O RECADO DE TIAGO PRATA

A vida é feita de pequenas surpresas, vejam se não.

Que (eu sei que pelas regras obtusas da língua não devemos começar uma frase com “que”) o Pratinha, o Tiago Prata, o Prata Querubim, é um geniozinho, isso é um fato. É um fato que eu atesto. Um fato que o Simas atesta. Um fato que o Rodrigo Folha Seca atesta. Um fato que o Szegeri, que nem o conhece pessoalmente, atesta.

Mas além de ser um gênio, além de ser aduladíssimo por onde quer que passe (quer seja pelo talento com o violão nos braços, quer seja pelo rosa que exibe nas partes laterais carnosas da face – quem tem Orkut que confira), o Pratinha é um antigo, também, no comportamento.

Acompanhem meu raciocínio que provará, irremediavelmente, a secularidade do menino.

Tem, o menino-prodígio, um carro sem ar-condicionado, o Dorival, nome do veículo, e isso de dar nome ao carro já é de um antigüidade vetusta, e deve ser, digo sem medo do erro, um dos únicos carros a circular no Rio de Janeiro sem ar-condicionado, o que dá a eles – ao carro e ao motorista – o adesivo da excepcionalidade. Isso para não falar da cor do carro, um horror, um horror absoluto, uma tragédia visual, única, implacável.

Há mais! Há mais! O Prata namora. Mas o namoro do Prata não tem, percebam bem, o frescor de um namorico comum a um menino de 19 anos. Não. O namoro do Prata é denso. É denso e é tenso. Pensa, o Prata, permanentemente, em porres homéricos, em projetos de suicídio, em noites vagando pela rua, a cada mínima crise que abala a relação afetiva que mantém. Eu e Simas somos, e novamente o Velho Simas – apelido dado por meu irmão Szegeri – poderá atestar a verdade do que digo, permanentemente procurados para um porrezinho, à mesa, com o geniozinho, a fim de “curar a fossa”, expressão que o Prata usa com freqüência, e notem que o simples uso da palavra “fossa” praticamente fossiliza o garoto.

E há mais. Há muito mais e eu não me estenderei mais a fim de não amofinar a sexta-feira de vocês (eu disse “amofinar” e me igualo ao Prata em arcaísmo).

Mas quero citar apenas mais uma prova, uma única prova, que tornará definitiva essa impressão da ancestralidade do Prata, essa certeza de que deve-se ao atavismo, evidentemente, esse comportamente, esse modo de ver e de viver a vida.

Ligou-me, ontem, o Prata. Estava eu ocupadíssimo, no Tribunal de Justiça, com o telefone desligado, razão pela qual não pude atendê-lo. Eu sempre – digo isso em nome da precisão – atendo meus amigos. Sempre. Que dirá um filho.

“Um filho?”, gritarão vocês.

Sim. Um filho. Foi, também, uma surpresa para mim. Mas não é exatamente sobre isso que eu quero falar. Atentem! Atentem!

Sabem vocês que a Livraria Folha Seca, a livraria do meu coração, além de ser a melhor livraria da cidade é também o ponto de encontro preferido dos amigos, o buteco preferido dos amigos etc etc etc, palco de momentos memoráveis, como esse aqui, ó.

Mas ouçam o curto, mas significativo, recado deixado pelo Prata na secretária eletrônica do meu celular, integralmente transcrito abaixo.

E notem como o menino – dezenove anos! – refere-se ao troço: “escritório”.

Escritório!

Gênio! Gênio! Gênio!

Ouçam o recado aqui.

“Eduardo Goldenberg, aqui é seu filho mais novo, Tiago Prata. É, quando puder me dá uma ligadinha. Estou indo em breve para o escritório, tomar uma cerveja, e depois eu queria falar contigo também, uma outra coisa, falou? Um abraço, tchau!”

Confesso que não é de todo má a idéia de ganhar um filho assim, pronto, já com dezenove anos de idade: rubro-negro, talentoso, dono de um gosto musical afinadíssimo com o meu, e, o que é mais bonito, mais velho, mais antigo, mais sábio do que eu.

Até.

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9 Comentários

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9 Respostas para “O RECADO DE TIAGO PRATA

  1. >Edu, não dá pra ouvir porque está aparecendo “Not Loaded” no link de áudio. Tu deve ter feito alguma modificação no texto, depois de publicado, e aí ferrou tudo. Eu demorei pra aprender. Tu faz o seguinte: vai lá no GoEar, pega de novo o código desse áudio, joga no word (isso é importante, primeiro joga no word), depois copia do word e bota de novo no blog. Deleta esse que aí está e cola novamente o código. Cada vez que tu alterar o texto vai ter que publicar o áudio de novo. É sacal, mas é assim que funciona. Tenta publicar de novo o áudio. Deleta esse e publica de novo. Vê se dá certo. PS – Se aparecer “Loaded” é que deu certo

  2. >Bruno: você deve estar usando o InternetExplorer, mano. Acabei de testar, de novo, com o computador reiniciado, e consegui ouvir, com o Mozilla e com o Opera, apenas. De qualquer forma, valeu a dica! Abraço.

  3. >No meu, com Explorer 7, funcionou perfeitamente.Abs

  4. >Muito bonitinho ver o carinho entre vocês. Como diz uma amiga minha, a amizade entre os homens é mais sólida e mais franca do que entre nós, mulheres.

  5. >Só não me conformo com os onze anos…

  6. >Como é bom ter coisas saudaveis para ler, continuem vocês são nota mil, na terceira idade faz muito bem lermos tudo que voces de blogger escrevem.

  7. >Eduzinho, agradeça ao Bruno a lição. Simples, cristalina, elementar. Só um incompetente como você pra não dominar um procedimento tão óbvio.

  8. >Ô Fernando, nem eu entendi a explicação! E mais analfabeto internético do que eu não existe! Mesmo! Reivindico aqui o título de analfabeto mór da teia cibernética!

  9. ricardoasantos

    Ele é o seu filho mais novo. E quem é o mais velho e/ou o do meio?

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