BETH CARVALHO NO RIO-BRASÍLIA

Tudo apontava para uma segunda-feira insossa, tediosa, monótona, triste. Sem minha Sorriso Maracanã, que está viajando de novo, eu havia decidido, no máximo, receber o Simas em casa para um uísque socialíssimo, rápido, só pra matar as saudades. Em nome da precisão vou explicar o por quê disso.

Estava eu em Volta Redonda desde a sexta-feira. E já no sábado, e já pela manhã, chega uma enigmática, emblemática e polidíssima mensagem no meu celular, enviada pelo velho Simas:

“Costurou na boca do sapo o resto do angu… saudade, caralho!”, era o que dizia o recado.

Comovi-me com a demonstração de afeto, fiz juras de amor quando respondi, e encontrar o Simas na segunda-feira tornou-se um compromisso. Pois bem. Vou prosseguir.

Antes, porém, confesso que me vem a cabeça o Rodrigo Manguaça, que sempre duvida do que me acontece, como contei aqui, quando escrevi isso:

“Dia desses eu fui jantar na casa da minha amada Sônia, mãe dos queridos Manguaça e Manguaço, e lá encontrei-me com o Rodrigo, primo desses dois, sobrinho daquel´outra. Disse-me o Rodrigo, comentando sobre o episódio envolvendo a garotada do jongo da Serrinha, que relatei aqui, que tudo na minha vida era encantado demais, bonito demais, quase que duvidando das belezuras que conto aqui no Buteco. Não duvidava de mim, exatamente, mas queixava-se, numa pilhéria, do marasmo de sua vida em contraste com as surpresas da minha.”

Marquei, de fato, o uísque com o Simas. Eu o aguardava às sete da noite quando o Prata me bateu o telefone:

– Edu, estou querendo levar a Beth pra conhecer o Rio-Brasília… Vamos?

Eu disse “vamos” e pensei “babau segunda-feira quietinho”.

Notem que o Prata já havia me ligado à tarde:

– Vamos ao Samba do Trabalhador?

Como não sou músico – digo sempre isso a ele – e eu estava de terno, no centro da cidade, no instante do telefonema, recusei, evidentemente, o convite.

Ligo pro Simas a fim de comunicar a mudança de planos, mas o menino prodígio é mais rápido que eu e já havia avisado a ele, que disse assim:

– O Prata acaba de me ligar. Estou indo, com Candida, pro Rio-Brasília!

Eu, que não sou homem de mentir, como havia convidado o Simas pra um uísque em casa, cheguei ao Rio-Brasília com o dito cujo.

Estávamos ali, bebericando o uísque, alternando com golinhos de cerveja e de maracujá, quando dobra a esquina o portentoso Dorival, conduzido pelo Prata, imediatamente seguido pela Beth. E deu-se mais uma surpresa da noite. A Beth salta do carro com duas mulheres que nos são apresentadas. Sheila, sua assessora de imprensa, e Monica Manir, jornalista de São Paulo, do Estadão, a quem a Beth me apresenta assim:

– A Monica disse que já troca emails com você faz tempo…

Verdade. Lendo isso aqui vocês hão de entender. A Monica, que chegou ao Buteco do Edu graças à indicação de uma amiga, já em duas oportunidades me convidou pra escrever uma carta aberta no Estadão, o que fiz com um tremendo prazer. Chegamos a marcar, quando lancei meu livro em São Paulo, de nos conhecermos, no Ó do Borogodó. Um imprevisto a impediu de ir. E acabou que nos conhecemos aqui mesmo, no Rio, no meu buteco de fé.

Pratinha e Beth Carvalho, 12 de fevereiro de 2007, no Rio-Brasília

A Beth ficou visivelmente bem impressionada com a beleza do lugar, e também pudera. Em questão de minutos a mesa era um troço! Garrafas de Brahma com véu de noiva, lingüicinha frita acebolada, queijo fatiado, doses de maracujá, uísque, carne assada com coradas, e chegam Rodrigo Folha Seca e Leo Boechat, convocados por mim, e eu percebo, naquele exato instante, não eram ainda nem nove horas da noite, que a segunda-feira não iria prestar…O Joaquim me fazia estranhíssimos sinais de dentro do balcão, aqueles sinais típicos de um náufrago em mar bravio, os braços balançando como um desses bonecos infláveis de posto de gasolina, e eu fui até lá:

– Doutor! Doutor! A Beth Carvalho, doutor, a Beth Carvalho! Obrigado! Obrigado! – notem a emoção do Joaquim.

Candida, Simas, Rodrigo Folha Seca e Leo Boechat, 12 de fevereiro de 2007, no Rio-Brasília

A certa altura, já quase dez da noite, pedi licença e fui em casa buscar o Pepperoni para uma voltinha no quarteirão. Acontece que a voltinha no quarteirão terminou no Rio-Brasília, já que quando passamos por ali o Simas gritou:- Deixa o Pepperoni aqui com a gente! Eu fico com ele.

E ficou.

Só ouço o menino gritando:

– Vem! Vem! Vem!

Em menos de vinte minutos chega, de táxi, o Gabriel da Muda, não por acaso um dos autores do samba vencedor do Nem Muda Nem Sai de Cima, que este ano homenageou a Beth.

Beth Carvalho e Gabriel do Cavaco, 12 de fevereiro de 2007, no Rio-Brasília

E ali ficamos, todos à vontade na minha cidade, na pacata Tijuca, naquela rua tranqüila, e pedimos a conta, e é preciso dizer, a essa altura, que a conta não chegou a dar nem vinte reais por pessoa, o que na zona sul dá pra você comer uma empada sem azeitona e um chope, e foram incontáveis garrafas de cerveja, doses industriais de maracujá, porções de lingüiça, porções de carne assada com batatas coradas – a Beth amou, a Beth amou! – queijinho, e um visivelmente comovido Joaquim – Terezinha chegara um pouco antes e compartilhava a emoção com o companheiro – deu de derramar sobre a mesa as saideiras, de cerveja e de maracujá. Até que não segurou a emoção – travada por uma incorrigível timidez – e me chamou:

– Será que ela tiraria uma foto conosco pra gente botar um quadro na parede?

Eu, já de olhos molhados, que essas demonstrações de afeto temperadas com humildade me comovem pra burro, disse um “mas é claro que sim!”. E vejam se eu não estava certo!

Terezinha, Beth Carvalho e Joaquim, 12 de fevereiro de 2007, no Rio-Brasília

E antes de encerrar, três episódios da noite.A certa altura bate o celular do Prata . Ele atende e fica naquele “já vou, pai”, “tô indo, pai”, “não vou demorar, pai, juro”. Até que a Beth toma o celular das mãos do menino e diz ao pai do gênio – Sérgio Prata, chorão de primeira linha, a quem a Beth evidentemente, conhece:

– Pode deixar o menino com a gente! Estamos tomando conta dele!

O Prata, por sua vez, comove-se com a intervenção elizabetana e corre em direção ao Dorival. Volta do carro com um LP nas mãos. E com os olhos marejados o entrega pra Beth:

– Autografa pra mim, Beth… Estava jogado, numa banca de discos no centro da cidade, perguntei quanto era e o cara me disse lamentando que não estava à venda, que o disco estava quebrado… Eu comprei mesmo assim! Autografa! Autografa!

Ela autografou e mandou até um “P.S.” no final, dizendo que se tratava do primeiro autógrafo, em décadas de carreira, num disco quebrado.

E por fim, vale o registro. Três coroas sentado numa mesa ao lado da nossa, já quase no final da noite, quando estavam indo embora, pediram licença, fizeram mesuras à Beth e um deles, em nome dos três, ele disse, anunciou:

– Estamos contigo, sempre, nesse episódio-papelão que a diretoria da Mangueira está fazendo…

Salve a Tijuca!

Até.

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21 Comentários

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21 Respostas para “BETH CARVALHO NO RIO-BRASÍLIA

  1. >Realmente a sua vida é bem mais emocionante que a da maioria dos mortais! Mas por alguma razão você deve merecê-lo!Beijos, Susana

  2. >Maravilha! Que maravilha! Segunda-feira é pra isso mesmo!

  3. >Susana, eu sempre digo isso sobre a vida do Edu. Quem vai saber qual a razão disso, não é mesmo? Mas para nós, que somos meros mortais leitores, fica bem claro que alguma coisa de diferente ele tem. Eu não conheço ele pessoalmente mas sei pelo que leio aqui que ele é um sujeito iluminado mesmo. Valeu Edu! E ainda fico com um pouco de inveja boa porque eu sou fã da Beth Carvalho.

  4. >Brunão matou a pau. Não tem nada de diferente. Segunda-feira é pra isso mesmo!Edu, quero imediatamente uma cópia dessa minha foto com o Pepperoni, tremendo cachaceiro e o mais bem educado da noite, sem dúvidas.

  5. >Eu leio seu blog há muito tempo desde que ganhei e amei seu livro de presente de aniversário de um amigo meu que te conhece, o Léo. E eu fico sempre muito impressionada com a sua vida, com o ritmo dela e com a sua capacidade de reunir gente boa em volta de você. Eu queria um espacinho nessa mesa! Você é um mágico.

  6. >Eu falo isso sobre o Edu há muito tempo. Se eu não lesse os outros falando sobre você eu duvidaria da sua existência. Eu só passei a ter certeza de que você existe no dia da festa de aniversário da Folha Seca, quando eu nem quis falar com você pra não incomodar. Mas você é quase inumano. Não cabe tanta coisa bonita na vida dos homens comuns. Meu abraço e minha admiração.

  7. >Porra, Edu: e eu, qdo serei apresentado ao Rio-Brasília?

  8. >Nao gosto de ler o seu blog nao. Me faz ficar com vontade de voltar a morar no Rio de Janeiro…

  9. >Olha, isso aqui está uma babação de ovo completamente maluca. Qualquer dia desses vai um maluco escrever que o Edu anda baixando como entidade em terreiro de umbanda.E Cesar, você vai me desculpar, mas tudo que o meu irmão Edu quer ser é um homem comum , na dimensão plena que esse termo tem, feito de carne , memória e luta. E ele é, e os amigos dele somos, homens comuns. Posso te garantir.O grande mérito do meu irmão de fé é não se trancafiar no medo e saber que a vida acontece nas esquinas, botequins e terreiros.O encanto, amigos, está na Tijuca, na Zona Norte e, sobretudo, na gloriosa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, tão bem encarnada na Folha Seca.A Almirante Gavião está ali. Quem chegar vai encontrar um exército de bebuns, com suas bermudas, havaianas e uns trocados para a cerveja, vivendo a vida.É simples, porra. Os personagens, meus velhos, não são o Edu e os seus amigos. As estrelas são a Tijuca e a cidade, cacete, a Tijuca e a cidade!Edu, meu irmão mais que querido, como estão te achando um mito, vou quebrar um pouco o não-me-toques:-Qual é, afinal , o teor alcoólico da porra do uísque, que eu não consigo me lembrar?beijo e chega de babação de ovo!

  10. >Eu não vou responder a um por um, como costumo fazer, por uma simples razão e que na verdade justifica o por quê da minha ansiedade olímpica na espera do encontro de Fernando José Szegeri e de Luiz Antônio Simas, eu como testemunha, evidentemente. Somente o Szegeri seria capaz de uma resposta como essa, que deu o Simas, o Velho, apelido perfeito dado pelo meu irmão paulista. Corroboro cada uma de suas palavras. Sem tirar uma vírgula sequer. Como eu costumo fazer quando é o Szegeri falando por mim. Dois irmãos, graças a todos os deuses, graças a todas as forças, a todas as tribos, que cruzaram meu caminho.

  11. >E pensar que eu fiquei de passar por lá ontem sem saber de nada disso… Devia seguir mais as vozes suburbanas que berram dentro de mim…Puta texto, como sempre, Edu!

  12. >Edu, por que o Simas parece querer exclusividade em conhecer você? Não se trata de babação de ovo como ele disse, mas de admiração. Ou ele não deixa mais ninguém admirar você como ser humano e escritor sensível que você é?

  13. >Velho: que bom que eu já posso me aposentar da antipática e necessária função. Perfeito, sem tirar nem pôr. Os babadores, quando se juntam, perdem os pudores, atacam com uma fúria devastadora.Galinho: achei anteontem na minha casa um livro teu com a seguinte dedicatória: “Para Mõnica, com afeto, Edu”. Joguei fora. A dedicatória, claro.urbi et orbi: tem mané que faz questão de ficar passando recibo, né??? Êeeeta…

  14. >Sinceramente Edu, nunca pensei que um simples comentario pudesse suscitar tais reacções dos seus amigos! Eu nem o conheço, estou tão longe, o que é que eles acham que eu possa querer de si?Susana.

  15. >Susana: você é leitora antiga do Buteco, citada por mim mais de uma vez, até, e eu posso garantir a você que não foi pra você os recados que o Simas e o Szegeri mandaram, esteja certa disso. Foi, precipuamente, para quem me bajula excessivamente com pretensões inconfessáveis, esteja certa de novo. Apareça sempre por aqui. Você é e será sempre bem chegada no balcão! Um beijo.

  16. >Cesar Nascimento: o Simas, ao lado do Szegeri, tem carta branca no balcão do Buteco. Eu uma vez, infelizmente, precisei pedir a você que parasse com aquela babaquice de pincel, quadros, o cacete a quatro. Dessa vez bem fez o meu irmão agredindo você. Sua primeira intervenção foi de uma infelicidade olímpica, que mereceu a pancada pertinente. O troço era mesmo contigo.

  17. >Tudo bem que a sinceridade é uma virtude mais do que necessária, mas um pouquinho de delicadeza não faria mal. Gosto do blog, sou tijucana, mas fazer comentário aqui se tornou perigoso, corre-se o risco de ser execrada!

  18. >Olga: sou obrigado a discordar de você. Esse cara, o Cesar Nascimento (vai sem o negrito, que ele não merece), passa dos limites, e eu gostaria de não ter que dizer mais do que isso, a incoveniência dele é auto-explicativa e explica as reações que causa. Vou dizer a você o que disse à Susana, que, de Portugal, muito me honra quando apóia o cotovelo no balcão: foi bastante específico o chega-pra-lá do Simas. Continue aparecendo, sempre! Um abraço.

  19. >Voltarei sempre!Bjs, Susana.

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