MULHERES E SUAS OBSESSÕES

Eu e Simas passamos, há uns dias, pela mesmíssima experiência, levados, cada um, respectiva e obviamente, pelas mãos de nossas garotas, Dani Sorriso Maracanã e Candida. Deu-se assim a descoberta da coincidência: bateu-me o telefone o Simas, e aflitíssimo – notei pela respiração curta e ofegante.

– Onde você está?

– No shopping.

– Meu Deus!

– E você?

– No shopping.

– Meu Deus! Fazendo o quê?

– Comprando um colchão com a Candida. E você?

– Comprando um colchão. Sem a Dani mas a mando dela. Meu Deus…

– Daqui a uma hora no Rio-Brasília, Edu, por favor.

– Ok!

E nos encontramos, de fato, no Rio-Brasília.

Eu, quando cheguei, já encontrei o simpático casal à mesa. Candida, candidamente sorvia Coca-Cola de canudinho, e o Velho Simas, vermelhíssimo, no maracujá. Ergueu-se o Simas, quando me viu, e deu-me um abraço que só os irmãos dão, cochichando-me ao pé do ouvido:

– Uma fortuna! Uma fortuna!

– Nem me diga! Nem me diga, Simão!

Sentei-me, pedi um maracujá pra mim, e puxei da carteira, revoltado, um panfleto.

panfleto publicitário
– Simas, veja se isso é possível! A Dani enlouqueceu, camarada! Com o dinheiro desse colchão eu passaria o carnaval à base de uísque, pagando tudo pros amigos, gastando, gastando, e ainda me sobraria para uma viagem ao nordeste, eu e ela, pra descansar dos quatro dias de folia!

O Simas bateu os olhos no panfleto e parecia aterrado com o que lia.

– Desde 1898?

– Pra você ver…

– Cinco zonas de suporte especializadas que proporcionam uma melhor adaptação anatômica?

– Pra tu ter noção da coisa… Se eu me mexer à noite, malandro, e meu cotovelo, por exemplo, entrar na zona da coxa da minha garota, fudeu, eu acordo praticamente aleijado…

– Parecido com o meu! Também tem tecnologia HardFoam?!?!?!?!

– Mas é claro! Dani fazia questão disso!

– Candida também, caralho… – e Candinha continua chupando o canudinho prestando tremenda atenção ao nosso desabafo.

– Edu! E há zonas de suporte especializadas estrategicamente localizadas e fileiras de molas mais firmes que dão o suporte anatômico correto às zonas críticas do corpo?

– Há. Claro que há. O que eu não sei, sinceramente, é quais são as zonas críticas do meu corpo – eu disse alisando a barriga proeminente.

– Nem eu – devolveu o Simas coçando, acintosamente, o saco…

– Luiz Antonio! – ralhou Candida.

Ele fez que não ouviu.

– Simão… E por falar em molas…

– Dani também fez questão de molas ensacadas?

– Evidentemente! A recomendação foi expressa! Não importa a marca! Não importa a cor! Não importa nada! Nada! Tem que ter molas ensacadas!

Eis aí, meus poucos mas fiéis leitores, o instante em que interrompo a verídica narrativa para uma breve digressão, que fiz, de pé, e com veemência, para um Rio-Brasília atento.

Falo tendo a Dani como parâmetro, mas sei que o troço vale para qualquer mulher.

Dani viveu décadas dormindo feliz. Dormiu em colchões de mola, em colchões de espuma, em esteiras quando necessário, em sofás quando não tinha jeito, em colchonetes ordinários quando era essa a única opção. Nunca, jamais, em tempo algum reclamou da noite reparadora. Nunca. Mas bastou ver – e aonde eu não sei! – uma propaganda – e eu sempre digo que a propaganda e o marketing são a raiz da infelicidade humana – de colchões com molas ensacadas que tornou-se, o tal produto, sua obsessão olímpica.

Eu, inclusive, se solteiro fosse – fica minha dica – sairia no Bola Preta fantasiado de mola ensacada, uma fantasia simples, bastaria um lençol em volta do corpo, dizendo no ouvido das moças “oi, sou uma mola ensacada, vem dormir comigo que você jamais vai se arrepender” e outras merdas do mesmo gênero. Eu comeria, tenho uma inabalável certeza quanto a isso, várias foliãs, várias, mesmo sendo esse feio que eu sou.

Daí as mulheres, facilmente levadas no bico – que expressão velha! que expressão caquética! -, passam a PRECISAR de um colchão de molas ensacadas para serem mulheres felizes. O marido não mais importa. O namorado é um ninguém. Tudo passa a girar em volta desse mito que é o colchão de molas ensacadas. Choram, fazem beicinho, passam a rolar na cama à noite como nunca dantes atribuindo a insônia à ausência de molas ensacadas, um inferno.

Mas eis que então, colchão escolhido, Dani mandou-me à loja. Lá fui eu, triste, mas fui, que um pedido da minha menina eu não nego.

Entro no loja e vem a vendedora, que não sabe que estou ali com ordens a cumprir. Por coincidência, me aponta o colchão escolhido pela Dani, o que, aliás, torna ainda mais evidente o quanto é agressiva a publicidade da coisa. Estende-me o folheto.

Eu faço:

– Oh!

E ela sorri aquele sorriso peguei-mais-um-otário.

– Gostou, senhor?

– Hum. Mais ou menos.

Ela se decepciona e quase me agride:

– Como?! São fabricados desde 1898!

– Foda-se, minha senhora. Há muita merda fabricada desde muito antes disso…

Ela, com metas a cumprir, finge que não ouve a agressão.

– Mas, senhor… Mas ele é feito de molas ensacadas, e a ação independente das molas asseguram que os movimentos de sua companheira não lhe incomodem durante seu decanso…

– Minha senhora, mas à noite eu quero é rosetar! Se ela dança, eu danço!

Ela vai enrubescendo de ódio mas mantém a fleuma:

– As bordas do colchão são super firmes para sentar…

– Eu sento em poltrona, porra!

Rola uma lágrima dos olhos da vendedora, que range os dentes, num acesso de bruxismo à plena luz do dia.

Até que eu morro de pena e dou o golpe final. Como um possesso, viro o panfleto e aponto.

panfleto publicitário
Finjo estar emocionado. Forjo o choro. E pergunto, já fungando, assoando o nariz, lencinho tirado do bolso na mão.

– O que houve, senhor?

– Como é seu nome?

– Cilene, senhor… O que aconteceu? Fui ríspida com o senhor?

– Não, em absoluto… Se a senhora tivesse me dito antes, dona Cilene…

– Dito o quê?

– Se eu soubesse, dona Cilene, que o doutor Vincent Lucido dorme em um colchão King Koil porque seu desenho anatômico se adapta corretamente ao seu corpo e proporciona o suporte que ele necessita e o conforto que ele quer… – assôo o nariz com força, fazendo um barulho asqueroso – E que é esse o colchão que ele recomenda a todos os seus pacientes…

– O senhor conhece o doutor… ? … como é mesmo o nome dele…?

Eu faço que sim com a cabeça e nos encaminhamos para a formalização da compra.

Contei essa história pro Simas que, diante de uma incrédula Candida – “Vocês, homens, não nos entendem nunca…” – rolava de rir nas calçadas da rua Almirante Gavião.

Até.

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10 Comentários

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10 Respostas para “MULHERES E SUAS OBSESSÕES

  1. >A sua vida nunca mais serah a mesma depois de adquirir um grill George Foreman…

  2. >O que são molas ensacadas?=8-O

  3. >Lembram-se do Vaporetto??? Hahahahahaha… A obsessão foi maior do que pelas molas ensacadas! Elas ficaram loucas e saíam falando pra todas as outras que compraram!!Abraço!

  4. >Aquele cara do anúncio eu manjo. É o Agamenon Mendes Pedreira.

  5. >Cara, tenho uma puta sorte porque minha mulher não tem quase nunhuma dessas frescuras. Mas a minha irmã tem todas! Vale pelas duas!Tenho o tal George Foreman que ganhei de presente de casamento mas nunca usamos… tá guardado na caixa esperando uso.Abraço!

  6. >Eu sei que sou uma mulher muito pouco mulherzinha mas… Não sei o que é mola ensacada (estou até agora tentando entender se é tipo um fio encapado em espiral ou se é uma salsicha com vértebras), não tenho vaporetto… Temos uma grelha, e usamos bastante.Será que alguma boa alma pode resolver o mistério da mola ensacada pra mim, por favor?Não vou conseguir dormir de noite pensando em molas embrulhadas para presente e em minhocas com camisinha. Help!

  7. >As molas ensacadas permitem que o sujeito se esbalde no colchão sem que o mesmo apresente qualquer tipo de alteração. Se estou fazendo flexão de um lado da cama, não haverá nenhum efeito do outro lado. Desenvolvida pelo Dr. Vincent Ludico, a técnica é estruturada a partir do princípio das estruturas isolantes sedimentadas e invertidas, consoante as normas de fricção estabelecidas pela A.E.U.T.Em tempo, alguém pode me explicar, diante desse relato, o que são as molas ensacadas?ps: A grelha George Foreman é excelente!

  8. >esse papo todo meu deu vontade de comer e dormir… infelizmente, não tenho a tal grelha e paso muito longe do tal colchão. Mas é isso que rola com as tais necessidades adquiridas: quem era feliz com ortobons da vida, agora passa noites em claro pensando que só poderá atingir a felicidade plena quando adquiri o tal produto revolucionário. Até, obviamente, inventarem outro.

  9. >Se você tem o George Foreman na caixa, trate de tirar e usar. É ótimo!

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