Arquivo do mês: dezembro 2006

>WILSON MOREIRA – 70 ANOS

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Nascido em 12 de dezembro de 1936, faz anos hoje Wilson Moreira, o Alicate, glória da música brasileira, do samba, do jongo, dos caxambus, do Brasil, enfim. Todas as homenagens serão sempre poucas diante do tamanho de sua importância, da grandeza de sua generosidade e da força de seu aperto de mão!

Salve, Wilson Moreira!

De pé, no balcão imaginário do Buteco, ergo o copo num brinde à saúde desse nêgo talentoso, meu vizinho, que me deu a honra – e ao Simas, ao Rodrigo Folha Seca e ao Prata Querubim – dessa entrevista e desses momentos inesquecíveis, que podem ser vistos aqui e aqui!

Até.

E com a licença do meu mano Simas

Axé!

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UM RIO DE LÁGRIMAS

Vejam vocês a ironia das situações! Vivi, no sábado, ao lado de queridos meus, um momento tão mágico quanto encantado, capaz de, até esse exato momento, me fazer questionar, sem exageros, se aquilo de fato aconteceu ou não. Vou lhes contar. Mas antes, vamos à ironia. O Flavinho, meu querido Xerife, deixou, hoje, às 8h32min, o seguinte comentário no texto dedicado ao Salgueiro, aqui:

“É o maior rio de lágrimas da net…”

Era, meu querido Flavinho, era. E vou explicar.

Acordamos no sábado, eu e minha Sorriso Maracanã, com uma determinação bíblica: vamos almoçar no Casual!

O Casual, para quem não conhece, é comandado pelo grande Santos, e fica na esquina da Rua do Ouvidor com a Travessa do Comércio, a poucos metros da melhor e mais carioca das livrarias, a Folha Seca, dos queridíssimos Rodrigo Folha Seca e Dani.

Batemos o telefone para papai e mamãe, que toparam o convite. Toparam o convite e amaram o restaurante e a livraria, que não conheciam. Foram horas de deleite, ali, saboreando lulas a vinagrete, punheta de bacalhau, muito chope, arroz de tamboril com camarão, taças de vinho tinto, e livros, e discos, e muito mais. Com outros compromissos, partiram os dois, deixando-nos ali, naquela esquina que nos reservava uma surpresa indizível.

Como a vida é feita de coincidências, e como as coincidências dão mais graça à vida pelo que guardam de inusitado, chegaram Simas e Candinha. E com eles, Adelino, Claudão e Ana com Clarinha, Rodrigão e Mônica com Miguel, Evelin, Joana, e Rodrigo Folha Seca com sua Joana depois de fecharem a livraria às 15h. Eu e Dani, evidentemente, sentamos à mesa com eles e havia, ali, como sempre há, diga-se, uma aura de coisa boa que as palavras não conseguem descrever, como os olhos, quando deitados em Mangueira.

O Simas, num gesto de generosidade olímpica, comemorando especialíssima data, anunciava:

– A conta hoje é minha!

E estava, de fato, o Simas, num dia de nítida alegria. Veio à certa altura e sentou-se a meu lado. Já tinha, o calvíssimo Simas, os olhos marejados:

– Edu… Você já conhece o Miguel? – disse referindo-se ao menino, quatro anos de idade, filho do Rodrigão e da Mônica.

– Não.

– Miguel, venha cá!

E me disse no ouvido:

– Um grande garoto, Edu! Um grande garoto… – e tomando o menino pelas mãos, disse:

– Você é filho de quem, Miguel?

– Xangô!

Gargalhou, o Simas, e voltou-se a mim, e eu também ria diante da resposta do moleque:

– Um grande brasileiro, Edu… Um grande carioca!

A certa altura liga-me o Prata. E vai ao nosso encontro. Lá chegando, saca do violão, e começamos, sem nada planejado, a cantar Noel Rosa, numa homenagem ao aniversariante, que faria hoje, 11 de dezembro, 96 anos de idade! Canto eu, canta o Simas, canta o Prata, canta o Rodrigo Folha Seca (e erra o tom), e ficamos nisso, bebendo e cantando, quando deu-se a mágica após intensa pancada de chuva, dando um tom ainda mais enigmático e impressionante pra tudo.

alunas do Jongo da Serrinha

Dobram a esquina umas trinta, quarenta crianças, guiadas por duas moças lindas, com sorrisos em flor, todas com a mesma camisa, onde lemos “JONGO DA SERRINHA” e param diante de nós, formávamos uma roda, e o Rodrigo Folha Seca dá o grito:- Palmas pro pessoal do Jongo da Serrinha!!!!!

O Simas cutuca o Prata e puxa:

“Serra
Dos meus sonhos dourados…”

A criançada em côro:

“… onde nós fomos criados
Eu hei de morrer
Não desfazendo de ninguém
Serrinha custa mas vem…”

Deu-se o seguinte: eu chorava, Prata chorava, Simas chorava, Rodrigo Folha Seca chorava (errando o tom, evidentemente), todos nós ali, diante daquela força inexplicável, diante daquele susto, diante da beleza dos sorrisos daqueles meninos e meninas, chorávamos copiosamente. Uma das meninas disse:

– Vamos cantar um jongo pra eles…

E cantaram. E das mesas fizeram tambores, surdos, caixas, bongôs, e quando partiram, ainda cantando, devolvemos – como se fosse possível – a homenagem:

“Menino de 47!
De ti ninguém esquece!
Serrinha, Congonha, Tamarineira,
nasceu Império Serrano
o reizinho de Madureira…”

Eu, particularmente, nunca mais – esse “nunca” dito com a ênfase szegeriana – vou me esquecer não apenas do momento, que durou no máximo uns 10 minutos, mas do olhar daquelas crianças, orgulhosas, emocionadas também diante da emoção de um bando de malucos, e especialmente do olhar de uma das meninas, também marejado enquanto ela cantava, e eu, num delírio, pensando que era pra mim.

Até.

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SALGUEIRO É UMA RAIZ

Certa vez, em janeiro de 2005, abri meu coração aqui mesmo, no balcão do Buteco:

“Eu, que desde o berço aprendi a guardar com orgulho a Academia do Samba no coração, Salgueiro, minha paixão, minha raiz, tive – e já contei isso por aqui – o coração invadido, a princípio timidamente e depois de forma arrebatadora, pela azul-e-branco fundada pelo seu China, o velho sonhador, que criou a tal Vila bonita que me encantou, com a licença de Martinho da Vila e do Ruy Quaresma.”

Tudo verdade. E vou lhes contar, como introdução, uma história real – como todas as que conto – para que, talvez, tudo faça sentido e não soe como delírio ou exagero. Não me importa exatamente, nesse específico caso, a precisão dos dados ou dos fatos. O que importa é que eu sempre soube que mamãe, quando menina, morando na Rua dos Araújos, na Tijuca, evidentemente, teve uma babá, negra, que desfilava na ala das baianas da Acadêmicos do Salgueiro. Tem, ainda hoje, minha mãe, memórias vivíssimas da tal babá. Eu, quando menino, morando na Rua São Francisco Xavier, na Tijuca, evidentemente, lembro-me, com a mesmíssima nitidez com que minha mãe lembra da negra baiana, de assistir pela TV aos longos desfiles das escolas de samba, sempre ao lado de minha mãe, e lembro-me de vê-la sempre chorando, emocionada, quando a vermelho e branco pisava a passarela. Lembro-me, mais nitidamente ainda – sinto as mesmas dores agora – de suas unhas cravadas na palma da minha mão, soluçando, comovidíssima com aquilo tudo. Talvez visse, na telinha da TV, sua babá. Talvez fosse uma quimera e a negra já estivesse morta, talvez fosse saudade, não sei, nunca perguntei nada. Eu atribuía tudo ao amor pela escola.

Vai daí que eu tornei-me salgueirense. E a Unidos de Vila Isabel, como contei no tal texto, aqui, do qual extraí a confissão reproduzida acima, tomou de assalto meu coração vermelho e branco e me flagrei, e ainda me flagro, torcendo feito louco pelas duas agremiações a cada desfile.

Mas há, meus fiéis leitores, um diferencial, um troço inexplicável, que me diz sempre: quando eu morrer levarei comigo, dentro do meu coração, o Salgueiro. Ano após ano eu vivo uma espécie de ritual que já virou, pra Dani, quase que piada. Um pouco triste com a transformação das escolas de samba, um tanto decepcionado com a quantidade de neon nas quadras, deixei de ir, com a regularidade com que sempre fui, aos ensaios do Salgueiro. Típico caso de paixão sem cura: não quero vê-la modificada, eu a amo mesmo assim, mesmo à distância, esses papos. Mas uma vez por ano, no mínimo, eu vou. Vou e me comovo. Vou e choro. Vou e me lembro das unhas de minha mãe cravadas nas minhas mãos.

Ano passado eu não fui. Não me lembro a razão, mas não fui.

E há umas semanas, eu disse à minha Sorriso Maracanã num domingo à tarde:

– Vamos hoje à feijoada na quadra do Salgueiro?

Eu devo ter dito isso já de olhos marejados, presumo. Minha menina me disse um “claro que sim” tão bonito… Tomamos o rumo da quadra, eu fui dirigindo meio quietão, mas sacava aquela mão no meu joelho direito, fazendo festinha, como quem antevê o momento do outro.

Foi estacionar, pagar a entrada e pisar na quadra. Eu, ali, tinha sei lá quantos anos de idade, e sabe-se lá quantos e quais milagres são capazes de produzir o abraço da mulher amada, porque chorei copiosamente, sem dizer palavra, e ela entendeu tudo, com as mãos cheias de carinho como me prometera o Poeta.

Quando o Salgueiro pisar a avenida em 2007, evocando as Candaces, mulheres guerreiras, cantando um samba que se alinha à tradição dos mais belos sambas do Salgueiro – saudando os orixás, a África, os negros e suas heranças que encontram na vermelho e branco o mais bonito terreiro – eu vou ter, de novo, calças curtas, camisa listrada, pouquíssimos anos, e chorar de saudade – sabe-se lá – da babá de minha mãe.

Até.

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>JUSTIFICATIVA

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Bastou não escrever ontem e nada escrever até o momento, quando aproxima-se o meio-dia desta terça-feira nubladíssima, quente, abafada, quase que estrangeira num dezembro carioca, para que a caixa de emails acusasse o recebimento de exatamente oito mensagens que, em suma, diziam: mas o que aconteceu?

Hoje foi o telefone que tocou, com dois mais chegados dizendo a mesmíssima coisa: mas o que aconteceu?

Confesso que chega a ser bom perceber essa preocupação comigo, vindo de gente que eu nem conheço. Mais do que perceber a preocupação, é bom saber que neguinho sente falta do que eu escrevo, e isso torna a tarefa, que pretendo diária e ininterrupta, bem menos solitária e mais prazerosa. Dito isso, vamos às justificativas – se é que é possível elencá-las.

Estou sem o cigarro desde 16 de novembro. Sem o cigarro, mas com 300mg de cloridrato de bupropiona na cabeça diariamente. E dessa vez – talvez minha quarta ou quinta tentativa de abandonar o maldito vício – os tais efeitos colaterais disseram presente sem cerimônia: uma depressão e um sentimento de tristeza agudíssimo, um medo de morrer inexplicável, um banzo que nem sei do quê, e isso deve ser a tal da despersonalização a que se refere a bula. Dor de cabeça, desânimo, e tudo foi muito pior entre 20 e 30 de novembro, quando minha Sorriso Maracanã dava vida à Curitiba, minguando a minha. Daí minha garota chegou no dia primeiro e eu fui um eufórico em estado de graça. Dediquei-me a ela as vinte e quatro horas do dia, e a mimei como nunca dantes, preparei seus pratos preferidos, fiz as melhores compras, comprei as mais bonitas flores e quase-morri de amor em seus braços incontáveis vezes. Voltei à atividade física, imprescindível para o êxito de minha empreitada, o que significa dizer que passo uma hora e meia dentro da academia, de segunda a sexta-feira, pela manhã bem cedo. Manhã bem cedo, quando estou sem fumar, significa cinco, cinco e meia, hora em que acordo. Minha médica atribui isso à ausência dos sessenta cigarros de todos os dias, que me entorpecem, que me dão sono, e que me fazem dormir mais e pior, acordando mais tarde e mais cansado. Há, ainda, uma tentativa de, ao menos por enquanto, driblar a rotina, e sentar-me diante do monitor com uma xícara imensa de café e um maço de Carlton era coisa de todos os dias, e por isso estou evitando fazê-lo, deixando para escrever diretamente do trabalho, como agora. E a alternância insuportável de humor. E uma saudade sem razão, afinal os vejo pelo menos uma vez por semana, de meus pais. Isso sem falar – e não vou falar para poupá-los do enfado – na correria de final de ano, naquela mental revisão de tudo o que se passou, naquela tentativa de fazer planos para o ano que chega, somado à tristeza aguda que me dá o Natal com seus papéis-noéis de merda frustrando crianças, deprimindo pais, contrariando tudo que seu mestre falou.

Até.

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TSC

Isso. Esse mesmo é o título. Tsc. Aquele som que fazemos com a língua ricocheteando nos dentes, triscando, típico quando estamos de saco cheio. Amuados. Enfastiados. Começa dezembro. E volta à carga o cada vez mais insuportável Jota. Sem mais delongas, vamos à nota:

“O chope esquentou

Antonio Rodrigues, do Belmonte, diz que Carlos Eduardo Thomé, o Kadu do Bracarense, não tem autoridade para reclamar da comida de seu bar, como fez na festa de lançamento do ´Rio Botequim´, semana passada. ´Ele foi infeliz´, diz. ´O Kadu não entende de botequim, não sabe diferenciar moela de coração. Não pode discutir comigo sobre boteco´, afirma. ´Não foi ele quem fez o Bracarense, que é maravilhoso. Pegou o bonde andando. Já o Belmonte, fui eu quem fiz´”.

Taí. Numa mesma nota – pra isso ele tem talento – o Jota faz três propagandas: do Belmonte, do Bracarense e do vade-mécum de otário. Eu continuo achando que essa suposta indisposição entre os dois – Antonio Rodrigues e Kadu – é fictícia, coisa criada apenas para, volta e meia, lançar os holofotes em direção a um e a outro. Basta vocês lerem os Atentados do Jota para verificarem quantas vezes o lamentável Jota cita um e cita outro. Ou cita os dois, na mesmíssima nota. Como o Kadu, dia desses, manifestou-se aqui no Buteco, pode ser que se manifeste mais uma vez, até mesmo pra responder a esse Antonio Rodrigues, que não entende porra nenhuma de buteco, como arrota. Aliás, eu não sei a razão, mas basta ler seu nome para que me venham ao pensamento o Sol e Mar, o Bateau Mouche, esses lixos. Pigarreio e sigo.

E termino dizendo o que esse covarde Jota não terá, nunca, coragem de dizer, até mesmo porque não se pode contrariar o poder que vem de cima.

Assim como esse cara – o tal Antonio Rodrigues – vem alardeando abrir um bar chamado Antonio´s (vejam aqui), usurpando o nome de um dos maiores templos da boemia carioca durante anos, comandado pelo Manolo – e o Jota sabe disso mas finge que não sabe -, mentindo, portanto, vem agora soltar mais essa pérola: “O Belmonte fui eu quem fiz”.

Sórdida mentira.

O Belmonte, o verdadeiro Belmonte, também comandado por um homem chamado Manolo (minha memória diz que sim), tradicional pé-sujo na Praia do Flamengo, inaugurado em 1952, era um dos grandes butecos da cidade, principalmente da zona sul. Meu mano Szegeri, por exemplo, freqüentava o imenso balcão do Belmonte, ainda moleque, desde suas primeiras viagens etílicas em direção ao Rio, e pode testemunhar que aquilo sim era um buteco.

Comprado por esse cidadão – o mais citado na coluneta do Jota, disparado – o Belmonte acabou, embora mintam deslavadamente os letreiros de cada uma das filiais espalhadas pela cidade, que dizem “desde 1952”. Mentira. Sórdida mentira.

Comprando o ponto, comprando o nome, depois comprando pontos em vários bairros e espalhando filiais de McDonald´s de Bêbado por toda a zona sul do Rio de Janeiro, Antonio Rodrigues conspurca, dia após dia, o verdadeiro buteco.

Em resumo é isso: ele não fez o Belmonte porra nenhuma. Ele transformou o Belmonte num lixo abjeto.

Até.

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