O PEPPERONI E O SZEGERI

Quando eu e Dani, de quem tenho aguda saudade, o encontramos na rua, em Copacabana, como lhes contei aqui, imaginamos, dentre outras tantas coisas que imaginam todas as pessoas que decidem ter um cachorro, aplacar um bocadinho a saudade e o vazio deixados pela Pimentinha (saudade demais dela… leiam aqui) – obtivemos êxito, um cachorrinho novo traz tanta alegria que a dor da saudade diminui mesmo – e ganhar um grande companheiro – também obtivemos êxito, o Pepperoni é um tremendo boa-praça.

A princípio, afinal trata-se de um vira-lata, ou de um SRD (sem raça definida), como preferem os babacas politicamente corretos, o Pepperoni mostrou-se um baderneiro de marca maior, mas sem maiores conseqüências relacionadas com prejuízos, se é que me entendem. Um pé de sandália havaiana sumia durante o dia, um pé de sapato aparecia debaixo de uma almofada, esses troços inocentes, coisa comum em se tratando de filhotes. E imaginávamos – torço para que isso ainda aconteça, em breve! – que era tudo por causa da idade do cão, e que essa, digamos, rebeldia, passaria com o tempo.

Eu consultei, por telefone mesmo, a veterinária do Pepperoni. Como a Marcia é um doce, compreensiva com os cães, como convém a uma profissional do ramo, ela quase nada me respondeu. Riu. Apenas riu. E finalizou o telefonema:

– Manda um beijão pra ele!

Eu tentei métodos hortodoxos e alternativos.

O deixava em casa com música clássica tocando no rádio. E quando eu chegava, à noitinha, ele parecia ter se portado como um pagodeiro da pior estirpe. A expressão era de enfado, e havia panos de prato pelo chão da cozinha, poças de xixi em frente à prateleira na qual fica o rádio (foi quando desconfiei que ele não tem tendência à música erudita). Dani tentou Florais de Bach e Shantala. Em vão. Eu – confesso – cansado dessas metodologias frescas, apelei pra porrada algumas vezes pensando em dobrar o cara. Tudo, tudo, rigorosamente tudo em vão. Ele apanhava resignado, e ainda mostrava os dentes – ria, o filho da puta – em seguida, abanando o rabo com a fúria de uma espanhola manipulando o leque sob o sol de Madrid.

Antes de prosseguir, uma pequena pausa.

O Pepperoni, desde que aqui chegou, em maio de 2006, nunca – vou repetir gritando: nunca! – obedeceu a mim ou à Dani. Tampouco à Leinha, nossa governanta.

Tanto que eu escrevi em janeiro de 2007:

“O fidaputa tem essa cara aí, ó, de petulante, de insolente, de faço-o-que-eu-quero-e-fodam-se-vocês, e isso nos comove de maneira olímpica. Tomem nota, com base apenas nessa confissão absurda – comovemo-nos com a desobediência do animal – e dimensionem o que vivemos, eu e minha Sorriso Maracanã, no convívio diário com o moleque.”

Mas a quem ele obedece? – sou capaz de ouvir daqui a indagação coletiva.

Ao Szegeri.

Basta que meu irmão paulista apareça diante do Pepperoni para que o vira-lata endiabrado se transforme numa espécie de gato macho castrado, tranqüilíssimo. Ele não late, mas mia rouco, tímido, humílimo. Olha, de esguelha, para o pires sobre a pia, para depois lançar o olhar lânguido para a caixa de leite. Recusa a ração e faz cara de quero-patê. É, de fato, impressionante como também meu cachorro parece temer o Szegeri.

Inserido no contexto, mantida minha promessa de dedicar o mês de março a esse pomposo elemento, sigo em frente.

Pois bem, voltemos ao meu fiel escudeiro.

Recentemente, indo pra Cabo Frio, eu e minha Sorriso Maracanã, o Pepperoni fez uma merda fabulosa ainda na estrada em direção à Região dos Lagos, lhes contei tudo, aqui.

Tocado com meu relato, o Miguel, assíduo leitor do BUTECO, mandou-me uma fotografia assustadora, que vocês podem ver aqui, ilustrando mais um texto meu contando as cagadas do meu bom vira-lata.

Notem, lendo tal texto, de janeiro de 2007, que até aquele momento o Pepperoni só havia destruído dois livros desprezíveis (mais detalhes no próprio texto a que me refiro).

Mas vá entender o que aconteceu.

Ele começou a, devagar e manso, comer o braço de uma poltrona. Abrir, sabe-se lá como, a porta do armário de remédios – será um hipocondríaco como eu????? – pra beber – juro!, juro!, juro! – um vidro inteirinho de xarope. Cavar os vasos das plantas. Rasgar as capas do sofá.

Em apertada síntese: passou a fazer o diabo.

Tornei a bater o telefone pra Marcia. Em pânico.

E dessa vez ela não riu – penso que devido à gravidade de meu tom de voz.

Penso ter ligado ligeiramente transtornado. Sugeri a ela uma eutanásia, a castração, o confinamento, delírios que ela, evidentemente, recusou. E disse-me, também grave:

– Edu… o caso requer a intervenção de um especialista. Anote, por favor, um telefone. É da Rita, lembra? Uma sumidade em comportamento animal. Boa sorte. Manda um beijão pra ele!

Brevíssima pausa: Marcia e Rita foram incansáveis na luta da Pimentinha contra a doença fatal que a levou pra sempre.

Bati o telefone pra Rita. Ela, dulcíssima – impressionante como são doces as veterinárias – explicou-me uma série de coisas, explicou-me que eu e Dani teríamos, provavelmente, de modificar nosso comportamento com relação a ele, e disse-me, antes de desligar:

– Compre, por enquanto, uma daquelas grades à venda em qualquer loja do ramo, para que ele tenha os limites estabelecidos. Até que possamos estar juntos.

Uma rigorosa incompatibilidade de horários impediu que a consulta fosse realizada até o momento (mas de semana que vem não passa, mesmo!).

Mas a grade eu comprei.

Comprei e paguei, pela grade e pela extensão, pouco mais de cem reais.

Jogados no lixo.

Dia desses cheguei em casa e lá estava o Pepperoni comendo a espuma da poltrona da sala. O portão fechado. Eu não acreditei naquilo. E não pude compreender – a tal grade é relativamente alta – como ele conseguira aquele feito.

Até que ontem, quando saí à noite pra jantar com o Vidal – como eu, sem a mulher, também viajando, e por isso fomos comemorar o Dia Internacional da Mulher Ausente – decidi deixar a câmera digital filmando a grade. O cartão de memória permitia apenas pouco mais de seis minutos de filmagem.

Confesso que saí frustrado por antecipação. Pensei com meus botões (botões arreganhados, estou momesco): ele não vai conseguir fazer sabe-se lá o quê em pouco mais de seis minutos…

Engano meu.

Eu editei o filme para que não fosse maçante para vocês.

Mas exatamente 4 minutos depois de minha saída – vejam isso que impressionante! – o Pepperoni, adepto do rapel e das escaladas, tomou a casa de assalto e deixou um ligeiro cenário de destruição na sala de casa.

Eu vou tentar, é evidente, afinal já amamos o filho da puta de maneira intensa, as dicas da Rita.

Mas temo – infelizmente – ser obrigado a doar meu escudeiro antes que ele coma tudo.

Até.

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7 Comentários

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7 Respostas para “O PEPPERONI E O SZEGERI

  1. >Grande Edu,já experimentou kriptonita??forte abraço e bom final de semana a todosMarcelo Alves

  2. >taquiuspariu! Inscreve agora o Pepe no PAN!

  3. >ehehe… Me escangalhei de rir!!!

  4. >Edu, gato macho castrado não é uma boa metáfora… Você conhece o Leopoldo e ele continua a mesa peste após a castração. Melhorou por um lado (parou de mijar pela casa), piorou MUITO por outros (arranca todas as canaletas de fios da casa, joga TODOS os enfeites e comidas no chão) e continua com outros hábitos horrendos (foge de casa a cada vez que abrimos a portae bate na gata irmã o tempo todo). Gato macho castrado? Definitivamente não é sinônimo de sossego!

  5. >kkkkk,grande Pepperoni !!e acharam que iam dobrar um bom lider kkkkk, é isso aí filho rebelde ! abre o olho e pega leve que vc está na mira kkkkmil beijinhos pra vc e um abraço para seus paiskkkkkmarcia abreu antes uns livros do que o seu colega wemaraner fez kkkkkkkkbeijossssss

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