AINDA O BORGONOVI

Foi o próprio Borgonovi quem revolveu minha memória quando escreveu ontem, nos comentários ao texto do dia:

“Quando conheci o Edu – antes de conhecer, porque não esperei me apresentarem -, dirigi-me com a seguinte assertiva: “Copias descaradamente o Nélson Rodrigues, não?”. E conclui: “Pois é isso que me fez te achar um boa praça sem te conhecer”. Terminei suplicando de maneira abjeta para que o malandro fosse meu amigo – mas tudo por admiração ao Nélson, fique claro.”

Estamos, então, em 26 de dezembro de 2005.

Foi esse, precisamente esse, o dia em que eu conheci Fernando Borgonovi, o Borgô. Não no Rio. Não em São Paulo. Mas em Niterói. Vou explicar.

Havia, naquele dia, naquele 26 de dezembro, uma roda de samba em Niterói, organizada por dois grandes praças, o Zé Sergio e o Augusto, para comemorar o final do ano.

Fui com a minha Sorriso Maracanã.

E lá chegando – lembro-me bem, e me ajudam as fotografias – dei de cara com o Augusto. E dar de cara com o Augusto, desde um vergonhoso episódio que vivi no Trapiche Gamboa, leiam aqui, é sempre uma festa. É sempre uma festa e é sempre uma oportunidade, justamente, para reparar aquele vergonhoso equívoco que me rendeu um pito olímpico dado pelo Szegeri. Dei de cara com o Augusto e o Augusto estava, justamente, abraçado a um camarada que algemou-me imaginariamente assim que me viu ao alcance de suas mãos. Com as mãos cravadas nos meus pulsos, bafejou:

– Você é o Eduardo Goldenberg? – tinha um bafo horrendo, lembro-me pefeitamente, e sua voz soava emocionada.

Borgonovi e Augusto, 26 de dezembro de 2005

O Augusto interveio, já bêbado:

ChuapresentáocêsEduvorgonovi, Vorgonoviedu

O tampinha ajoelhou-se diante de mim.

Pausa para curtíssima digressão.

Nunca, ninguém, ajoelhou-se diante de mim com tamanha devoção. Os olhos do sujeito brilhavam, e ele – como o menino diante do Zico – ficava repetindo para um atônito Augusto:

– Eu vi o Edu! Eu vi o Edu!

Voltemos ao enredo.

Eu disse algo como “deixa disso” e ele, num salto, ergueu-se diante de mim:

– Posso pedir-te um troço?

Olhei pro Augusto, que fez que não com a cabeça.

– Fala.

E ele, aos gritos:

– Seja meu amigo, porra! Pelo amor de Deus! Seja amigo meu!

O Augusto, cochichando ao pé do meu ouvido:

– Eu avisei.

Em segundos o Borgonovi sacou da mochila um exemplar de meu livro, “Meu Lar é o Botequim”, que eu lançara havia duas semanas, em 12 de dezembro (sobre o lançamento do livro no RJ, leia aqui). Estendeu o livro pra mim e disse:

– Dedicatória! Dedicatória!

Eu, solícito, puxei a caneta do bolso da calça e abri o livro sobre a mesa. Ele falando baixinho:

– Minta, minta, minta! Mas escreva aí… “Ao meu amigo Borgonovi…”!

Tasquei lá.

Afinal – pensei – o livro é de ficção, e a dedicatória que seja também!

Quando devolvi o livro ao Borgonovi ele tornou a se ajoelhar diante de mim. E gritava, como um possuído:

– Eu vi o Edu! Eu vi o Edu!

Bebeu muito, naquela tarde, o Borgonovi. A cada garrafa derrubada, ele dizia:

– À nossa amizade!

Até que caiu.

E dormiu à mesa.

Fernando Borgonovi, 26 de dezembro de 2005

Foi a primeira vez que vi a cena: o samba comendo solto, a cuíca roncando, e o Borgôroncando (imitando a cuíca), despudoradamente, bêbado, borracho, sentado à mesa.A última vez que vi a cena?

Semana passada.

Trata-se de um número clássico borgonoviniano.

Até.

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6 Comentários

Arquivado em gente

6 Respostas para “AINDA O BORGONOVI

  1. >Não foram poucas as vezes em que bebemos, Borgonovi, Craudio e eu, em uma mesa qualquer da avenida Paulista e adjacências. Afinal, lá se vão sete anos de convivência. E é de se estranhar que eu ainda não tenha presenciado tal cena, que já me foi narrada por outras pessoas. Quem sabe hoje à noite, dia em que o referido cidadão ameaçou não ir ao bar com a seguinte justificativa: “Não sei, tô querendo diminuir o ritmo”

  2. >Opa!!1Sou precurssor desse número. Já dormi em mais de trinta botecos diferentes e em TODAS as festas da agenda do samba e choro.Vejo que o Borgonovi vai pelo mesmo caminho.Sabe tudo esse garoto!!!

  3. >Edu, essa saga borgonoviana está com precisão cirúrgica! A cena do figura dormindo é, de fato, repetida a exaustão.Na última vez, estávamos só FH e eu, no grande Pé pra Fora. Eis que, lá pelas tantas, vi que falava, falava, falava… E nada de Borgonovi responder.Mas mais acostumados a essa cena que nós estão os funcionários do Metropolitano de São Paulo. Como você mesmo disse, FH mora no Jaçanã. E pega a linha norte-sul até o Tucuruvi, a última estação. Não foram poucas as vezes em que ele acordou no Jabaquara (extremo sul da linha) e fez o dia de um taxista sortudo.Abraços!

  4. >Edu, eu estava lá neste dia, mas devia estar tão ruim que perdi esta cena(foi num dia de semana e lembro até que matei um parente pra enforcar o trabalho). Aliás, em 2004 tb fui nesta roda de final de ano. Muito divertida mesmo, só gente boa. Foi no Bar do Pernambuco, certo? Aquela carne de sol na chapa com aipim é coisa muito fina. abraço, Arthur Mitke.

  5. >Lembrei de uma cena muito engraçada do Zé Sergio numa dessas rodas de fim de ano (2004 ou 2005) tenho que contar. Neste dia(ou na véspera) saiu uma matéria no JB sobre a revitalização da Lapa. Constava da matéria que recentemente, no Teatro Odisséia, Teresa Cristina tinha subido ao palco com ninguém menos que “Nelson Cavaquinho”. Ou seja, a anta do jornalista ressuscitou o poeta mangueirense. Cheguei lá e mostrei o jornal para o Zé Sergio. Parece que o jornalista que escreveu a matéria tinha sido estagiário dele ou coisa parecida. O Zé Sergio, enfurecido, praticamente interrompeu o samba e pro delírio da galera ligou pro garoto, comendo ele no esporro em tempo real! abraço, Arthur Mitke

  6. >Fiquei boquiaberto quando vi que o dito Fernando Borgonovi era meu filho.Que cena aquela do cara dormindo em pleno samba, hilária.Eu juro que fiz tudo certinho porem deu nisso.Asdrubal Borgonovi

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