doutor Rio de Janeiro”, como diz o Borgonovi. Aliás, sinto uma ponta de inveja de vocês, todos os cariocas.Aqui em terra da garoa, jamais, reitero, jamais, alguém receberia com qualquer grau de hospitalidade os amigos no domingo à noite. Não por falta de consideração, mas por pura insensibilidade que só os paulistanos têm.Quando voltar praí, serei bastante folgado e pedirei encarecidamente ao Borgonovi (falo isso pq provavelmente ele estará junto) uma dessas noitadas com essa turma que gostaria de conhecer. Internet é engraçado: você escreve sobre o Simas, o Prata, a Dani… E eu acho que já sou íntimo – deve ser porque sou assíduo do buteco, como já lhe disse.Abraços!

  2. >Craudio:de que São Paulo você está falando? Puta sacanagem essa coisa de cuspir na própria imagem, até porque isso é coisa de paulista chato. Mas chato tem em todo lugar – até no Rio de Janeiro, onde já fui tão maltratado quanto bem recebido! Meus amigos de São Paulo são tão hospitaleiros quanto os cariocas. A São Paulo que eu conheço não é a mesma que você conhece então…PS – Mas concordo que a hospitalidade é essencialmente carioca. Sem dúvida.

  3. >Mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, mas só de ler o livro, imagino o Flavinho chegando na sua casa dizendo:- 17 anos, Edu! 17 anos!!!Aliás, se eu desconfiasse da farra, teria com certeza te ligado.

  4. >show de bola o violão! não que venhamos a desmerecer o inenarrável esforço do vocalista, jamais! mas a viola é profissional. parabéns!caíque

  5. >Craudio: Acho que você tá precisando rever essas suas amizades urgentemente, hein!? 😉 Bruno: Não acho que a hospitalidade seja algo essencialmente carioca, não. Com toda sinceridade, acho que é coisa de nordestino. Lá (e refiro-me especialmente à terra de meu avô, Sergipe), as pessoas são de uma sem-cerimônia emocionante. Deixa a gente aqui no Rio no chinelo…

  6. >Amigos, sem relativismos. Tratei da coisa como um todo, falei da essência. Amo essa coisa poluída, tanto que daqui só saio para o Rio ou Porto Alegre, onde há outros muitos seres hospitaleiros (Beatriz: falha de caráter minha, ainda não conheço o NE brasileiro e, por isso, não incluo na lista. Mas conheço figuras impagáveis de lá). É que eu parto de uma única premissa sempre que se trata de Rio de Janeiro: essa cidade é uma covardia.Abraços a todos. Edu, desculpe a cizânia! 😀

  7. >Que voz, Simão. Que voz!!!Abraço,Borgonovi

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