SIMAS NA FEIRA

Eu vivo, durante as manhãs dos sábados e dos domingos, a viuvez antecipada, conforme lhes contei aqui:

“E curtindo minha viuvez de feriado – sou viúvo nas manhãs dos feriados, sábados e domingos, que eu acordo com os primeiros cantos dos bem-te-vis enquanto a Dani dorme até o meio-dia, no mínimo! – fui à sala acompanhado de um copinho de Maria da Cruz, de um cigarrinho (não voltei a fumar, mas estou fumando, o gerundismo me salva nessas horas) e do fascículo contendo todo o primeiro semestre d´O Pasquim de 1975.”

Neste último domingo, primeiro de abril (e o que lhes contarei é rigorosamente verdadeiro, como de hábito), não foi diferente. Acordei com a ânsia da feira, que tem sido assim há muitos meses (acho que anos). Não quero, nas manhãs de domingo, nem o café e nem o leite. Acordo, dou meus beijinhos numa Dani imóvel, mergulhada em seu sono inabalável, e parto, aflito, em busca da bolsa de palha, minha companheira inseparável à feira da gloriosa rua Vicente Licínio, na Tijuca, evidentemente.

Pausa para brevíssima explicação.

Quando eu morava na Lagoa, e sofria de um banzo agudíssimo – e refiro-me à época em que vacas tentavam, sem êxito, destruir meu pasto – era também na Tijuca que eu fazia minhas feiras.

Voltemos, então.

Anteontem acordei e bati o telefone pro Simas. Passava um bocadinho das oito:

– Vamos à feira?

– Na Vicente Licínio? Mas é claro! – respondeu como se fosse um contumacíssimo freguês da dita feira.

– Desça em dez minutos.

E ele, como eu, antiqüíssimo:

– OK!

Fomos, então, eu, Simas e Candida Carneiro, sua doce companheira, desbravar a feira livre.

Eu, antevendo viver, in loco, merdas olímpicas, levei minha câmera fotográfica.

Simas e Candida na feira, primeiro de abril de 2007

E eu estava certo.

O Simas é, fazendo a feira, um troço indizível.

E faço nova pausa para uma brevíssima correção: o Simas é, todo, indizível.

Ocorre que, fazendo a feira (e sou capaz de jurar que foi, anteontem, sua primeira incursão numa feira livre), o Simas ganha contornos que beiram o inacreditável.

Peço licença para a terceira pausa para uma necessária descrição geográfica: a feira da Vicente Licínio fica na Tijuca, pertinho da Praça da Bandeira, nos fundos do Instituto de Educação. Tem, numa extremidade, o Bar do Chico e o Salete. Na outra, o Aconchego Carioca.

Mal pisamos na feira e o Simas:

– Edu, vamos tomar uma gelada…

Candida, puxando o marido pela manga da camisa:

– Luiz Antonio! Eu sabia! Vá comprar rúcula pra mim, por favor, que eu vou comprar umas frutas! – e disse isso apontando para a barraca das verduras e dos legumes.

Ele olhou-me com um olhar de pânico. Mas nada disse. E eu resolvi segui-lo.

Vejo o meu irmão remexendo as folhas, atônito.

Finjo estar distraído e faço minhas compras.

Volta ele, e eu a segui-lo.

Estaca diante da Candida.

Simas e Candida na feira, primeiro de abril de 2007

Abre a bolsa de palha – ele adquiriu uma idêntica à minha, na mesma barraca – e mostra orgulhoso:

– Candinha! Escolhi bem?

– Luiz Antonio… Isso é chicória, Luiz Antonio!

E ela arranca a bolsa da mão do marido que me diz, cabisbaixo:

– Vamos beber uma gelada, Edu…

Candida passou-lhe novo pito, para depois dizer:

– Luiz Antonio, venha comigo. Vou ensiná-lo o básico do básico!

Simas e Candida na feira, primeiro de abril de 2007

Passamos por uma barraca sobre a qual estendia-se imensa faixa: “ACEITAMOS VISA”.

Pra quê?

O Simas, um brasileiro máximo, um carioca urgente, um suburbano nato, um homem sempre em defesa dos pequenos, tomou-se de fúria e deu de discursar diante da barraca:

– Meus senhores, minhas senhoras! Uma barraca de feira, na Tijuca, aceitar cartão de crédito é rigorosamente inaceitável, como é inaceitável a balança digital que alguns feirantes estão usando. Porra! – começou a chorar – Mil vezes porra! Eu quero a balança tradicional, com os pesinhos enferrujados, honestos, a barraca humilde que não admite a possibilidade de uma sociedade com um cartão de crédito, porra… – gania, à essa altura, de tanto que chorava.

Candinha, coitada – uma santa -, pedia baixinho:

– Luiz Antonio, você não vai mudar o mundo, Luiz Antonio…

Ele, que estava cercado por fregueses que pareciam concordar com aquilo, parou de chorar.

Foi quando Candinha disse:

– Sabe que essas ameixas estão até bonitas, Luiz Antonio?

– Nessa barraca não, meu amor! Nunca! Nunca, porra!

E eu vi – juro que vi! – fregueses pedindo estorno da quantia paga e devolvendo a mercadoria comprada, para completo desespero da pobre dona da barraca.

Pra acalmar o marido, Candida diz:

– Luiz Antonio, vá com o Edu comprar bananas e uvas… Vou comprar flores para levar pra Dani… É de bom tom chegar com flores…

Nova pausa: Candinha, Simas e Rodrigo Ferrari eram nossos convidados para o almoço de domingo.

Luiz Antonio Simas voltou a chorar, dessa vez no meu ombro:

– Você ouviu, Edu? É de bom tom… É de bom tom… Ninguém mais fala isso! Ninguém!

E beijou, acintosamente, a boca da própria mulher, num ataque passional.

Simas e Candida na feira, primeiro de abril de 2007

E com as frutas, a superação.

Chega-se ele.

O feirante:

– Bom dia, freguês!

Ele, puto:

– Freguês tu vai ver depois do jogo, otário. Fooooogo!

Vai à outra barraca.

A feirante:

– Vai de banana, freguês?

– Freguês é o caralho, vascaína de buço!

Eu rolando de rir.

Vamos à terceira barraca. Ele chega atropelando:

– Tem banana?

O feirante tentou segurar o riso, cercado por bananas de todos os tipos:

– Tem.

– Me vê cinco.

– Dúzias?

– Bananas.

– Qual?

– Uma de cada.

Expliquei a ele a praxe com relação às bananas. Depois de uns dez minutos ele convenceu-se e levou uma dúzia de banana-prata.

– Faltam as porras das uvas…

– Ali! – apontei.

Simas pergunta ao camarada:

doce?

– Um mel.

– Posso provar?

– Claro!

Provou e disse:

– Excelente! Me veja cinqüenta, por favor.

– Cinqüenta?

– É muito, Edu? – me perguntou.

Fingi que não ouvi.

– Me vê então vinte e cinco, moço.

– Vinte e cinco? Tem certeza?

Simas já estava ficando puto quando eu intervi:

– Simão… Uva vende por quilo…

Simas comprou, então, um quilo de uva rubi.

Tomamos a direção do Bar do Chico.

Uma, duas, três garrafas.

Ele, à moda do velho Osório, arrota já de camisa aberta e diz, alisando a protuberante barriga:

– Bela feira, Candida… Virei todos os domingos… Bela feira… Obrigado, Edu, pela dica! Eu costumo, mesmo, fazer nossa feira na Morais e Silva, mas essa de hoje, puta merda… Que feira! Que feira!

Candinha piscou o olho em minha direção e ficamos ali, de papo, até a hora do almoço. Sobre ele, falarei ainda nessa semana.

Até.

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7 Comentários

Arquivado em Rio de Janeiro, Tijuca

7 Respostas para “SIMAS NA FEIRA

  1. >Notem, que delicadeza!, na terceira foto, logo atrás do Simas (no bom sentido), a presença do botafoguense tijucano, de olho já turvo àquelas horas da manhã. Era o prenúncio do que seria o baile, à noite.

  2. >Edu, fala sério. O Simas pediu mesmo 50 uvas? Chegou pro feirante e disse: “Me vê 50 uvas, por favor”. Foi assim, literal? “Me vê 50 uvas?”. Você só pode estar brincando! Que maravilha!PS – Também já troquei rúcula por chicória. Só as mulheres conhecem todas essas folhas.

  3. >Pô Edu, quanto esse teu amigo cobra pra me acompanhar até a feira?! O cara é impagável!!!!Abraço!

  4. >Marechal: olhar investigativo, o seu. Trata-se, de fato, de um tijucano de uniforme, um tijucano de quatro costados, com os olhos turvos, como você bem disse, um bafo de cana de arrepiar e uns tijucaníssimos óculos escuros, comprados na feira, descansando sobre os cabelos, no alto da cabeça. Por conta desse seu comentário amanhã escreverei sobre o que foi o Simas no Maracanã. Com direito a filmes e tudo. Aguarde!Bruno: pô, mano! Quantas vezes eu terei de repetir, de pé diante do balcão imaginário, que eu sou preciso do início ao fim?! É evidente que foi assim. Ou melhor, poupei o Simas. Seu primeiro pedido foram 50 uvas, 25 das brancas e 25 das vermelhas. Um neófito de categoria, ele.Diogo: ele cobra baratíssimo. Combine com o Arthur de irmos todos juntos, num domingo desses, à gloriosa feira da Vicente Licínio. Você paga meia-dúzia de Therezópolis Gold, depois, no Aconchego Carioca e fica tudo por isso mesmo. Abração!

  5. >Fiquei, qual o Marecha, comovido com o prenúncio.

  6. >Porra, Edu! Comentário do Marechal! Caralho!

  7. >ahahah, esse post é 10. Feira é tudo de bom. Confesso q apesar d ser mulher tbm troco essas coisas verdes. São todas da mesma cor, pô! Bjs, Eugênia

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