>FILHOS: MELHOR NÃO TÊ-LOS

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Durante a Copa da Alemanha os meninos compravam, ávidos, pacotinhos de figurinhas para o álbum que sempre é lançado durante o maior torneio de futebol do mundo. Pouco depois da Copa do Mundo as meninas disputavam a tapa as figurinhas do álbum das Princesas, e não me perguntem o que vem a ser isso, mas todas colecionavam esse troço. Fiz essa bisonha introdução para lhes contar que eu, aos 37 anos, hoje, coleciono grávidas. Estou cercado, nesse instante, final de dezembro, por cinco, seis grávidas. Serei preciso. Seis grávidas. Não me lembro de, ao longo de minha vida já não tão curta, viver, ao mesmo tempo, em tão larga escala, a expectativa do parto alheio.

Isso me consome tempo e atenção, é evidente, que dispenso sem qualquer espécie de sacrifício. São vários telefonemas com as perguntas óbvias que constam de qualquer cartilha. E meu interlocutor é sempre o futuro pai, que eu sou tão fóbico, mas tão fóbico, que eu não consigo conversar tranqüilamente com mulher grávida pelo telefone. Antes que vocês me perguntem o por quê eu digo: não faço a mínima idéia! Eis as perguntas:

– Como é que o barrigão? (uma pergunta bem idiota, uma vez que a barriga só faz crescer)

– É pra quando? (essa é de uma estupidez cansativa, mas eu a faço)

– Ansioso?

Notem o quanto é monótono o diálogo com o pai da criança por vir.

Acontece que ontem foi um desses meus amigos que bateu o telefone pra mim.

– Edu?

– Ôpa! Diga lá!

– O barrigão tá crescendo, é pra daqui a pouco e estou ansioso pra caralho. – ele disse, cortando, de primeira, minhas três intervenções quase que diárias.

– Quê que ´cê manda?

– Rapaz… Tá foda. Ela tá cem vezes mais ansiosa que eu… Me cutucou à uma e meia da manhã, aos gritos. Disse que as contrações estavam fortíssimas. Nada… Passei duas horas controlando os movimentos e não aconteceu nada. Tudo psicológico.

– Sei… – eu disse. E disse “sei” mentindo, que eu não sei picas sobre a matéria.

Ele continuou:

– Mas não ficou nisso. Me cutucou de novo às quatro, gritando de desespero. Disse que o neném tava parado. Aí eu quase me emputeci. Parado como, porra?

– Tu gritou com ela?

– Não! Não! Fiz a linha blasè. E caí na asneira de perguntar se ela queria ir pra maternidade. Ela queria. Fomos. E fomos à toa. O médico riu. Mas bicho… Essa reta final é foda! – e riu, o meu amigo.

Notem uma coisa. Ele – esse de quem eu falo – não será pai pela primeira vez. Mas ela será mãe pela primeira vez. E dentro desse contexto, eu a compreendo e a amo com a urgência dos que compreendem e protegem. Eu disse a ele, e ele riu, uma verdade integral:

– Eu, no seu lugar, morreria.

E ele gargalhou. Não tive a pachorra de explicar nada, mas o faço agora.

Eu digo sempre com a sensação do vaticínio: quando a Sorriso Maracanã engravidar – e no dia em que me der a notícia, se esse dia chegar, que esses troços não dependem só da gente – ela será, indubitavelmente, uma viúva em gestação. Uma viúva em pleno estado interessante. Não concebo receber a notícia e dizer um “oh” que seja, um “ah” mínimo, um “hã?”. Eu cairei, súbito, fulminado, como Estácio de Sá, só que suprimindo o tempo da agonia entre a flechada e a morte. Será instantâneo.

Mas digamos que eu sobreviva, hipótese improvável. Fico me imaginando no lugar do meu amigo querido. Eu dormindo e ela me acorda aos gritos. Pausa, pausa, pausa.

Notem como eu considero tudo surreal. Se eu sobreviver à notícia terei, pela frente, nove meses sem o sono. Não cogito dormir, fechar os olhos, sonhar, ao lado da mulher gestante. O homem que dorme ao lado da gestante – o pai – é um insensível, um protótipo de canalha, e eu não exagero. Mas como estamos no terreno das suposições, eu continuo.

Eu dormindo e ela me acorda aos gritos. Não me vejo dizendo “o que foi, querida?”, “aconteceu alguma coisa?” ou mesmo um “quer ir para a maternidade?”. Eu morro, eu sei que eu morro, ao som do primeiro milésimo de segundo do grito. Como sei que é rigorosamente improvável que seja ela a me alertar para as contrações. Eu me vejo – tudo hipotético, tudo hipotético! – com uma mochila constante e permanente – eu, fantasiado de canguru – com termômetros, cronômetros, lanternas, band-aid, esparadrapo, merthiolate, gaze, a cada dez, quinze minutos, a partir da consciência da situação (“Estou grávida, meu bem!”), checando tudo: pressão, contração, consistência da barriga (?!?!?!?!?!), essas coisas.

E vou parando por aqui. Isso não está, definitivamente, me fazendo bem.

Heróis, isso sim, heróis esses meus seis chegados pais em breve.

Até.

7 Comentários

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7 Respostas para “>FILHOS: MELHOR NÃO TÊ-LOS

  1. >Excepcional Edu! Gozadíssima como sempre. Um beijo e bom dia. Quando esse dia chegar já vi que vamos ter muitos textos pra ler e pra rir de chorar.

  2. >Edu, enganas-te redondamente. Tenho a certeza que no dia em que visses o brilho nos olhos da Dani enquanto que, com um sorriso embevecido e a mão no ventre, te dissesse: “estou grávida” passarias a amar aquela criança avidamente e não te permitirias qualquer mal, qualquer mazela, quanto mais morrer, pois quererás protegê-la(s) incondicionalmente.Esse discurso és só tu armado em mauzinho 🙂

  3. >Muito Engraçado!!! Que figura!!!

  4. >Eu acho que você vai ser um paizão, e a Dani vai ser uma grávida tranquila (já que você vai ficar ansioso por todo mundo! rsrsrs).Beijos, querido!

  5. >Edu …..sinto que no fundo você está doido para que a Dani mude de apelido, de Sorriso Maracanã…. para Barriga Maracanã. Um Abraço solidário de um pai desesperado.

  6. >Morri de rir ao imaginar você com mochila, esparadrapo, termômetro… É a sua cara!!!! Perfeito!

  7. >Não tem aquele papo de que quem desdenha quer comprar? Pois tenho certeza absoluta que você mal pode esperar pra receber notícia que diz temer, no abuso indevido de sua licença poética. Filhos? Ah, Edu… melhor tê-los! Você, pai canguru, e a Dani, Barriga Maracanã (ótimo, isso!), vão ser pais fuderosos. Feliz Natal e um puta 2007 cheio de notícias potencialmente infartantes, de tão boas, pra vocês. Aproveita o início do ano pra dar um pulo no seu cardiologista e colocar esse coração em dia, pro que der e vier.bjs,Vanessa

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