Arquivo do mês: março 2007

>24 DE MARÇO: 3 ANOS DE VIDA!!!!!

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Há exatos três anos – eu e a precisão – era inaugurado o BUTECO DO EDU.

Eis aí uma data em que eu, e apenas eu (e isso basta!), festejo olimpicamente.

Não quero, aqui, ser maçante, como diria minha bisavó. Mas tem uns troços que eu não posso deixar de dizer – numa espécie de discurso modorrento, como na entrega do Oscar – sob pena de não exercer a gratidão, coisa que eu faço diuturnamente.

Em primeiro lugar: é do mais absoluto cacete perceber que – nem vou tão longe… – em março de 2006 o BUTECO teve um pouco menos de 2.000 visitas. E que agora, neste março de 2007, ainda em curso, já estamos próximos das 5.000 visitas. Isso significa que, ainda que trilhando o caminho do discurso firme, da postura radical (na visão de uns), da postura coerente (na minha visão), sigo pelo caminho certo.

É fato que muita coisa contribui para que as visitas cresçam: o ORKUT, que dá intensa visibilidade ao BUTECO; as malas diretas de alguns amigos que, empolgados com um texto ou outro, uma entrevista ou outra, espalham nosso endereço por aí; os emails que eu mesmo mando quando tenho aguda vontade de apontar algo específico para alguns amigos; mas quero daqui, de pé, no banquinho imaginário, diante do imaginário balcão, render homenagens a cinco – vamos dizer assim… – colegas blogueiros, os cinco primeiros na lista elaborada pelos contadores que controlam o tráfego de visitantes do BUTECO como os que mais gente carreiam pras bandas de cá!

Em primeiro lugar, com 3,76%, o Só Dói Quando Eu Rio, do meu irmão siamês, Fernando Szegeri, autêntica cidadela que brota do coração carioca do cara. Assino, às cegas, tudo o que o cara escreve.

Em segundo lugar, com 3,16%, o Pentimento, do Marcelo Moutinho; eu seria capaz de dizer, com chance mínima de errar, que isso deve-se basicamente à intensa propaganda que ele faz das entrevistas que fazemos aqui no BUTECO. Ele é, de fato, entustiasta de primeira hora desses longos bate-papos que hoje – sem modéstia – não se publicam mais.

Em terceiro, com 2,94%, de Campinas, o Pátria Futebol Clube, do Bruno Ribeiro, amigo novo, parceiro novo, fruto direto da blogosfera. Estivemos juntos, pessoalmente, em apenas duas oportunidades: uma aqui no Rio – no Rio-Brasília – e outra em São Paulo – no Ó do Borogodó. Bastou pra saber que o cara é dos meus.

Em quarto, com 2,82%, blog desse monstro de quem tenho um medo agudíssimo, o Histórias do Brasil, do Simas. Eis aí, meus poucos mas fiéis leitores, outro lance de sorte. Por vias que passam pelo BUTECO gerando afinidades intensíssimas, cheguei a esse malandro, que é, hoje, e sinto que pra sempre, rigorosamente imprescindível.

E em quinto, com 1,69%, Vanor, blog de Vanessa Ornella, ex-colega de trabalho da Sorriso Maracanã, um blog visitadíssimo desde que foi catapultado à condição de nacionalmente conhecido depois de mencionado nas páginas de O GLOBO.

Não posso, também – eu avisei que o discurso seria modorrento -, deixar de agradecer a todos aqueles que freqüentemente estão com os cotovelos apoiados no balcão do BUTECO dando seus palpites, seus pitacos, baixando o sarrafo ou não, dando ainda mais graça a esse canto. Muito por causa de todos – embora eu escreva, diariamente, pensando apenas no Szegeri (que nem sempre me lê, num exercício de humilhação que o satisfaz) – eu faço questão de arrumar uma brecha, sempre, durante minhas manhãs, para fazer disso aqui um blog atualizado diariamente. Não vou citar nomes, pô!, que seria um exercício perigoso, cansativo para um sábado de sol, e tornaria tudo ainda mais modorrento.

Como eu não sou de ferro, estou, nesse momento, onze da manhã de sábado, indo ao Rio-Brasília encontrar um irmão, o Simas. Lá, também, vou encontrar dois paulistas sedentos de Rio de Janeiro que – graças ao BUTECO – chegaram até mim, e com quem troco emails há algumas muitas semanas. Eles têm, hoje, um objetivo definido: conhecer o Rio-Brasília.

São eles, Eduardo Rodrigues e Stocker, dois malucos que vieram ao Rio com o Tulípio. Vocês podem conhecer os três aqui.

Eu já os conheci ontem, na rua do Ouvidor, na livraria do meu coração, que conquistou o coração dos três.

Eu espero ter novidades pra contar em breve.

Torçam. E aguardem.

Até. E obrigado por tudo!

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“AMORES EXPRESSOS”: NOJO ANUNCIADO

Vocês hão de me permitir fugir, muito, dos temas afeitos a este balcão. Até mesmo porque em buteco – os verdadeiros, não as mentiras que tentam nos impor – não se acende vela pra pouco defunto. Em buteco se discute a vida real, o jogo da véspera, a decisão do final de semana, a bunda mais tesuda do covil, esses troços fundamentais que fazem a vida valer a pena. Mas como estamos diante de um fato que envolve dinheiro público, fiquei a fim de fazer a cuíca roncar por essas bandas. Não sei se estamos exatamente diante de um fato – vocês farão seus julgamentos -, ou de um projeto (e desde que o Brasil passou a ser invadido por projetos, formatadores de projeto, coordenadores de projeto, a coisa desandou de vez…), mas é fato que estamos diante de um escândalo. E como escândalo dá pano pra manga, vou dividir com vocês muito mais que minha indignação: minha repulsa, meu nojo, meu ódio e minha golfada olímpica pra cima da coisa. Explico.

Tomei ciência do escândalo lendo o “no mínimo” – leiam aqui. E fiquei sabendo – transcrevendo os trechos mais elucidativos – que:

“O projeto “Amores expressos” vai mandar 16 escritores brasileiros (…) passarem um mês com tudo pago em alguma cidade do mundo, de onde eles se comprometem a voltar com um romance de amor para ser publicado pela Companhia das Letras (embora a editora se reserve o direito de só aproveitar parte do material) (…).

A notícia do projeto, idealizado pelo produtor cultural Rodrigo Teixeira, (…).

Parte do burburinho se explica pelo custo total do projeto: R$ 1,2 milhão, grana vistosíssima num mercado franciscano. O fato de “pouco menos de metade” desse valor, segundo Teixeira, ser dinheiro de renúncia fiscal, captado ou ainda em fase de captação pela Lei Rouanet, contribui para a polêmica – uma polêmica que, justiça seja feita, deveria ir muito além desse caso e envolver um debate sério sobre o próprio mecanismo de financiamento de produtos culturais pelo contribuinte. Não menos ruidosas são as críticas provavelmente inevitáveis à lista de eleitos, elaborada por Teixeira e pelo jovem escritor carioca João Paulo Cuenca, contratado como “coordenador editorial”.

Será que se trata, afinal, de uma jogada de marketing brilhante pela capacidade de “esquentar” uma atividade – a ficção made in Brasil – sabidamente pouco atraente para investidores? Ou de um chamativo bolo midiático em que a ficção entra no papel de cereja? Ou ainda, como escreveu com rapidez no gatilho o escritor Marcelo Mirisola (uma das incontáveis ausências na lista dos 16) em carta publicada na “Folha” de domingo, de uma ação entre “amigos de farra”, com “um ou dois figurões acima de qualquer suspeita” para disfarçar?

“Os critérios de seleção foram de afinidade literária, interesse editorial e química com as cidades de destino”, diz Cuenca, acrescentando que Mirisola “não merece resposta”. Teixeira inclui a palavra “gosto” entre os critérios de seleção, mas isso talvez seja um sinônimo de “afinidade”. “A gente pensou em muitos outros nomes, e pode ser que um ou outro tenha ficado chateado, mas um projeto com 35 seria inviável”, afirma. A decisão de incluir autores que nunca publicaram um livro próprio explica a presença na lista de nomes verdes como Antonia Pellegrino, Cecília Giannetti e Chico Mattoso, enquanto o time dos consagrados é defendido por Sérgio Sant’Anna, Bernardo Carvalho e Marçal Aquino.

Segundo a diretora editorial Maria Emilia Bender, a Companhia das Letras se associou ao projeto porque seis dos selecionados são autores da casa e porque ele dá à editora a oportunidade de “eventualmente abrir seu leque para um autor brasileiro novo, coisa que a gente está sempre buscando”. No entanto, manifestações de insatisfação entre outros escritores da Companhia levam Maria Emilia a frisar que o projeto não é da editora, mas de Rodrigo Teixeira. “A plêiade, digamos, não foi eleita por nós”, diz. Acrescenta que todos os autores, mesmo os que têm vínculo com a casa, toparam correr o risco de ter o livro rejeitado. “Isso nós deixamos bem claro aos organizadores, mesmo porque a lista é bem heterogênea no que diz respeito à experiência”, afirma.

Quem for de fato publicado ganhará da Companhia adiantamentos de praxe no mercado, calculados com base numa tiragem de 3 mil exemplares. Publicado ou não, porém, cada autor embolsará da empresa de Rodrigo Teixeira, limpos, R$ 10 mil a título de cessão de direitos (…). As despesas de viagem não estão incluídas nesse valor.

Sobre a pauta, vagamente reminiscente de primeiro capítulo de novela das oito da Globo – a busca de uma história de amor em alguma cidade estrangeira –, Maria Emilia é cautelosa: “Dependendo do autor, qualquer pauta vale. Ou não”. Rodrigo Teixeira aposta na viagem como “uma forma de abrir mais a cabeça dos autores, independente da qualidade do material que vai sair”.

Em abril, embarca a primeira leva: Antônio Prata (Xangai), Cecília Giannetti (Berlim), Daniel Galera (Buenos Aires), João Paulo Cuenca (Tóquio) e, no único destino doméstico, o jovem goiano André de Leones (São Paulo!). Em maio, Amilcar Bettega (Istambul) e Joca Reiners Terron (Cairo). Em junho, Adriana Lisboa (Paris), Chico Mattoso (Havana), Lourenço Mutarelli (Nova York) e Reinaldo Moraes (Cidade do México). E em setembro, fechando a temporada, Antonia Pellegrino (Bombaim), Bernardo Carvalho (São Petersburgo), Luiz Ruffato (Lisboa), Marçal Aquino (Roma) e Sérgio Sant’Anna (Praga).”

Eu não vou ficar aqui, francamente – como diria meu eterno e saudoso Governador Leonel de Moura Brizola – discutindo o óbvio. O óbvio – e é justamente o óbvio que dá nojo, que provoca engulhos – salta aos olhos de quem toma ciência do (pausa para vomitar) projeto. Mas quero falar sobre outra coisa. Acompanhem.

O “coordenador editorial” do projeto (as aspas não são minhas) é um escritor, a meu ver, que não tem nada – nada, em negrito – a dizer. E jornalista (quer dizer… não é beeeeem jornalista, embora escreva para um jornal; é economista – o que talvez explique tudo). Daí lembro-me da frase que ouvi, dia desses, no Rio-Brasília, de um sujeito a quem respeito, dando sua opinião em voz alta:

– O problema da literatura brasileira contemporânea está no fato de que tem muito jornalista que escreve mal pra caralho querendo fazer literatura…

Deu um gole no maracujá e arrematou:

– … daí só sai merda!

Mas voltemos ao projeto.

O “coordenador editorial” escreve para o jornal O GLOBO. É colega, portanto, da plagiadora (leiam aqui). Colega do jota, o responsável pelos 33 atentados que denunciamos, até o momento. E é sobre as merdas que ele disse que quero me debruçar. Tomem nota da frase escrota de autoria do tal “coordenador editorial”:

“Os critérios de seleção foram de afinidade literária, interesse editorial e química com as cidades de destino.”

Pausa para o vômito.

Antes, porém, um pedido, um desejo: se esses dezesseis agraciados com dinheiro público têm “química com as cidades de destino”, por que não ficam por lá pra sempre? Morrem lá sem nunca mais pisarem aqui? Por que? Vamos voltar.

Escândalo dos escândalos? O “coordenador editorial” não vai apenas coordenar a mamata coletiva. Não! Não! Ele também vai viajar, porra! É, ele, um dentre os dezesseis premiados com uma viagem de trinta dias com tudo pago pelo erário. Como estamos falando de R$1.200.000,00, e como são dezesseis os escolhidos, e como cada um vai passar trinta dias viajando, estamos falando de R$2.500,00 POR DIA para cada um.

Entre esses dezessseis estão, é claro, amigos do “coordenador editorial” e do “produtor cultural”.

Querem vomitar mais? Atenção para o que disse o “produtor cultural”… O “produtor cultural” aposta na viagem como “uma forma de abrir mais a cabeça dos autores, independente da qualidade do material que vai sair”. Maravilha, não? Eu pago, você paga, todos nós pagamos – e caro – para a patota sair voando pelo mundo para abrir a cabeça.

Eu imagino o diálogo no saguão do aeroporto. Diz o “coordenador editorial”, recém-chegado de Tóquio, para a amiguinha embarcando pra Bombaim:

– Vai lá, Totô, vai! Viaja, curta m-u-i-t-o, gasta t-u-d-o, seja p-o-d-e-r-o-s-a e abra essa sua cabecinha. E não se preocupe com a qualidade do material que você tem que escrever, tá?

E ela, dando pulinhos de alegria, rodando a Louis Vuitton:

– Você é tudibom!!!!! Dá beijo aqui, dá…

É de fuder. Com “u”, antes que um babaca queira me corrigir.

É nojento isso tudo. Dezesseis pessoas e uma editora – que já tem seis dos dezesseis como “autores das casa” – agraciadas com um milhão e duzentos mil reais para um passeio 0800, como se diz em balcão de buteco.

Por que um filhodaputa qualquer não pensa num projeto desses ambientado no Rio de Janeiro? Por que não mandar Antonia Pellegrino (sem o negrito) para escrever uma história de amor no Irajá, hospedada trinta dias por lá? Ou não é possível uma história de amor no Irajá? Por que não mandar o “coordenador editorial” – que nunca deve ter atravessado a fronteira que o separa da zona norte – para uma experiência química em Nilópolis, Nova Iguaçu, em Marechal Hermes?

Porque são todos uns merdas. E eu digo todos sem apontar o indicador no focinho de alguém. Todos os que chamo de merdas são todos os babacas que vivem à margem da realidade – por isso não são assunto, nunca, dentro de um buteco -, são todos os que se acham capazes de escrever uma história de amor em terras distantes sem a capacidade, básica, de viver uma história de amor com sua gente, porque são mentirosos, porque são uma invenção da mídia de merda que atropela a moçada que está aí, começando a viver a vida.

A escumalha e a canalha que estende faixinha na janela escrito “BASTA” – contra a violência, latem – acha lindo ver seus filhotes e seus vizinhos mamando nas tetas do erário.

Com licença, meus poucos mas fiéis leitores: vão todos vocês – em quem entrar a carapuça, muito bem! – tomar no cu.

Até.

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>MARCÃO, O PRECURSOR

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Vejam bem… Eu sei que eu sou implacável. Implacável e preciso. E reconheço, como agora, que essa minha implacabilidade beira, quase que sempre, a perfeição. E reconheço, mais, que tudo isso deve-se ao convívio com Dona Obsessão, essa moça que não larga do meu pé.

O Marcão, glorioso Marcão, escreveu, há pouco, comentando o texto “AINDA O BORGONOVI” – leia aqui – cheio de um estranhíssimo orgulho, a seguinte pérola:

“Opa!!

Sou precursor desse número. Já dormi em mais de trinta botecos diferentes e em TODAS as festas da agenda do samba e choro. Vejo que o Borgonovi vai pelo mesmo caminho.

Sabe tudo esse garoto!!!”

E eu, como sou preciso do início ao fim, e como nada escapa às lentes de minhas câmeras – digitais ou não – faço questão de dizer que eu vi, eu vi e é verdade.

Fiquem com essa imagem do Marcão.

É de 2000, durante a festa do V aniversário da “Agenda do Samba & Choro”.

E notem como o nosso Marcão dorme muito, mas muito, muito mais à vontade que o Borgonovi. O Borgonovi – que “sabe tudo”, quem diz é o Marcão – ainda tem muito o que aprender sobre a matéria.

Marcão, em 2000, no V aniversário da Agenda do Samba e Choro

Até.

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AINDA O BORGONOVI

Foi o próprio Borgonovi quem revolveu minha memória quando escreveu ontem, nos comentários ao texto do dia:

“Quando conheci o Edu – antes de conhecer, porque não esperei me apresentarem -, dirigi-me com a seguinte assertiva: “Copias descaradamente o Nélson Rodrigues, não?”. E conclui: “Pois é isso que me fez te achar um boa praça sem te conhecer”. Terminei suplicando de maneira abjeta para que o malandro fosse meu amigo – mas tudo por admiração ao Nélson, fique claro.”

Estamos, então, em 26 de dezembro de 2005.

Foi esse, precisamente esse, o dia em que eu conheci Fernando Borgonovi, o Borgô. Não no Rio. Não em São Paulo. Mas em Niterói. Vou explicar.

Havia, naquele dia, naquele 26 de dezembro, uma roda de samba em Niterói, organizada por dois grandes praças, o Zé Sergio e o Augusto, para comemorar o final do ano.

Fui com a minha Sorriso Maracanã.

E lá chegando – lembro-me bem, e me ajudam as fotografias – dei de cara com o Augusto. E dar de cara com o Augusto, desde um vergonhoso episódio que vivi no Trapiche Gamboa, leiam aqui, é sempre uma festa. É sempre uma festa e é sempre uma oportunidade, justamente, para reparar aquele vergonhoso equívoco que me rendeu um pito olímpico dado pelo Szegeri. Dei de cara com o Augusto e o Augusto estava, justamente, abraçado a um camarada que algemou-me imaginariamente assim que me viu ao alcance de suas mãos. Com as mãos cravadas nos meus pulsos, bafejou:

– Você é o Eduardo Goldenberg? – tinha um bafo horrendo, lembro-me pefeitamente, e sua voz soava emocionada.

Borgonovi e Augusto, 26 de dezembro de 2005

O Augusto interveio, já bêbado:

ChuapresentáocêsEduvorgonovi, Vorgonoviedu

O tampinha ajoelhou-se diante de mim.

Pausa para curtíssima digressão.

Nunca, ninguém, ajoelhou-se diante de mim com tamanha devoção. Os olhos do sujeito brilhavam, e ele – como o menino diante do Zico – ficava repetindo para um atônito Augusto:

– Eu vi o Edu! Eu vi o Edu!

Voltemos ao enredo.

Eu disse algo como “deixa disso” e ele, num salto, ergueu-se diante de mim:

– Posso pedir-te um troço?

Olhei pro Augusto, que fez que não com a cabeça.

– Fala.

E ele, aos gritos:

– Seja meu amigo, porra! Pelo amor de Deus! Seja amigo meu!

O Augusto, cochichando ao pé do meu ouvido:

– Eu avisei.

Em segundos o Borgonovi sacou da mochila um exemplar de meu livro, “Meu Lar é o Botequim”, que eu lançara havia duas semanas, em 12 de dezembro (sobre o lançamento do livro no RJ, leia aqui). Estendeu o livro pra mim e disse:

– Dedicatória! Dedicatória!

Eu, solícito, puxei a caneta do bolso da calça e abri o livro sobre a mesa. Ele falando baixinho:

– Minta, minta, minta! Mas escreva aí… “Ao meu amigo Borgonovi…”!

Tasquei lá.

Afinal – pensei – o livro é de ficção, e a dedicatória que seja também!

Quando devolvi o livro ao Borgonovi ele tornou a se ajoelhar diante de mim. E gritava, como um possuído:

– Eu vi o Edu! Eu vi o Edu!

Bebeu muito, naquela tarde, o Borgonovi. A cada garrafa derrubada, ele dizia:

– À nossa amizade!

Até que caiu.

E dormiu à mesa.

Fernando Borgonovi, 26 de dezembro de 2005

Foi a primeira vez que vi a cena: o samba comendo solto, a cuíca roncando, e o Borgôroncando (imitando a cuíca), despudoradamente, bêbado, borracho, sentado à mesa.A última vez que vi a cena?

Semana passada.

Trata-se de um número clássico borgonoviniano.

Até.

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BORGONOVI, O BORGÔ

Eu sou um sujeito íntegro. Acho que herdei minha integridade, minha condição de incorruptível, de meu bisavô, a quem não conheci, o Dr. Monteiro de Barros, de quem eu ouvia falar entre o abanar dos leques das mulheres da família:

– Presidiu a Costeira e não aceitou um tostão em troca de falcatruas!

– Um santo homem!

– Morreu pobre!

Esses troços.

Fiz este intróito para lhes dizer que se ontem eu disse que tornaria pública a história de um amigo mas preservaria seu nome – leiam aqui – e que se hoje eu vou não apenas dar seu nome como ainda disponibilizar para vocês duas fotografias bastante elucidativas da figura em foco, isso não significa, em absoluto, desvio de caráter, quebra da palavra empenhada, nada disso, nada que envergonharia meu bisavô, se vivo fosse. Ao contrário. Muito ao contrário! Pretendo, apenas, com a explícita revelação da identidade do protagonista da história de ontem, lustrar e polir a vaidade do próprio. Explico.

Eu não citei, quando lhes contei a história do dia de ontem, o nome do cidadão. Um amigo do sujeito escreveu lá um comentário e, como eu, manteve o anonimato do cara. Veio em seguida outro amigo e tascou mais um comentário. E nada de dar nome ao boi.

Ocorre que – notem do que é capaz a vaidade humana! – o próprio protagonista pôs o rosto e suas acnes na janela. Eis o que escreveu, nos comentários ao citado texto, o Borgonovi, mais conhecido, aqui no Rio, como Borgô:

“Vou me deter a outra parte do texto, por motivos ululantemente óbvios.

Quando conheci o Edu – antes de conhecer, porque não esperei me apresentarem -, dirigi-me com a seguinte assertiva: “Copias descaradamente o Nélson Rodrigues, não?”. E conclui: “Pois é isso que me fez te achar um boa praça sem te conhecer”. Terminei suplicando de maneira abjeta para que o malandro fosse meu amigo – mas tudo por admiração ao Nélson, fique claro.

Quero dizer a quem interessar possa: em minha humilde opinião, quem não gosta (e talvez quem não copie) do Nélson Rodrigues não vale um vintém de mel coado. Só os lorpas e os pascácios (como diria o próprio) não são convictos rodrigueanos.

Portanto, Edu, se te acusam, te acusam de ser inteligente.

Quanto à anã que não é anã, certamente é a mulher mais linda e mais fantástica da Tijuca, Estácio, Aldeia Campista, Vila Isabel e adjacências. Quiçá do Rio e quiçá do Brasil. Outros lugares do mundo eu não conheço, porque só acredito na felicidade em português. E português daqui.

Enfim, o sujeito em questão, é um cara de muita sorte.

Abraço,

Borgonovi”

Eis aí a bandeira desfraldada.

Feitas as considerações que me eximem de qualquer responsabilidade, vamos à mais uma história envolvendo essa grande figura, minúscula entretanto, se é que me entendem.

O Borgonovi esteve no Rio, no ano passado, nos dias 26 e 27 de julho. E quando ele vem ao Rio – os amigos de São Paulo devem poder atestar – ele começa a me ligar desde a rodoviária com frases borgonovinianas. E a primeira frase é sempre a mesma:

– Estou saindo da cidade esquecida por Deus e partindo em direção ao doutor Rio de Janeiro.

Veio ao Rio, o palmeirense Borgonovi, para assistir à final da Copa do Brasil entre Flamengo e Vasco. Digo isso e faço minha intervenção: eu não atravesso sequer a Ponte Rio-Niterói para ver um jogo do Palmeiras. Entretanto, demonstrando a força da nação rubro-negra, o bom Borgonovi toma um ônibus e viaja por seis horas em busca do Flamengo.

Viaja por seis horas em busca do Flamengo e traz, na mala, planos ardilosos contra o patrão da hora. Explico.

Ao menos foi assim naquele já distante julho de 2006. Chegou, o Borgonovi, e fazia um sol de rachar. Fez um sol de rachar no dia 26 e fez um sol de rachar no dia 27. E foi na manhã do dia 27, que ele me disse, assim que me viu, no Rio-Brasília, para onde fui convocado, como de costume:

– Preciso acordar cedíssimo amanhã… – riu altíssimo.

– Por que?

– Fui convocado pelo Julio para um trabalho amanhã às dez, em São Paulo. Tenho passagem para às sete e meia. Você acha que eu vou? – e, como dizem os paulistas, rachou o bico de tanto que ria, abanando-se com a passagem aérea.

Eu propus:

– Vamos à praia?

E ele, já de pé, e já arriando a bermuda, ficando apenas de sunga em plena Almirante Gavião, para horror das senhoras no salão de beleza ao lado do Rio-Brasília:

– Já tô na praia!

Nas areias de Ipanema, um espetáculo dantesco. Passava uma menina, 12, 13 anos, e ele relinchava na cadeira:

– Minha Nossa Senhora! Meu sonho é casar com essa moça, trabalhar como um mouro e todo dia cinco, ó, plim!, jogar todo meu salário na sua conta… Sabe pra quê?

– Não.

– Pra passar o resto do mês pedindo cinco, dez, quinze reais a ela, pro cigarro, pra cachaça, pra cerveja…

Só falando merda.

Até que, já semi-bêbado, começa a discursar contra o Julio, o patrão da hora.

Na foto abaixo – notem o biquinho do Borgô (mais Borgô que nunca graças ao biquinho) fazendo o “jota” de Julio – ele dizia textualmente:

– Julio, meu filho, você acha realmente que eu vou sair do doutor Rio de Janeiro amanhã às sete e meia da manhã? Ô, lôco!

Fernando Borgonovi em Ipanema, 27 de julho de 2006

E foi ao mar.

Antes de chegar no mar propriamente dito, arremessou uma bolinha de papel em direção às ondas. O repreendi na volta:

– Lixo no mar?

– Nada! Oferenda pra Iemanjá. Uma passagem Rio-São Paulo, amanhã, sete e meia da manhã! – e deu de rir feito Exu-Caveira.

E eis que transcorreu o dia.

Nosso herói foi ao Maracanã.

Assistiu à vitória do Flamengo.

E chegou em casa, meus poucos mas fiéis leitores – ficou hospedado em nossa casa na noite do dia 27 – sem o celular (roubado), sem a carteira (roubada), sem a chave que emprestei a ele (perdida) e sem conseguir ficar em pé.

Dani, tadinha, sempre atenciosa e carinhosa com os meus – que passam a ser dela também – fez uma cama cheirosa para um indigno Borgonovi.

Fernando Borgonovi, 27 de julho de 2006

Como um traste, como um resquício de ser humano, fedendo como nem sei lhes dizer o quê, um rato morto, provavelmente, dormiu jogado num dos puffs da sala, não sem antes beber uma cachaça, no gargalo:

– Vai beber mais, Fernando? – perguntou preocupada minha Sorriso Maracanã.

– Ao Julio, porra! Ao Julio!

Não trabalham mais juntos, não preciso lhes dizer.

Até.

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NELSON RODRIGUES, A INEVITÁVEL INFLUÊNCIA

Não foi uma, não foram duas, não foram três pessoas que já me apertaram o nariz com o indicador acusador, no meio da rua, aos berros:

– Chega de imitar o Nelson Rodrigues, chega!

Eu, que sou, antes de tudo, um tímido, costumo responder olhando pros meus próprios pés:

– Tá bom. Desculpa?

Nunca ninguém me respondeu.

O fato é que não há – é incontestável – como fugir da influência rodrigueana. Li, reli, comi, mastiguei, digeri, li de novo, todos os livros do Nelson. Todos, eu disse. Toda sua obra no teatro. Toda. E sou, na matéria, um obsessivo nato. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi a Dani dizer, desoladíssima:

– Mas outra edição de “Asfalto Selvagem”?

– Edu, meu amor… “A Vida Como Ela É”????? Já não bastam as edições que temos?

Por aí.

Mas contei-lhes isso apenas para fazer o intróito da verdadeira história que torno pública sem piedade. Porque a história, meus poucos mas fiéis leitores, parece ter saltado da jurrásica máquina de escrever do anjo pornográfico. A história, o homem, a mulher amada, o defeitinho de nascença, a rua óbvia, o único bairro possível. E eis aí o que eu gostaria de lhes provar, sem com isso querer me defender da acusação sórdida que me fazem os indicadores pressionando meu nariz: as histórias que soam como rodrigueanas aos ouvidos ou aos olhos de alguns – há, eu sei, leitores que lêem o Buteco em voz alta -, pululam, se multiplicam, dão brotos e dão frutos em cada esquina da zona da cidade que freqüento, a norte, evidentemente.

Há um amigo meu – e se torno pública sua história não tornarei público seu nome – que bateu-me o telefone há uns meses. Foi grave:

– Edu?

– Arrã.

– Estou apaixonado por uma carioca.

– Mas que tragédia. Quem é? Eu conheço?

Pausa.

Eu disse “mas que tragédia” porque meu bom amigo mora no Jaçanã. E morar no Jaçanã, que fica em São Paulo, já faz dele um ser humano, no mínimo, digno de atenção. Eu, por exemplo, quero fazer a confissão pública, à beira dos meus trinta e oito anos, pensava que o Jaçanã fosse uma invenção do Adoniran Barbosa criada apenas para rimar com “só amanhã de manhã”.

E ele:

– Não.

Seguiu-se um silêncio maçante. Afinal, o que poderia eu dizer depois do “não” do cara? Ele mesmo continuou depois de tossir:

– Ela é anã.

Notem bem uma coisa. Eu não tenho nenhuma tendência ao deboche ou à pilhéria. Mas conhecer um cidadão – e mais do que conhecer, conversar com um cidadão, ao vivo, pelo telefone! – que namora uma anã é, como diz a piada, o equivalente a conhecer alguém que já foi ao enterro de algum anão.

Eu urrei:

– Anã?!

– Anã.

Minha sorte foi estar usando o telefone sem fio. Eu rolei corredor afora, do banheiro à cozinha, da cozinha ao banheiro. E ria. E ele:

– Tá rindo de quê?

Não consegui responder. E ele:

– Há outro detalhe…

Imaginei horrores que nem vou reproduzir:

– Desembucha!

– Ela mora na rua do Matoso, Edu! Eu estou apaixonado por uma anã que mora na rua do Matoso! A Anã da Matoso! A Anã da Matoso!

E ficou gritando o nome da personagem que ele mesmo criou – a Anã da Matoso – que lhe tirava o sossego.

Vou fechar a história de hoje, agora.

E vocês perceberão como são as coisas. E tirarão, cada um a seu modo, suas próprias conclusões sobre o que encerra o episódio.

Passaram-se semanas e ele veio ao Rio. Como sempre faz quando vem, bateu-me o telefone cedíssimo, num sábado:

– Desça! Estou no Rio-Brasília!

Lá fui eu.

Daí tem toda aquela papagaiada, abraço pra cá, tapinha nas costas pra lá, pedimos cerveja, pastéis, maracujá, e ele apoiou os dois cotovelos na mesa forrada com plástico verde. Disse-me, seriíssimo:

– Ela está vindo pra cá encontrar-se conosco…

Eu, dando uma bicadinha no maracujá, distraído, disse:

– Ela, quem?

– A minha anã.

Infelizmente é necessário lhes contar essa passagem nojenta para que eu seja preciso, como de costume. Eu lancei, no susto, um jato de maracujá na camisa do Palmeiras que meu amigo vestia.

Joaquim,  sempre solícito, veio com o paninho de prato.

E meu amigo, pacientemente enxugando a camisa:

– Mas antes preciso te contar uma coisa…

– Desembucha!

– Ela não é anã. Era brincadeira minha…

Empalideci.

– E tem mais…

– Desembucha…

– Mora na Barão de Ubá. Não na Matoso.

Eu assumo: eu parecia um possesso.

Eu parecia um possesso e o Joaquim, de dentro do balcão, olhava-me assustadíssimo enquanto eu suspendia meu amigo do chão, pela gola da camisa verde e branca, gritando furioso:

– Não quero conhecê-la, canalha! Nunca! Nunca! Mentiroso! Traidor! Sua besta! Para mim, animal, você é apaixonado, namora, vai casar e ter filhos com a Anã da Matoso! Filhodaputa! Calhorda!

Fui contido por Deus, garçom prata-da-casa.

Até hoje – creiam em mim! – não conheço a namorada desse amigo. Em mim e para mim ela é, e será sempre, anã, gorducha, bochechuda, morando num simpático três andares na rua do Matoso, perto do Mundial.

Até.

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>JANIR SENTA O CACETE NO BOTEQUIM INFORMAL

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E o Janir, corajosíssimo jornalista de O DIA, prossegue em sua missão hercúlea de denunciar os bares-mentira, os bares de merda, os bares-franquia que, como uma metástase, asfixiam a cidade, os modos cariocas e nosso maior patrimônio: o buteco de verdade.

Eu espanco esse lixo que atende pelo nome de Botequim Informal (sem o negrito, imerecido) há muito tempo, e vocês podem ler, aqui, o quanto é verdade que minha perseguição é implacável e coerente, já que são, até o momento, dezenas de textos sentando a borduna imaginária pra cima dessa merda, todos eles publicados aqui no BUTECO.

No dia 10 de março, o Janir, em seu blog RIO DE BOTEQUINS, já havia espancado o Conversa Fiada (sem o negrito, imerecido), um fiasco que tenta passar por buteco, leiam aqui.

Eu, inclusive, pensando dia desses sobre o papel que o Janir vem desempenhando na imprensa – nunca, até hoje, ninguém bateu com tamanha força nesses bares de merda que gastam fortunas com assessorias de imprensa que saem por aí cooptando todo mundo -, pensei alto:

– O nome dele começa com jota!!!!!

Eis, então, a disparidade aguda que diferencia um jornalista preocupado em informar sem medo de dizer a verdade – o Janir Junior – e outro que, como os trinta e três atentados apontados nos links aí ao lado demonstram, não entende rigorosamente nada do riscado, mas não deixa, sabe-se lá a troco de quê, de mencionar, um a um, com impressionante regularidade, esses lixos que empesteiam a cidade – o jota.

Breve pausa para digressão e um delírio: desde janeiro que o jota não adula um lixo desses. O que será que aconteceu? Cessaram as injunções das assessorias de imprensa? Fizeram efeito os emails que – eu sei – bombardeavam o jota e sua equipe? Será que o bordão “não passarão!”, bradado constantemente pelo Simas – não por acaso irmão do Janir – está, de fato, se concretizando com relação ao homúnuculo?

De volta.

Hoje, em seu blog, que vem se destacando justamente pelo serviço de utilidade pública consubstanciado no ato de denunciar essas mentiras sórdidas, o Janir espanca, sem dó nem piedade, o Botequim Informal, leiam aqui.

Eis a íntegra do texto cujo título é “Botequim Informal, não. Restaurante Formal, fake e clean, sim”:

“A rima é pobre, não me levem a mal. Mas chamar de botequim o Informal é equívoco nominal ou algo de imoral. Caso fosse restaurante, a casa modernosa nem mereceria o post. Afinal, com pratos requintados, preço bem alto e estilo fake/clean, o lugar bem poderia estar no roteiro da high society carioca. Mas, por favor, assim como ninguém deve usar o nome de Deus em vão, também não façam o mesmo com botequim, um termo sagrado.

As paredes são de tijolinhos, os acepipes não devem ser tocados por questão de higiene e o clima lembra São Paulo (vamos parar aqui?!). A terra que é da garoa é também a terra que tenta copiar os botequins cariocas, sem sucesso, mas com exceções. Cometi uma heresia e passei no Informal para beber um chope, somente assim teria o direito de comentar aqui. Quem freqüenta defende aquele copão com espuma cremosa. Nem de longe lembra a Brahma gelada de casco escuro. O preço não vale, muito menos o ambiente. Gatinhas da moda, garotos bombados e o pessoal requintado se espalham pelas mesas do Informal, que poderia mudar de nome: Restaurante Formal seria bem mais adequado. Tem costelinha com aipim frito e jiló à milanesa, pratos com cara do caríssimo restaurante Alho e Óleo, no Flamengo.

O caldinho de feijão vem com tira de cenoura, isso mesmo. O arroz vem em forma de torres…quanta formalidade. Bem que eles tentaram ser botequim com porção de jiló, mas não conseguiram. A crítica aqui não é sobre a qualidade ou higiene (o lugar é extremamente limpo) do Informal. Mas não usem o santo nome do botequim em vão.”

Até.

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