>SASSARICANDO

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No sábado passado, 24 de fevereiro, fomos, eu e a Sorriso Maracanã, assistir ao espetáculo “Sassaricando – e o Rio inventou a marchinha”, de Rosa Maria Araújo e Sérgio Cabral, pai, evidentemente. Ingressos esgotados, gente pelo ladrão, filas intermináveis na porta, mas eis que nosso filho mais novo, Tiago Prata – não somos nós quem dizemos isso, mas o próprio menino, leiam e ouçam aqui! – usou seu prestígio para comprar – eu disse comprar! – ingressos para nós. E lá fomos nós, eu e Dani, a mulher que me ensinou a sorrir – e que chorou de maneira olímpica junto comigo durante as duas horas de espetáculo – para o Teatro SESC Ginástico, reformado e belíssimo.

Acontece, meus poucos mas fiéis leitores, que eu só meto a mão na cumbuca quando sei mexer no que tem dentro, só dou pitaco sobre o que conheço, razão pela qual não vou me atrever a fazer crítica do espetáculo. Não nasci pra Heliodora.

Mas posso, sim, falar sobre o que fui eu durante os 120 minutos de espetáculo.

Antes de mais nada eu preciso lhes dizer: “Sassaricando” é um musical eminentemente carioca. Acho que senti troço semelhante quando li “Carnaval no fogo”, do Ruy Castro. Eu fui lendo, fui lendo, e pensava, enquanto me deliciava com as magnifícias histórias do livro, que dificilmente um não-carioca compreenderia na íntegra o que aquilo tudo significava e representava. Talvez o mesmo aconteça com “Sassaricando”.

É evidente que a música tem um alcance fabuloso, e é bem possível que um não-carioca, um gaúcho, por exemplo, tenha relinchos de alegria ao ouvir os primeiros versos de “Sassaricando”. Ou que um paulista, daqueles feitos de cimento armado e que odeiam o Carnaval, esboce um sorriso de canto de boca escutando “Aurora”.

Mas já na abertura do musical, quando Juliana Diniz abre um baú de memórias deixado por seu avô – não confundam com o Monarco, pô! – e lê, em off, uma carta deixada pelo velho endereçada a ela, fica claro: os cariocas, os cariocas de alma é que saberão o que vai ali e sentirão a mesma saudade, junto com a neta do avô folião que não existe mais.

Pausa para breve informação: eu e Dani éramos os mais novos da platéia. Guardem essa informação. À nossa frente – ficamos na última fila – um mar ártico, se me entendem. Ou cabelos brancos ou carecas reluzentes.

Durante a apresentação das 89 marchinhas que compõem o espetáculo, entremeadas por dois vídeos mortalmente emocionantes (“A Cidade” e “A marchinha e o carnaval”), o primeiro narrado pelo carioquíssimo Hugo Carvana e o segundo pelo não menos carioca Sérgio Cabral, pai, choramos inúmeras vezes.

Não chegamos, depois do espetáculo, a comentar sobre isso. É como se tivéssemos combinado de brincar separados com as emoções daquela tarde.

Eu quis dançar de mãos dadas com a Soraya Ravenle quando ela cantou, sozinha, “Bandeira Branca”, ou ainda quando me feriu a alma já combalida cantando “Paris”, quando eu, fungando, para completo assombro da velhota ao meu lado, cantei junto “mas eu gosto muito mais do Leme!”. Eu quis fazer pas-de-deux com a Sabrina Korgut quando ela invadiu o palco pra cantar “Lig, lig, lig, lé”. Eu quis entrar debaixo do mesmo guarda-chuva branco da Juliana Diniz quando ela pediu à Alá, sestrosa, água pra iaiá. Ali eu era o ioiô.

Eu senti uma puta felicidade por estar ali, vendo e ouvindo meus contemporâneos, Eduardo Dussek e os garotos, Alfredo Del-Penho e Pedro Paulo Malta, os dois bicudos que conseguiram a façanha de me fazer perder um CD arranhado de tanto que não me saía da vitrola, cantando cada vez melhor, sendo que esse último – confissão pública!!!!!, perdão Pedro Paulo! – eu vi bebê, em Caxambu, sul de Minas.

Eu senti um estranhíssimo orgulho de ver o Pratinha, moleque de 19 anos de idade, segurando as pontas dos músicos, com o bastão que lhe foi passado pelo craque Luís Filipe de Lima, que já é uma espécie de ISO 9000 em termos de musicais. O cara tá lá? Vai sem erro!

E – causa maior do meu quase passamento – o que foi pior.

A cada intervalo, a cada estouro das palmas, eu insistia em procurar, dentre aquelas cabecinhas brancas, a redezinha de pérolas em volta dos cabelos macios da minha bisavó.

Até.

PS: a temporada no “Teatro SESC Ginástico” termina no dia 18 de março. Tudo indica que a temporada vai prosseguir no “Teatro João Caetano”, na Praça Tiradentes. Se você é carioca, não perca. Szegeri, meu mano, venha! Pensei em você grande parte do espetáculo!

1 comentário

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Uma resposta para “>SASSARICANDO

  1. >Deu vontade de citar os versos imortais de Gonçalves Dias, mas…

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