Arquivo do mês: dezembro 2006

NATAL NA TIJUCA

É inegável que o Simas é uma figura impagável. Basta, para concordar com esta estrondosa afirmação, não apenas ler o que dele eu conto mas ler, principalmente, o que ele mesmo conta, no sensacional blog Histórias do Brasil. E quero, hoje, contar-lhes mais uma história real, como são todas as que conto aqui, envolvendo essa doce, calva, loura e impoluta figura de olhos claros.

Na terça-feira fomos eu, Dani, Digão, Joana e Simas (tristíssimo sem a Candinha, que trabalhava…) ao show em homenagem aos 70 anos do Wilson Moreira, no Café Guarani, no segundo andar do Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes. Fomos e muito não ficamos. Valeu pela oportunidade que tivemos de abraçar, pessoalmente, o grande (lato sensu) Alicate. No mais, a tristeza de verificarmos o de sempre (ou quase sempre) quando se trata de samba: som péssimo, o palco tratado como a casa da Mãe Joana – sobe qualquer um, até político pra fazer homenagem oportunista -, um horror, um horror. Pigarreio e sigo.

Seguimos, de lá, para o Galeto Columbia, na gloriosa Tijuca.

Duas mesas na calçada, pedimos chope, lingüiças, farofa, dois galetos, e ficamos ali, na esquina da Haddock Lobo com a Afonso Pena, jogando conversa fora, curtindo a – ainda – amena temperatura da noite nesse atípico mês de dezembro.

Vou localizá-los melhor, geograficamente.

Estávamos na esquina das tais duas ruas, bem diante do Clube Municipal, um pouco depois do Largo da Segunda-Feira, a poucos metros do motel Palácio do Rei , na própria Haddock Lobo.

Seguíamos conversando quando o Rodrigo me cutucou.

– O que foi? – eu disse enquanto roía um osso de coxa.

Ele fez sinal de silêncio apondo o indicador sobre os lábios e disse sussurrando:

– O Simas chorando.

Cutuquei o Simas com a ponta afiada do osso:

– O que houve, Simão?

Ele tinha as duas postas verdes molhadas, as lágrimas caindo sobre o rosto, as orelhas vermelhíssimas, e a Dani interrompeu:

– Saudade da Candinha, né? Ela é tão sweet

E ele, fungando:

– Também, também! Mas não é exatamente por isso…

Nós quatro, em respeitoso silêncio, esperávamos o prosseguir da história. Fiz sinal com a mão aberta em direção ao garçom pedindo mais cinco chopes.

– Olhem aquele painel! Olhem! – era o Simas, de pé, urrando e apontando em direção ao painel gigantesco de neon do motel.

Entreolhamo-nos. O Rodrigo, íntimo do Simas há décadas, disse:

– Lá vem merda…

O bom Simas virou bicho:

– Merda? Merda é aquela árvore de Natal da Lagoa, meu querido! Merda são todas as árvores dos shoppings da cidade! Notem a beleza, a imponência, a suntuosidade deste painel luxuoso à nossa frente! Notem! Notem, porra! – e já se dirigia à freguesia, atônita diante do espetáculo.

Pausa breve para contar sobre o painel.

Trata-se de um painel, de fato gigantesco, com a figura de um rei do baralho, no qual se lê “PALÁCIO DO REI”, com um jogo de luzes de neon rigorosamente feérica, que pisca, que pulsa, que acende, que apaga, que dá – confesso – até tonteira.

– Precisamos iniciar uma campanha cívica para promover esse ponto turístico! Sim, turístico! Notem a beleza do movimento das luzes! Notem o espetáculo que é aquele Papai Noel acendendo e apagando…

– É o rei do baralho, Simas… – Rodrigo, de novo.

– Rei do baralho é o caralho, Digão! Cala a boca! – e não parava de chorar.

Pedimos a conta, a saideira, e o Simas ali, soluçando, fazendo juras de amor à Tijuca e à zona norte, dizendo que iria mandar e-mails para os jornais, o diabo, para fazer justiça, era o que ele dizia.

Até.

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>SEU OSÓRIO, CONSELHEIRO

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Quinta-feira, oito horas da manhã. Seu Osório, naquela disciplina que só os velha-guarda têm, deu o tapa de todos os dias no balcão, e o Zezinho, naquela presteza que só os garçons de Nova Russas têm, pôs, em segundos, o sagrado café pingado e a canoa encharcada de manteiga diante do velho que, agradecendo como de costume, arrotou altíssimo enquanto mexia o café com leite com metade do pão francês, fazendo o papel de colherzinha. Ficou olhando pra dentro daquele copo americano, o líquido gorduroso, tascou a primeira mordida no pão encharcado e diante do inevitável e grosso pingo que sujou a camisa, soltou:

– Pôta! – e arrotou de novo em seguida.

– Que foi, seu Osório?

O velho virou-se e viu o menino sentado à mesa.

Virou-se em direção ao balcão, de volta, e perguntou ao Zezinho, de boca cheia:

– Quem é?

– Filho do doutor Tiago, novo vizinho da Graça, sua santa filha… – e esboçou um sorriso de canto de boca.

– Tá rindo do quê, fidaputa?

– Nada não… Nada não…

Tornou a pousar os olhos sobre o menino.

– Como é teu nome?

– Sérgio.

– E como é que tu sabe meu nome, putão?

– Quem não conhece o senhor aqui?

O velho Osório gostou do que lhe soou como deferência. Fez um sinal pro menino, como que anunciando que ia se sentar à mesa.

– Senta aí, seu Osório…

O velho sentou-se, pousando o copo e o pratinho com a outra metade da canoa.

– Quantos anos você tem, moleque?

– Dezesseis.

– Tá indo pro colégio, garoto? – disse de boca cheia apontando pros livros diante do menino.

– Tô não, seu Osório… Tô na fossa…

Seu Osório soltou uma gargalhada acompanhada de um tabefe na pilha de livros do garoto. E disse, virando-se pro Zezinho:

– Veja isso, Zezinho! Dezesseis anos e na fossa! Traz uma cerveja pro menino!

– Quer, Serginho? – perguntou o Zezinho.

– Eu disse traz uma cerveja, pôta!

O menino parecia encantado diante do mais comentado personagem daquela bucólica rua do bairro de Vila Isabel.

Zezinho pousou a garrafa diante dos dois, recolheu o prato e o copo com o café da manhã do velho Osório, e, quando foi servir a cerveja, o comandante do pedaço esbravejou:

– Eu sirvo, fidaputa! Obrigado!

Serviu o menino primeiro, depois a si mesmo. Serginho esperava o primeiro gole do seu Osório, para quem olhava – era nítido – como a um ídolo, quando o velho, numa única talagada, secou o copo. Imitou-o. Osório serviu-os novamente, passou a mão na cabeça do garoto – era dado a esses arroubos de carinho com os mais novos – e disse:

– Desembucha! Na fossa por quê?

– Ah…

– Conta. Confia em mim. Desembucha!

– Ontem fui apresentado a uma menina que mora ali na Dona Maria… Na vila, sabe? Prima mais velha de um colega meu de colégio… Uns vinte e cinco anos, eu acho… Que linda, seu Osório! Que linda! E mora no Méier… sozinha! Parece que estuda na Gama Filho…

– Sei… Zezinho… Mais uma!

– Linda, seu Osório… Linda… Pensei nela a noite inteira…

O velho, não escondendo a excitação, vivendo as emoções do menino que há muito deixara de ser, com o copo emborcado, disse:

– E aí? E aí?

– E aí que eu tenho namorada, seu Osório. Gosto dela. Acho que sou apaixonado. E sou fiel. Daí meu drama…

O velho então transtornou-se. Soltou um arroto de fazer o garoto virar o rosto. Levantou-se. Pediu uma outra garrafa ao Zezinho. Deixou cair um ou dois livros no chão. Tomou a garrafa das mãos do Zezinho, puxou a cadeira, repetindo um gesto seu já clássico, e o menino de olhos arregaladíssimos atento a cada movimento do seu Osório.

Disse o velho:

– Zezinho… Segura a cadeira aí… Vou subir, vou subir!

Vinha chegando o Bule, que gritou:

– Mas já? – e gargalhou.

Seu Osório já subindo na cadeira:

– E tem hora pra isso, ô, balofo?! Vou discursar! Vou discursar!

– O que é que houve, seu Osório? – disse o Bule cumprimentando o menino com a cabeça.

– É o seguinte, meus amigos… Silêncio, porra! Silêncio! – e esse pedido de silêncio era meramente feito por hábito, já que Serginho, Zezinho e Bule estavam rigorosamente mudos diante daquela cena inédita àquela altura da manhã.

Ajeitou os óculos e cravou o indicador em direção ao Serginho, de olhos brilhantes e vidrados.

– Deveria ser vedado a um menino de sua idade, apaixonar-se! Deveria ser proibido o direito à fidelidade!!!!! Mais grave! Mais grave! Deveria ser obrigação o descompromisso! Deveria ser imperativo o viver à disposição das moças em flor, porra!

Uma lágrima corria dos olhos do velho Osório.

– Tá chorando, meu velho? – provocou Bule, cutucando Zezinho.

– Não, ô, babaca! Tô mijando pelo olho!

Serginho riu.

Prosseguiu:

– Isso, menino! Sorria! Sorria e coma as moças que te chegam! Sorria e desfaça esse namorico! Tenha vinte e cinco, trinta anos, e aí sim tu amarra teu burro nas coxas de uma mulher! Agora, não! Agora, não! Ou te arrependerás amargamente! Ouviu, putão? Ouviu?

Serginho fez que sim.

– Dá a mão aqui, porra! Ajuda! – disse em direção ao Zezinho.

Desceu, abraçou-se ao menino – que também chorava – e pediu mais uma garrafa.

– Ihhhhh… O menino também tá chorando, ó só! – era o Bule de novo.

– Tô mijando pelo olho também, seu Bule!

Seu Osório, tal como fizera com o Vidal há alguns anos, adotara o garoto. Selaram, ali, uma relação de amizade de infância.

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13 DE DEZEMBRO DE 1981

Tinha eu só 12 anos de idade. Meus avós moravam na vila da São Francisco Xavier 84, casa 4, na Tijuca, evidentemente, coladinha ao edifício em que morávamos, o Edifício Jureva, na mesma rua, número 90, apartamento 203. Tinha eu só 12 anos de idade e eu precisei pedir autorização a meu velho pai, à minha mãe:

– Posso ficar acordado pra ver o jogo?

Minha mãe me disse um “é claro!” e meu pai, vascaíno inconformado com a tenacidade do filho mais velho, rosnou:

– Nunca!

O mesmo “nunca”, diga-se, que ele rosnou em minha direção, nas cadeiras azuis do Maracanã, quando o Rondinelli, três anos antes, me fez assistir, in loco, ao primeiro título do Flamengo e eu disse:

– Pai… Compra uma faixa de campeão pra mim?

Mas, como lá em casa o matriarcado sempre foi imperativo, evidentemente que fiquei acordado e, meninos, eu vi.

Eu vi, numa TV instalada ao ar livre, numa vila em estado de graça, Nunes e Adílio marcarem os três gols que tornaram incontestável o Título Mundial Interclubes de 1981. Eu vi e confesso que, hoje, 25 anos depois, cada minuto daquele jogo está gravado em mim de maneira intensa e íntegra. Aos 12 anos, tive a sensação, diante do título, de estar ganhando o mundo, que eu ainda não sabia tão ruim, como de fato é.

C.R. Flamengo, 1981

Esses onze heróis (Leandro, Raul, Mozer, Figueiredo, Andrade, Junior, Lico, Adílio, Nunes, Zico e Tita) merecem um brinde, copo cheio de chope bem tirado, de pé, no balcão imaginário do Buteco.

E dedico, confiando na mágica do tempo, que pretendo dobrar como um ilusionista para que todos eles sintam, hoje, a mesmíssima emoção que me assaltou naquele dezembro distante, a dois rubro-negros queridos que tenho muito por perto e que sequer tinham nascido naquele dia…

Ao Henrique e ao Prata, saudações rubro-negras!

E a outros Flamengo como eu, cientes da grandeza que é ser membro dessa imensa Nação, saudações rubro-negras: Lélio Ruy, Nilsinho Amorim, Renato Zoghbi, Fábio Machado, Leonardo Balassiano, Ricardo Mazzei, Basile e Xanduca Menezes!

Hoje o dia é nosso!

Até.

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>WILSON MOREIRA – 70 ANOS

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Nascido em 12 de dezembro de 1936, faz anos hoje Wilson Moreira, o Alicate, glória da música brasileira, do samba, do jongo, dos caxambus, do Brasil, enfim. Todas as homenagens serão sempre poucas diante do tamanho de sua importância, da grandeza de sua generosidade e da força de seu aperto de mão!

Salve, Wilson Moreira!

De pé, no balcão imaginário do Buteco, ergo o copo num brinde à saúde desse nêgo talentoso, meu vizinho, que me deu a honra – e ao Simas, ao Rodrigo Folha Seca e ao Prata Querubim – dessa entrevista e desses momentos inesquecíveis, que podem ser vistos aqui e aqui!

Até.

E com a licença do meu mano Simas

Axé!

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UM RIO DE LÁGRIMAS

Vejam vocês a ironia das situações! Vivi, no sábado, ao lado de queridos meus, um momento tão mágico quanto encantado, capaz de, até esse exato momento, me fazer questionar, sem exageros, se aquilo de fato aconteceu ou não. Vou lhes contar. Mas antes, vamos à ironia. O Flavinho, meu querido Xerife, deixou, hoje, às 8h32min, o seguinte comentário no texto dedicado ao Salgueiro, aqui:

“É o maior rio de lágrimas da net…”

Era, meu querido Flavinho, era. E vou explicar.

Acordamos no sábado, eu e minha Sorriso Maracanã, com uma determinação bíblica: vamos almoçar no Casual!

O Casual, para quem não conhece, é comandado pelo grande Santos, e fica na esquina da Rua do Ouvidor com a Travessa do Comércio, a poucos metros da melhor e mais carioca das livrarias, a Folha Seca, dos queridíssimos Rodrigo Folha Seca e Dani.

Batemos o telefone para papai e mamãe, que toparam o convite. Toparam o convite e amaram o restaurante e a livraria, que não conheciam. Foram horas de deleite, ali, saboreando lulas a vinagrete, punheta de bacalhau, muito chope, arroz de tamboril com camarão, taças de vinho tinto, e livros, e discos, e muito mais. Com outros compromissos, partiram os dois, deixando-nos ali, naquela esquina que nos reservava uma surpresa indizível.

Como a vida é feita de coincidências, e como as coincidências dão mais graça à vida pelo que guardam de inusitado, chegaram Simas e Candinha. E com eles, Adelino, Claudão e Ana com Clarinha, Rodrigão e Mônica com Miguel, Evelin, Joana, e Rodrigo Folha Seca com sua Joana depois de fecharem a livraria às 15h. Eu e Dani, evidentemente, sentamos à mesa com eles e havia, ali, como sempre há, diga-se, uma aura de coisa boa que as palavras não conseguem descrever, como os olhos, quando deitados em Mangueira.

O Simas, num gesto de generosidade olímpica, comemorando especialíssima data, anunciava:

– A conta hoje é minha!

E estava, de fato, o Simas, num dia de nítida alegria. Veio à certa altura e sentou-se a meu lado. Já tinha, o calvíssimo Simas, os olhos marejados:

– Edu… Você já conhece o Miguel? – disse referindo-se ao menino, quatro anos de idade, filho do Rodrigão e da Mônica.

– Não.

– Miguel, venha cá!

E me disse no ouvido:

– Um grande garoto, Edu! Um grande garoto… – e tomando o menino pelas mãos, disse:

– Você é filho de quem, Miguel?

– Xangô!

Gargalhou, o Simas, e voltou-se a mim, e eu também ria diante da resposta do moleque:

– Um grande brasileiro, Edu… Um grande carioca!

A certa altura liga-me o Prata. E vai ao nosso encontro. Lá chegando, saca do violão, e começamos, sem nada planejado, a cantar Noel Rosa, numa homenagem ao aniversariante, que faria hoje, 11 de dezembro, 96 anos de idade! Canto eu, canta o Simas, canta o Prata, canta o Rodrigo Folha Seca (e erra o tom), e ficamos nisso, bebendo e cantando, quando deu-se a mágica após intensa pancada de chuva, dando um tom ainda mais enigmático e impressionante pra tudo.

alunas do Jongo da Serrinha

Dobram a esquina umas trinta, quarenta crianças, guiadas por duas moças lindas, com sorrisos em flor, todas com a mesma camisa, onde lemos “JONGO DA SERRINHA” e param diante de nós, formávamos uma roda, e o Rodrigo Folha Seca dá o grito:- Palmas pro pessoal do Jongo da Serrinha!!!!!

O Simas cutuca o Prata e puxa:

“Serra
Dos meus sonhos dourados…”

A criançada em côro:

“… onde nós fomos criados
Eu hei de morrer
Não desfazendo de ninguém
Serrinha custa mas vem…”

Deu-se o seguinte: eu chorava, Prata chorava, Simas chorava, Rodrigo Folha Seca chorava (errando o tom, evidentemente), todos nós ali, diante daquela força inexplicável, diante daquele susto, diante da beleza dos sorrisos daqueles meninos e meninas, chorávamos copiosamente. Uma das meninas disse:

– Vamos cantar um jongo pra eles…

E cantaram. E das mesas fizeram tambores, surdos, caixas, bongôs, e quando partiram, ainda cantando, devolvemos – como se fosse possível – a homenagem:

“Menino de 47!
De ti ninguém esquece!
Serrinha, Congonha, Tamarineira,
nasceu Império Serrano
o reizinho de Madureira…”

Eu, particularmente, nunca mais – esse “nunca” dito com a ênfase szegeriana – vou me esquecer não apenas do momento, que durou no máximo uns 10 minutos, mas do olhar daquelas crianças, orgulhosas, emocionadas também diante da emoção de um bando de malucos, e especialmente do olhar de uma das meninas, também marejado enquanto ela cantava, e eu, num delírio, pensando que era pra mim.

Até.

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SALGUEIRO É UMA RAIZ

Certa vez, em janeiro de 2005, abri meu coração aqui mesmo, no balcão do Buteco:

“Eu, que desde o berço aprendi a guardar com orgulho a Academia do Samba no coração, Salgueiro, minha paixão, minha raiz, tive – e já contei isso por aqui – o coração invadido, a princípio timidamente e depois de forma arrebatadora, pela azul-e-branco fundada pelo seu China, o velho sonhador, que criou a tal Vila bonita que me encantou, com a licença de Martinho da Vila e do Ruy Quaresma.”

Tudo verdade. E vou lhes contar, como introdução, uma história real – como todas as que conto – para que, talvez, tudo faça sentido e não soe como delírio ou exagero. Não me importa exatamente, nesse específico caso, a precisão dos dados ou dos fatos. O que importa é que eu sempre soube que mamãe, quando menina, morando na Rua dos Araújos, na Tijuca, evidentemente, teve uma babá, negra, que desfilava na ala das baianas da Acadêmicos do Salgueiro. Tem, ainda hoje, minha mãe, memórias vivíssimas da tal babá. Eu, quando menino, morando na Rua São Francisco Xavier, na Tijuca, evidentemente, lembro-me, com a mesmíssima nitidez com que minha mãe lembra da negra baiana, de assistir pela TV aos longos desfiles das escolas de samba, sempre ao lado de minha mãe, e lembro-me de vê-la sempre chorando, emocionada, quando a vermelho e branco pisava a passarela. Lembro-me, mais nitidamente ainda – sinto as mesmas dores agora – de suas unhas cravadas na palma da minha mão, soluçando, comovidíssima com aquilo tudo. Talvez visse, na telinha da TV, sua babá. Talvez fosse uma quimera e a negra já estivesse morta, talvez fosse saudade, não sei, nunca perguntei nada. Eu atribuía tudo ao amor pela escola.

Vai daí que eu tornei-me salgueirense. E a Unidos de Vila Isabel, como contei no tal texto, aqui, do qual extraí a confissão reproduzida acima, tomou de assalto meu coração vermelho e branco e me flagrei, e ainda me flagro, torcendo feito louco pelas duas agremiações a cada desfile.

Mas há, meus fiéis leitores, um diferencial, um troço inexplicável, que me diz sempre: quando eu morrer levarei comigo, dentro do meu coração, o Salgueiro. Ano após ano eu vivo uma espécie de ritual que já virou, pra Dani, quase que piada. Um pouco triste com a transformação das escolas de samba, um tanto decepcionado com a quantidade de neon nas quadras, deixei de ir, com a regularidade com que sempre fui, aos ensaios do Salgueiro. Típico caso de paixão sem cura: não quero vê-la modificada, eu a amo mesmo assim, mesmo à distância, esses papos. Mas uma vez por ano, no mínimo, eu vou. Vou e me comovo. Vou e choro. Vou e me lembro das unhas de minha mãe cravadas nas minhas mãos.

Ano passado eu não fui. Não me lembro a razão, mas não fui.

E há umas semanas, eu disse à minha Sorriso Maracanã num domingo à tarde:

– Vamos hoje à feijoada na quadra do Salgueiro?

Eu devo ter dito isso já de olhos marejados, presumo. Minha menina me disse um “claro que sim” tão bonito… Tomamos o rumo da quadra, eu fui dirigindo meio quietão, mas sacava aquela mão no meu joelho direito, fazendo festinha, como quem antevê o momento do outro.

Foi estacionar, pagar a entrada e pisar na quadra. Eu, ali, tinha sei lá quantos anos de idade, e sabe-se lá quantos e quais milagres são capazes de produzir o abraço da mulher amada, porque chorei copiosamente, sem dizer palavra, e ela entendeu tudo, com as mãos cheias de carinho como me prometera o Poeta.

Quando o Salgueiro pisar a avenida em 2007, evocando as Candaces, mulheres guerreiras, cantando um samba que se alinha à tradição dos mais belos sambas do Salgueiro – saudando os orixás, a África, os negros e suas heranças que encontram na vermelho e branco o mais bonito terreiro – eu vou ter, de novo, calças curtas, camisa listrada, pouquíssimos anos, e chorar de saudade – sabe-se lá – da babá de minha mãe.

Até.

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>JUSTIFICATIVA

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Bastou não escrever ontem e nada escrever até o momento, quando aproxima-se o meio-dia desta terça-feira nubladíssima, quente, abafada, quase que estrangeira num dezembro carioca, para que a caixa de emails acusasse o recebimento de exatamente oito mensagens que, em suma, diziam: mas o que aconteceu?

Hoje foi o telefone que tocou, com dois mais chegados dizendo a mesmíssima coisa: mas o que aconteceu?

Confesso que chega a ser bom perceber essa preocupação comigo, vindo de gente que eu nem conheço. Mais do que perceber a preocupação, é bom saber que neguinho sente falta do que eu escrevo, e isso torna a tarefa, que pretendo diária e ininterrupta, bem menos solitária e mais prazerosa. Dito isso, vamos às justificativas – se é que é possível elencá-las.

Estou sem o cigarro desde 16 de novembro. Sem o cigarro, mas com 300mg de cloridrato de bupropiona na cabeça diariamente. E dessa vez – talvez minha quarta ou quinta tentativa de abandonar o maldito vício – os tais efeitos colaterais disseram presente sem cerimônia: uma depressão e um sentimento de tristeza agudíssimo, um medo de morrer inexplicável, um banzo que nem sei do quê, e isso deve ser a tal da despersonalização a que se refere a bula. Dor de cabeça, desânimo, e tudo foi muito pior entre 20 e 30 de novembro, quando minha Sorriso Maracanã dava vida à Curitiba, minguando a minha. Daí minha garota chegou no dia primeiro e eu fui um eufórico em estado de graça. Dediquei-me a ela as vinte e quatro horas do dia, e a mimei como nunca dantes, preparei seus pratos preferidos, fiz as melhores compras, comprei as mais bonitas flores e quase-morri de amor em seus braços incontáveis vezes. Voltei à atividade física, imprescindível para o êxito de minha empreitada, o que significa dizer que passo uma hora e meia dentro da academia, de segunda a sexta-feira, pela manhã bem cedo. Manhã bem cedo, quando estou sem fumar, significa cinco, cinco e meia, hora em que acordo. Minha médica atribui isso à ausência dos sessenta cigarros de todos os dias, que me entorpecem, que me dão sono, e que me fazem dormir mais e pior, acordando mais tarde e mais cansado. Há, ainda, uma tentativa de, ao menos por enquanto, driblar a rotina, e sentar-me diante do monitor com uma xícara imensa de café e um maço de Carlton era coisa de todos os dias, e por isso estou evitando fazê-lo, deixando para escrever diretamente do trabalho, como agora. E a alternância insuportável de humor. E uma saudade sem razão, afinal os vejo pelo menos uma vez por semana, de meus pais. Isso sem falar – e não vou falar para poupá-los do enfado – na correria de final de ano, naquela mental revisão de tudo o que se passou, naquela tentativa de fazer planos para o ano que chega, somado à tristeza aguda que me dá o Natal com seus papéis-noéis de merda frustrando crianças, deprimindo pais, contrariando tudo que seu mestre falou.

Até.

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