Arquivo do mês: fevereiro 2007

BETH CARVALHO NO RIO-BRASÍLIA

Tudo apontava para uma segunda-feira insossa, tediosa, monótona, triste. Sem minha Sorriso Maracanã, que está viajando de novo, eu havia decidido, no máximo, receber o Simas em casa para um uísque socialíssimo, rápido, só pra matar as saudades. Em nome da precisão vou explicar o por quê disso.

Estava eu em Volta Redonda desde a sexta-feira. E já no sábado, e já pela manhã, chega uma enigmática, emblemática e polidíssima mensagem no meu celular, enviada pelo velho Simas:

“Costurou na boca do sapo o resto do angu… saudade, caralho!”, era o que dizia o recado.

Comovi-me com a demonstração de afeto, fiz juras de amor quando respondi, e encontrar o Simas na segunda-feira tornou-se um compromisso. Pois bem. Vou prosseguir.

Antes, porém, confesso que me vem a cabeça o Rodrigo Manguaça, que sempre duvida do que me acontece, como contei aqui, quando escrevi isso:

“Dia desses eu fui jantar na casa da minha amada Sônia, mãe dos queridos Manguaça e Manguaço, e lá encontrei-me com o Rodrigo, primo desses dois, sobrinho daquel´outra. Disse-me o Rodrigo, comentando sobre o episódio envolvendo a garotada do jongo da Serrinha, que relatei aqui, que tudo na minha vida era encantado demais, bonito demais, quase que duvidando das belezuras que conto aqui no Buteco. Não duvidava de mim, exatamente, mas queixava-se, numa pilhéria, do marasmo de sua vida em contraste com as surpresas da minha.”

Marquei, de fato, o uísque com o Simas. Eu o aguardava às sete da noite quando o Prata me bateu o telefone:

– Edu, estou querendo levar a Beth pra conhecer o Rio-Brasília… Vamos?

Eu disse “vamos” e pensei “babau segunda-feira quietinho”.

Notem que o Prata já havia me ligado à tarde:

– Vamos ao Samba do Trabalhador?

Como não sou músico – digo sempre isso a ele – e eu estava de terno, no centro da cidade, no instante do telefonema, recusei, evidentemente, o convite.

Ligo pro Simas a fim de comunicar a mudança de planos, mas o menino prodígio é mais rápido que eu e já havia avisado a ele, que disse assim:

– O Prata acaba de me ligar. Estou indo, com Candida, pro Rio-Brasília!

Eu, que não sou homem de mentir, como havia convidado o Simas pra um uísque em casa, cheguei ao Rio-Brasília com o dito cujo.

Estávamos ali, bebericando o uísque, alternando com golinhos de cerveja e de maracujá, quando dobra a esquina o portentoso Dorival, conduzido pelo Prata, imediatamente seguido pela Beth. E deu-se mais uma surpresa da noite. A Beth salta do carro com duas mulheres que nos são apresentadas. Sheila, sua assessora de imprensa, e Monica Manir, jornalista de São Paulo, do Estadão, a quem a Beth me apresenta assim:

– A Monica disse que já troca emails com você faz tempo…

Verdade. Lendo isso aqui vocês hão de entender. A Monica, que chegou ao Buteco do Edu graças à indicação de uma amiga, já em duas oportunidades me convidou pra escrever uma carta aberta no Estadão, o que fiz com um tremendo prazer. Chegamos a marcar, quando lancei meu livro em São Paulo, de nos conhecermos, no Ó do Borogodó. Um imprevisto a impediu de ir. E acabou que nos conhecemos aqui mesmo, no Rio, no meu buteco de fé.

Pratinha e Beth Carvalho, 12 de fevereiro de 2007, no Rio-Brasília

A Beth ficou visivelmente bem impressionada com a beleza do lugar, e também pudera. Em questão de minutos a mesa era um troço! Garrafas de Brahma com véu de noiva, lingüicinha frita acebolada, queijo fatiado, doses de maracujá, uísque, carne assada com coradas, e chegam Rodrigo Folha Seca e Leo Boechat, convocados por mim, e eu percebo, naquele exato instante, não eram ainda nem nove horas da noite, que a segunda-feira não iria prestar…O Joaquim me fazia estranhíssimos sinais de dentro do balcão, aqueles sinais típicos de um náufrago em mar bravio, os braços balançando como um desses bonecos infláveis de posto de gasolina, e eu fui até lá:

– Doutor! Doutor! A Beth Carvalho, doutor, a Beth Carvalho! Obrigado! Obrigado! – notem a emoção do Joaquim.

Candida, Simas, Rodrigo Folha Seca e Leo Boechat, 12 de fevereiro de 2007, no Rio-Brasília

A certa altura, já quase dez da noite, pedi licença e fui em casa buscar o Pepperoni para uma voltinha no quarteirão. Acontece que a voltinha no quarteirão terminou no Rio-Brasília, já que quando passamos por ali o Simas gritou:- Deixa o Pepperoni aqui com a gente! Eu fico com ele.

E ficou.

Só ouço o menino gritando:

– Vem! Vem! Vem!

Em menos de vinte minutos chega, de táxi, o Gabriel da Muda, não por acaso um dos autores do samba vencedor do Nem Muda Nem Sai de Cima, que este ano homenageou a Beth.

Beth Carvalho e Gabriel do Cavaco, 12 de fevereiro de 2007, no Rio-Brasília

E ali ficamos, todos à vontade na minha cidade, na pacata Tijuca, naquela rua tranqüila, e pedimos a conta, e é preciso dizer, a essa altura, que a conta não chegou a dar nem vinte reais por pessoa, o que na zona sul dá pra você comer uma empada sem azeitona e um chope, e foram incontáveis garrafas de cerveja, doses industriais de maracujá, porções de lingüiça, porções de carne assada com batatas coradas – a Beth amou, a Beth amou! – queijinho, e um visivelmente comovido Joaquim – Terezinha chegara um pouco antes e compartilhava a emoção com o companheiro – deu de derramar sobre a mesa as saideiras, de cerveja e de maracujá. Até que não segurou a emoção – travada por uma incorrigível timidez – e me chamou:

– Será que ela tiraria uma foto conosco pra gente botar um quadro na parede?

Eu, já de olhos molhados, que essas demonstrações de afeto temperadas com humildade me comovem pra burro, disse um “mas é claro que sim!”. E vejam se eu não estava certo!

Terezinha, Beth Carvalho e Joaquim, 12 de fevereiro de 2007, no Rio-Brasília

E antes de encerrar, três episódios da noite.A certa altura bate o celular do Prata . Ele atende e fica naquele “já vou, pai”, “tô indo, pai”, “não vou demorar, pai, juro”. Até que a Beth toma o celular das mãos do menino e diz ao pai do gênio – Sérgio Prata, chorão de primeira linha, a quem a Beth evidentemente, conhece:

– Pode deixar o menino com a gente! Estamos tomando conta dele!

O Prata, por sua vez, comove-se com a intervenção elizabetana e corre em direção ao Dorival. Volta do carro com um LP nas mãos. E com os olhos marejados o entrega pra Beth:

– Autografa pra mim, Beth… Estava jogado, numa banca de discos no centro da cidade, perguntei quanto era e o cara me disse lamentando que não estava à venda, que o disco estava quebrado… Eu comprei mesmo assim! Autografa! Autografa!

Ela autografou e mandou até um “P.S.” no final, dizendo que se tratava do primeiro autógrafo, em décadas de carreira, num disco quebrado.

E por fim, vale o registro. Três coroas sentado numa mesa ao lado da nossa, já quase no final da noite, quando estavam indo embora, pediram licença, fizeram mesuras à Beth e um deles, em nome dos três, ele disse, anunciou:

– Estamos contigo, sempre, nesse episódio-papelão que a diretoria da Mangueira está fazendo…

Salve a Tijuca!

Até.

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O RECADO DE TIAGO PRATA

A vida é feita de pequenas surpresas, vejam se não.

Que (eu sei que pelas regras obtusas da língua não devemos começar uma frase com “que”) o Pratinha, o Tiago Prata, o Prata Querubim, é um geniozinho, isso é um fato. É um fato que eu atesto. Um fato que o Simas atesta. Um fato que o Rodrigo Folha Seca atesta. Um fato que o Szegeri, que nem o conhece pessoalmente, atesta.

Mas além de ser um gênio, além de ser aduladíssimo por onde quer que passe (quer seja pelo talento com o violão nos braços, quer seja pelo rosa que exibe nas partes laterais carnosas da face – quem tem Orkut que confira), o Pratinha é um antigo, também, no comportamento.

Acompanhem meu raciocínio que provará, irremediavelmente, a secularidade do menino.

Tem, o menino-prodígio, um carro sem ar-condicionado, o Dorival, nome do veículo, e isso de dar nome ao carro já é de um antigüidade vetusta, e deve ser, digo sem medo do erro, um dos únicos carros a circular no Rio de Janeiro sem ar-condicionado, o que dá a eles – ao carro e ao motorista – o adesivo da excepcionalidade. Isso para não falar da cor do carro, um horror, um horror absoluto, uma tragédia visual, única, implacável.

Há mais! Há mais! O Prata namora. Mas o namoro do Prata não tem, percebam bem, o frescor de um namorico comum a um menino de 19 anos. Não. O namoro do Prata é denso. É denso e é tenso. Pensa, o Prata, permanentemente, em porres homéricos, em projetos de suicídio, em noites vagando pela rua, a cada mínima crise que abala a relação afetiva que mantém. Eu e Simas somos, e novamente o Velho Simas – apelido dado por meu irmão Szegeri – poderá atestar a verdade do que digo, permanentemente procurados para um porrezinho, à mesa, com o geniozinho, a fim de “curar a fossa”, expressão que o Prata usa com freqüência, e notem que o simples uso da palavra “fossa” praticamente fossiliza o garoto.

E há mais. Há muito mais e eu não me estenderei mais a fim de não amofinar a sexta-feira de vocês (eu disse “amofinar” e me igualo ao Prata em arcaísmo).

Mas quero citar apenas mais uma prova, uma única prova, que tornará definitiva essa impressão da ancestralidade do Prata, essa certeza de que deve-se ao atavismo, evidentemente, esse comportamente, esse modo de ver e de viver a vida.

Ligou-me, ontem, o Prata. Estava eu ocupadíssimo, no Tribunal de Justiça, com o telefone desligado, razão pela qual não pude atendê-lo. Eu sempre – digo isso em nome da precisão – atendo meus amigos. Sempre. Que dirá um filho.

“Um filho?”, gritarão vocês.

Sim. Um filho. Foi, também, uma surpresa para mim. Mas não é exatamente sobre isso que eu quero falar. Atentem! Atentem!

Sabem vocês que a Livraria Folha Seca, a livraria do meu coração, além de ser a melhor livraria da cidade é também o ponto de encontro preferido dos amigos, o buteco preferido dos amigos etc etc etc, palco de momentos memoráveis, como esse aqui, ó.

Mas ouçam o curto, mas significativo, recado deixado pelo Prata na secretária eletrônica do meu celular, integralmente transcrito abaixo.

E notem como o menino – dezenove anos! – refere-se ao troço: “escritório”.

Escritório!

Gênio! Gênio! Gênio!

Ouçam o recado aqui.

“Eduardo Goldenberg, aqui é seu filho mais novo, Tiago Prata. É, quando puder me dá uma ligadinha. Estou indo em breve para o escritório, tomar uma cerveja, e depois eu queria falar contigo também, uma outra coisa, falou? Um abraço, tchau!”

Confesso que não é de todo má a idéia de ganhar um filho assim, pronto, já com dezenove anos de idade: rubro-negro, talentoso, dono de um gosto musical afinadíssimo com o meu, e, o que é mais bonito, mais velho, mais antigo, mais sábio do que eu.

Até.

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>UM IRRETRIBUÍVEL, DE NOVO

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Como diria Wilson das Neves: ô, sorte!

Eu falei no nome do Wilson das Neves, imperiano de fé, e lembrei-me, imediatamente, do convite que me fez o Marcelo Moutinho para, com o Simas e com meu pai, assistirmos juntos ao show que aconteceu ontem, no Teatro Rival, em comemoração aos 60 anos do Império Serrano. Eu agradeci o convite dizendo que já tinha marcado um encontro, no Rio-Brasília, com duas queridas amigas, Manguaça e sua mãe, Sônia, Manguassônia pros íntimos.

Ocorre que no decorrer do dia ligou-me o Rodrigo Folha Seca, em estado de graça com a chegada de sua Joana, vindo de rápida viagem capaz de deixar meu amigo cabisbaixíssimo. Eu não titubeei:

– Rio-Brasília às oito e meia!

A bem da verdade e em nome da precisão, devo dizer que o encontro foi provocado pela Sônia, que queria me entregar um presente que me fora anunciado no domingo. E, já no domingo, eu era um ser em estado absoluto de ansiedade. Tentei cooptar a Manguaça, tentei comprar a empregada da Sônia prometendo mundos e fundos em troca da revelação do segredo, tudo em vão. E o encontro seria, também – digo isso ainda mais obsessivamente em busca da precisão que me acompanha como sombra – uma forma de agradecer pessoalmente à Joana o carinho que foi – babem! babem! – o bolo de chocolate que ela fez – babem! babem! – só pra mim.

Mas enfim.

Por que eu abri o texto dizendo “ô, sorte!”?????

Vejam se eu não sou um sujeito de sorte. Não deixo, nunca, de mencionar os presentes irretribuíveis que eu recebo, nunca. Aprendi com papai e mamãe – sempre repito isso também – a cultivar a gratidão. E sou grato a cada carinho que recebo, como esses todos que conto aqui, e como esse último, que conto aqui (antepenúltimo, agora, depois do bolo da Joana e do presente da Sônia).

E o que me deu a Sônia?

buteco feito artesanalmente pela Sônia

Vejam que lindo!

Ganhei um buteco, um mini-buteco, um lindo e comovente buteco, um nicho desses de pendurar na parede, e é evidente que vou pendurar esse, que foi batizado BUTECO DA SÔNIA, no meu buteco particular, aqui em casa.

Vejam bem… Tem piso e paredes de azulejo, quadros do Rio antigo, um escudo do Flamengo, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, uma imagem de São Jorge, engradados de cerveja, queijos, cerveja na mesa…

Comovente demais.

Ergo daqui, de pé diante do balcão imaginário do buteco, o copo em homenagem à Sônia, essa mais-que-querida, mãos que não fazem apenas uma das mais gostosas comidas que já comi na vida, mas que é capaz de mágicas como essa, que ganhei pra mim. Foi feito, é claro, por ela. Com amor, como me disse. Que retribuo, daqui, já que me falta talento para retribuir à altura.

Ô, sorte!

Até.

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>AGORA, SIM!

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Certas coisas são capazes de me dar alegria sem que digam respeito, diretamente, a mim. Vejam isso.

Ontem, escrevendo aqui sobre o episódio que envolve a Estação Primeira de Mangueira e a cantora Beth Carvalho, comentando a péssima matéria assinada pela jornalista Célia Costa, eu disse (e em negrito, o que me importa):

“Ontem saiu nota na coluna do Ancelmo Góis dando conta de que a Mangueira, a gloriosa Estação Primeira de Mangueira, desfilará esse ano abrindo mão da presença da não menos gloriosa Beth Carvalho. Hoje, n´O GLOBO também, no caderno RIO, Célia Costa assina matéria com o seguinte título: “Magoada, Beth Carvalho pode não desfilar pela Mangueira neste ano”, com o subtítulo “Cantora alega problema na coluna e diz que presidente negou vaga num carro”. Na tal matéria, a única menção ao nome do presidente da escola, Percival Pires, que teria negado peremptoriamente uma vaga na escola para Beth Carvalho, é a seguinte: “Percival Pires disse que desconhece o assunto”. E só isso. Mas peralá! Peralá! Eu não sou jornalista, é verdade, mas me parece que a moça que assina a matéria deveria, então, perguntar diretamente:

– Sr. Percival, a Beth Carvalho terá ou não vaga na Mangueira no desfile deste ano?

Mas, não. Não perguntou. E a matéria acabou que não informa nada. Rotina, n´O GLOBO.”

nota publicada no jornal O GLOBO de 07 de fevereiro de 2007

Ora! E não é que hoje, quarta-feira, o jornalista Cesar Tartaglia, carioca máximo, faz exatamente o que deixou de fazer sua coleguinha na véspera? Notem bem o teor da nota “Beth, a voz indignada do samba”, novamente negritada no trecho que me importa:

“Mas que bicho mordeu a diretoria da Mangueira? Desrespeitar Beth Carvalho, baluarte com 36 anos de escola, e deixar o dito pelo não dito? Beth está duplamente chocada, com a deselegância de lhe negarem um merecido lugar num carro – que ela reivindicara não por pavoneamento, mas por necessidade médica – e com a maneira como o presidente Percival Pires procurou dar por encerrado o episódio, declarando que desconhecia o assunto. Mas como desconhecer se ele mesmo negou o pedido ao empresário de Beth? Outra pergunta: ainda que desconhecesse, qual a posição do presidente sobre a solicitação dela: afinal, a Mangueira vai ou não atender o pedido de uma de suas mais representativas personagens? Moçada, não é hora de ficar calado. As escolas desrespeitam suas tradições, como fizeram com a velha guarda da Portela, por exemplo, e fica por isso? É preciso mostrar o desserviço que determinadas diretorias prestam à história das escolas.”

Que beleza! Assim é que se comporta um jornalista, pombas! Tomando posição. Sendo direto. Objetivo. Cobrando respostas para perguntas que elucidam a questão focada. Tudo o que a coleguinha do Tartaglia, na véspera, com mais espaço, não fez.

A se frisar, também, a belezura que é a solidariedade no meio do samba, prestada por gente bamba que não comete covardia. O mesmo Tartaglia, hoje também, anuncia que a Portela (através da Surica), a Grande Rio e a Império Serrano ofereceram à Beth Carvalho um “carro prontinho pra ela”.

A Beth merece essa homenagem. E a Mangueira, a manter-se a estúpida decisão que a deixa de fora do desfile, merece o repúdio de todos nós.

Até.

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>BETH CARVALHO E A MANGUEIRA

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Ontem saiu nota na coluna do Ancelmo Góis dando conta de que a Mangueira, a gloriosa Estação Primeira de Mangueira, desfilará esse ano abrindo mão da presença da não menos gloriosa Beth Carvalho. Hoje, n´O GLOBO também, no caderno RIO, Célia Costa assina matéria com o seguinte título: “Magoada, Beth Carvalho pode não desfilar pela Mangueira neste ano”, com o subtítulo “Cantora alega problema na coluna e diz que presidente negou vaga num carro”. Na tal matéria, a única menção ao nome do presidente da escola, Percival Pires, que teria negado peremptoriamente uma vaga na escola para Beth Carvalho, é a seguinte: “Percival Pires disse que desconhece o assunto”. E só isso. Mas peralá! Peralá! Eu não sou jornalista, é verdade, mas me parece que a moça que assina a matéria deveria, então, perguntar diretamente:

– Sr. Percival, a Beth Carvalho terá ou não vaga na Mangueira no desfile deste ano?

Mas, não. Não perguntou. E a matéria acabou que não informa nada. Rotina, n´O GLOBO.

Vamos a algumas digressões.

Paulo César Pinheiro, no monumental samba “Nomes de Favela”, diz:

“O galo já não canta mais no Cantagalo
A água não corre mais na Cachoeirinha
Menino não pega mais manga na Mangueira
E agora que cidade grande é a Rocinha!

(…)

Pela poesia dos nomes de favela
A vida por lá já foi mais bela
Já foi bem melhor de se morar,
Mas hoje essa mesma poesia pede ajuda
Ou lá favela a vida muda
Ou todos os nomes vão mudar.”

Ora, vejam bem. Se a vida nas favelas já foi mais bela, já foram mais belas as escolas de samba também. Não há, nessa constatação, nenhum saudosismo besta, nenhuma chorumela babaca. Mas as escolas há muito deixaram de ser o berço da comunidade que representam (raríssimas exceções, aqui no Rio, são a Beija-Flor de Nilópolis, Império Serrano (salve a Serrinha!), e, parece, o Salgueiro, que vem trazendo de volta pra perto os verdadeiros donos da escola). Passaram a ser palco de celebridades relâmpago, passaram a ser passarela para o desfile de gente que não tem sequer sombra de identidade com a agremiação. Culpa, sempre, do cogumelo GLOBO (TV, jornal, rádio), que leva pro Sambódromo, há anos, dois idiotas participantes do BigBrotherBrasil, que catapulta artistas gostosas, geralmente protagonistas das novelas em cartaz, para que se transformem, durante as transmissões dos desfiles, na principal atração da telinha.

Quem viu, como eu vi, Beth Carvalho ser recebida na quadra da Mangueira – como eu contei aqui – não consegue compreender, nem com boa-vontade, como alguém na escola pode imaginar que a Mangueira possa prescindir de sua luminosa presença na Marquês de Sapucaí.

Nenhuma cantora brasileira, jamais, cantou tanto a Estação Primeira quanto Beth Carvalho. Foram, até hoje, mais de oitenta sambas com raízes na verde-e-rosa. Nomeada madrinha da ala de compositores na década de 70, quando compositores de verdade compunham os sambas da escolas de samba, Beth Carvalho desfila há 37 anos pela escola. E é essa a mulher que a Mangueira, parece, dispensa.

Dirão meus detratores que sou amigo pessoal da Beth, que não tenho isenção para falar, que sou seu fã confesso.

Acontece que, sob a minha ótica, isso tudo me legitima ainda mais para que eu parta em sua defesa. Acho, sim, um nojo a atitude da escola. Um nojo e um nojo inexplicável. Mesmo com os desmandos e com as barbaridades perpetradas na Estação Primeira – fotografias de Bill Clinton tomando o lugar das fotografias do Cartola, só pra citar uma dentre tantas – a Beth jamais – e eu digo jamais com a ênfase szegeriana – deixou de cantar a Mangueira em seu shows pelo mundo afora, jamais deixou de empunhar as cores de sua escola, jamais deixou de desfilar pelas avenidas Rio Branco e depois Marquês de Sapucaí junto com a Estação Primeira, sempre com sorriso e braços abertos, num gesto de amor incondicional, como num abraço imaginário naquele pedaço de céu no chão, visto assim, do alto.

Beth Carvalho por Paulo Barbosa

Salve o samba, salve a verde-e-rosa, salve a escola verdadeira! Salve, Beth Carvalho da Mangueira!

Até.

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INCOMPETÊNCIA É ISSO AÍ – PARTE II

Eu escrevi, na semana passada, um texto chamado Incompetência é isso aí, que pode ser lido aqui. Nele eu reclamava – não sem razão – do modus operandi do qual se vale, hoje em dia, a maioria esmagadora dos jornalistas brasileiros. Não há mais o repórter que sai em busca da notícia, é a notícia que chega, por e-mail, ao jornalista. Não há mais o repórter fuçador, perspicaz, com gana de surpreender o leitor, mas o preguiçoso, o adorador do Deus Google, o que meramente copidesca, e copidesca mal. E reclamava disso em razão de que um jornalista do jornal O Globo, Luiz Ernesto Magalhães, a quem eu não conheço, assinara matéria dando conta do desfile do bloco Segura pra não cair, que não desfilou em 2006 e não desfilará em 2007, amanhã, 4 de fevereiro de 2007. E disse isso, o referido jornalista, por que?

Eu atribuí tal erro ao Deus Google. E cogitei, ainda, a possibilidade de que Luiz Ernesto Magalhães tivesse consultado o guia de blocos de carnaval da cidade do Rio de Janeiro editado pelo vereador Eliomar Coelho, que também insiste no erro desde o ano passado.

Eis que – há que se comemorar isto! – o jornalista respondeu-me. Mais que isso. Deu-se ao trabalho de fazer seu comentário no texto de 29 de janeiro passado e mandou-me e-mail do mesmo teor. Eu disse que há que se comemorar isto em razão de que raramente um jornalista dá-se ao trabalho de responder a alguém que o critica, colocando-se, quase sempre, na posição de intocável. E como o espaço dos comentários perde bastante visibilidade com o passar dos dias, reproduzo aqui, na íntegra, a resposta do Luiz Ernesto. Ei-la:

“Prezado blogueiro,

Sem entrar no mérito de quem está com a razão ou sobre minha competência como profissional ou a sua como internauta queria informar apenas que a fonte não foi o roteiro do Eliomar Coelho nem que as coisas saíram simplesmente de pesquisa no Google.

Não vou dar aulas de jornalismo para você principalmente por causa de um bloco carnavalesco.

Mas com mais de 300 blocos na cidade é impossível ligar para os organizadores de cada um. Entrei em contato com as subprefeituras que me pssaram uma listagem prévia. O Segura Pra Não Cair está lá e consta também de uma lista final divulgada hoje (quinta-feira, dia 1) para toda a imprensa pela prefeitura. Alguém informou ao poder público que ele vai desfilar…. Se quiser tenho cópia.

De qualquer forma, estou disponível para esclarecer o que desejar pelo e-mail luiz.magalhaes@oglobo.com.br”

É isso, então. Quero apenas, não querendo com isso fomentar qualquer discórdia com o Luiz Ernesto – a quem não conheço, que fique bastante claro isso – dizer mais uma ou duas palavrinhas.

Se são mais de 300 os blocos na cidade, e se a matéria cita não mais do que cinco ou seis, não seria preferível checar, cuidadosamente, os dados desses cinco ou seis blocos para não cometer erros gritantes como o que eu apontei? Notem, meus poucos mas fiéis leitores, que o jornalista confirma o que eu digo… Recebeu uma lista divulgada para toda a imprensa. Fez o quê? Pinçou um ou outro nome e tascou na matéria sem checagem mínima das informações que foram parar na matéria publicada no jornal. E foda-se o leitor.

No mais, não me assombra saber que a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro divulgou uma lista na qual consta o nome do Segura pra não cair. Quando penso no nosso prefeito eu também digo: incompetência é isso aí.

Até.

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