PEPPERONI, UM PRESENTE DE EXU

Eu tenho, vocês sabem, um medo, um pânico, um temor e um respeito incomensuráveis pelo Szegeri. A simples visão daquele caboclo e sua barba amazônica, seus olhos de peixe-boi, suas orelhas minúsculas, sua pele mulata e seus pelos vastos é capaz de me diminuir olimpicamente.

E se tenho medo do Szegeri, se tenho pânico do Szegeri, se tenho temor ao Szegeri e se tenho respeito pelo Szegeri, tenho isso tudo, em dobro, em relação ao brasileiro Luiz Antonio Simas, um monstro quando o assunto é o domínio do sobrenatural, o amplo conhecimento dos feitiços, da encantaria, da feitiçaria, dos cantos e dos cânticos sagrados. Tenho, como diria minha bisavó, um medo que me pelo do homem!

Faço essa curta confissão e sou capaz de, de posse da caneta e da escritura declaratória imaginárias, na condição de procurador do Szegeri, registrar, em nome do meu barbudíssimo e paulista amigo: eu também!

Como vocês sabem, eis que isso declarei ontem (leiam aqui), pensei, durante segundos, em me desfazer, com nó no peito e nódoa na alma, do Pepperoni.

Mas desisti.

Desisti e de forma definitiva.

Graças, justamente, a ele, Simas, dono de um blog rigorosamente indispensável.

Quando li, ontem à noite, o texto “PEPPERONI GOLDENBERG, O PRESENTE DE EXU” (leiam aqui), entendi tudo e minhas intenções viraram fumaça.

Eis a íntegra de seu relato:

“Há um vasto repertório de crendices populares que envolve a figura do cachorro. Dizem os mais velhos, por exemplo, que o uivo do cão chama desgraça para o seu dono. Alerta o mestre Câmara Cascudo que, ao se ouvir o uivo do cão, devemos responder na lata: ´todo agouro para o seu couro´. Outra opção é emborcar um sapato com a palmilha para cima, o cachorro se calará imediatamente.

Se o cachorro cava na porta de casa com o focinho voltado para a rua, danou-se – ele está cavando a sepultura do dono. Se cavar, porém, com o focinho voltado para casa, é sinal de que vem muito dinheiro por aí.

Se dorme com a barriga pra cima, vem azar ; com as patas dianteiras cruzadas, vem a sorte grande. Se mija na porta de casa, é felicidade certa pro dono.

O poeta latino Horácio, no Epodos, afirma que os cães tem a capacidade de ver os deuses, os lêmures e as sombras dos mortos. Quando estes se aproximam , o bicho uiva sem razão aparente.

Por que resolvi desfilar esse rosário de crenças e anedotas caninas? Simples. Fui motivado pelas lamúrias do Eduardo Goldenberg, que anda encalacrado com as travessuras perpetradas por Pepperoni Goldenberg, o vira-latas mais famoso da Haddock Lobo, e andou relatando isso em seu blog. Edu chegou a ameaçar se desfazer do Pepperoni, já que o diabinho anda destruíndo os móveis do aprazível cafofo tijucano que abriga Edu e Dani.

Eu, se fosse o Edu, desistiria dessa idéia imediatamente. Pra início de conversa é preciso dizer que Pepperoni não é um cachorro qualquer. É apreciador da música erudita – sei que o bichano só se acalma ouvindo as sonatas de Mozart e o cravo bem temperado do velho Bach – e bom bebedor de uísque e demais destilados – fui testemunha da categoria com que o Peppe bebe as raridades da coleção Goldenberg, com seus mais de trezentos rótulos.

Mas o meu argumento irrefutável é outro – Pepperoni é um presente que Exu deu ao casal. É a cristalina verdade.

Recordemos que o Peppe foi achado na rua, logo após a perda terrível da Pimenta, a cadelinha de estimação da família. A rua é, como até os postes sabem, território que pertence ao compadre Elegbara. Não há nada que se tire dela sem a autorização expressa do Homem.

Não duvido nada que o próprio Exu, disfarçado , por exemplo, de guardador de carros, tenha entregue o Peppe ao casal.

Em segundo lugar, recorro ao fabulário recolhido pelo mestre Câmara Cascudo para lembrar que os antigos afirmavam que o cachorro que corre sem destino e dá saltos mortais pela casa está afugentando o diabo.

Os saltos aparentemente tresloucados do Pepperoni e suas desabaladas carreiras nada mais são que a garantia da limpeza do ambiente contra as artimanhas do cramulhão. A arruaça promovida pelo bom vira-latas é uma tremenda dádiva.

Finalmente, como explicar a atração do Pepperoni pelas bebidas alcoólicas e seu comportamento impoluto quando vai com o Edu ao Rio-Brasília, o botequim da Almirante Gavião? É Exu, queridos, é o compadre, sempre presente em defesa do seu amigo, nos ambientes em que se sente verdadeiramente em casa.

Por essas e outras é que eu não mandaria o Peppe embora em nenhuma circunstância. Vai desprezar o presente do Compadre? Nem a pau, meu velho, nem a pau. Exu é amigo pra cacete, mas não topa quem despreza seus agrados e ralha com seus protegidos.

Longa vida ao Pepperoni!!

Laroiê.”

Até.

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2 Comentários

Arquivado em confissões

2 Respostas para “PEPPERONI, UM PRESENTE DE EXU

  1. >Ed, acompanho seu blog faz tempo mas nunca me manifestei. Resolvi escrever agora para te dizer que me senti muito aliviada quando soube que você não irá se desfazer do Pepperoni. Agradeço também ao Simas.Abraço,Lia

  2. Pingback: O PEPPERONI É UM ATLETA | BUTECO DO EDU

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