SIMAS NO MARACANÃ

Minha intenção, hoje, era escrever sobre o Prata. Mais especificamente sobre a reunião ocorrida na semana passada em meu escritório, quando recebi o menino como cliente, pela primeira vez. A situação foi tão dantesca que merece destaque. De semana que vem, prometo, não passa. Mas faço questão de lhes adiantar: durante os primeiro quinze minutos de reunião o Prata apenas riu. Riu, não. Gargalhou. Relinchou. Guinchou. Coinchou diante de mim. Eu, de terno e gravata, diante daquele menino de bermudas e sandália, interpretava as ruidosas gargalhadas:

– Velho! Múmia! Empalhado! Defasado!

Na semana que vem, prometo, conto tudo.

E não escreverei sobre o assunto, hoje, graças ao comentário deixado pelo Marechal, alcunha do jornalista Álvaro Costa e Silva, editor do JB, no texto de ontem:

“Notem, que delicadeza!, na terceira foto, logo atrás do Simas (no bom sentido), a presença do botafoguense tijucano, de olho já turvo àquelas horas da manhã. Era o prenúncio do que seria o baile, à noite.”

Fui, confesso, pautado imaginariamente pelo Marechal, e explico.

Eu fui ao “baile”. E fui, confesso, com a ânsia do milésimo gol e apenas com a ânsia do milésimo gol. Rubro-negro que sou – e há uma especial delícia no fato de estar num Maracanã fervendo com a leveza de um espectador não envolvido passionalmente no espetáculo – fui, apenas – repito – para poder dizer às próximas gerações:

– Eu assisti ao milésimo gol do Romário.

E eu estava tão alheio ao duelo entre Vasco e Botafogo que fui demonstrando isso, alegoricamente, portando uma bandeira que eu, e apenas eu, expunha orgulhoso.

Edu Goldenberg no Maracanã, primeiro de abril de 2007

Mas não fui sozinho.

Fui com ele, Luiz Antonio Simas.

Eu já havia estado no Maracanã, algumas vezes, com o Simas. Mas sempre em jogos do Flamengo. E o Simas é, vocês sabem, um botafoguense empedernido. A visão que eu tinha, então, de Luiz Antonio Simas no Maracanã, era a de um pacatíssimo torcedor, de um fleumático espectador, um mansarrão.

Qual o quê!

Aquele homem, baixinho como o Romário, calvo como uma bola de sinuca, gordo como eu, foi, no domingo, um homem possuído.

Luiz Antonio Simas no Maracanã, primeiro de abril de 2007

Eu tenho verdadeiro horror de ficar citando ditados. Acho que são todos, na massacrante maioria das vezes, bobos, maçantes e enfadonhos – como eu, aliás.

Mas é preciso lhes dizer: uma imagem vale mais que mil palavras.

Eu poderia dizer a vocês tudo o que vi.

E vocês me apontariam o dedo – eis a imagem que não me sai da cabeça sempre que escrevo – aos gritos:

– Mentiroso sórdido! Exagerado! Hiperbólico! Difamador!

Mas eu tenho, meus poucos mas fiéis leitores, fotografias e filminhos que não me deixam mentir.

Eu vi um possesso Luiz Antonio Simas descer as rampas do Maracanã deitado, rolando ladeira abaixo, gritando coisas como “respeitem o Botafogo!”, “o Botafogo não é coadjuvante!”, merecendo, no hall dos elevadores, o beijo de J. Moura, mais conhecido como Beijoqueiro, célebre desde que tascou um beijo em Frank Sinatra, no mesmo Maracanã, depois de invadir o palco.

Luiz Antonio Simas e o Beijoqueiro, no Maracanã, primeiro de abril de 2007

Se eu não tivesse a imagem, eu sei, eu ouviria:

– J. Moura? Nem vivo está, Edu! Não minta!

Mas eu tenho a imagem.

Como tenho a imagem desse homem, em estado de graça, deitado – eu disse deitado – no chão do estádio, no anel externo, com os braços para cima da cabeça, vociferando aos céus:

– Obrigado, Garrincha! Obrigado, Manequinho! Obrigado por tudo! Todos têm que respeitar o Botafogo!

Luiz Antonio Simas no Maracanã, primeiro de abril de 2007

Se eu não tivesse a imagem, eu sei, eu ouviria:

– Deitado naquele chão imundo do Maracanã? Ora, Edu… Menos, menos!

Mas eu tenho a imagem.

E se eu lhes contasse que do chão ele se levantou apenas quando viu passar o irmão do Romário?

O irmão do Romário, portando um crachá com a cruz de malta onde se lia “ROMÁRIO 1000 GOLS”, foi parado por um transtornado Luiz Antonio Simas que lhe lançou perdigotos no rosto:

– Vira pra lá, porra! Faz uma foto comigo, caralho!

O irmão do Romário, coitado, mudo, sem graça, sem jeito, fez a fotografia, ouvindo depois:

– Respeite o Botafogo!

Se eu não tivesse a fotografia, eu sei, eu ouviria:

– O irmão do Romário tirou uma fotografia com o Simas, que ainda por cima tirou onda com a cara dele? Edu, tenha paciência…

Mas eu tenho as imagens…

Até.

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Arquivado em futebol