BORGONOVI, O BORGÔ

Eu sou um sujeito íntegro. Acho que herdei minha integridade, minha condição de incorruptível, de meu bisavô, a quem não conheci, o Dr. Monteiro de Barros, de quem eu ouvia falar entre o abanar dos leques das mulheres da família:

– Presidiu a Costeira e não aceitou um tostão em troca de falcatruas!

– Um santo homem!

– Morreu pobre!

Esses troços.

Fiz este intróito para lhes dizer que se ontem eu disse que tornaria pública a história de um amigo mas preservaria seu nome – leiam aqui – e que se hoje eu vou não apenas dar seu nome como ainda disponibilizar para vocês duas fotografias bastante elucidativas da figura em foco, isso não significa, em absoluto, desvio de caráter, quebra da palavra empenhada, nada disso, nada que envergonharia meu bisavô, se vivo fosse. Ao contrário. Muito ao contrário! Pretendo, apenas, com a explícita revelação da identidade do protagonista da história de ontem, lustrar e polir a vaidade do próprio. Explico.

Eu não citei, quando lhes contei a história do dia de ontem, o nome do cidadão. Um amigo do sujeito escreveu lá um comentário e, como eu, manteve o anonimato do cara. Veio em seguida outro amigo e tascou mais um comentário. E nada de dar nome ao boi.

Ocorre que – notem do que é capaz a vaidade humana! – o próprio protagonista pôs o rosto e suas acnes na janela. Eis o que escreveu, nos comentários ao citado texto, o Borgonovi, mais conhecido, aqui no Rio, como Borgô:

“Vou me deter a outra parte do texto, por motivos ululantemente óbvios.

Quando conheci o Edu – antes de conhecer, porque não esperei me apresentarem -, dirigi-me com a seguinte assertiva: “Copias descaradamente o Nélson Rodrigues, não?”. E conclui: “Pois é isso que me fez te achar um boa praça sem te conhecer”. Terminei suplicando de maneira abjeta para que o malandro fosse meu amigo – mas tudo por admiração ao Nélson, fique claro.

Quero dizer a quem interessar possa: em minha humilde opinião, quem não gosta (e talvez quem não copie) do Nélson Rodrigues não vale um vintém de mel coado. Só os lorpas e os pascácios (como diria o próprio) não são convictos rodrigueanos.

Portanto, Edu, se te acusam, te acusam de ser inteligente.

Quanto à anã que não é anã, certamente é a mulher mais linda e mais fantástica da Tijuca, Estácio, Aldeia Campista, Vila Isabel e adjacências. Quiçá do Rio e quiçá do Brasil. Outros lugares do mundo eu não conheço, porque só acredito na felicidade em português. E português daqui.

Enfim, o sujeito em questão, é um cara de muita sorte.

Abraço,

Borgonovi”

Eis aí a bandeira desfraldada.

Feitas as considerações que me eximem de qualquer responsabilidade, vamos à mais uma história envolvendo essa grande figura, minúscula entretanto, se é que me entendem.

O Borgonovi esteve no Rio, no ano passado, nos dias 26 e 27 de julho. E quando ele vem ao Rio – os amigos de São Paulo devem poder atestar – ele começa a me ligar desde a rodoviária com frases borgonovinianas. E a primeira frase é sempre a mesma:

– Estou saindo da cidade esquecida por Deus e partindo em direção ao doutor Rio de Janeiro.

Veio ao Rio, o palmeirense Borgonovi, para assistir à final da Copa do Brasil entre Flamengo e Vasco. Digo isso e faço minha intervenção: eu não atravesso sequer a Ponte Rio-Niterói para ver um jogo do Palmeiras. Entretanto, demonstrando a força da nação rubro-negra, o bom Borgonovi toma um ônibus e viaja por seis horas em busca do Flamengo.

Viaja por seis horas em busca do Flamengo e traz, na mala, planos ardilosos contra o patrão da hora. Explico.

Ao menos foi assim naquele já distante julho de 2006. Chegou, o Borgonovi, e fazia um sol de rachar. Fez um sol de rachar no dia 26 e fez um sol de rachar no dia 27. E foi na manhã do dia 27, que ele me disse, assim que me viu, no Rio-Brasília, para onde fui convocado, como de costume:

– Preciso acordar cedíssimo amanhã… – riu altíssimo.

– Por que?

– Fui convocado pelo Julio para um trabalho amanhã às dez, em São Paulo. Tenho passagem para às sete e meia. Você acha que eu vou? – e, como dizem os paulistas, rachou o bico de tanto que ria, abanando-se com a passagem aérea.

Eu propus:

– Vamos à praia?

E ele, já de pé, e já arriando a bermuda, ficando apenas de sunga em plena Almirante Gavião, para horror das senhoras no salão de beleza ao lado do Rio-Brasília:

– Já tô na praia!

Nas areias de Ipanema, um espetáculo dantesco. Passava uma menina, 12, 13 anos, e ele relinchava na cadeira:

– Minha Nossa Senhora! Meu sonho é casar com essa moça, trabalhar como um mouro e todo dia cinco, ó, plim!, jogar todo meu salário na sua conta… Sabe pra quê?

– Não.

– Pra passar o resto do mês pedindo cinco, dez, quinze reais a ela, pro cigarro, pra cachaça, pra cerveja…

Só falando merda.

Até que, já semi-bêbado, começa a discursar contra o Julio, o patrão da hora.

Na foto abaixo – notem o biquinho do Borgô (mais Borgô que nunca graças ao biquinho) fazendo o “jota” de Julio – ele dizia textualmente:

– Julio, meu filho, você acha realmente que eu vou sair do doutor Rio de Janeiro amanhã às sete e meia da manhã? Ô, lôco!

Fernando Borgonovi em Ipanema, 27 de julho de 2006

E foi ao mar.

Antes de chegar no mar propriamente dito, arremessou uma bolinha de papel em direção às ondas. O repreendi na volta:

– Lixo no mar?

– Nada! Oferenda pra Iemanjá. Uma passagem Rio-São Paulo, amanhã, sete e meia da manhã! – e deu de rir feito Exu-Caveira.

E eis que transcorreu o dia.

Nosso herói foi ao Maracanã.

Assistiu à vitória do Flamengo.

E chegou em casa, meus poucos mas fiéis leitores – ficou hospedado em nossa casa na noite do dia 27 – sem o celular (roubado), sem a carteira (roubada), sem a chave que emprestei a ele (perdida) e sem conseguir ficar em pé.

Dani, tadinha, sempre atenciosa e carinhosa com os meus – que passam a ser dela também – fez uma cama cheirosa para um indigno Borgonovi.

Fernando Borgonovi, 27 de julho de 2006

Como um traste, como um resquício de ser humano, fedendo como nem sei lhes dizer o quê, um rato morto, provavelmente, dormiu jogado num dos puffs da sala, não sem antes beber uma cachaça, no gargalo:

– Vai beber mais, Fernando? – perguntou preocupada minha Sorriso Maracanã.

– Ao Julio, porra! Ao Julio!

Não trabalham mais juntos, não preciso lhes dizer.

Até.

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8 Comentários

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8 Respostas para “BORGONOVI, O BORGÔ

  1. >Preciso do início ao fim. Impressionante.

  2. >EduVocê nem pode imaginar como me faz bem ler diariamente seu blogger, o do Bruno e do Simas, para minha idade 63 anos e maravilhoso, afinal descobri que a internet tem muita coisa boa além das pesquisas. Parabéns continua sua carreira de escritor vai longe.

  3. >Grande figura este Borgonovi! Melhor que ele só este texto, brilhante e elucidativo. De minha parte, posso dizer que compartilho do sentimento dele pelo doutor Rio de Janeiro, e isso não é de hoje. Devo dizer ainda que sou a pessoa que fica informando o referido cidadão de tudo o que acontece com o Palmeiras durante seus finais de semana cariocas.Lá estou na arquibancada e toca o telefone. É ele.”Bicho, quanto tá?””2 a 1 pra gente””Ah, somos os maiores do mundo”E assim vai, jogo após jogo.Dizem os nossos amigos de estádio, do homem-bomba talibã ao napolitano fascista, que FH (conhecido também pelos apelidos de gnomo e comunista viado) foi a mais jogos do Botafogo do que do Palmeiras.Na condição de amigo e pela verdade, devo dizer que a informação é equivocada.Por fim, e isso não é provocação, digo que estarei no Rio domingo. Bate-e-volta, da rodoviária para o Maraca e de lá para a rodoviária. Tudo para ver o gol 1.000 do Baixinho.Abraços

  4. >O Edu, que nunca mente e é preciso, apenas omitiu – por distração ou esquecimento – dois detalhes.1 – Ele, desta feita, não me presenteou com a chave da casa dele. Muito ao contrário. Além de não ter ido ao jogo – e o Flamengo deve a mim e à pequenez eterna do Vasco o esperado título -, o malandro embriagou-se no Estephanios (não sei escrever o nome direito) e brigou com uma flamenguista que, por sua vez, bagunçava com Fefê, irmão vascainíssimo do Edu. Resultado: com os cornos cheios ele foi pra casa. Eu, após o jogo, lá cheguei e fiquei do lado de fora, horas a fio, tilintando a campainha. Insucesso. Por isso, perdi meu vôo.2 – O Edu forjou, manipulou, conspurcou a cena da segunda foto. Todos sabem que eu bebo, e apenas moderadamente, cerveja. Não sou afeito a destilados.OBS.: A barriga, imensa e peluda, que aparece ao fundo, na foto da praia, é de quem? Advinhem:1 – Momo2 – Urso Panda3 – Genival Lacerda4 – Fernando José SzegeriAbraço,Borgonovi

  5. >Sò pela camisa, já se vê que o camarada é gente da melhor qualidade 🙂

  6. >Mano Szegeri: depois de anos lendo meus textos, querido, eu não pensei que você ainda se impressionasse com a precisão cirúrgica e olímpica que dos mesmos emerge.Nadja: obrigado pelo imerecido elogio. Esteja, pois, à vontade no balcão.Barneschi: seja bem chegado. Agora escuta: referir-se ao sagrado time de outrem – o Flamengo, no meu caso, e no caso de mais de 80 milhões de brasileiros – como Flamerda (li, de passagem, seu blog) é o que causa a violência nojenta que vemos por aí, nos estádios de futebol. Devagar com o andor. E não porque o santo é de barro. Mas porque a Nação Rubro-Negra merece respeito.Borgô, sua anta: os leitores do BUTECO não querem saber de mim, mas de você. Todos esses detalhes, além de serem mentiros e fruto de sua mente obnubilada (servem, apenas, para refrescar sua barra com o Julio), são dispensáveis. Posso colocar, amanhã, aqui, o filminho que fiz na praia? Você se lembra? Cantando e dançando, bêbado, em homenagem ao Julio?MM: pois é. O sujeito é paulista, do Jaçanã, mas mente por aí dizendo que nasceu em Madureira.

  7. >Edu,Respeito ao Flamengo é o que não falta – e nem poderia. Como não falta respeito ao SCCP (a quem não costumo escrever o nome, exceto em ocasiões especialíssimas) e a todos os demais clubes grandes deste país, exceção feita a um deles, aqui de SP.Peço desculpas pela referência pouco elogiosa lá no blog, mas te garanto que ela não traz qualquer desrespeito. É parte da rivalidade, e eu, se você me permite dizer, sou Vasco no Rio não apenas pela união entre as torcidas, mas por razões de afinidade dos meus tempos de Rio de Janeiro. Daí surgiu o termo.Quanto a respeitar o Flamengo, não se preocupe. Somente um idiota é capaz de não respeitar o que ele representa. Não é o meu caso.Só um detalhe: 80 milhões não seria um pouco demais? Ok, é a maior torcida do Brasil e tal, mas…Abraços

  8. >Figuraça de elevada estirpe esse Borgonovi, Edu!, tendo em vista o seu amor ao Mengão!E hoje, logo mais, o Mengão sacudirá de vez o Paraná!

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