SZEGERI NO RIO – PARTE II

Ontem, segunda-feira, enquanto a cidade do Rio de Janeiro desfrutava da presença dessa impoluta figura que é o Szegeri, o Catete sofria, por tabela, os revezes enfrentados pelo Capitão Leo Gola. O Leo Gola bebeu, durante o domingo – e estou me valendo de índices pluviométricos – o equivalente a todo o mês de fevereiro, incluindo o Carnaval. Acordou, contou-me o Szegeri, um coscuvilheiro de escol, passando mal, muito mal. E ainda deitado, e ainda com os olhos fechados, e ainda descabeladíssimo (mesmo descabelado o Leo Gola interrompe o trânsito), disse:

– Preciso marcar um médico assim que pisar em São Paulo…

– Mas por que?

– Não sei o que eu tenho, mas estou passando malíssimo.

Bastou esta frase para que o Szegeri e o Deco – os três estão no mesmo fétido quarto – rolassem de rir sobre as baratinhas francesas que dormem com eles.

Feito o intróito, sigamos.

O Szegeri continua sua marcha em busca da minha execração. Vejam. Mesmo sabendo que minha segunda-feira teria de ser dedicada ao trabalho, mesmo sabendo que eu não poderia desfrutar de sua companhia (nesse exercício de auto-flagelo ao qual me submeto a cada encontro), o Szegeri bateu-me o telefone às oito da matina:

– Estou indo beber no Bar Getúlio. Vamos?

Explodia numa gargalhada e desligava na minha cara.

Às dez, de novo:

– Edu, acabamos de chegar na Adega Portugália. Quer vir?

Estrepitava ruidosamente e batia o telefone no gancho (estou, vocês hão de concordar comigo, velhíssimo hoje… o Pratinha, por exemplo, não sabe o que significa “gancho” nesse contexto).

Assim foi até que às quatro, penso que com pena de mim, que o Szegeri (ex-seminarista) tem acessos de culpa de vez em quando, aconteceu a terceira ligação do dia:

– Eduzinho, querido, será que você consegue estar conosco às cinco?

Eu, de olhos cheios d´água, disse sóbrio:

– Evidente.

– Bar Luiz. Tchau.

E bateu o gancho do telefone novamente, e eu notei que com menos ódio.

Bar Brasil, 05 de março de 2007

Às cinco eu cheguei ao Bar Luiz. E cheguei, meus poucos mas fiéis leitores, com o Simas, a quem o Szegeri não conhecia pessoalmente. Eu friso que não conhecia pessoalmente porque os dois trocam emails com uma intensidade de amantes. E o Szegeri, eis aí mais uma humilhação imposta a mim no dia de ontem, quando eu cheguei à mesa, estendeu a mão pra mim com os dois olhões cravados no Simas. Mas estendeu-me a mão mole, desinteressada, não me disse um mísero “oi”.

Ergueu-se, entretanto, e deu de gitar:

– Simas! Simão! Possesso! Meu irmão! Meu irmão! – e enlaçou o Simas com o abraço que eu sei que jamais receberei.

Chegou José Sergio Rocha e juntou-se a nós. Éramos, então, ali, uma mesa de seis: eu, Szegeri, Deco, Leo Gola, Simas e Zé Sergio.

Szegeri e Simas na livraria Folha Seca, 05 de março de 2007

Às seis batemos em retirada em direção à livraria do meu coração, a Folha Seca.E foi na livraria que senti-me ainda mais achatado pelo poder e pelo carisma desse homem nascido Fernando José Szegeri. Explico o por quê.

Um conhecido meu – não vou nem me referir aos que sequer me conhecem pessoalmente, seria mortal – é capaz, no máximo, de andar um, dois quarteirões, três no máximo, para me encontrar. Subir um, apenas um lance de escadas para um bate-papo rápido. Vejam o que aconteceu ontem, segunda-feira.

É preciso grifar que era segunda-feira eis que as segundas-feiras são, geralmente, dias mornos.

Foram à livraria, como em romaria, apenas – repito, apenas – para verem de perto o Szegeri, a Betinha, o Flavinho, o Fefê, o Arthur, o Pratinha, e o homem não estava, ainda, satisfeito diante da minha pequenez.

Virou-se o Szegeri, a certa altura, e perguntou ao Rodrigo Folha Seca que, por sua vez, não escondia a alegria com a presença do meu pomposo amigo:

– Meu irmão querido… – e virava-se em minha direção só pra saber se eu a tudo ouvia – … quanto o Edu costuma gastar aqui por mês?

O Rodrigo, discretíssimo, disse algo no ouvido do Szegeri.

Pausa para comentário estético.

Se o Szegeri tem olhões, imensos, duas bacias amazônicas de tão grandes que são, tem, também, as menores orelhas que já vi na vida. Feito o comentário, em frente.

Foi ouvir a resposta do Rodrigo e o meu irmão paulista riu de fazer tremer o centenário imóvel que abriga a livraria.

Saiu catando livros das estantes, como um faxineiro, foi empilhando tudo no balcão e disse altíssimo:

– Soma! Soma! Soma pra mim!

Os olhos do Rodrigo, diante da prodigalidade szegeriana, alcançaram tamanho semelhante ao do comprador da hora. Com os dedos tremendo, fez a continha usando a calculadora.

Fez um sinal com o indicador e o Szegeri se aproximou. Novo cochicho e o Szegeri protestou:

– Só?

E saiu à cata de mais livros.

Tornou a empilhá-los no balcão.

– Soma! Soma! Soma tudo de novo!

Novo cochicho. E o Szegeri tornou a explodir:

– Mil e quatrocentos? Tá bom! Tá bom! Fecha! Fecha! Fecha!

E abanava o Rodrigo com o cartão de crédito olhando-me de soslaio.

O Rodrigo, não acostumado a espetáculos desse gênero, disse baixinho:

– Quer que parcele em três vezes sem juros?

E o Szegeri, possuído:

– À vista! À vista! No débito, nada de crédito!

Eu, num misto de humilhação e vergonha, anunciei:

– Vou ao Santos!

Ninguém – eu disse ninguém! – me seguiu. Apenas o Prata, mas filho não conta.

Casual, 05 de março de 2007

Uma meia hora depois, às oito, fechada a livraria, a turba foi ao nosso encontro.E naquela sagrada esquina, rua do Ouvidor com travessa do Comércio, bebemos, comemos, o Szegeri regendo a mesa como um Eleazar de Carvalho, até que ele mesmo, de pé, anunciou:

– Todos ao Rio-Brasília!

E seguimos todos pra lá.

Joana, Rodrigo Folha Seca e Szegeri, 05 de março de 2007

Conhecedor da minha condição de ciumento olímpico, já no Rio-Brasília, o Szegerime chama do outro lado da calçada.Ele está abraçado com Rodrigo e Joana. Pede uma foto. Eu faço. Depois me puxa pelo braço e diz:

– Cara, estou apaixonado pelo Digão de maneira imunda…

E chora.

No Rio-Brasília eu fiquei, como um espectador embevecido, assistindo o encontro dos titãs. Szegeri e Simas, numa afinidade de há séculos, cantaram, contaram histórias, e a quantidade de cerveja, de maracujá, de carne assada com coradas, servia apenas de pano de fundo praquela noite mágica.

Rio-Brasília, 05 de março de 2007

Mas a noite, mágica, não se esqueçam, reservava surpresas.Por volta das onze da noite toca meu celular.

Pisca na tela o nome: BETH CARVALHO

Pasmem e notem a força do Szegeri.

Ela também queria vê-lo.

E pra lá se dirigiu.

O Joaquim, que já estava em processo de encerramento das atividades, quando a viu chegar, chamou-me no balcão.

– Efeito Beth Carvalho! Não vou mais fechar!

E riu.

E lá ficamos, conversando, bebendo, cantando, até duas e meia da manhã.

Eduardo Goldenberg, Arthur, Beth Carvalho e Szegeri no Rio-Brasília, 05 de março de 2007

Eu tomei o caminho de casa.

A Beth, o Bruno – que chegou com ela -, o Szegeri, o Deco e o Leo Gola seguiram em direção ao Capela.

Sabe-se lá como terminaram a noite.

Sei, apenas, que quando acordei hoje, cedíssimo, havia uma mensagem em meu celular, enviada às quatro e dezessete da manhã pelo Szegeri. Dizia o seguinte:

“Acabo de beber um chope com Fernando Toledo…”

Preciso dizer mais alguma coisa? Não.

Até.

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10 Comentários

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10 Respostas para “SZEGERI NO RIO – PARTE II

  1. >Sempre que leio o Buteco lembro do famoso ermitão do Morro do Frota, que vive isolado no interior de Goiás.Uma de suas máximas famosas: quando me afasto cinco milímetros da realidade, sinto vertigens…Igualzinho o Edu…

  2. >realmente o magnetismo do Szegeri é algo surreal. E numa segunda-feira!

  3. >Edu, quase passei mal lendo as últimas 2 crônicas (não de rir, do fígado mesmo). Abrideira às 8 da manhã e saideira às 4 da madruga é foda… Impressionante!!! abraço, Arthur Mitke

  4. >Digão, querido: que lindo você me associar a um morador de Pirenópolis! Que lindo!Arthur: o Szegeri é inumano.Arthur: a saideira do Szegeri foi às cinco, malandro! Cinco da manhã!

  5. >Arthur Mitke, o Leo Brandão quer falar com você urgente. Liga pro cara.

  6. >Zé, perdi o meu celular na sexta antes do carnaval (imagine o meu estado no bloco do Rival) e estou sem o telefone de ninguém. Me passe por favor o número dele. Deve ser alguma coisa sobre o aniversário dele.Edu,desculpe-me utilizar este espaço indevidamente, mas aniversário de amigo é coisa sagrada. Arthur Mitke

  7. >Mitke (vou chamá-lo assim pra não confundir com o outro Arthur, mais antigo no pedaço!): como assim espaço indevido para isso?????Isso é um buteco, malandro.É preciso que haja zorra!Pode tudo!

  8. >Mitke, também sem celular hoje. Esqueci no trabalho. Manda o número do teu celular para josesergiorocha@gmail.com que eu te passo o cel do Leo. Abraço!Edu, pega uma gelada pra gente, pô!

  9. >Mitke, caceta!, vc está sem celular. Liga para 7896-9609.

  10. Pingback: SZEGERI NO RIO – PARTE III | BUTECO DO EDU

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