SIMAS E SEU PESADELO DA HORA

Ontem à noite estive, na doce companhia do Simas e da Candinha – uma santa – jantando no Huan Lian, restaurante chinês escondido e encravado na Praça da Bandeira, na Tijuca (onde mais eu jantaria?), tremenda descoberta minha e da Dani, comandado pelo Lin e por sua família. Éramos, como sempre acontece, os únicos ocidentais no pedaço. Fartamo-nos com um Pato à Cantão que custou R$40,00. Eu disse isso – o preço – só pra contar que no restaurante metido à besta do Eike Batista, na Lagoa, a mesmíssima iguaria custa pra lá de R$200,00. Pose – como diria o Manoelzinho Mota, com a licença do Simas – é foda. Pigarreio, arroto (o pato) e sigo.

Enquanto jantávamos, eu gemia de saudade da minha garota, viajando a trabalho. Até que eu disse, com o olhar distante, fixado no mais feio lustre de toda a Tijuca, violáceo com detalhes prateados, quiçá da China:

– Detesto dormir sem ela… Não tenho ânimo sequer pra vestir o pijama quando chego em casa…

Foi eu dizer essa frase e a Candida, que chegou a deixar cair sobre a mesa o osso da coxa do pato que chupava, lamentou, grave, fazendo bico e revirando os olhinhos:

– Por que é que você foi falar essa palavra, Edu?!

Eu ia responder, quando o Simas, feito um possesso, tomou a direção do banheiro.

– Que palavra, Candinha?

Ela, checando se ele a ouvia:

– Pijama.

– Pijama?

– Desde que eu dei ao meu irmão, no Natal, um pijama de presente, que o Luiz Antonio reclama um pijama pra ele… É tipíco dele, Edu, um ciumento…

Pausa explicativa: a Candida nunca – com a ênfase szegeriana – chama o marido de Simas. Assim como a Luísa nunca – idem, idem – chama o Prata de Prata.

Volta o Simas à mesa.

caricatura de Luiz Antonio Simas, por Stocker

Tem os olhos vermelhos, a face afogueada. Senta-se. Senta-se e dá um murro na mesa. Entre dentes, num acesso de bruxismo às escâncaras, mas num tom bruno, diz baixinho:

– Você usa pijamas?

Antes mesmo de eu responder, ele emenda:

– Aliás, você tem pijamas?

Eu, não mentindo, mas provocando de leve, respondi como se puxasse pela memória:

– De seda ou de algodão?

Tomei um chute da Candida – que calçava um All Star estampado com personagens de hitórias em quadrinhos – por baixo da mesa.

– Você tem dos dois? – perguntou o Simas, aflito.

– Sem contar os de flanela…

– Flanela? – e danou de chorar feito criança.

Candida me deu outro bico e nem disfarçou:

– Tá satisfeito?

E ficou fazendo cafuné na careca do marido.

Eis aí, meus poucos mas fiéis leitores, um espetáculo kafkiano.

Não há, no alto da cabeça do protagonista de hoje – ou mesmo do lado, atrás – um único projeto de fio de cabelo. Não há a mais remota expectativa de um fio de cabelo. Não há a esperança, mesmo distante, da mais remota penugem. Um tufo, que seja. Nada. O Leo Boechat, por exemplo, é uma Rapunzel ao lado do Simas. Daí a barbaridade que foi assistir a Candinha fazendo carinho com os dedinhos naquela superfície árida como se enrolasse cachinhos imaginários.

Simas foi amansando.

Da aparente revolta passou ao estado de tristeza absoluta.

Fez beicinho.

Deixou cair uma única lágrima do olho direito, que enxugou com o dedo médio da mão esquerda.

E falou, trêmulo, como que discursando, enquanto bebericava o chá de jasmim:

– Candida… me prometa que de amanhã não passa! Ou não durmo nunca mais, Candida! Um homem que dorme sem pijamas é um homem sem-caráter. É um nu. É um indecente indigno! Quero pijamas, Candidas! Vários! Vários! – foi num crescendo.

Ela, doce, sorrindo em direção ao Lin (frase na testa: não ligue, senhor, meu marido é um desequilibrado):

– Prometo, Luiz Antonio…

– Quantos, Candida?

– Quantos você quer, Luiz Antonio?

E ele, de primeira:

– Somando todos, Edu… Quantos você tem?

– Uns vinte.

– Quero quarenta, Candida. No mínimo!

Como se vê, um doente.

Até.

11 Comentários

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11 Respostas para “SIMAS E SEU PESADELO DA HORA

  1. >Edu, eu nunca dormi de pijama! Eu abomino pijamas, Edu! O único pijama digno que vi na vida foi o do Merinho (passa lá no Pátria e dá uma lida). Um pijama azul, com a letra “M” em bordô brilhante, bordada no bolso da camisa). Quantas vezes não vi o Merinho descer do apartamento, noite alta, para beber a derradeira no balcão do City Bar, usando seu indefectível pijama. Isso sim é orgulho do pijama. Simas precisa conhecer o Merinho.

  2. >Mês passado, Edu, ganhei do afilhado de minha mãe (um fervoroso flamenguista, de recentes sete anos completados) um pijama do Homer Simpson. Confesso que no momento em que o moleque me presenteou, senti-me orgulhoso e emocionado. Não pelo presente em si, mas pelo sarcasmo do pirralho – precisava ver seu sorriso debochado, esnobe…Ademais, Edu, o Simas é e sempre será um gênio!

  3. >Cândida, caríssima, não te desesperes. Amarildo, velho, você será um homem feliz. Venham a São Paulo e eu vos levarei à loja do velho Salomão, no Bom Retiro. Pijamas de flanela, de algodão, de seda, curtos, compridos, listadinhos, azuis com bolinhas brancas, com bolsos. Além de chinelos, chambres de variados tecidos e estampas etc. Tudo isso a preços módicos. E o judeu é bom de jogo.

  4. >Szegeri: meu aniversário, você sabe, está chegando. Dia 27 de abril (no mesmo dia, aliás, em que nasceu a Sra. Luíza Prata, e talvez por isso o guri me queira tão bem).Seria fabuloso eu ganhar pijamas do lojinha do velho Salomão. Pijamas com bolso, compridos e curtos, fique à vontade, fique à vontade.Minha coleção de pijamas é maior que a coleção de camisas de times de futebol do Simas.

  5. >Com o calor senegalês da nossa Cidade Maravilhosa, somado ao fato de que moro em frente ao morro dos Macacos (uma muralha que impede que qualquer brisa chegue à minha rua), aboli as camisas de todos os meus pijamas. Tenho uma coleção delas, quase todas em gola V, inutilizadas, que sozinhas servem de pouca coisa. Já os shortes, esses sim, uso diariamente. Conforto total. Bruno, os caras têm razão, um homem precisa ter pijamas – assim, no plural.

  6. >Gosto da questão lúdica que envolve o pijama, mas confesso que minha indumentária predileta pára essas horas são as cuecas samba-canção de seda, bem como umas novas, sem costura, confortáveis pra caralho – literalmente…

  7. >Diogo e cia.: eis aí uma frase definitiva!Um bom pijama tem que ser, imprescindivelmente, e sempre, uma grande Casa do Caralho.

  8. >O que tinha nesse cha????

  9. >do caralho a crônica sobre o pesadelo do simão! engraçadíssima. o simas deve ser uma figuraça… “doente” e “desequilibrado”… a entrevista com o joão bosco tá demais! vcs se divertiram muito, que inveja! puta abraço!, fernando ramos (jornal vaia – http://www.jornalvaia.com)

  10. >Que bonitos homens chorando por pijamas! Uma raridade! rs

  11. >vim aqui, indicada por um amigo, e quem eu vejo dormindo? Meu amigo Stocker que está virando celebridade, juntamente com o seu xará e aquele maluco do Tulípio. Gostei demais. Abraços de uma carioca exilada nessa terra poluida de paulistas.

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